Inverno do Mundo

Ken Follett · Capítulo 22 de 153

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Inverno do Mundo

Capítulo II

Ouviu-se um estrondo de vidro se quebrando e um a pedra entrou voando pela j anela. Um a m ulher gritou e várias pessoas se levantaram .

– Por favor, fiquem sentados – pediu Ethel. – Creio que eles irão em bora logo.

Ela falava com voz calm a e tranquilizadora. No entanto, poucos prestavam atenção no que ela dizia. Olhavam todos para trás, em direção à porta da igrej a, escutando os gritos e vivas dos arruaceiros do lado de fora. Lloy d teve de se esforçar para ficar sentado. Olhou para a m ãe com um a expressão neutra, fixa feito um a m áscara. Cada osso de seu corpo ansiava por sair à rua e dar alguns socos.

Dali a um m inuto, a plateia silenciou um pouco. Em bora ainda inquietos e olhando para trás por cim a do om bro, todos tornaram a prestar atenção em Ethel.

– Nós parecem os um bando de coelhinhos, trem endo dentro da toca enquanto a raposa regouga lá fora – m urm urou Ruby em tom de desprezo, e Lloy d sentiu que ela estava certa.

A previsão de sua m ãe, porém , m ostrou-se verdadeira, e nenhum a outra pedra foi lançada. A cantoria se afastou.

– Por que os fascistas querem violência? – indagou Ethel; era um a pergunta retórica. – Aqueles rapazes lá fora na Hills Road podem ser sim ples arruaceiros, m as alguém os está dirigindo e suas táticas têm um obj etivo. Quando há briga nas ruas, eles podem alegar que a ordem pública foi violada, e que é preciso tom ar m edidas drásticas para restabelecer a lei. Essas m edidas de em ergência incluem banir partidos políticos dem ocráticos com o o nosso, proibir a ação dos sindicatos e prender pessoas sem j ulgam ento, pessoas com o nós, hom ens e m ulheres de paz, cuj o único crim e é discordar do governo. Isso por acaso lhes parece um a fantasia im provável, algo que j am ais poderia acontecer? Bem , foi exatam ente a tática que eles usaram na Alem anha... e funcionou.

Ela seguiu falando sobre com o o fascism o devia ser com batido: em grupos de discussão, em reuniões com o aquela, escrevendo cartas aos j ornais e usando qualquer oportunidade possível para alertar os outros do perigo. No entanto, m esm o para Ethel foi difícil fazer isso soar coraj oso e decidido.

O com entário de Ruby sobre coelhos na toca atingira Lloy d profundam ente. Ele se sentia um covarde. Estava tão frustrado que m al conseguia se m anter sentado.

Aos poucos, a atm osfera do salão voltou ao norm al. Lloy d se virou para Ruby .

– Pelo m enos os coelhos estão sãos e salvos – falou.

– Por enquanto – disse ela. – Mas a raposa vai voltar.

 

II

– Se você gostar de um rapaz, pode deixá-lo beij ar você na boca – disse Lindy Westham pton, sentada ao sol no gram ado.

– E, se gostar dele de verdade, pode deixá-lo tocar seus seios – disse sua gêm ea, Lizzie.

– Mas nada abaixo da cintura.

– Só depois que estiverem noivos.

Essa conversa deixou Daisy intrigada. Im aginava que as m oças inglesas fossem inibidas, m as se enganara. As gêm eas Westham pton eram obcecadas por sexo.

Daisy estava m aravilhada por ser hóspede em Chim bleigh, a casa de cam po de Sir Bartholom ew Westham pton, m ais conhecido com o Bing. Estar ali lhe dava a sensação de ter sido aceita na sociedade inglesa. Mas ela ainda não havia conhecido o rei.

