Inverno do Mundo

Ken Follett · Capítulo 138 de 153

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Inverno do Mundo

Capítulo II

De novo o m esm o argum ento, pensou Volody a: a deferência à opinião pública. Já tinha reparado nisso antes na conversa com Woody. Os am ericanos se referiam aos eleitores da m esm a form a que os russos se referiam a Stalin: certos ou errados, tinham que ser obedecidos.

Woody baixou o vidro do carro.

– Você se im porta se eu tirar um a foto da cidade? A luz está incrível.

O obturador da câm era fez um clique.

Ele sabia que, em tese, só podia tirar fotos aprovadas. Mas não havia nada de sensível na rua, apenas algum as m ulheres retirando neve com pás. Mesm o assim , Volody a disse:

– Não, por favor. – Ele se debruçou pela frente de Woody e fechou a j anela. – Só fotos oficiais.

Estava prestes a pedir o film e da m áquina de Woody quando este perguntou:

– Você se lem bra de quando m encionei um am igo cham ado Greg Peshkov?

Volody a se lem brava perfeitam ente. Willi Frunze dissera algo parecido. Devia ser a m esm a pessoa.

– Não, não m e lem bro – m entiu. Não queria nenhum envolvim ento com um possível parente no Ocidente. Esse tipo de vínculo só servia para causar suspeitas e problem as aos russos.

– Ele é m em bro da delegação am ericana. Você deveria conversar com ele. Para ver se são parentes.

– Farei isso – disse Volody a, decidindo evitar o suj eito a qualquer custo.

Resolveu não insistir em confiscar o film e de Woody. Um a inofensiva cena de rua não valia tanta confusão.

Na reunião do dia seguinte, o secretário de Estado am ericano, George Marshall, propôs que os quatro Aliados abolissem os setores separados da Alem anha e unificassem o país a fim de que este voltasse a ser o coração econôm ico da Europa, com suas m inas e fábricas, suas im portações e exportações.

Essa era a últim a coisa que os soviéticos queriam .

Molotov se recusou a discutir a unificação antes de a questão das indenizações ser resolvida.

A conferência chegou a um im passe.

E isso, pensou Volody a, era exatam ente o que Stalin queria.

 

II

O m undo da diplom acia internacional era m inúsculo, pensou Greg Peshkov. Um dos j ovens assessores da delegação britânica presente na conferência de Moscou era Lloy d William s, m arido de sua m eia-irm ã, Daisy. À prim eira vista, Greg não gostou de Lloy d, que se vestia com o um afetado cavalheiro inglês, m as ele acabou se revelando um suj eito norm al.

– Molotov é um babaca – disse Lloy d no bar do Hotel Moskva quando am bos estavam sentados diante de m artínis com vodca.

– Então o que vam os fazer em relação a ele?

– Não sei, m as esses atrasos são inaceitáveis para o Reino Unido. A ocupação da Alem anha está custando um dinheiro que não tem os, e o inverno inclem ente transform ou o problem a em crise.

– Sabe de um a coisa? – disse Greg, refletindo em voz alta. – Se os soviéticos não quiserem participar, deveríam os sim plesm ente tocar as negociações sem eles.

– Mas com o?

– O que nós querem os? – Greg foi enum erando nos dedos: – Unificar a Alem anha e organizar eleições.

– Nós tam bém .

– Elim inar o Reichsm ark inútil e introduzir um a nova m oeda, para que os alem ães possam voltar a fazer com ércio.

– Sim .

– E salvar o país do com unism o.

– Os britânicos querem a m esm a coisa.

– Não podem os fazer isso no leste porque os soviéticos não deixam . Então eles que se danem ! Nós controlam os três quartos da Alem anha... Vam os fazer essas coisas no nosso setor e deixar de lado a parte leste do país.

Lloy d pareceu refletir.

– Você conversou sobre isso com seu chefe?

– Merda, não! Só estou falando da boca para fora. Mas por que não?

– Eu poderia sugerir isso a Ernie Bevin.

– E eu a George Marshall. – Greg tom ou um gole de m artíni. – A única coisa que os russos sabem fazer é vodca – com entou. – Mas com o vai m inha irm ã?

– Está grávida do nosso segundo filho.

– E que tipo de m ãe ela é?

Lloy d riu.

– Você acha que ela deve ser péssim a.

Greg deu de om bros.

– Nunca achei que ela fosse um a m ulher m uito caseira.

– Ela é paciente, calm a e organizada.

– E não contratou seis babás para fazer todo o trabalho?

– Só um a, para poder sair com igo à noite, em geral para reuniões políticas.

– Nossa, com o ela m udou!

– Não com pletam ente. Ainda adora festas. E você? Continua solteiro?

– Tem um a m oça cham ada Nelly Fordham que estou levando bem a sério. E im agino que você j á saiba que tenho um afilhado.

– Sei, sim – respondeu Lloy d. – Daisy m e falou sobre ele. Georgy .

Pela expressão levem ente constrangida no rosto de Lloy d, Greg teve certeza de que ele sabia que Georgy era seu filho.

– Eu gosto m uito dele.

– Que ótim o.

Um m em bro da delegação russa se aproxim ou do bar, e Greg cruzou olhares com ele. Havia algo m uito fam iliar no hom em . Tinha 30 e poucos anos e, tirando os cabelos curtíssim os, estilo m ilitar, era um hom em bonito, dono de olhos azuis levem ente intim idadores. O russo m eneou a cabeça para ele, sim pático, e Greg perguntou:

– Já nos conhecem os?