Inverno do Mundo

Ken Follett · Capítulo 21 de 153

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Inverno do Mundo

Capítulo três

 

1936

 

Era um a tarde ensolarada de m aio de 1936, um sábado – Lloy d William s estava no final de seu segundo ano em Cam bridge –, quando a cabeça im unda do fascism o despontou entre os claustros de pedra branca da antiquíssim a universidade.

Lloy d cursava Letras Modernas no Em m anuel College – conhecido com o “Em m a”. Estudava francês e alem ão, m as preferia o alem ão. Enquanto m ergulhava nas glórias da cultura germ ânica e lia Goethe, Schiller, Heine e Thom as Mann, ocasionalm ente erguia a cabeça de sua m esa na biblioteca silenciosa para observar com tristeza a atual derrocada alem ã rum o à barbárie.

Então o braço local da União Britânica de Fascistas anunciou que seu líder, Sir Oswald Mosley, faria um com ício em Cam bridge. A notícia fez Lloy d se lem brar de Berlim , três anos antes. Tornou a ver os violentos cam isas-pardas vandalizando a redação da revista em que Maud von Ulrich trabalhava. Ouviu m ais um a vez o som rascante da voz cheia de ódio de Hitler quando, em seu discurso no Parlam ento, o líder alem ão havia desprezado a dem ocracia. Estrem eceu com a lem brança dos focinhos suj os de sangue dos pastores-alem ães que haviam dilacerado Jörg com a cabeça enfiada num balde.

Agora estava em pé na plataform a da estação de Cam bridge, esperando a m ãe, que viria no trem de Londres. Ao seu lado estava Ruby Carter, sua colega ativista no Partido Trabalhista local. Ela o aj udara a organizar a reunião daquele dia para debater “A verdade sobre o fascism o”. Eth Leckwith, m ãe de Lloy d, faria um discurso. Seu livro sobre a Alem anha tinha sido um grande sucesso. Ela se candidatara outra vez a um a vaga no Parlam ento nas eleições de 1935, e era novam ente deputada por Aldgate.

Lloy d estava tenso com a reunião. O novo partido político de Mosley tinha conquistado m ilhares de m em bros, em parte por causa do entusiástico apoio do j ornal Daily Mail, autor da infam e m anchete “Viva os cam isas-negras!”. Mosley era um orador carism ático e sem dúvida recrutaria novos m em bros no com ício desse dia. Era fundam ental que houvesse um farol de razão para contrastar com suas m entiras sedutoras.

Ruby , porém , não parava de falar, anim ada, reclam ando da vida social de Cam bridge.

– Estou tão entediada com os rapazes daqui. Tudo que eles querem fazer é ir ao pub se em bebedar.

Lloy d ficou espantado. Achava que Ruby tivesse um a vida social bem agitada. Ela usava roupas baratas sem pre um pouco apertadas, destacando suas curvas cheinhas. A m aioria dos hom ens devia considerá-la atraente, pensou.

– O que você gosta de fazer? – perguntou ele. – Além de organizar reuniões do Partido Trabalhista?

– Adoro dançar.

– Im agino que não faltem parceiros. Aqui na universidade há 12 hom ens para cada m ulher.

– Sem querer ofender, quase todos os universitários são bichas.

Lloy d sabia que havia m uitos hom ossexuais em Cam bridge, m as ficou espantado ao ouvi-la m encionar o fato. Ruby era fam osa por ser direta, m as aquilo era chocante, m esm o vindo dela. Não soube o que responder, por isso ficou calado.

– Você não é um deles, é? – perguntou Ruby .

– Não! Deixe de ser ridícula.

– Não precisa ficar ofendido. Tirando esse nariz achatado, você é bonito o bastante para ser bicha.

Ele riu.

– Isso é que é um elogio torto!

– Mas você é, m esm o. Parece o Douglas Fairbanks Junior.

– Bem , obrigado, m as não sou bicha.

– Você tem nam orada?

Aquilo estava ficando constrangedor.

– No m om ento, não. – Ele disfarçou olhando para o relógio e espichando os olhos à procura do trem .

– Por que não?

– Ainda não conheci a garota certa.

– Ah, m uito obrigada pela parte que m e toca.

Ele olhou para ela. Viu que sua brincadeira tinha um fundo de verdade e ficou arrasado por ela ter levado o com entário para o lado pessoal.

– Eu não quis dizer...

– Quis, sim . Mas tudo bem . O trem está chegando.