Recordou a hum ilhação no Iate Clube de Buffalo com um a vergonha que ainda parecia um a queim adura em sua pele e lhe provocava um a dor cruciante, m esm o depois de a cham a ter sido afastada. No entanto, sem pre que sentia essa dor, pensava que iria dançar com o rei e im aginava todas elas – Dot Renshaw, Nora Farquharson, Ursula Dewar – vendo sua foto no Buffalo Sentinel e lendo cada palavra da reportagem , m ortas de invej a e desej ando poder afirm ar com sinceridade que sem pre tinham sido suas am igas.

Não fora nada fácil no com eço. Fazia três m eses que Daisy chegara à Inglaterra, com a m ãe e a am iga Eva. Seu pai lhe dera um punhado de cartas de apresentação para pessoas que, no fim das contas, não pertenciam à nata da sociedade londrina. Daisy com eçara a se arrepender de sua saída ultraconfiante do baile do Iate Clube: e se tudo aquilo não desse em nada?

Mas ela era um a m oça decidida e cheia de recursos, e tudo de que precisava era um em purrãozinho. Mesm o em eventos m ais ou m enos públicos, com o corridas de cavalos e óperas, podia conhecer pessoas im portantes. Flertava com os hom ens e despertava a curiosidade de suas m ães, dando a entender que era rica e solteira. Muitas fam ílias aristocráticas inglesas tinham sido arruinadas pela Depressão, e um a herdeira am ericana teria sido bem -vinda m esm o se não fosse bonita e encantadora. Todos gostavam do seu sotaque, toleravam o fato de ela segurar o garfo com a m ão direita e achavam graça por ela saber dirigir – na Inglaterra, dirigir era coisa de hom em . Muitas m oças inglesas m ontavam a cavalo tão bem quanto Daisy, m as poucas dem onstravam a m esm a segurança e tanto atrevim ento sobre a sela. Algum as m ulheres m ais velhas ainda a olhavam com desconfiança, m as ela estava certa de que acabaria por conquistá-las.

Fora fácil flertar com Bing Westham pton. Franzino e de sorriso arrebatador, ele tinha faro fino para m oças bonitas. E o instinto de Daisy lhe dizia que usaria m ais do que apenas o faro caso tivesse a oportunidade de um a brincadeira no j ardim , ao anoitecer. Estava claro que as filhas haviam puxado a ele.

A festa na casa dos Westham pton era um a das m uitas no condado de Cam bridge organizadas para coincidir com a Sem ana de Maio. Entre os convidados estavam o conde Fitzherbert, m ais conhecido com o Fitz, e Bea, sua esposa. Ela, naturalm ente, era a condessa Fitzherbert, m as preferia o título russo de princesa. O filho m ais velho do casal, Boy , estudava no Trinity College.

A princesa Bea era um a das m atriarcas da sociedade que tinham reservas em relação a Daisy. Sem chegar a contar um a m entira, Daisy deixara que as pessoas supusessem que seu pai era um nobre russo que perdera tudo na revolução, e não um operário de fábrica que fugira para os Estados Unidos para não ser pego pela polícia. Bea, porém , não se deixara enganar.

– Não m e lem bro de nenhum a fam ília cham ada Peshkov em São Petersburgo ou em Moscou – com entara, quase sem se fingir de intrigada.

Daisy forçara um sorriso com o se o fato de a princesa não lem brar não tivesse qualquer im portância.

Havia três m oças da m esm a idade de Daisy e Eva na casa: as gêm eas Westham pton e May Murray, filha de um general. Os bailes varavam a noite, por isso todos dorm iam até o m eio-dia, m as as tardes eram m açantes. As cinco m oças relaxavam no j ardim ou iam passear na floresta. Agora, sentando-se na rede em que estivera deitada, Daisy perguntou:

– E o que se pode fazer depois do noivado?

– Alisar o negócio dele – respondeu Lindy .

– Até esguichar – em endou sua irm ã.

– Ai, que noj o! – exclam ou May Murray , que não era tão atrevida quanto as gêm eas.

