Inverno do Mundo
Capítulo II
– Cale a porra da boca! Nosso problem a é que existem vários proj etos de bom ba possíveis. Os am ericanos levaram cinco anos para descobrir qual deles iria funcionar. Não tem os esse tem po. Precisam os roubar a pesquisa deles.
– Mesm o assim , ainda vam os precisar de físicos russos para copiar o proj eto... E para isso eles terão que estar dentro de seus laboratórios, não trancafiados nos porões da Luby anka.
– Você conhece um hom em cham ado Wilhelm Frunze?
– Estudei com ele. Na Academ ia para Meninos de Berlim .
– Ele nos deu inform ações valiosas sobre a pesquisa nuclear britânica. Depois se m udou para os Estados Unidos, onde trabalhou no proj eto da bom ba nuclear. A equipe da NKVD em Washintgon entrou em contato com ele, m as foi tão incom petente que o assustou e arruinou o contato. Precisam os reconquistá-lo.
– E o que isso tem a ver com igo?
– Ele confia em você.
– Não tenho certeza. Faz 12 anos que não o vej o.
– Querem os que você vá aos Estados Unidos falar com ele.
– Mas por que prender Zoy a?
– Para garantir que você volte.
II
Volody a disse a si m esm o que sabia com o fazer aquilo. Antes da guerra, em Berlim , despistara a Gestapo, identificara espiões em potencial, recrutara-os e conseguira transform á-los em fontes de inform ações secretas confiáveis. Nunca foi fácil – principalm ente quando ele tinha que convencer alguém a virar um traidor –, m as ele era um especialista.
Agora, porém , tratava-se dos Estados Unidos.
Os países ocidentais que ele j á visitara, a Alem anha e a Espanha dos anos 1930 e 1940, não tinham nada a ver com aquilo.
Estava im pressionado. Durante toda a vida tinham lhe dito que os film es de Holly wood passavam um a im agem exagerada de prosperidade e que, na verdade, a m aioria dos am ericanos era pobre. No entanto, desde o dia em que ele pisou nos Estados Unidos, ficou claro que os film es não exageravam em nada. E era difícil de encontrar alguém pobre.
Nova York era repleta de carros, m uitos dirigidos por pessoas que obviam ente não eram funcionários im portantes do governo: j ovens, hom ens vestidos para trabalhar e até m ulheres indo às com pras. E todo m undo se vestia bem . Todos os hom ens pareciam usar seus m elhores ternos. As pernas das m ulheres eram cobertas por m eias finas. Todos pareciam calçar sapatos novos.
Ele precisava ficar lem brando constantem ente o lado ruim dos Estados Unidos. Havia pobreza em algum lugar. Os negros eram discrim inados e não podiam votar no Sul. Havia m uitos crim es – os próprios am ericanos diziam que a crim inalidade no país era galopante –, em bora Volody a não visse nenhum sinal disso e se sentisse bastante seguro ao andar pelas ruas.
Passou alguns dias explorando Nova York. Tentou m elhorar seu inglês, que não era m uito bom , m as isso pouco im portava: a cidade estava cheia de pessoas que falavam o idiom a m al e com sotaque carregado. Identificou o rosto de alguns dos agentes do FBI destacados para segui-lo e encontrou vários lugares onde poderia se livrar deles.
Num a m anhã ensolarada, saiu do consulado soviético em Nova York sem chapéu, usando apenas um a calça cinza e um a cam isa azul, com o se fosse cuidar de afazeres corriqueiros. Um rapaz de terno e gravata escuros o seguiu.
Ele foi até a loj a de departam entos Saks, na Quinta Avenida, e com prou um a cueca e um a cam isa com estam pa m arrom pequena. Quem o seguia deve ter pensado que ele estava apenas fazendo com pras.
O chefe da NKVD no consulado lhe dissera que um a equipe soviética iria acom panhá-lo durante sua visita aos Estados Unidos para se certificar de seu bom com portam ento. Ele m al conseguiu conter a raiva que sentia pel organização que prendera Zoy a, e teve de resistir ao im pulso de agarrar o hom em pelo pescoço e esganá-lo. No entanto m antivera a calm a. Com entara com sarcasm o que, para cum prir sua m issão, precisaria escapar da vigilância do FBI e, ao fazer isso, tam bém poderia acabar despistando sem querer a escolta da NKVD; m as desej ou-lhes sorte. Na m aior parte das vezes, conseguiu despistá-los em cinco m inutos.