A locom otiva entrou na estação e parou em m eio a um a nuvem de vapor. As portas se abriram e os passageiros saltaram para a plataform a: universitários de paletó de tweed, m ulheres de agricultores indo às com pras, operários usando boinas chatas. Lloy d vasculhou a m ultidão com os olhos em busca da m ãe.

– Ela deve ter vindo no vagão da terceira classe – falou. – Questão de princípios.

– Quer ir à m inha festa de 21 anos? – perguntou Ruby .

– Claro.

– Minha am iga aluga um pequeno apartam ento na Market Street, e a senhoria dela é surda.

Lloy d não estava à vontade com aquele convite e hesitou antes de responder. Então sua m ãe apareceu, toda bonita com um sobretudo verm elho de verão e um pequeno chapéu elegante. Ela abraçou e beij ou o filho.

– Você parece m uito bem , m eu lindo – falou. – Mas preciso lhe com prar um terno novo para o próxim o sem estre.

– Este aqui está bom , Mam .

Lloy d tinha um a bolsa de estudos que cobria os gastos com a faculdade e as despesas básicas de custo de vida, m as não era o bastante para com prar ternos. Quando com eçara a estudar em Cam bridge, sua m ãe havia usado parte de suas econom ias para lhe com prar um terno para o dia, de tweed, e outro para a noite, para j antares form ais. Ele usara o de tweed todos os dias durante dois anos e isso era notório. Era um rapaz m eticuloso com a própria aparência e sem pre se certificava de estar com um a cam isa lim pa, um a gravata com um nó perfeito e um lenço branco dobrado no bolso da frente do paletó: devia haver algum dândi entre os seus antepassados. Apesar de bem -passado, o terno com eçava a parecer surrado e, na verdade, ele ansiava por um novo, m as não queria que a m ãe gastasse as econom ias.

– Vam os ver – disse ela. Virando-se para Ruby, deu um sorriso caloroso e estendeu a m ão. – Eu sou Eth Leckwith – falou, com a m esm a graça descontraída de um a duquesa.

– Prazer em conhecê-la. Ruby Carter.

– Você tam bém estuda aqui, Ruby ?

– Não, sou criada em Chim bleigh, um a grande propriedade rural. – Ruby pareceu um pouco envergonhada ao fazer essa confissão. – Fica a oito quilôm etros da cidade, m as geralm ente consigo um a bicicleta em prestada.

– Que interessante! – exclam ou Ethel. – Quando eu tinha a sua idade, era criada em um a propriedade rural no País de Gales.

Ruby ficou surpresa.

– Criada? A senhora? E hoj e é deputada?

– É isso que significa dem ocracia.

– Ruby e eu organizam os j untos a reunião de hoj e – disse Lloy d.

– E com o vão as coisas? – perguntou-lhe a m ãe.

– Ingressos esgotados. Na verdade, tivem os que nos m udar para um a sala m aior.

– Eu lhe disse que daria certo.

A reunião tinha sido ideia de Ethel. Ruby Carter e m uitos outros m em bros do Partido Trabalhista queriam organizar um a passeata de protesto pela cidade. De início, Lloy d havia concordado.

– É preciso se opor publicam ente ao fascism o sem pre que houver oportunidade – dissera ele.

Mas Ethel os aconselhara a fazer outra coisa.

– Se sairm os em passeata gritando palavras de ordem , ficarem os iguaizinhos a eles – argum entara. – Vocês precisam m ostrar que som os diferentes. Organizem um a reunião discreta e inteligente para discutir a realidade do fascism o. – Lloy d se m ostrara cético. – Eu posso ir aí para fazer um discurso, se vocês quiserem – oferecera-se Ethel.

Lloy d apresentara a sugestão ao partido em Cam bridge. Seguira-se um debate acalorado no qual Ruby havia liderado a oposição ao plano de Ethel. No final das contas, porém , a perspectiva de ter um a deputada e fem inista fam osa discursando na reunião falou m ais alto.

Lloy d ainda não tinha certeza de que essa fora a m elhor decisão. Lem brou-se de Maud von Ulrich em Berlim dizendo: “Não podemos reagir à violência com violência.” Essa fora a política adotada pelo Partido Social-Dem ocrata alem ão. Para a fam ília Von Ulrich e para a Alem anha, essa política tinha se revelado um a tragédia.

