Inverno do Mundo
Capítulo II
Os cam isas-pardas e os funcionários da revista saíram do prédio conduzidos pelos bom beiros. O sargento Schwab resistia, gritando com raiva:
– Não há incêndio nenhum !
Mas os bom beiros sim plesm ente continuavam a em purrá-lo.
Jochm ann saiu à rua e disse à m ãe de Carla:
– Eles não tiveram tem po de estragar m uita coisa... os bom beiros não deixaram . Não sei quem foi, m as a pessoa que acionou o alarm e nos prestou um enorm e serviço!
Carla, que antes estava com m edo de ser repreendida por causa do alarm e falso, se deu conta de que tinha feito exatam ente a coisa certa.
Segurou a m ão da m ãe e isso pareceu despertá-la de seu m om ento de tristeza. Ela enxugou os olhos com a m anga da roupa, ato pouco usual que revelou quanto estava abalada: se Carla tivesse feito a m esm a coisa, a m ãe lhe teria dito para usar um lenço.
– O que vam os fazer agora? – A m ãe nunca dizia isso. Ela sem pre sabia o que fazer.
Carla percebeu duas pessoas em pé ali perto. Ergueu os olhos. Um a delas era um a m ulher m ais ou m enos da m esm a idade de sua m ãe, m uito bonita, com ar de autoridade. Carla a conhecia, m as não soube dizer de onde. Ao seu lado estava um rapaz j ovem o bastante para ser seu filho. Era m agro, não m uito alto, m as parecia um astro de cinem a. Tinha um rosto tão atraente que poderia ter sido quase bonito dem ais, não fosse pelo nariz achatado e torto. Am bos os recém -chegados pareciam chocados e o m ais novo estava pálido de raiva.
A m ulher foi a prim eira a falar, em inglês:
– Olá, Maud. – Sua voz soou vagam ente conhecida para Carla. – Não está m e reconhecendo? – continuou ela. – Sou Eth Leckwith, e este é Lloy d.
II
Lloy d William s encontrou um a academ ia de boxe em Berlim onde podia treinar por um a hora ao custo de poucos pennies. Ficava em Wedding, um bairro operário ao norte. Ele se exercitou com os m alabares indianos e com a bola de peso, pulou corda, bateu no saco de pancadas, em seguida pôs um capacete e lutou cinco rounds no ringue. O professor da academ ia arrum ou para ele um parceiro de treino, um alem ão da m esm a idade de Lloy d e tão corpulento quanto ele, que era m eio-m édio. O alem ão tinha um j ab m uito bom e veloz, que surgia do nada e conseguiu m achucar Lloy d várias vezes antes que ele acertasse o adversário com um gancho de esquerda que o derrubou.
Lloy d fora criado num bairro perigoso, o East End londrino. Aos 12 anos, sofrera provocações na escola.
– Com igo aconteceu a m esm a coisa – dissera Bernie Leckwith, seu padrasto. – Quando você é o m enino m ais inteligente da escola, passa a ser perseguido pelo valentão da turm a.
Bernie era j udeu – a m ãe dele só falava iídiche. Ele levara o enteado à Academ ia de Boxe de Aldgate. Ethel fora contra, m as Bernie havia ignorado a opinião dela, algo que não acontecia com m uita frequência.
Ali, Lloy d aprendeu a se m over depressa e a desferir socos fortes, e as provocações na escola cessaram . Foi lá tam bém que quebrou o nariz, com prom etendo um pouco sua bela aparência. Além disso, descobriu um talento: tinha reflexos rápidos e um tem peram ento com bativo, o que lhe rendeu prêm ios no ringue. Seu treinador estava decepcionado por ele querer estudar em Cam bridge em vez de virar boxeador profissional.
Ele tom ou um a ducha e tornou a vestir o terno. Em seguida foi a um bar de operários, pediu um copo de cervej a e sentou-se para escrever um a carta contando o incidente com os cam isas-pardas para Millie, sua m eia-irm ã. Ela estava encium ada por ele fazer aquela viagem com a m ãe, e Lloy d prom etera lhe enviar notícias com frequência.
