Inverno do Mundo
Capítulo II
Não pretendia ser dram ática, m as Maud não se aguentou. Seu queixo caiu e ela curvou o corpo para a frente, sacudida por soluços terríveis. Recobrou-se o suficiente para um a única palavra.
– Desculpe. – Então tornou a se contorcer de desespero. – Ah, Walter, m eu Walter... – dizia ela, aos prantos.
Depois de algum tem po, seu choro cessou.
– Desculpe – repetiu ela. – Não tive a intenção de fazer dram a. – Ela enxugou o rosto com a m anga da blusa. – Só queria que o seu pai pudesse ver o m enino. É tudo tão inj usto.
Ada surpreendeu as duas ao citar o Livro de Jó:
– “O Senhor deu, o Senhor tirou” – disse a em pregada. – “Bendito sej a o nom e do Senhor.”
Carla não acreditava em Deus – nenhum ser sagrado teria perm itido a existência dos cam pos de exterm ínio dos nazistas –, m as m esm o assim a citação a reconfortou. A frase falava sobre aceitar tudo o que a vida com portava, inclusive a dor do parto e a tristeza da m orte. Maud tam bém pareceu gostar do significado daquelas palavras e se acalm ou.
Carla fitou o bebê Walter com adoração. Jurou cuidar dele, dar-lhe de com er e m antê-lo aquecido, quaisquer que fossem as dificuldades pelo cam inho. Era a criança m ais m aravilhosa que j á havia nascido, e ela iria am á-lo e adorá-lo para sem pre.
O m enino acordou e Carla tornou a lhe dar o seio. Sob o olhar atento das quatro m ulheres, ele m am ou com vontade, fazendo barulhinhos de sucção. Durante algum tem po não se pôde ouvir nenhum outro barulho na cozinha quente e m al-ilum inada.
II
O prim eiro discurso de um novo m em bro do Parlam ento é conhecido com o discurso de estreia, e geralm ente é m açante. Determ inadas coisas precisam ser ditas, lança-se m ão de frases feitas, e o acordo tácito é que o tem a não sej a controverso. Colegas e adversários parabenizam o recém -chegado, tradições são observadas e quebra-se o gelo inicial.
Lloy d William s fez seu prim eiro discurso de verdade alguns m eses depois, durante o debate sobre a Lei Nacional da Seguridade Social. Foi bem m ais assustador que o discurso de estreia.
Ao prepará-lo, pensou em dois oradores. Seu avô, Dai William s, usava a linguagem e os ritm os da Bíblia, não só na capela, m as tam bém – e talvez especialm ente – ao falar sobre as dificuldades e a inj ustiça da vida de um m ineiro. Gostava de usar palavras curtas e cheias de significado: labuta, pecado, cobiça. Falava sobre o lar, a m ina e a m orte.
Churchill fazia o m esm o, m as tinha o hum or que faltava a Dai William s. Suas frases longas e m aj estosas m uitas vezes se encerravam com um a im agem inesperada ou um a inversão de significado. Durante a greve geral de 1926, quando era editor do The British Gazette, o j ornal do governo, ele alertara os sindicalistas: “Que não reste nenhum a dúvida na m ente de vocês: se algum dia soltarem para cim a de nós outra greve geral, vam os soltar para cim a de vocês outro British Gazette.” Na opinião de Lloy d, um discurso precisava de surpresas desse tipo; elas eram as passas que davam graça ao bolo.
Quando se levantou para falar, porém , constatou que suas frases cuidadosam ente construídas pareciam irreais. Ficou claro que o público pensava a m esm a coisa, e ele pôde sentir que os cinquenta ou sessenta deputados presentes no plenário ouviam sem prestar atenção. Por um instante sentiu pânico: com o podia ser m açante falando sobre um assunto que tinha tanta im portância para as pessoas que representava?
No prim eiro banco dos deputados do governo, viu a m ãe, agora m inistra-adj unta da Educação, e seu tio Billy, m inistro-adj unto do Carvão. Sabia que Billy William s tinha com eçado a trabalhar na m ina aos 13 anos. Ethel tinha a m esm a idade quando com eçou a esfregar os pisos de Tŷ Gwy n. Aquele debate não era sobre frases bonitas: era sobre suas vidas.