Os três saíram pelos arcos de tij olos am arelos em estilo rom ânico da estação e seguiram apressados pela arborizada Station Road, um a rua de confortáveis residências de classe m édia construídas com o m esm o tij olo am arelo. Ethel deu o braço a Lloy d e perguntou:

– Mas então, com o tem passado m eu pequeno estudante?

Lloy d sorriu ao ouvir a palavra “pequeno”. Ele era dez centím etros m ais alto que a m ãe, além de m usculoso, por causa dos treinos com a equipe de boxe da universidade: seria capaz de erguê-la do chão usando apenas um a das m ãos. Ele sabia que Ethel não cabia em si de tanto orgulho. Poucas coisas na vida tinham lhe dado tanta alegria quanto vê-lo estudar em Cam bridge. Era provavelm ente por isso que ela queria lhe com prar ternos.

– Você sabe que eu adoro isto aqui – respondeu ele. – Vou adorar m ais ainda quando a universidade estiver cheia de rapazes da classe trabalhadora.

– E m oças – em endou Ruby .

Eles dobraram na Hills Road, a rua principal, que conduzia ao centro da cidade. Desde a inauguração da ferrovia, a cidade havia se expandido para o sul, em direção à estação, e igrej as haviam surgido ao longo da Hills Road para atender ao novo subúrbio. Seu destino era um a capela batista cuj o pastor, um esquerdista, concordara em ceder o salão sem custo.

– Eu fiz um acordo com os fascistas – disse Lloy d. – Falei que não faríam os a passeata se eles prom etessem a m esm a coisa.

– Fico surpresa por eles terem concordado – disse Ethel. – Fascistas adoram um a passeata.

– Eles relutaram . Mas avisei às autoridades da universidade e à polícia o que estava propondo e os fascistas de certa form a foram obrigados a aceitar.

– Você foi esperto.

– Mas, Mam , você não vai acreditar quem é o líder deles aqui. O visconde de Aberowen... m ais conhecido com o Boy Fitzherbert, filho do conde Fitzherbert, seu antigo patrão! – Boy tinha 21 anos, m esm a idade de Lloy d, e estudava no Trinity College, a faculdade m ais aristocrática da Universidade de Cam bridge.

– O quê? Meu Deus!

Sua m ãe pareceu m ais abalada do que ele esperava, e Lloy d a olhou de relance. Ethel estava pálida.

– Ficou chocada?

– Fiquei! – Ela então pareceu recobrar a com postura. – O pai dele tem um cargo adj unto no Ministério das Relações Exteriores. – O governo era um a coalizão dom inada pelos conservadores. – Fitz deve estar constrangido.

– Im agino que m uitos conservadores sej am tolerantes com o fascism o. Eles não consideram tão errado assim m atar com unistas e perseguir j udeus.

– Alguns deles, talvez, m as você está exagerando. – Ela olhou para Lloy d de viés. – Quer dizer então que você foi falar com Boy ?

– Fui. – Lloy d achou que aquilo parecia ter um significado especial para Ethel, m as não conseguiu im aginar qual seria. – Achei-o terrível. Ele tinha um a caixa inteira de uísque escocês no quarto dele no Trinity ... doze garrafas!

– Você j á o encontrou um a vez, lem bra?

– Não. Quando foi isso?

– Você tinha 9 anos. Eu o levei ao Palácio de Westm inster pouco depois de ser eleita. Cruzam os com Fitz e Boy na escada.

Lloy d se lem brava m ais ou m enos. Assim com o agora, o incidente daquela época tam bém parecia estranham ente im portante para sua m ãe.

– Era ele? Que engraçado.

– Eu o conheço – interveio Ruby . – Ele é noj ento. Vive passando a m ão nas criadas.

Lloy d ficou chocado, m as sua m ãe não pareceu espantada.

– Isso é bem desagradável, m as acontece o tem po todo. – Aquele conform ism o som brio fez tudo lhe parecer ainda m ais horripilante.

Os três chegaram à capela e entraram pela porta dos fundos. Ali, num a espécie de sacristia, estava Robert von Ulrich, com um a aparência surpreendentem ente britânica: terno vistoso quadriculado de verde e m arrom e gravata listrada. Ele se levantou e Ethel lhe deu um abraço.

– Ethel, querida, que chapéu m ais encantador – disse Robert em um inglês im pecável.