A confusão daquela m anhã deixara Lloy d perturbado. A política fazia parte de seu dia a dia: Ethel j á fora m em bro do Parlam ento, Bernie era conselheiro regional em Londres, e ele próprio era o presidente londrino da Liga Juvenil Trabalhista. No entanto, a política sem pre tivera a ver com debates e votações – até aquele dia. Era a prim eira vez que ele via um escritório ser vandalizado por brutam ontes uniform izados enquanto a polícia assistia a tudo com um sorriso no rosto. Aquilo era política violenta, e ele ficara chocado.
“Será que isso pode acontecer em Londres, Millie?”, escreveu. Seu prim eiro instinto era pensar que não. Hitler, contudo, tinha adm iradores entre os industriais e os donos de j ornal da Grã-Bretanha. Poucos m eses antes, um m em bro dissidente do Parlam ento, Sir Oswald Mosley, fundara a União Britânica de Fascistas. Assim com o os nazistas, eles gostavam de se pavonear usando uniform es m ilitares. O que viria depois?
Term inou a carta, dobrou o papel e foi pegar o trem rápido de volta ao centro da cidade. Ele e sua m ãe iriam j antar com Walter e Maud von Ulrich. Lloy d passara a vida toda ouvindo falar em Maud. A am izade entre ela e sua m ãe surgira de um j eito pouco convencional: Ethel com eçara a vida profissional trabalhando com o criada na m ansão da fam ília de Maud. Mais tarde, as duas tinham sido sufragistas e lutado j untas pelo direito de voto fem inino. Durante a guerra, haviam publicado um j ornal fem inista cham ado The Soldier’s Wife , “a esposa do soldado”. Depois disso brigaram por divergências políticas e se afastaram .
Lloy d se lem brava m uito bem da visita da fam ília Von Ulrich a Londres, em 1925. Tinha 10 anos, idade suficiente para sentir vergonha de não falar alem ão enquanto Erik e Carla, com 5 e 3 anos respectivam ente, eram bilíngues. Foi nessa ocasião que Ethel e Maud fizeram as pazes.
Ele foi andando até o restaurante, cham ado Bistrô Robert. O interior era art déco, com m esas e cadeiras estritam ente retangulares e lum inárias rebuscadas, feitas de ferro m aciço, com cúpulas de vidro coloridas. Mas Lloy d gostou dos guardanapos bem -engom ados que aguardavam j unto aos pratos, em posição de sentido.
Os outros três j á haviam chegado. Ao se aproxim ar da m esa, Lloy d reparou que as m ulheres estavam belíssim as: am bas seguras, bem -vestidas, atraentes e confiantes. Os dem ais clientes do restaurante as olhavam com adm iração. Ele se perguntou quanto do senso de estilo da m ãe fora herdado da am iga aristocrata.
Um a vez feito o pedido, Ethel explicou o m otivo de sua viagem :
– Perdi m inha cadeira no Parlam ento em 1931 – disse ela. – Espero recuperá-la nas próxim as eleições, m as enquanto isso tenho que m e sustentar. Por sorte, Maud, você m e ensinou a ser j ornalista.
– Não precisei lhe ensinar m uita coisa – retrucou Maud. – Você tinha um talento natural.
– Estou escrevendo um a série de artigos sobre os nazistas para o News Chronicle e assinei um contrato com um editor cham ado Victor Gollancz para escrever um livro. Trouxe Lloy d para ser m eu intérprete. Ele está estudando francês e alem ão.
Lloy d observou o sorriso orgulhoso da m ãe e sentiu que não o m erecia.
– Meus dotes de tradutor ainda não foram testados direito – disse ele. – Até agora, só encontram os pessoas com o vocês, que falam um inglês perfeito.