Então o rapaz que o seguia provavelm ente era um agente do FBI. Seus traj es conservadores e im pecáveis denunciavam isso.
Levando as com pras em um a sacola de papel, Volody a saiu da loj a por um a porta lateral e cham ou um táxi. Deixou o agente do FBI no m eio-fio, fazendo sinal. Depois que o táxi virou duas esquinas, lançou um a nota para o m otorista e saltou. Entrou depressa num a estação de m etrô, tornou a sair por um acesso diferente e ficou esperando cinco m inutos na portaria de um prédio com ercial.
O rapaz de terno escuro não voltou a aparecer.
Volody a seguiu a pé até a Penn Station.
Ali, checou novam ente se não estava sendo seguido, então com prou um a passagem . Subiu a bordo do trem sem bagagem nenhum a a não ser a sacola de papel.
A viagem até Albuquerque levou três dias.
O trem atravessou rapidam ente quilôm etros e m ais quilôm etros de ricas terras agrícolas, fábricas im ponentes que cuspiam fum aça e im ensas cidades com arranha-céus arrogantes. A União Soviética era m aior, m as, tirando a Ucrânia, praticam ente só tinha florestas de pinheiros e estepes congeladas. Volody a nunca im aginara que pudesse existir um a riqueza naquela escala.
E não era só riqueza. Durante vários dias, algum a coisa o vinha incom odando, algo estranho em relação à vida nos Estados Unidos. Finalm ente percebeu o que era: ninguém tinha pedido seus docum entos. Depois que passara pela im igração em Nova York, não tornara a m ostrar o passaporte. Naquele país, parecia que qualquer um podia entrar num a estação de trem ou term inal rodoviário e com prar um a passagem para qualquer lugar, sem ter que pedir perm issão nem explicar para algum funcionário do governo o m otivo da viagem . Isso lhe proporcionava um a perigosa euforia de liberdade. Ele podia ir a qualquer lugar!
Tanta riqueza tam bém fez Volody a ter um a noção m ais clara do perigo que seu país estava correndo. Os alem ães quase haviam destruído a União Soviética, e os Estados Unidos tinham um a população três vezes m aior e eram dez vezes m ais ricos. Pensar que os russos pudessem se tornar subalternos, acuados até a subserviência, atenuava as reservas de Volody a em relação ao com unism o, apesar do que a NKVD tinha feito com ele e com sua m ulher. Se ele tivesse filhos, não iria querer que crescessem num m undo tiranizado pelos Estados Unidos.
Passou por Pittsburgh e Chicago sem cham ar atenção. Estava usando roupas am ericanas, e seu sotaque não causava estranheza sim plesm ente porque ele não falava com ninguém . Com prava sanduíches e café apontando e depois pagando. Folheava os j ornais e revistas que outros passageiros largavam no trem , olhando para as figuras e tentando decifrar o significado dos títulos das m atérias.
O últim o trecho da viagem o fez passar por um a paisagem deserta, de beleza estéril, com picos nevados distantes tingidos de verm elho pelo sol poente, o que provavelm ente explicava o fato de aquelas m ontanhas serem conhecidas com o Blood of Christ, “sangue de Cristo”.
Ele foi ao banheiro, trocou a cueca e vestiu a cam isa nova com prada na Saks.
Im aginou que o FBI ou a inteligência do Exército estariam vigiando a estação de trem de Albuquerque e não se enganou: identificou um rapaz cuj o paletó xadrez – quente dem ais para o clim a do Novo México em setem bro – não conseguia disfarçar bem a protuberância de um a arm a no coldre em seu om bro. O agente, porém , estava interessado em viaj antes de longa distância vindos de Nova York ou Washington. Volody a, que estava sem chapéu ou paletó e não trazia bagagem , parecia um m orador das redondezas voltando de um a viagem curta. Ninguém o seguiu quando ele foi a pé até a rodoviária e em barcou num ônibus Grey hound com destino a Santa Fé.
