Inverno do Mundo
Capítulo II
Woody viu que a m ãe estava com dificuldade para se controlar. Tem ia que, se ela chorasse, fosse chorar tam bém .
– Passei um a hora deitado na praia ao lado do corpo dele – contou Eddie. – Não larguei a m ão dele nem por um instante. Então trouxeram um a m aca para m im . Eu não queria ir em bora. Sabia que nunca m ais iria vê-lo. – Ele enterrou o rosto nas m ãos. – Eu o am ava tanto...
Rosa passou o braço em volta de seus om bros largos e lhe deu um abraço. Eddie encostou a cabeça em seu peito e soluçou feito um a criança. Ela acariciou seus cabelos.
– Pronto, pronto – consolou. – Já passou.
Woody percebeu que a m ãe sabia o que Chuck e Eddie eram um para o outro.
Depois de alguns m inutos, o rapaz com eçou a se recuperar. Olhou para Woody .
– Você sabe com o é isso – com entou.
Ele estava se referindo à m orte de Joanne.
– Sei, sim – respondeu Woody. – É a pior coisa do m undo... m as a cada dia que passa dói um pouco m enos.
– Assim espero.
– Você ainda está no Havaí?
– Sim . Chuck e eu trabalham os na unidade de territórios inim igos. Trabalhávam os. – Ele engoliu em seco. – Ele achava que era im portante term os um a ideia m ais clara de com o nossos m apas eram utilizados em com bate. Foi por isso que acom panham os os fuzileiros navais a Bougainville.
– Vocês devem estar fazendo um bom trabalho – disse Woody. – Parece que estam os derrotando os j apas no Pacífico.
– Aos pouquinhos – disse Eddie. Então olhou para o uniform e de Woody. – Onde você está lotado?
– Estava fazendo o treinam ento de paraquedism o em Fort Benning, na Geórgia – respondeu Woody . – Agora estou a cam inho de Londres. Parto am anhã.
Ele olhou para a m ãe. De repente, Rosa lhe pareceu envelhecida. Percebeu que seu rosto estava cheio de rugas. Seu aniversário de 50 anos passara sem alarde. No entanto, pensou Woody, falar sobre a m orte de Chuck na presença de seu outro filho uniform izado devia ter sido um golpe e tanto para ela.
Eddie pareceu não notar.
– Estão dizendo que vam os invadir a França este ano – com entou ele.
– Talvez por isso m eu treinam ento tenha sido acelerado – disse Woody .
– É, você deve participar de algum a ação.
Rosa abafou um soluço.
– Espero ser tão coraj oso quanto m eu irm ão.
– Torço para que você nunca descubra se é ou não – retrucou Eddie.
II
Greg Peshkov levou Margaret Cowdry, um a bela m oça de olhos escuros, para assistir a um concerto sinfônico vespertino. Margaret tinha um a boca larga e generosa que ele adorava beij ar. Mas outro assunto ocupava sua m ente agora.
Ele estava seguindo Barney McHugh.
Um agente do FBI cham ado Bill Bicks tam bém seguia o m esm o hom em .
Barney McHugh era um físico j ovem e brilhante. Estava de licença do laboratório secreto do Exército am ericano em Los Alam os, Novo México, e trouxera a esposa britânica a Washington para visitar as atrações turísticas.
O FBI descobrira com antecedência que McHugh iria ao concerto, e o agente especial Bicks conseguira para Greg dois lugares algum as fileiras atrás do cientista. Um a sala de concerto, com centenas de desconhecidos se aglom erando para entrar e sair, era o local perfeito para um encontro clandestino, e Greg queria saber o que McHugh poderia estar tram ando.
Era um a pena que os dois j á tivessem se encontrado antes. Greg havia conversado com McHugh em Chicago, no dia do teste com a pilha nuclear. Isso j á fazia um ano e m eio, m as talvez McHugh se lem brasse dele. Então Greg precisava garantir que o suj eito não o visse.
Quando Greg e Margaret chegaram , os lugares de McHugh estavam vazios. De am bos os lados estavam sentados dois casais de aspecto norm al: à esquerda, um hom em de m eia-idade usando um terno barato cinza, de risca de giz, acom panhado pela esposa igualm ente m alvestida; à direita, duas senhoras de idade. Greg torceu para McHugh aparecer. Se ele fosse um espião, queria pegá-lo.