Lloy d tinha pedido vitela em panada, prato que nunca vira na Inglaterra. Achou um a delícia. Enquanto com iam , Walter lhe perguntou:
– Você não deveria estar na escola?
– Mam ãe achou que eu aprenderia m elhor o alem ão assim , e a escola concordou.
– Por que não vem trabalhar com igo no Reichstag por um tem po? Infelizm ente não posso pagar, m as você falaria alem ão o dia inteiro.
Lloy d ficou m uito anim ado.
– Eu adoraria. Que oportunidade incrível!
– Se Ethel não for precisar de você – acrescentou Walter.
Ethel sorriu.
– Talvez eu possa pegá-lo em prestado vez por outra, quando precisar m uito dele.
– Claro.
Ela estendeu o braço por cim a da m esa e tocou a m ão de Walter. Era um gesto íntim o e Lloy d percebeu que o vínculo entre aqueles três era m uito estreito.
– Você é m uito gentil, Walter.
– Na verdade, não sou, não. Um assessor j ovem e inteligente que entende de política é sem pre útil para m im .
– Não tenho certeza se ainda entendo de política – com entou Ethel. – O que está acontecendo aqui na Alem anha?
– Nós estávam os indo bem em m eados da década de 1920 – respondeu Maud. – Tínham os um governo dem ocrático e um a econom ia em crescim ento. Mas tudo ruiu com o Crash de Wall Street, em 1929. Agora estam os m ergulhados na Depressão. – A voz dela trem ia com um a em oção que beirava a tristeza. – Às vezes chega-se a ver cem hom ens fazendo fila por um único anúncio de em prego. Fico olhando para o rosto deles... estão desesperados. Não sabem com o vão alim entar os filhos. Então os nazistas lhes acenam com um a esperança e eles se perguntam : “O que tenho a perder?”
Walter parecia pensar que sua m ulher estava exagerando. Em tom m ais alegre, disse:
– A boa notícia é que Hitler não conseguiu conquistar a m aioria entre os alem ães. Nas últim as eleições, os nazistas tiveram um terço dos votos. Em bora com pusessem o m aior partido, felizm ente o governo de Hitler é m inoritário.
– Foi por isso que ele convocou um a nova eleição – disse Maud. – Precisa da m aioria absoluta para transform ar a Alem anha na ditadura brutal que ele quer.
– E ele vai conseguir? – perguntou Ethel.
– Não – respondeu Walter.
– Vai – rebateu Maud.
– Não acho que o povo alem ão algum dia vá votar em um a ditadura – disse Walter.
– Mas a eleição não vai ser j usta! – argum entou Maud, zangada. – Vej am só o que aconteceu hoj e na redação da m inha revista. Qualquer um que critique os nazistas está correndo perigo. Enquanto isso, a propaganda deles está por toda parte.
– Ninguém parece revidar! – exclam ou Lloy d. Ele queria ter chegado alguns m inutos antes ao escritório da revista O Democrata naquela m anhã, para poder dar uns socos em alguns cam isas-pardas. Percebeu que estava com o punho cerrado e se obrigou a abrir a m ão. Mas a indignação não passou. – Por que os esquerdistas não atacam os escritórios dos j ornais nazistas? Assim eles vão provar do próprio rem édio!
– Não podem os reagir à violência com violência! – disse Maud, enfática. – Hitler precisa de um pretexto para um a repressão: quer declarar em ergência nacional, abolir os direitos civis e pôr seus opositores na cadeia. – A voz dela assum iu um tom de súplica: – Tem os que evitar dar esse pretexto a ele... por m ais difícil que sej a.
Os quatro term inaram de com er. O restaurante com eçou a esvaziar. Quando o café foi servido, o dono do restaurante, um prim o distante de Walter cham ado Robert von Ulrich, e o chef de cozinha, Jörg, se j untaram a eles. Robert tinha sido diplom ata na em baixada austríaca em Londres antes da Grande Guerra, na m esm a época em que Walter trabalhava na em baixada alem ã na capital britânica – quando se apaixonara por Maud.