Mas isso apenas serviu para incentivar ainda m ais as irm ãs Westham pton.

– Ou então pode chupar – disse Lindy . – É disso que eles m ais gostam .

– Parem com isso! – reclam ou May . – Vocês estão inventando.

As duas pararam , pois j á haviam provocado May o suficiente.

– Estou entediada – disse Lindy . – O que poderíam os fazer?

Um diabinho travesso se apoderou de Daisy , que falou:

– Vam os descer para j antar vestidas de hom em .

Arrependeu-se na m esm a hora. Um a brincadeira dessas poderia arruinar sua carreira social, que m al estava com eçando.

A noção de com postura germ ânica de Eva foi perturbada.

– Daisy , você não está falando sério!

– Não – respondeu a am iga. – Foi um a ideia boba.

As gêm eas tinham os cabelos louros e finos da m ãe, não os cachos escuros do pai, m as haviam herdado a inclinação dele para as travessuras, e am bas adoraram a ideia.

– Hoj e à noite todos eles estarão de casaca, então podem os roubar seus sm okings – disse Lindy .

– Isso! – concordou a irm ã. – Vam os roubar enquanto estiverem tom ando o chá.

Daisy viu que era tarde para voltar atrás.

– Não poderíam os ir ao baile vestidas assim ! – disse May Murray. Depois do j antar, todos os hóspedes da casa iriam ao baile do Trinity .

– Trocarem os de roupa antes de sair – disse Lizzie.

May era um a m oça tím ida, provavelm ente oprim ida pelo pai m ilitar, e sem pre concordava com qualquer coisa que as outras decidissem . Eva, a única a discordar, foi ignorada, e o plano prosseguiu.

Quando chegou a hora de se vestir para o j antar, um a criada levou dois sm okings até o quarto que Daisy dividia com Eva. A criada se cham ava Ruby. Na véspera, estava sofrendo com um a terrível dor de dente, então Daisy lhe dera dinheiro para ir ao dentista, e ela arrancara o dente. Agora, livre da dor, Ruby estava corada de anim ação.

– Aqui estão, senhoras! – disse ela. – O de Sir Bartholom ew deve ser pequeno o suficiente para a Srta. Peshkov, e o do Sr. Andrew Fitzherbert deve servir na Srta. Rothm ann.

Daisy tirou o vestido e pôs a cam isa m asculina. Ruby a aj udou a encaixar as abotoaduras da frente e dos punhos, com as quais não estava acostum ada. Ela então vestiu a calça de Bing Westham pton, preta, com um a faixa de cetim . Aj eitou a com binação dentro da calça e puxou os suspensórios até os om bros. Ao abotoar a braguilha, sentiu-se levem ente ousada.

Nenhum a das três m oças sabia dar nó em gravata, de m odo que os resultados foram sofríveis. Foi Daisy quem inventou o toque final. Usando um lápis de sobrancelha, pintou um bigode no próprio rosto.

– Incrível! – exclam ou Eva. – Você está ainda m ais bonita!

Daisy pintou costeletas no rosto de Eva.

As cinco am igas se reuniram no quarto das gêm eas. Daisy entrou com um andar m asculino que provocou risos histéricos nas outras.

May expressou em voz alta a preocupação que Daisy ainda trazia bem lá no fundo da m ente:

– Espero que não tenham os problem as com isso.

– E daí se tiverm os? – contrapôs Lindy .

Daisy decidiu esquecer as apreensões e se divertir, e seguiu na frente das outras até a sala de estar.

Foram as prim eiras a chegar. Repetindo algo que ouvira Boy Fitzherbert dizer ao m ordom o, Daisy forçou um a voz de hom em e, arrastando as palavras, pediu:

– Grim shaw, m eu chapa, sirva-m e um uísque... este cham panhe tem gosto de xixi. – As outras puseram -se a guinchar com risinhos chocados.