Lloy d apresentou a m ãe às m ulheres do Partido Trabalhista local, que preparavam j arras de chá e pratos de biscoito para servir após a reunião. Com o j á tinha ouvido Ethel reclam ar m uitas vezes que as pessoas que organizavam eventos políticos pareciam crer que os deputados nunca precisavam usar o banheiro, falou:

– Ruby, antes de com eçarm os, pode m ostrar à m inha m ãe onde fica o toalete fem inino? – As duas se afastaram .

Lloy d sentou-se ao lado de Robert e, em tom casual, perguntou:

– Com o vão os negócios?

Robert era agora dono de um restaurante m uito popular entre os hom ossexuais dos quais Ruby reclam ara m ais cedo. Por algum m otivo, intuíra que a Cam bridge dos anos 1930 sim patizava tanto com hom ens assim quanto a Berlim dos anos 1920. Seu novo restaurante tinha o m esm o nom e do antigo, Bistrô Robert.

– Os negócios vão bem – respondeu ele. Um a som bra cruzou seu sem blante: um a breve porém intensa expressão de m edo. – Desta vez espero poder m anter o que construí.

– Estam os fazendo todo o possível para com bater os fascistas e reuniões com o esta são o m elhor j eito de conseguir isso – disse Lloy d. – O seu discurso vai aj udar m uito... vai abrir os olhos das pessoas. – Robert iria falar sobre a sua experiência pessoal de viver sob o fascism o. – Muitos dizem que isso não poderia acontecer aqui, m as estão errados.

Robert concordou com a cabeça, m uito sério.

– O fascism o é um a m entira, m as um a m entira sedutora.

A visita de Lloy d a Berlim três anos antes ainda era um a lem brança vívida.

– Frequentem ente m e pergunto o que terá acontecido com o antigo Bistrô Robert – disse ele.

– Recebi um a carta de um am igo – respondeu Robert com a voz cheia de tristeza. – Ninguém do antigo pessoal frequenta m ais o restaurante. Os irm ãos Macke leiloaram a adega. A clientela agora é quase toda de policiais e burocratas de m édio escalão. – Com um tom ainda m ais sofrido, acrescentou: – Eles nem usam m ais toalhas de m esa. – Então m udou de assunto abruptam ente: – Você quer ir ao baile do Trinity ?

A m aioria das faculdades tinha bailes de verão para com em orar o fim das provas. Esses bailes, som ados a festas e piqueniques sem elhantes, constituíam a Sem ana de Maio, que, em total contrassenso, sem pre acontecia em j unho. O baile do Trinity era fam oso por seu luxo.

– Adoraria, m as não tenho dinheiro – respondeu Lloy d. – Os ingressos custam dois guinéus, não é?

– Eu ganhei um . Mas pode ficar com ele. Na verdade, um bando de universitários bêbados dançando ao som de um a banda de j azz para m im é a visão do inferno.

Lloy d sentiu-se tentado.

– Mas não tenho casaca. – Os bailes universitários exigiam casaca e gravata-borboleta branca.

– Pode pegar a m inha em prestada. Vai ficar grande na cintura, m as tem os a m esm a altura.

– Nesse caso, eu aceito. Obrigado!

Ruby voltou.

– Sua m ãe é incrível – disse a Lloy d. – Não sabia que ela havia trabalhado com o criada!

– Conheço Ethel há m ais de vinte anos – disse Robert. – Ela é m esm o extraordinária.

– Agora entendo por que você não encontrou a garota certa – disse Ruby a Lloy d. – Está procurando alguém com o ela, e não há m uitas por aí.

– Pelo m enos quanto a isto você tem razão: não existe ninguém com o ela – concordou Lloy d.

Ruby fez um a careta, com o se estivesse sentindo dor.

– O que houve? – perguntou Lloy d.

– Dor de dente.

– Você precisa ir ao dentista.

Ela o olhou com o se ele tivesse acabado de dizer algum a coisa estúpida e Lloy d se deu conta de que, com seu salário de criada, ela não podia se dar ao luxo de pagar um dentista. Sentiu-se tolo.

Foi até a porta e espiou para dentro do salão principal. Com o em m uitas igrej as protestantes não anglicanas, o local de culto era um recinto sim ples e retangular, com paredes pintadas de branco. Fazia calor e as j anelas de vidro transparente tinham sido abertas. As filas de cadeiras estavam cheias de gente, que aguardava com grande expectativa.

Quando Ethel reapareceu, Lloy d disse:

– Se todos estiverem de acordo, vou dar início à reunião. Em seguida Robert vai contar sua história e depois m inha m ãe vai apontar as lições políticas que podem ser tiradas.

