Inverno do Mundo

Ken Follett · Capítulo 84 de 153

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Inverno do Mundo

Capítulo III

– Na verdade, pensei no senhor outro dia m esm o – continuou Werner. – O general Dorn estava falando sobre pegar espiões e perguntou se poderíam os localizá-los por m eio de suas m ensagens de rádio. Tem o não ter sido capaz de lhe dar m uitas inform ações.

– Deveria ter m e perguntado – falou Macke. – Essa é a m inha especialidade.

– É m esm o?

– Venha, vam os nos sentar.

Os dois levaram as bebidas até um a m esa suj a.

– Todos os hom ens aqui são policiais – explicou Macke. – Mesm o assim , não se deve falar em público sobre esses assuntos.

– Claro. – Werner baixou a voz: – Mas sei que posso confiar no senhor. O fato é que alguns dos com andantes do cam po de batalha disseram achar que o inim igo m uitas vezes conhece nossas intenções com antecedência.

– Ah! – exclam ou Macke. – Eu j á tem ia isso.

– O que posso dizer a Dorn sobre a interceptação de m ensagens de rádio?

– O term o correto é radiogoniom etria.

Macke pareceu ordenar os pensam entos. Aquela era a sua oportunidade de im pressionar um general influente, ainda que de form a indireta. Ele precisava ser claro e insistir na im portância do que estava fazendo, m as sem exaltar m uito seu sucesso. Im aginou o general Dorn com entando casualm ente com o Führer: “Há um agente m uito bom na Gestapo. Seu nom e é Macke. Por enquanto é só um inspetor, m as faz um trabalho bem im pressionante...”

– Nós tem os um instrum ento que nos inform a a direção de onde a m ensagem está vindo – com eçou ele. – Se conseguirm os obter três leituras de locais bem afastados um do outro, podem os desenhar três linhas no m apa. O ponto em que as linhas se cruzam corresponde à localização do transm issor.

– Que fantástico!

Macke ergueu um a das m ãos num gesto de cautela.

– Em tese – falou. – Na prática, é m ais com plicado. O pianista, que é com o cham am os o operador de rádio, em geral não fica no local por tem po suficiente para poderm os encontrá-lo. Um pianista cuidadoso nunca transm ite m ensagens do m esm o lugar duas vezes. E nosso instrum ento fica dentro de um a cam inhonete com um a antena no teto que cham a bastante atenção, então eles podem nos ver chegando.

– Mas vocês j á tiveram sucessos.

– Ah, sim . Mas talvez você devesse sair na cam inhonete conosco um a noite dessas. Então poderia observar todo o processo... e fazer um relatório em prim eira m ão para o general Dorn.

– Boa ideia – disse Werner.

 

III

Moscou em j unho estava ensolarada e quente. Era a hora do alm oço, e Volody a esperava Zoy a j unto a um chafariz nos Jardins de Alexandre, atrás do Krem lin. Centenas de pessoas, entre elas m uitos casais, passeavam pelo parque para aproveitar o bom tem po. A vida andava difícil, e a água do chafariz fora desligada para poupar energia. Apesar disso, o céu estava azul; as árvores, repletas de folhas; e o Exército alem ão, estacionado a m ais de 150 quilôm etros da capital.

Sem pre que pensava na batalha de Moscou, Volody a se enchia de orgulho. O tem ido Exército alem ão, m estre da Blitzkrieg, chegara aos portões da cidade – e fora repelido. Os soldados russos haviam lutado com o leões para salvar sua capital.

Infelizm ente, o contra-ataque russo perdera fôlego em m arço. Tinham conseguido reconquistar m uito território e fazer os m oscovitas se sentirem m ais seguros, m as os alem ães haviam lam bido suas feridas e estavam se preparando para atacar outra vez.

E Stalin continuava no com ando.

Volody a viu Zoy a vindo na sua direção em m eio à m ultidão. Ela estava com um vestido quadriculado verm elho e branco. Andava com energia, e os cabelos louro-claros pareciam se m over a cada passo. Todos os hom ens olhavam para ela.

Volody a j á tinha saído com algum as m ulheres bonitas, m as o fato de estar nam orando Zoy a lhe causava surpresa. Ela passara m uitos anos tratando-o com um a indiferença fria, e só conversando com ele sobre física nuclear. Então, um belo dia, para seu espanto, convidara-o para ir ao cinem a.