Bing e Fitz entraram j untos. Com seu colete branco, Bing fez Daisy pensar em um pássaro de duas cores atrevido. Fitz era um senhor de m eia-idade atraente, com cabelos escuros salpicados de fios grisalhos. Por causa de ferim entos de guerra, m ancava um pouco e tinha um a das pálpebras ligeiram ente caída, m as as provas de sua coragem em batalha só aum entavam m ais ainda seu poder de sedução.

Fitz viu as m oças, olhou duas vezes e exclam ou:

– Meu Deus do céu! – Seu tom foi severo e reprovador.

Daisy experim entou um instante de pânico. Teria estragado tudo? Todo m undo sabia que os ingleses podiam ser assustadoram ente conservadores. Será que ela seria convidada a ir em bora da casa? Isso seria terrível. Dot Renshaw e Nora Farquharson m al caberiam em si caso ela voltasse para Buffalo em desgraça. Daisy preferiria m orrer.

Bing, contudo, soltou um a sonora gargalhada.

– Que m aravilha – com entou ele. – Olhe só para isso, Grim shaw!

O m ordom o, j á de certa idade, que vinha entrando na sala com um a garrafa de cham panhe em um balde de prata cheio de gelo, observou as m oças com ar desanim ado. Em tom seco e pouco sincero, falou:

– Muito divertido, Sir Bartholom ew.

Bing continuou a observá-las com um m isto de deleite e lascívia. Daisy percebeu – tarde dem ais – que se vestir com o o sexo oposto poderia passar para alguns hom ens a falsa ideia de alto grau de liberdade sexual e disposição para experim entar coisas novas – que evidentem ente poderia causar problem as.

Quando o grupo se reuniu para j antar, a m aioria dos outros hóspedes da casa seguiu o exem plo do anfitrião e tratou a brincadeira das m oças com o um a divertida farsa, m as Daisy percebeu que nem todos ficaram igualm ente encantados. A m ãe de Daisy em palideceu de susto ao ver as m oças e sentou-se depressa, com o se estivesse prestes a desm aiar. A princesa Bea, m ulher de cerca de 40 anos, m uito apertada por espartilhos e que outrora devia ter sido bonita, franziu a testa coberta de pó de arroz num a expressão de censura. Mas Lady Westham pton era um a m ulher alegre, que reagia à vida com o m esm o sorriso tolerante que tinha para o m arido desregrado: ela deu um a gostosa risada e parabenizou Daisy pelo bigode.

Os rapazes, os últim os a chegar, tam bém acharam divertido. O tenente Jim m y Murray, filho do general Murray, que não era tão rígido quanto o pai, gargalhou de satisfação. Os irm ãos Fitzherbert, Boy e Andy, entraram j untos, e a reação de Boy foi a m ais interessante de todas. Ele encarou as m oças com fascínio. Apesar de ter tentado escondê-lo com galhofa, rindo alto com o os outros, ficou claro que estava estranham ente atraído.

Durante o j antar, as gêm eas im itaram a brincadeira de Daisy e puseram -se a falar com o hom ens, com vozes graves e sonoras, fazendo os outros rirem . Lindy ergueu o copo e disse:

– O que achou deste vinho, Liz?

– Achei um pouco aguado, m eu chapa. Tenho a im pressão de que Bing anda diluindo seus vinhos, sabe?

Durante todo o j antar, Daisy flagrou Boy olhando para ela. O rapaz não se parecia m uito com o belo pai, m as ainda assim era atraente, e tinha os m esm os olhos azuis da m ãe. Ela com eçou a ficar encabulada, com o se ele estivesse olhando com volúpia para seus seios. Para rom per o feitiço, perguntou:

– Tem feito as provas na universidade, Boy ?

– Pelo am or de Deus, não – respondeu ele.

– Ele está ocupado dem ais pilotando seu avião para estudar – com entou o pai. Apesar de form ulada com o um a crítica, a frase fez parecer que Fitz na verdade sentia orgulho do prim ogênito.