Todos concordaram .

– Ruby , pode ficar de olho nos fascistas? Avise-m e se acontecer algum a coisa.

Ethel franziu o cenho.

– É m esm o necessário?

– Provavelm ente não deveríam os confiar que eles vão m anter a prom essa.

– Eles m arcaram um a reunião nesta m esm a rua, uns 500 m etros m ais acim a – disse Ruby. – Não m e im porto de ficar indo e vindo.

Ela saiu pela porta dos fundos e Lloy d conduziu os outros para dentro da sala de culto. Não havia tablado, m as no final da sala estavam dispostas um a m esa e três cadeiras, com um atril ao lado. Enquanto Ethel e Robert se acom odavam , Lloy d foi até o atril. Ouviram -se aplausos discretos.

– O fascism o está em m archa – com eçou Lloy d. – E ele é perigosam ente sedutor. Dá falsas esperanças aos desem pregados. Ostenta um patriotism o espúrio e os próprios fascistas usam im itações de uniform es m ilitares.

Para consternação de Lloy d, o governo britânico vinha se m ostrando disposto a conduzir um a política de conciliação em relação aos regim es fascistas. O atual governo era um a coalizão dom inada por conservadores, com alguns liberais e um punhado de m inistros trabalhistas renegados que haviam se afastado de seu partido de origem . Poucos dias depois de reeleito, em novem bro, o m inistro das Relações Exteriores propusera ceder grande parte da Abissínia aos conquistadores italianos e seu líder fascista, Benito Mussolini.

Pior ainda: a Alem anha estava se rearm ando e se m ostrava belicosa. Poucos m eses antes, Hitler violara o Tratado de Versalhes enviando soldados para a Renânia desm ilitarizada – e Lloy d ficara horrorizado ao constatar que nenhum país se m ostrara disposto a detê-lo.

Qualquer esperança de que o fascism o fosse apenas um a aberração tem porária havia desaparecido. Lloy d acreditava que os países dem ocráticos, com o França e Inglaterra, precisavam se preparar para lutar. No entanto, não disse isso no discurso desse dia, pois sua m ãe, assim com o a m aioria do Partido Trabalhista, era contrária a um a intensificação arm am entista na Grã-Bretanha e esperava que a Liga das Nações conseguisse lidar com os ditadores. Seu desej o era evitar a todo custo um a repetição da terrível carnificina da Grande Guerra. Lloy d se identificava com essa esperança, m as tem ia que ela não fosse realista.

Ele m esm o j á estava se preparando para a guerra. Tinha sido cadete na escola e, ao ir para Cam bridge, entrara para o Curso de Form ação de Oficiais da universidade – era o único rapaz de classe trabalhadora no curso e certam ente o único m em bro do Partido Trabalhista.

Lloy d se sentou sob aplausos com edidos. Era um orador claro, lógico, m as não tinha a capacidade da m ãe de tocar corações – pelo m enos não ainda.

Robert subiu ao atril.

– Sou austríaco – falou. – Durante a guerra, fui ferido, capturado pelos russos e m andado para um cam po de prisioneiros na Sibéria. Depois que os bolcheviques se reconciliaram com as Potências Centrais, os guardas abriram os portões e nos disseram que estávam os livres para ir em bora. Voltar para casa era problem a nosso, não deles. O cam inho da Sibéria até a Áustria é longo: quase cinco m il quilôm etros. Não havia ônibus, por isso fui a pé.

Risadas surpresas percorreram a sala, seguidas de alguns aplausos de adm iração. Lloy d viu que Robert j á havia encantado a plateia.

Ruby se aproxim ou dele com ar contrariado e falou em seu ouvido:

– Os fascistas acabaram de passar. Boy Fitzherbert estava conduzindo Mosley até a estação, e um bando de esquentadinhos vestindo cam isa preta corria atrás do carro dando vivas.

Lloy d franziu o cenho.

– Eles prom eteram que não fariam um a passeata. Im agino que vão alegar que correr atrás de um carro não conta.

– Que diferença faz?

– Algum a violência?

– Não.

– Fique de olho.

Ruby saiu. Lloy d estava preocupado. Em bora não tivessem desrespeitado o acordo em si, sem dúvida tinham desrespeitado sua essência. Haviam saído à rua de uniform e – e nenhum a outra passeata lhes fizera frente. Os socialistas estavam ali, dentro da igrej a, invisíveis. A única coisa que dem onstrava publicam ente suas opiniões era um a faixa em frente à igrej a que dizia, em letras verm elhas garrafais: “A verdade sobre o fascism o”.