Robert era parecido com Walter, m as vestia-se com m ais apuro, com um alfinete de ouro na gravata, penduricalhos na corrente do relógio de bolso e m uita brilhantina nos cabelos. Jörg era m ais j ovem , louro, com traços delicados e um sorriso franco. Os dois tinham se conhecido quando eram prisioneiros de guerra na Rússia. Agora m oravam num apartam ento em cim a do restaurante.
Ficaram trocando lem branças sobre o casam ento de Walter e Maud, realizado em segredo às vésperas da guerra. Não houvera convidados, m as Robert e Ethel tinham sido os padrinhos.
– Nós bebem os cham panhe no hotel – contou Ethel. – Então, com m uito tato, falei que Robert e eu iríam os em bora, e Walter... – Ela reprim iu um acesso de riso. – Walter disse: “Ah, achei que fôssem os j antar todos j untos.”
Maud deu um a risadinha.
– Vocês podem im aginar com o fiquei contente com isso!
Constrangido, Lloy d m anteve os olhos cravados em seu café. Tinha 18 anos e era virgem , e aquelas piadas sobre lua de m el o deixavam pouco à vontade.
Então, m ais séria, Ethel perguntou a Maud:
– Vocês têm tido notícias de Fitz?
Lloy d sabia que o casam ento às escondidas tinha criado um im enso abism o entre Maud e seu irm ão, o conde Fitzherbert. Com o ela não o havia consultado, na condição de chefe da fam ília, e pedido autorização para se casar, Fitz a deserdara.
Maud fez que não com a cabeça, entristecida.
– Escrevi para Fitz naquela vez em que fom os a Londres, m as ele não quis m e encontrar. Feri seu orgulho ao m e casar com Walter sem lhe dizer nada. Infelizm ente, acho que m eu irm ão não sabe perdoar.
Ethel pagou a conta. Tudo na Alem anha era m uito barato para quem tinha m oeda estrangeira. Estavam prestes a se levantar para ir em bora quando um desconhecido se aproxim ou da m esa e, sem ser convidado, puxou um a cadeira. Era um hom em corpulento, com um pequeno bigode no m eio de um rosto redondo.
Estava usando um uniform e dos cam isas-pardas.
– Em que posso aj udá-lo, senhor? – perguntou Robert com voz fria.
– Meu nom e é Thom as Macke, sou da polícia. – Ele segurou o braço de um garçom que passava e ordenou: – Traga-m e um café.
O garçom lançou um olhar de dúvida para Robert, que assentiu.
– Trabalho no departam ento político da polícia prussiana – prosseguiu Macke. – Sou encarregado do departam ento de inteligência de Berlim .
Lloy d traduziu para a m ãe em voz baixa.
– Mas quero falar com o dono do restaurante sobre um a questão pessoal – disse Macke.
– Onde o senhor trabalhava um m ês atrás? – quis saber Robert.
A pergunta inesperada deixou Macke espantado e ele respondeu na hora:
– Na delegacia de polícia de Kreuzberg.
– E qual era o seu cargo lá?
– Eu cuidava do arquivo. Por que a pergunta?
Robert assentiu com o se j á esperasse algo daquele tipo.
– Quer dizer que o senhor passou de assistente de arquivo a chefe do departam ento de inteligência da capital. Parabéns pela ascensão tão rápida. – Ele se virou para Ethel. – Quando Hitler virou chanceler, no final de j aneiro, seu capanga Herm ann Göring assum iu o cargo de m inistro do Interior da Prússia e passou a com andar a m aior força policial do m undo. Desde então, Göring vem dem itindo policiais a torto e a direito e os substituindo por nazistas. – Ele se virou novam ente para Macke e falou em tom de sarcasm o: – Mas, no caso deste nosso convidado surpresa, estou certo de que a prom oção foi puram ente por m érito.