Boy se fez de ultraj ado.

– Que calúnia! – disse ele.

Eva estava perplexa.

– Se você não quer estudar, por que está na universidade? – perguntou.

– Alguns dos rapazes não fazem questão de se form ar, sobretudo se não tiverem inclinação para a vida acadêm ica – explicou Lindy .

– Sobretudo se forem ricos e preguiçosos – acrescentou Lizzie.

– Mas eu estudo! – protestou Boy. – Só que, de fato, não pretendo fazer as provas. Na verdade não pretendo ganhar a vida com o m édico, nem nada disso. – Quando Fitz m orresse, Boy herdaria um a das m aiores fortunas da Inglaterra.

E sua sortuda esposa seria a condessa Fitzherbert.

– Espere um instante – disse Daisy . – Você tem m esm o seu próprio avião?

– Tenho. É um Hornet Moth. Faço parte do aeroclube da universidade. Nós usam os um pequeno cam po de pouso fora da cidade.

– Que m aravilha! Você tem que m e levar para voar!

– Ai, querida, não! – protestou sua m ãe.

– Você não ficaria nervosa? – perguntou Boy a Daisy .

– Nem um pouco!

– Então vou levá-la. – Ele se virou para Olga. – É absolutam ente seguro, Sra. Peshkov. Prom eto que vou trazê-la de volta inteirinha.

Daisy ficou anim adíssim a.

A conversa passou para o assunto preferido daquele verão: o elegante novo rei da Inglaterra, Eduardo VIII, e seu rom ance com Wallis Sim pson, um a am ericana separada pela segunda vez. Os j ornais de Londres não com entavam nada a respeito, apenas incluíam a Sra. Sim pson na lista de convidados dos eventos reais. A m ãe de Daisy, porém , m andava vir os j ornais am ericanos, repletos de especulações sobre se Wallis iria se divorciar do Sr. Sim pson para se casar com o rei.

– Isso está totalm ente fora de cogitação – disse Fitz, severo. – O rei é o chefe da Igrej a Anglicana. Não há a m enor possibilidade de se casar com um a m ulher divorciada.

Quando as senhoras se retiraram , deixando os hom ens a sós para saborearem vinho do Porto e charutos, as m oças correram para trocar de roupa. Daisy decidiu realçar sua fem inilidade e escolheu um vestido de baile de seda cor-de-rosa estam pado com pequenas flores, com um bolerinho de m angas curtas e bufantes do m esm o tecido.

Eva pôs um vestido bem sim ples de seda preta, sem m angas. No ano anterior, ela havia em agrecido, m udado o penteado e aprendido – sob a orientação de Daisy – a usar roupas bem -cortadas e sem adereços, que a favoreciam . Eva agora era praticam ente da fam ília e Olga adorava com prar roupas para ela. Daisy a considerava a irm ã que nunca tivera.

Ainda estava claro quando todos subiram nos carros e carruagens e percorreram os oito quilôm etros até o centro da cidade.

Daisy achava Cam bridge o lugar m ais excêntrico que j á vira, com suas ruazinhas sinuosas e os prédios elegantes das faculdades. Todos desceram no Trinity College, e Daisy ergueu os olhos para a estátua de seu fundador, o rei Henrique VIII. Quando atravessaram o portão de tij olos do século XVI, soltou um arquej o de prazer ao deparar com a visão à sua frente: um a grande área quadrada, com o gram ado bem -aparado cercado por cam inhos de pedra e, no centro, um chafariz cheio de detalhes arquitetônicos. Nos quatro lados, construções m uito antigas de pedra dourada form avam o pano de fundo para rapazes de casaca que dançavam com m oças lindam ente vestidas, e para dúzias de garçons traj ando roupas de gala, que circulavam com bandej as cheias de taças de cham panhe. Daisy bateu palm as de alegria: aquilo era exatam ente o tipo de coisa que adorava.