Robert estava falando:

– Estou feliz por estar aqui, honrado por ter sido convidado a falar para vocês e encantado em ver na plateia vários clientes do Bistrô Robert. Mas preciso lhes avisar que a história que tenho para contar é m uito desagradável. Pavorosa, na verdade.

Então relatou com o ele e Jörg tinham sido presos após se recusarem a vender o restaurante de Berlim para um nazista. Descreveu Jörg com o seu chef de cozinha e sócio de longa data, sem m encionar seu relacionam ento íntim o, em bora as pessoas m ais sagazes da plateia provavelm ente devam ter adivinhado.

O público se calou quando ele com eçou a descrever os acontecim entos no cam po de concentração. Lloy d ouviu arquej os de horror quando Robert chegou à parte dos cães. Robert narrou a tortura de Jörg com um a voz grave e lím pida, que inundou a sala. Quando chegou à m orte de Jörg, vários ouvintes j á estavam chorando.

O próprio Lloy d reviveu a crueldade e a angústia daqueles m om entos e foi tom ado por um a súbita raiva, raiva de idiotas com o Boy Fitzherbert, cuj a paixão por m archas e uniform es elegantes am eaçava levar aquele m esm o torm ento à Inglaterra.

Robert sentou-se e Ethel foi até o atril. Quando ela estava com eçando a falar, Ruby reapareceu, dessa vez com um a expressão furiosa.

– Eu disse a você que isso não iria funcionar! – sibilou ela no ouvido de Lloy d. – Mosley foi em bora, m as os rapazes estão cantando “Rule Britannia” do lado de fora da estação.

Aquilo sem dúvida era um a violação do acordo, pensou Lloy d, zangado. Boy havia quebrado sua prom essa. Com o valia pouco a palavra de um nobre inglês.

Ethel agora explicava com o o fascism o oferecia soluções falsas, usando a estratégia sim plista de culpar grupos com o j udeus e com unistas por problem as com plexos, com o o desem prego e a crim inalidade. Zom bou im piedosam ente do conceito de triunfo da vontade, com parando o Führer e o Duce a valentões de escola. Eles clam avam por apoio popular, m as baniam qualquer oposição.

Lloy d então se deu conta de que, quando os fascistas voltassem da estação de trem para o centro da cidade, teriam que passar por aquela igrej a. Com eçou a prestar atenção nos sons vindos das j anelas abertas. Podia ouvir carros e cam inhões passarem rugindo pela Hills Road, pontuados de vez em quando pelo tilintar de um a sineta de bicicleta ou pelo choro de um a criança. Pensou ter ouvido um grito distante, e o som era preocupantem ente parecido com o de rapazes desordeiros ainda j ovens o bastante para sentir orgulho das vozes de adulto recém -adquiridas. Retesou o corpo, aguçando os ouvidos, e então escutou novos gritos. Os fascistas estavam m archando.

À m edida que o alarido na rua aum entava, Ethel tam bém ergueu a voz. Argum entou que trabalhadores de todos os tipos precisavam se unir em sindicatos e no Partido Trabalhista para construir um a sociedade m ais j usta, passo a passo e dem ocraticam ente, e não por m eio do m esm o tipo de perturbação violenta que j á dera tão errado na Rússia com unista e na Alem anha nazista.

Ruby tornou a entrar.

– Eles estão m archando pela Hills Road – disse ela, com um sussurro baixo e urgente. – Tem os que sair e confrontá-los!

– Não! – sussurrou Lloy d. – O partido tom ou um a decisão coletiva: não haverá passeatas. Tem os que respeitar isso. Precisam os ser um m ovim ento disciplinado! – Ele sabia que a referência à disciplina partidária surtiria efeito na colega.

Os fascistas agora estavam bem próxim os, cantando a plenos pulm ões. Lloy d calculou que fossem uns cinquenta ou sessenta. Estava se coçando para ir lá fora enfrentá-los. Dois rapazes no fundo da sala se levantaram e foram até as j anelas espiar. Ethel pediu cautela.

– Não reaj am ao vandalism o transform ando-se em vândalos – disse ela. – Isso apenas dará aos j ornais um pretexto para dizer que um lado é tão ruim quanto o outro.