Um m inuto depois de com eçar, Lloy d abandonou o roteiro e com eçou a im provisar. Recordou a m iséria das fam ílias da classe trabalhadora em pobrecidas pelo desem prego ou por acidentes de trabalho, cenas que testem unhara em prim eira m ão no East End londrino e nas m inas de carvão de Gales do Sul. Sua voz transm itiu sua em oção e isso lhe causou certo em baraço, m as ele prosseguiu. Constatou que o público com eçava a prestar atenção. Falou sobre o avô e os outros hom ens que haviam criado o m ovim ento trabalhista com o sonho de um seguro-desem prego abrangente, que banisse para sem pre o tem or da privação. Quando se sentou, um rugido de aprovação tom ou conta da plateia.
Na galeria de visitantes, sua m ulher Daisy deu um sorriso orgulhoso e ergueu o polegar para ele.
Lloy d ouviu o restante do debate envolto por um a aura de satisfação. Sentia que havia passado em seu prim eiro teste de verdade com o deputado.
Depois da sessão, no lobby, foi abordado por um “chicote” trabalhista, um dos deputados da bancada do partido responsável por garantir que todos votassem com o deveriam . Depois de parabenizar Lloy d pelo discurso, o chicote perguntou:
– O senhor gostaria de ser secretário parlam entar particular?
Lloy d logo se anim ou. Cada m inistro e m inistro-adj unto tinha pelo m enos um secretário parlam entar. Na verdade, seu papel m uitas vezes era apenas carregar a pasta do m inistro, m as em geral o cargo era o prim eiro degrau a cam inho de um a nom eação m inisterial.
– Seria um a honra – respondeu Lloy d. – Com quem eu iria trabalhar?
– Ernie Bevin.
Lloy d m al pôde acreditar na própria sorte. Ministro das Relações Exteriores, Bevin era tam bém o colega m ais próxim o do prim eiro-m inistro Attlee. A relação estreita entre os dois era um a prova de que os opostos se atraem . Attlee pertencia à classe m édia: filho de advogado, form ado em Oxford, oficial na Prim eira Guerra. Bevin, por sua vez, era filho ilegítim o de um a em pregada dom éstica, não conhecia o pai, com eçara a trabalhar aos 11 anos e fundara o gigantesco Sindicato dos Trabalhadores Gerais e dos Transportes. Os dois tam bém eram opostos no aspecto físico: Attlee era esbelto e elegante, discreto, solene; Bevin era um hom em im enso, alto, forte e acim a do peso, dono de um a sonora risada. O m inistro das Relações Exteriores cham ava o prim eiro-m inistro de “pequeno Clem ”. Apesar de tudo, eram fortes aliados.
Bevin era um herói para Lloy d e para m ilhões de britânicos com uns.
– Nada m e daria m ais satisfação – disse ele. – Mas Bevin j á não tem um secretário parlam entar?
– Ele precisa de dois – respondeu o chicote. – Apresente-se no Ministério das Relações Exteriores am anhã às nove horas, e j á pode com eçar.
– Obrigado!
Lloy d seguiu apressado pelo corredor revestido de painéis de carvalho em direção à sala da m ãe. Tinha com binado encontrar Daisy lá depois do debate.
– Mam ! – falou ao entrar. – Fui nom eado secretário parlam entar de Ernie Bevin!
Então viu que Ethel não estava sozinha. O conde Fitzherbert estava na sala com ela.
Fitz encarou Lloy d com um a m istura de surpresa e desagrado.
Mesm o chocado, Lloy d reparou que o pai usava um terno cinza-claro de corte perfeito, com um colete de abotoam ento duplo.
Tornou a olhar para a m ãe. Ethel estava m uito tranquila. O encontro não era um a surpresa. Ela própria devia ter planej ado aquilo.
O conde chegou à m esm a conclusão.
– Que diabo é isto, Ethel? – perguntou.
Lloy d exam inou com atenção o hom em cuj o sangue corria em suas veias. Mesm o naquela situação constrangedora, Fitz continuava altivo e digno. Era bonito, apesar da pálpebra caída por conta de ferim entos na batalha do Som m e. Andava apoiado num a bengala, outra sequela da guerra. A poucos m eses de com pletar 60 anos, tinha um a aparência im pecável: cabelos grisalhos cortados à perfeição, gravata prateada am arrada com um nó firm e, sapatos pretos reluzentes. Lloy d tam bém gostava de andar arrum ado. Foi a ele que puxei, pensou.
Ethel postou-se ao lado de Fitz. Lloy d conhecia a m ãe bem o suficiente para entender a m anobra. Quando queria convencer um hom em , m uitas vezes usava seu charm e. Mesm o assim , não gostou de vê-la ser tão calorosa com alguém que havia se aproveitado dela e a abandonara.