O program a do concerto era a Sinfonia no 1 de Tchaikovsky .
– Quer dizer que você gosta de m úsica clássica? – perguntou Margaret, puxando conversa enquanto a orquestra afinava os instrum entos.
Ela não tinha a m enor ideia do verdadeiro m otivo para ele tê-la levado até ali. Sabia que Greg estava trabalhando com um a pesquisa confidencial de arm am entos. No entanto, assim com o quase todos os am ericanos, não sabia nada sobre a bom ba nuclear.
– Pensei que só escutasse j azz – com pletou ela.
– Adoro os com positores russos... eles são tão dram áticos! – disse Greg. – Acho que deve estar no m eu sangue.
– Fui criada ouvindo m úsica clássica. Meu pai gosta de cham ar um a pequena orquestra para os j antares que oferece.
A fam ília de Margaret era rica o suficiente para fazer Greg se sentir pobre. No entanto, ele ainda não conhecera os pais dela e desconfiava que eles não fossem aprovar o filho ilegítim o de um fam oso m ulherengo de Holly wood.
– O que você está olhando? – perguntou ela.
– Nada. – O casal McHugh havia chegado. – Que perfum e é esse?
– Chichi, da Renoir.
– Adorei.
Os McHugh pareciam felizes, um casal brilhante e próspero tirando férias. Greg pensou se teriam chegado atrasados por estarem fazendo am or no quarto do hotel.
Barney McHugh sentou-se ao lado do senhor de terno de risca de giz. Greg sabia que a roupa era de m á qualidade por causa da rigidez pouco natural das om breiras. O hom em não olhou para os recém -chegados. Os McHugh com eçaram a fazer palavras cruzadas, aproxim ando as cabeças num gesto de intim idade enquanto exam inavam o j ornal que Barney segurava. Alguns m inutos depois, o regente subiu ao palco.
A prim eira peça era de Saint-Saëns. A popularidade dos com positores alem ães e austríacos havia declinado desde o início da guerra, e os am antes de concertos estavam descobrindo novas alternativas. Sibelius tornara a cair nas graças do público.
McHugh provavelm ente era com unista. Greg sabia disso porque J. Robert Oppenheim er lhe dissera. Influente físico teórico da Universidade da Califórnia, Oppenheim er era diretor do laboratório de Los Alam os e chefe científico do Proj eto Manhattan. Tinha fortes vínculos com unistas, em bora afirm asse j am ais ter entrado para o partido.
– Por que o Exército precisa de tanta gente de esquerda? – perguntara o agente especial Bicks a Greg. – Não sei o que vocês estão tentando fazer lá no deserto, m as será que os Estados Unidos não dispõem de j ovens cientistas inteligentes e conservadores suficientes?
– Não – respondera Greg. – Se dispuséssem os, j á os teríam os contratado.
Os com unistas às vezes eram m ais leais à causa do que ao próprio país, e talvez não achassem errado com partilhar os segredos da pesquisa nuclear com a União Soviética. Não era com o passar inform ações para o inim igo. Os soviéticos estavam do lado dos am ericanos contra os nazistas – na verdade, haviam lutado m ais do que todos os outros Aliados j untos. Mesm o assim , era um perigo. As inform ações destinadas a Moscou podiam acabar indo parar em Berlim . E qualquer um que pensasse por m ais de um m inuto no m undo pós-guerra podia adivinhar que talvez os Estados Unidos e a União Soviética não fossem continuar am igos para sem pre.
O FBI considerava Oppenheim er um risco e vivia tentando convencer o general Groves – chefe de Greg – a dem iti-lo. Mas Oppenheim er era o m elhor cientista de sua geração, e o general insistia em m antê-lo.
Num a tentativa de provar sua lealdade, Oppenheim er tinha citado McHugh com o possível com unista. Era por isso que Greg o estava seguindo.
O FBI, no entanto, se m ostrara cético.
– Oppenheim er só está tentando despistar você – dissera Bicks.