Fora pouco depois do m otim no qual o general Bobrov m orrera. A atitude da m oça para com ele havia m udado nesse dia, em bora ele não soubesse m uito bem por quê. De algum a form a, essa experiência com partilhada criara um a intim idade entre eles. Os dois tinham ido assistir ao film e George’s Dinky Jazz Band, com édia rasgada estrelada por um inglês tocador de ukulele cham ado George Form by. Muito popular, o film e estava em cartaz em Moscou havia m eses. A história não poderia estar m ais distante da realidade: sem que George soubesse, seu instrum ento estava enviando m ensagens para subm arinos alem ães. Era tudo tão bobo que os dois m orreram de rir.

Desde então, vinham saindo regularm ente.

Nesse dia, haviam com binado alm oçar com o pai dele. Volody a m arcara de encontrar Zoy a antes, no chafariz, a fim de passar alguns m inutos sozinho com ela.

Zoy a o presenteou com seu sorriso radiante e ficou na ponta dos pés para beij á-lo. Era um a m ulher alta, m as Volody a era ainda m ais alto. Ele saboreou aquele instante. Sentiu o contato m acio e úm ido dos lábios dela nos seus. O beij o foi curto dem ais.

Ainda não estava totalm ente seguro em relação a Zoy a. Os dois estavam “se conhecendo”. Beij avam -se m uito, m as ainda não tinham dorm ido j untos. Não eram m ais tão j ovens: ele tinha 27 anos e ela, 28. Apesar disso, Volody a sentia que Zoy a só iria para a cam a com ele quando estivesse pronta.

Parte dele ainda não acreditava que fosse possível passar a noite com aquela m ulher dos sonhos. Ela lhe parecia dem asiadam ente loura, inteligente, alta, segura de si e sensual para se entregar a um hom em . Não era possível que ele um dia fosse vê-la tirar a roupa e que tivesse a chance de adm irar seu corpo nu, tocar cada centím etro de sua pele, deitar-se sobre ela...

Os dois atravessaram o parque longo e estreito. Em um dos lados passava um a rua m ovim entada. Do outro lado, as torres do Krem lin encim avam um m uro alto que percorria toda a sua extensão.

– Olhando para essas torres, a im pressão que se tem é que nossos líderes são m antidos prisioneiros pelo povo russo – com entou Volody a.

– É m esm o – concordou Zoy a. – E não o contrário.

Ele olhou para trás, m as ninguém os havia escutado. Mesm o assim , era im prudente falar daquele j eito.

– Não é de espantar que m eu pai ache você perigosa.

– Eu pensava que você fosse igual ao seu pai.

– Quem m e dera. Ele é um herói. Invadiu o Palácio de Inverno! Não acho que eu algum dia vá m udar o curso da história.

– Ah, eu sei, m as a cabeça dele é tão fechada, ele é tão conservador... Você não é assim .

Volody a pensou que era bastante parecido com o pai, m as não iria discutir.

– Está livre hoj e à noite? – perguntou ela. – Eu gostaria de cozinhar para você.

– Claro! – Era a prim eira vez que ela o convidava para ir à sua casa.

– Consegui um pedaço de carne.

– Que ótim o!

Mesm o na casa privilegiada de Volody a, carne de boa qualidade era um m anj ar.

– E os Kovalev viaj aram – acrescentou Zoy a.

Essa notícia era ainda m elhor. Com o m uitos m oscovitas, Zoy a m orava na casa de outra fam ília. Tinha dois côm odos para si, e dividia a cozinha e o banheiro com o Dr. Kovalev, cientista com o ela, sua esposa e o filho. Mas eles estavam fora da cidade, então Zoy a e Volody a teriam o apartam ento para si. A pulsação dele se acelerou.

– Devo levar m inha escova de dentes? – perguntou.

Ela lhe deu um sorriso enigm ático e não respondeu.

Os dois saíram do parque e atravessaram a rua até um restaurante. Muitos estavam fechados, m as o centro tinha vários escritórios cuj os funcionários precisavam alm oçar em algum lugar, e alguns cafés e bares haviam sobrevivido.