Ela dançou com Boy, depois com Jim m y Murray e com Bing, que a apertou bem j unto ao corpo e deixou a m ão direita escorregar da base de suas costas pela curva do quadril. Ela decidiu não protestar. A banda inglesa tocava um a im itação sem graça de um j azz am ericano, m as o som era alto e rápido, e os m úsicos conheciam todos os sucessos m ais recentes.

A noite caiu e o espaço foi ilum inado por tochas acesas. Daisy fez um a pausa para ver com o Eva estava, pois a am iga não tinha a sua desenvoltura social e às vezes precisava ser apresentada às pessoas. No entanto, não havia por que se preocupar: Eva estava conversando com um universitário extrem am ente bonito, que usava um a casaca folgada dem ais para ele. A am iga o apresentou com o Lloy d William s.

– Estávam os conversando sobre o fascism o na Alem anha – explicou Lloy d, com o se Daisy pudesse querer entrar na conversa.

– Ai, que coisa m ais sem graça! – com entou Daisy .

Mas Lloy d pareceu não ouvir.

– Eu estive em Berlim três anos atrás, quando Hitler subiu ao poder. Não conheci Eva na época, m as parece que nós tem os alguns conhecidos em com um .

Jim m y Murray apareceu e tirou Eva para dançar. Lloy d ficou visivelm ente decepcionado ao vê-la se afastar, m as reuniu seus bons m odos e, gracioso, convidou Daisy para dançar tam bém . Os dois foram para m ais perto da banda.

– Sua am iga Eva é m uito interessante – com entou ele.

– Ora, Sr. William s, isso é exatam ente o que toda m oça sonha em ouvir do seu par durante um a dança – retrucou Daisy. Assim que pronunciou as palavras, se arrependeu de ter sido tão rabugenta.

Mas Lloy d achou graça. Ele sorriu e disse:

– Meu Deus, você tem toda a razão. Mereci o puxão de orelha. Preciso tentar ser m ais galante.

Na m esm a hora, ela gostou m ais dele por saber rir de si m esm o. Era um a prova de autoconfiança.

– Você está hospedada em Chim bleigh, com o Eva?

– Estou.

– Então deve ser a am ericana que deu o dinheiro para Ruby Carter ir ao dentista.

– Com o o senhor sabe disso?

– Ela é m inha am iga.

Daisy ficou espantada.

– Muitos universitários são am igos de criadas?

– Puxa, que com entário m ais esnobe! Minha m ãe foi criada antes de ser eleita deputada.

Daisy sentiu o rosto corar. Detestava pessoas esnobes e m uitas vezes acusava os outros de ser assim , principalm ente em Buffalo. Considerava-se totalm ente inocente desse tipo de atitude indigna.

– Com eçam os m esm o com o pé esquerdo, não foi? – disse ela quando a dança chegou ao fim .

– Para falar a verdade, não – respondeu ele. – Você acha sem graça falar sobre fascism o, m as ainda assim acolhe um a refugiada alem ã em sua casa e a convida para acom panhá-la à Inglaterra. Acha que criadas não podem ser am igas de universitários, m as dá dinheiro para Ruby ir ao dentista. Acho que não vou conhecer nenhum a m oça tão intrigante quanto você esta noite.

– Vou tom ar isso com o um elogio.

– Lá vem Boy Fitzherbert, seu am igo fascista. Quer que eu dê um chega para lá nele?

Daisy sentiu que Lloy d adoraria ter um a oportunidade para brigar com Boy .

– De j eito nenhum ! – respondeu ela, virando-se para acolher o recém -chegado com um sorriso.

Boy cum prim entou Lloy d com um m eneio de cabeça breve.

– Boa noite, William s.

– Boa noite – respondeu Lloy d. – Fiquei decepcionado ao ver os seus fascistas m archando pela Hills Road no sábado passado.

– Ah, sim – disse Boy . – Eles se entusiasm aram um pouco dem ais.