Macke enrubesceu, m as m anteve a calm a.
– Com o eu disse, quero falar com o dono do restaurante sobre um assunto pessoal.
– Venha m e procurar am anhã de m anhã, por gentileza. Às dez horas está bom ?
– Meu irm ão trabalha no ram o de restaurantes – continuou Macke, ignorando a sugestão.
– Ah! Talvez eu o conheça. O sobrenom e dele é Macke? Que tipo de restaurante ele tem ?
– Um pequeno estabelecim ento para operários em Friedrichshain.
– Ah. Nesse caso, é pouco provável que j á tenham os nos encontrado.
Lloy d não tinha certeza se era sensato Robert se m ostrar tão petulante. Macke era grosseiro e não m erecia ser tratado com educação, m as poderia criar sérios problem as.
– Meu irm ão gostaria de com prar este restaurante – declarou Macke.
– Seu irm ão quer subir na vida, assim com o o senhor subiu.
– Estam os dispostos a lhe oferecer 20 m il m arcos, parcelados em dois anos.
Jörg explodiu num a gargalhada.
– Perm ita que eu lhe explique um a coisa – disse Robert. – Sou um conde austríaco. Vinte anos atrás, tinha um castelo e um a grande propriedade rural na Hungria, onde m inha m ãe e m inha irm ã m oravam . Com a guerra, perdi m inha fam ília, m eu castelo, m inhas terras e até m esm o m eu país, que foi... m iniaturizado, digam os assim . – O tom de sarcasm o bem -hum orado havia desaparecido e sua voz estava rouca de em oção. – Cheguei a Berlim sem nada a não ser o endereço de Walter von Ulrich, m eu prim o distante. Mesm o assim , consegui abrir este restaurante. – Ele engoliu em seco. – Este lugar é tudo que tenho. – Robert fez um a pausa e tom ou um gole de café. Ninguém ao redor da m esa disse nada. Então ele se recom pôs e recuperou parte da superioridade inicial de sua voz. – Mesm o que o senhor fizesse um a oferta generosa, coisa que não fez, eu iria recusar, porque estaria vendendo m inha própria vida. Não é m inha intenção ser grosseiro, ainda que o senhor tenha se com portado de form a desagradável. Mas o m eu restaurante não está à venda por preço nenhum . – Ele se levantou e estendeu a m ão para um cum prim ento. – Boa noite, agente Macke.
Macke apertou a m ão de Robert sem pensar e logo em seguida pareceu arrependido. Levantou-se, obviam ente zangado. Seu rosto rechonchudo tinha adquirido um tom púrpura.
– Voltarem os a conversar – declarou, antes de sair.
– Que im becil – com entou Jörg.
– Está vendo o que tem os que aguentar? – disse Walter a Ethel. – Só porque ele usa aquele uniform e, pode fazer o que quer!
O que m ais incom odara Lloy d fora a segurança de Macke. Ele parecia ter certeza de que conseguiria com prar o restaurante pelo preço oferecido. Reagira à recusa de Robert com o se ela não passasse de um contratem po passageiro. Será que os nazistas j á eram tão poderosos assim ?
Aquele era o tipo de coisa que Oswald Mosley e os fascistas ingleses queriam : um país em que a força da lei fosse substituída por intim idação e agressão. Com o as pessoas podiam ser tão burras?
Eles vestiram seus casacos e chapéus e deram boa-noite a Robert e Jörg. Assim que saíram na rua, Lloy d sentiu cheiro de fum aça – não fum aça de tabaco, m as de outro tipo. Os quatro entraram no carro de Walter, um Dixi 3/15 da BMW, que Lloy d sabia ser um Austin Seven fabricado na Alem anha.
Quando estavam atravessando o parque Tiergarten, dois cam inhões de bom beiros os ultrapassaram , com as sirenes ligadas.
– Onde será o incêndio? – indagou Walter.
Instantes depois, viram a luz das cham as por entre as árvores.