Grigori Peshkov estava sentado diante de um a m esa na calçada. Havia restaurantes m elhores dentro do Krem lin, m as ele gostava de ser visto em locais frequentados por russos com uns. Queria m ostrar que o fato de usar um uniform e de general não o tornava superior ao povo. Mesm o assim , tinha escolhido um a m esa bem afastada das outras, para que ninguém ouvisse sua conversa.

Apesar de não gostar de Zoy a, Grigori não era im une ao seu charm e e levantou-se para beij á-la no rosto.

Eles pediram panquecas de batata e cervej a. As únicas outras opções eram arenque defum ado e vodca.

– General, hoj e não vou falar com o senhor sobre física nuclear – disse Zoy a. – Continuo acreditando em tudo o que disse da últim a vez que conversam os sobre o assunto, m as não quero deixá-lo entediado.

– Que alívio – com entou Grigori.

Ela riu, m ostrando os dentes brancos.

– Em vez disso, o senhor pode m e dizer por quanto tem po ainda vam os ficar em guerra?

Volody a balançou a cabeça com um desespero fingido. Zoy a sem pre tinha que enfrentar o pai dele. Se não fosse um a linda j ovem , Grigori j á teria m andado prendê-la há m uito tem po.

– Os nazistas estão derrotados, m as não adm item – disse o general.

– Todo m undo em Moscou está se perguntando o que vai acontecer neste verão... Mas vocês dois devem saber – disse Zoy a.

– Se eu soubesse, com certeza não poderia contar para a m inha nam orada, por m ais que sej a louco por ela – retrucou Volody a. No m ínim o, isso poderia fazer com que ela fosse fuzilada, pensou, m as não disse em voz alta.

As panquecas de batata chegaram , e os três com eçaram a com er. Com o sem pre, Zoy a atacou o prato com vontade. Volody a adorava o entusiasm o com o qual ela devorava as refeições. Ele m esm o, contudo, não gostou m uito das panquecas.

– Estas batatas estão com um gosto bem suspeito de nabo – com entou.

Seu pai lhe lançou um olhar de reprovação.

– Não que eu estej a reclam ando – acrescentou Volody a depressa.

Quando eles term inaram o alm oço, Zoy a foi ao toalete. Assim que ela j á estava longe o bastante, Volody a falou:

– Consideram os a ofensiva alem ã im inente.

– Concordo – respondeu seu pai.

– Nós estam os prontos?

– Claro – respondeu Grigori, em bora parecesse nervoso.

– Eles vão atacar no sul. Querem os cam pos de petróleo do Cáucaso.

Grigori fez que não com a cabeça.

– Eles vão voltar para Moscou. Nada m ais im porta.

– Stalingrado é um a cidade igualm ente sim bólica. Tem o nom e do nosso líder.

– Que se dane o sim bolism o – bradou o general. – Se eles tom arem Moscou, a guerra terá acabado. Caso contrário, terão perdido. As outras conquistas não im portam .

– O senhor está apenas dando um palpite – disse Volody a, irritado.

– Você tam bém .

– Pelo contrário, tenho provas. – Ele olhou em volta, m as não havia ninguém por perto. – O codinom e da ofensiva é Operação Azul. Está m arcada para 28 de j unho. – Soubera disso graças à rede de espiões de Werner Franck em Berlim . – E encontram os detalhes parciais na pasta de um oficial alem ão que se acidentou com um avião de reconhecim ento ao tentar pousar perto de Kharkov.

– Oficiais em m issões de reconhecim ento não carregam planos de batalha em pastas – disse Grigori. – O cam arada Stalin acha que isso é um a farsa para nos enganar, e eu concordo. Os alem ães querem que enfraqueçam os nossa frente central deslocando forças para o sul, para o que irá se revelar um a sim ples distração.

Era esse o problem a com o serviço de inteligência, pensou Volody a, frustrado. Mesm o quando você tinha a inform ação, velhos teim osos continuavam acreditando no que queriam .

Viu Zoy a voltando, atraindo todos os olhares para si ao atravessar a esplanada.

– O que poderia convencê-lo? – perguntou Volody a ao pai antes de ela chegar.

– Mais provas.

– Por exem plo?

Grigori pensou por alguns instantes, levando a pergunta a sério.

– Consiga o plano de batalha para m im .