– Fiquei surpreso, pois você m e dera a sua palavra de que isso não iria acontecer.

Daisy viu que, por baixo da fria m áscara dos bons m odos, Lloy d estava zangado.

Mas Boy se recusou a levar o assunto a sério.

– Peço desculpas – falou em tom casual. Então virou-se para Daisy : – Venha conhecer a biblioteca. Foi proj etada pelo arquiteto Christopher Wren.

– Com prazer! – Ela se despediu de Lloy d com um aceno e deixou Boy pegar seu braço. Lloy d pareceu desapontado ao vê-la se afastar.

Do lado esquerdo do gram ado, um a passagem conduzia a um pátio onde, na extrem idade oposta, se erguia um a construção elegante e isolada. Daisy adm irou os claustros do térreo. Boy lhe explicou que os livros ficavam no andar superior por causa das enchentes do rio Cam .

– Vam os subir e olhar o rio – disse ele. – Fica m uito bonito à noite.

Daisy tinha 20 anos e, em bora fosse inexperiente, sabia que Boy não estava nem um pouco interessado em adm irar rios à noite. No entanto, ao pensar na reação dele ao vê-la vestida de hom em , perguntou a si m esm a se talvez ele não preferisse rapazes a m oças. Im aginou que estivesse prestes a descobrir.

– Você conhece m esm o o rei? – indagou ela enquanto ele a fazia atravessar um segundo pátio.

– Conheço. Ele é m ais am igo do m eu pai, claro, m as de vez em quando vai à nossa casa. E posso lhe garantir que ele aprecia um bocado algum as das m inhas opiniões políticas.

– Eu adoraria conhecê-lo. – Ela sabia que estava soando ingênua, m as aquela era a sua chance e não iria desperdiçá-la.

Os dois atravessaram um portão e chegaram a um gram ado liso que descia na direção de um rio estreito, contido por m uros.

– Esta parte se cham a The Backs, os fundos – explicou Boy. – A m aioria das faculdades m ais antigas possui terras do outro lado do curso de água. – Quando os dois iam se aproxim ando de um a pequena ponte, ele passou o braço em volta da cintura dela. Sua m ão subiu m ais um pouco, com o por acaso, até o indicador tocar a parte inferior de seu seio.

Do outro lado da pequena ponte, dois funcionários da universidade, uniform izados, m ontavam guarda, provavelm ente para im pedir a entrada de penetras no baile. Um dos hom ens m urm urou:

– Boa noite, visconde de Aberowen. – O outro conteve um sorriso.

Boy respondeu com um m eneio de cabeça quase im perceptível. Daisy se perguntou quantas outras m oças ele teria conduzido por aquela m esm a ponte.

Sabia que Boy tinha um m otivo para fazer aquele passeio com ela. E, com o era de esperar, ele parou no escuro e pôs as duas m ãos nos om bros de Daisy .

– Você estava bem atraente com aquela roupa durante o j antar. – Sua voz soava rouca de excitação.

– Que bom que você gostou. – Ela sabia que estava prestes a ser beij ada e, ao pensar nisso, sentiu desej o por ele, m as ainda não estava de todo preparada. Pôs um a das m ãos espalm ada no peito dele, para m antê-lo a distância. – Quero m esm o ser apresentada na corte real – falou. – É difícil arranj ar isso?

– Nem um pouco – respondeu ele. – Pelo m enos, não para a m inha fam ília. E não para alguém tão bonita quanto você. – Ele inclinou a cabeça ansiosam ente na sua direção.

Ela se afastou.

– Você faria isso por m im ? Daria um j eito de eu ser apresentada?

– Claro.

Ela chegou m ais perto e pôde sentir a ereção na calça dele. Não, pensou, ele não prefere rapazes.

– Prom ete? – pediu.

– Prom eto – respondeu ele, ofegante.

– Obrigada – disse Daisy e então deixou que ele a beij asse.