– Não acredito nisso – retrucara Greg. – Já faz um ano que o conheço.
– Ele é um a porra de um com unista, assim com o a m ulher, o irm ão e a cunhada.
– Ele está trabalhando 19 horas por dia para fabricar arm as m elhores para os soldados am ericanos... Que traidor faz isso?
Greg torcia para que McHugh se revelasse m esm o um espião, pois isso dim inuiria a suspeita que pairava sobre Oppenheim er, aum entaria a credibilidade do general Groves e m elhoraria a situação do próprio Greg.
Passou toda a prim eira m etade do concerto observando McHugh, sem querer tirar os olhos do cientista. O físico não olhou para nenhum a das pessoas ao seu lado. Parecia absorto na m úsica, e só desviava o olhar do palco para fitar am orosam ente a esposa, um a inglesa típica, de pele bem clara. Será que Oppenheim er havia se enganado em relação a McHugh? Ou sua acusação seria um a distração para desviar as suspeitas de si m esm o?
Greg sabia que Bicks tam bém observava. Seu colega estava sentado m ais acim a, no balcão nobre do teatro. Talvez tivesse visto algum a coisa.
No intervalo, Greg seguiu os McHugh até o lado de fora e postou-se na m esm a fila que eles para com prar um café. Nem o casal m al-aj am brado nem as duas senhoras estavam por perto.
Sentiu-se frustrado. Não soube que conclusão tirar. Será que suas suspeitas eram infundadas?
Ou aquele passeio específico dos McHugh era inocente?
Quando ele e Margaret estavam voltando a seus lugares, Bill Bicks surgiu ao seu lado. De m eia-idade e um pouco acim a do peso, o agente com eçava a ficar careca. Usava um terno cinza-claro com m arcas de suor nas axilas.
– Você tinha razão – disse ele, em voz baixa.
– Com o você sabe?
– O cara sentado ao lado de McHugh.
– De terno cinza listrado?
– Isso. O nom e dele é Nikolai Yenkov, ele é adido cultural da em baixada soviética.
– Meu Deus! – exclam ou Greg.
Margaret se virou.
– O que foi?
– Nada – respondeu Greg.
Bicks se afastou.
– Você está com a cabeça em outro lugar – disse ela quando se acom odavam outra vez. – Acho que não deve ter ouvido nenhum com passo do Saint-Saëns.
– Estou pensando em trabalho, só isso.
– Basta dizer que não é outra m ulher e eu esqueço o assunto.
– Não é outra m ulher.
Durante a segunda m etade do concerto, ele com eçou a ficar nervoso. Não detectara nenhum contato entre McHugh e Yenkov. Os dois não se falaram , e Greg não viu nada ser passado de um para o outro: nenhum a pasta, nenhum envelope, nenhum rolo de film e.
A sinfonia term inou e o regente se curvou para agradecer. A plateia com eçou a sair do teatro. A caçada ao espião fora um fracasso total.
No saguão, Margaret foi ao toalete. Enquanto Greg a esperava, Bicks veio falar com ele.
– Nada – disse Greg.
– Nem eu.
– Talvez sej a coincidência McHugh ter se sentado ao lado de Yenkov – sugeriu Greg.
– Coincidências não existem .
– Então houve algum problem a. Um a senha errada, algo assim .
Bicks fez que não com a cabeça.
– Eles se com unicaram . Nós é que não vim os.
A Sra. McHugh tam bém foi ao toalete e, assim com o Greg, McHugh ficou aguardando ali perto. Escondido atrás de um a pilastra, Greg o analisou. Ele não carregava um a pasta nem um a capa debaixo da qual pudesse ocultar algum em brulho ou docum ento. Mesm o assim , algo nele lhe pareceu estranho. O que seria?
Foi então que Greg percebeu.
– O j ornal! – exclam ou.
– O quê?
– Quando entrou, Barney estava segurando um j ornal. Fez palavras cruzadas com a m ulher enquanto esperavam o espetáculo com eçar. E agora o j ornal não está m ais com ele!
– Ou ele j ogou fora... ou entregou a Yenkov com algum a coisa escondida dentro.
– Yenkov e a m ulher j á saíram .