– Parece ser perto do Reichstag – com entou Maud.
O tom de Walter m udou.
– É m elhor darm os um a olhada – disse ele, preocupado, enquanto fazia um a curva repentina.
O cheiro de fum aça ficou m ais forte. Por cim a da copa das árvores, Lloy d pôde ver labaredas subindo em direção ao céu.
– É um incêndio dos grandes – falou.
Saíram do parque na Köningsplatz, a grande esplanada entre o prédio do Reichstag e a Ópera Kroll, em frente. O parlam ento estava em cham as. Luzes verm elhas e am arelas dançavam por trás das clássicas fileiras de j anelas. Cham as e fum aça saíam pela cúpula central.
– Ah, não! – exclam ou Walter. Para Lloy d, sua voz soou desesperada. – Ah, m eu Deus, não!
Walter parou o carro e todos saltaram .
– Que catástrofe – disse ele.
– Um prédio antigo tão lindo – com entou Ethel.
– Estou pouco ligando para o prédio – disse Walter, para surpresa de todos. – É a nossa dem ocracia que está em cham as.
A uns cinquenta m etros, um a pequena m ultidão observava o incêndio. Em frente ao prédio, cam inhões dos bom beiros enfileirados esguichavam água sobre as cham as com m angueiras, direcionando os j atos para as j anelas quebradas. Alguns policiais assistiam à cena sem fazer nada. Walter abordou um deles.
– Sou deputado no Reichstag – falou. – Quando com eçou esse incêndio?
– Há um a hora – respondeu o policial. – Pegam os um dos responsáveis: um hom em vestido só de calça! Ele usou o restante das roupas para com eçar o incêndio.
– Vocês deveriam m ontar um cordão para isolar o prédio – disse Walter com autoridade. – Para m anter as pessoas a um a distância segura.
– Sim , senhor – disse o policial e se afastou.
Lloy d saiu de perto dos outros e se aproxim ou do prédio. Os bom beiros j á estavam conseguindo controlar as cham as: havia m ais fum aça que labaredas. Ele passou pelos carros de bom beiros e chegou j unto a um a j anela. Aquilo não parecia m uito perigoso e, de toda form a, sua curiosidade suplantara seu senso de autopreservação – com o sem pre.
Ao espiar por ali, viu que a destruição era grande: paredes e tetos haviam desabado e não passavam de pilhas de entulho. Além dos bom beiros, viu civis de sobretudo – provavelm ente funcionários do Reichstag – andando em m eio aos destroços para avaliar os estragos. Foi até a entrada e subiu os degraus.
Dois Mercedes pretos chegaram rugindo no m om ento em que a polícia m ontava o cordão de isolam ento. Lloy d observou com interesse. Do segundo carro saltou um hom em usando um im perm eável de cor clara e um chapéu de feltro preto. Tinha um bigode estreito debaixo do nariz. Lloy d entendeu que estava olhando para o novo chanceler, Adolf Hitler.
Atrás de Hitler vinha um hom em m ais alto, com o uniform e preto da Schutzstaffel, a SS: seu guarda-costas. Mancando atrás deles vinha o chefe da Propaganda, Joseph Goebbels, que odiava os j udeus. Lloy d os reconheceu das fotos que tinham saído nos j ornais. Ficou tão fascinado por vê-los de perto que se esqueceu do horror que eles lhe provocavam .
Hitler subiu os degraus correndo, de dois em dois, indo na direção de Lloy d, que, por im pulso, abriu a grande porta e a segurou para o chanceler passar. Com um m eneio de cabeça para o rapaz, Hitler entrou e seu séquito foi atrás.
Lloy d se j untou a eles. Ninguém lhe dirigiu a palavra. O grupo que acom panhava Hitler parecia pensar que ele trabalhava no Reichstag, enquanto os funcionários do Reichstag acreditavam que ele estivesse com Hitler.