– Fiquei m uito triste ao saber da m orte de Boy – disse ela a Fitz. – Não há nada tão precioso quanto os filhos, não é?
– Tenho que ir – retrucou Fitz.
Até aquele m om ento, Lloy d só tivera encontros passageiros com o pai. Nunca passara tanto tem po assim com ele, nem o escutara dizer tantas palavras. Apesar de pouco à vontade, estava fascinado. Por m ais m al-hum orado que estivesse, Fitz tinha um a espécie de aura.
– Por favor, Fitz – pediu Ethel. – Você tem um filho que nunca assum iu... um filho de quem deveria se orgulhar.
– Ethel, você não deveria fazer isso – disse Fitz. – Um hom em tem o direito de esquecer os erros da j uventude.
Lloy d se retraiu de constrangim ento, m as sua m ãe insistiu:
– Por que você quer esquecer? Sei que Lloy d foi um erro, m as olhe para ele agora: um deputado que acaba de fazer um discurso em polgante e ser nom eado secretário parlam entar do m inistro das Relações Exteriores.
Fitz fez questão de não olhar para Lloy d.
– Você quer fingir que nosso caso não teve im portância – continuou Ethel –, m as no fundo sabe a verdade. Sim , nós éram os j ovens e tolos, e fogosos tam bém ... Tanto eu quanto você. Mas nos am am os. Nós nos am am os de verdade, Fitz. Você deveria reconhecer isso. Por acaso não sabe que, quando nega a verdade sobre si m esm o, perde a alm a?
Lloy d viu que a expressão de Fitz agora j á não era sim plesm ente im passível. Ele estava se esforçando para m anter o controle. Entendeu que a m ãe tinha posto o dedo em sua ferida. O problem a principal não era o fato de Fitz sentir vergonha de ter um filho ilegítim o. Ele era orgulhoso dem ais para aceitar que havia am ado um a em pregada. Provavelm ente am ara Ethel m ais do que a própria esposa, pensou Lloy d. E isso perturbava todas as suas crenças m ais arraigadas em relação à hierarquia social.
Lloy d então se m anifestou pela prim eira vez:
– Estive com Boy nos últim os instantes, senhor. Ele teve um a m orte coraj osa.
Pela prim eira vez tam bém , Fitz o encarou.
– O m eu filho não precisa da sua aprovação – falou.
A frase foi com o um tapa na cara.
Até Ethel ficou chocada.
– Fitz! – exclam ou ela. – Com o você pode ser tão cruel?
Nesse m om ento, Daisy entrou na sala.
– Olá, Fitz! – disse ela, j ovial. – Você deve ter achado que tinha se livrado de m im , m as agora é m eu sogro outra vez. Não é engraçado?
– Estou tentando convencer Fitz a apertar a m ão de Lloy d – disse Ethel.
– Em geral tento evitar apertar a m ão de socialistas – retrucou Fitz.
Ethel estava travando um a batalha perdida, m as não iria desistir.
– Vej a só com o ele lem bra você! São parecidos, se vestem da m esm a m aneira, têm o m esm o interesse por política... provavelm ente Lloy d vai acabar virando m inistro das Relações Exteriores, cargo que você sem pre quis ocupar!
A expressão de Fitz tornou-se ainda m ais fechada.
– Agora é bem im provável que eu algum dia m e torne m inistro das Relações Exteriores. – Ele foi até a porta. – E não ficaria nada satisfeito se esse grande posto do governo fosse ocupado pelo m eu bastardo bolchevique! – Então saiu da sala.
Ethel com eçou a chorar.
Daisy abraçou Lloy d.
– Sinto m uito – falou.
– Não se preocupe – disse ele. – Não estou chocado nem desapontado. – Não era verdade, m as ele não queria parecer patético. – Já fui rej eitado por ele há m uito tem po. – Ele olhou para Daisy com ar de adoração. – Tenho a sorte de ter m uitas outras pessoas que m e am am .
– A culpa é toda m inha – disse Ethel, chorosa. – Eu não deveria ter pedido a ele que viesse aqui. Deveria saber que o resultado não seria bom .
– Esqueçam isso – falou Daisy . – Tenho boas notícias.
Lloy d sorriu para a m ulher.
– Que notícias?
Daisy olhou para Ethel.
– Está preparada?
– Acho que sim .
– Diga logo – pediu Lloy d. – O que é?
– Nós vam os ter um filho – disse Daisy .