Um cheiro ruim de cinza m olhada pairava no ar. Hitler e seu grupo passaram por cim a de vigas carbonizadas e m angueiras, pisando em poças de lam a. Herm ann Göring estava no hall de entrada, com um sobretudo de pele de cam elo cobrindo sua im ensa barriga e a aba do chapéu erguida na frente, à m oda de Potsdam . Aquele era o hom em que estava enchendo a força policial de nazistas, pensou Lloy d, lem brando-se da conversa no restaurante.
Assim que viu Hitler, Göring gritou:
– Este é o com eço do levante com unista! Eles agora vão atacar! Não tem os nenhum m inuto a perder!
Lloy d teve a estranha sensação de estar na plateia de um teatro, com o se aqueles hom ens poderosos estivessem sendo representados por atores.
Hitler se m ostrou ainda m ais dram ático do que Göring.
– Agora não haverá m isericórdia! – gritou com voz aguda. Parecia estar falando para um a m ultidão. – Qualquer um que ficar em nosso cam inho será m assacrado! – Ele trem ia e ficava cada vez m ais furioso. – Todos os oficiais com unistas serão m ortos a tiros onde forem encontrados. Os deputados com unistas do Reichstag têm de ser enforcados hoj e m esm o! – Ele parecia prestes a explodir.
Mas havia algo de artificial naquilo tudo. O ódio de Hitler parecia real, m as aquela explosão era um a encenação para todos aqueles que o cercavam , tanto os seus hom ens quanto os outros. Ele era um ator – sentia um a em oção genuína, m as a estava am plificando para o público. E Lloy d viu que aquilo funcionava: todos os que conseguiam ouvi-lo o encaravam enfeitiçados.
– Meu Führer – disse Göring –, este aqui é m eu chefe da polícia política, Rudolf Diels. – Ele apontou para um hom em m agro de cabelos escuros ao seu lado. – Ele j á prendeu um dos responsáveis.
Diels não estava histérico. Com calm a, falou:
– Ele se cham a Marinus van der Lubbe, um holandês que trabalha na construção civil.
– Holandês e com unista! – exclam ou Göring, triunfante.
– Foi expulso do Partido Com unista Holandês por ter provocado incêndios crim inosos.
– Eu sabia! – exclam ou Hitler.
Lloy d viu que Hitler estava decidido a culpar os com unistas, independentem ente de quais fossem os fatos.
Com um tom deferente, Diels falou:
– A j ulgar pelo interrogatório inicial a que subm eti o suj eito, está claro que se trata de um louco e que agiu sozinho.
– Que bobagem ! – gritou Hitler. – Isto foi planej ado com m uita antecedência. Mas eles calcularam m al! Não entendem que o povo está do nosso lado.
– A partir de agora a polícia encontra-se em estado de em ergência – disse Göring para Diels. – Tem os listas de com unistas: deputados do Reichstag, representantes eleitos de governos locais, organizadores e ativistas do Partido Com unista. Prendam todos eles... hoj e m esm o! Arm as de fogo deverão ser usadas sem piedade. Não tenham m isericórdia nos interrogatórios.
– Sim , m inistro – disse Diels.
Lloy d entendeu que Walter tinha razão para estar preocupado. Aquele era o pretexto que os nazistas estavam procurando. Eles não dariam ouvidos a ninguém que dissesse que o incêndio fora obra de um louco agindo sozinho. Queriam um com plô com unista para que pudessem anunciar um a repressão.
Göring olhou com desagrado para a lam a que suj ava seus sapatos.
– Minha residência oficial fica a apenas um m inuto daqui, m eu Führer, m as felizm ente não foi atingida pelo fogo – disse ele. – Talvez possam os nos reunir lá.
– Sim . Tem os m uito que discutir.
Lloy d segurou a porta e todos saíram . Enquanto se afastavam , ele andou até o cordão de isolam ento da polícia e tornou a se reunir à m ãe e ao casal Von Ulrich.