Chegou no fim da tarde. Na rodoviária, deparou com dois agentes do FBI, que o exam inaram . No entanto, não podiam seguir todo m undo que descesse dos ônibus, e m ais um a vez sua aparência casual os levou a se desinteressar.
Fazendo o possível para dar a im pressão de que sabia aonde estava indo, Volody a pôs-se a percorrer as ruas. As casas baixas de telhado plano em estilo m exicano e as igrej as atarracadas que esturricavam ao sol lem bravam a Espanha. Os prédios com loj as na frente avançavam pelas calçadas, criando arcadas onde havia um a som bra agradável.
Ele evitou o La Fonda, o grande hotel na praça j unto à catedral, e pediu um quarto no St. Francis. Pagou em dinheiro e disse que seu nom e era Robert Pender, que podia tanto ser am ericano quanto de um a nacionalidade europeia qualquer.
– Minha m ala será entregue m ais tarde – disse ele à bela m oça da recepção. – Se eu estiver fora quando ela chegar, pode m andar entregar no m eu quarto?
– Sim , claro, sem problem a – respondeu ela.
– Obrigado – disse ele, e repetiu então um a expressão que ouvira várias vezes no trem . – Fico m uito grato.
– Se eu não estiver aqui, algum a outra pessoa vai se encarregar da m ala, contanto que o seu nom e estej a nela.
– Está. – Ele não tinha bagagem , m as a m oça nunca saberia disso.
A recepcionista olhou para o nom e do registro.
– Quer dizer que o senhor é de Nova York, Sr. Pender?
Sua voz tinha um quê de ceticism o, sem dúvida porque o sotaque dele não era nova-iorquino.
– Sou suíço – explicou ele, m encionando um país neutro.
– Ah, por isso o sotaque. Nunca conheci ninguém da Suíça. Com o é lá?
Volody a nunca estivera na Suíça, m as j á vira fotos.
– Neva m uito – respondeu.
– Bem , então aproveite o clim a do Novo México!
– Vou aproveitar, sim .
Cinco m inutos m ais tarde, ele tornou a sair.
Seus colegas da em baixada soviética lhe tinham dito que alguns dos cientistas m oravam no laboratório de Los Alam os, que parecia um a favela, com poucas com odidades civilizadas. Sem pre que podiam , os cientistas preferiam alugar casas e apartam entos por perto. Will Frunze não tinha qualquer restrição financeira para isso: era casado com um a artista de sucesso que desenhava um a tira de quadrinhos cham ada Slack Alice, publicada em j ornais do país inteiro. A esposa, que tam bém se cham ava Alice, podia trabalhar em qualquer lugar, então o casal m orava no centro histórico da cidade.
Essas inform ações tinham sido fornecidas pelo escritório da NKVD em Nova York. A agência fizera um a pesquisa m inuciosa sobre Frunze, e Volody a tinha seu endereço e telefone, e um a descrição de seu carro, um Ply m outh conversível do período pré-guerra com pneus de banda branca.
No térreo do prédio dos Frunze funcionava um a galeria de arte. O apartam ento do andar de cim a tinha um a j anela grande voltada para o norte, que agradaria a um a artista. Um Ply m outh conversível estava estacionado na calçada.
Volody a preferiu não entrar: talvez o apartam ento estivesse gram peado.
Os Frunze eram um casal abastado, sem filhos, e ele im aginou que não fossem ficar em casa ouvindo rádio num a sexta-feira à noite. Decidiu esperar para ver se eles saíam .
Passou algum tem po na galeria, olhando os quadros à venda. Gostava de im agens claras, vívidas, e não teria desej ado possuir nenhum daqueles borrões confusos. Encontrou um café adiante no quarteirão e sentou-se j unto à j anela, de onde podia ver a porta dos Frunze. Um a hora depois, saiu de lá, com prou um j ornal e, enquanto fingia lê-lo, ficou num ponto de ônibus.
A longa espera lhe perm itiu verificar que ninguém estava vigiando o apartam ento dos Frunze. Isso significava que o FBI e a inteligência do Exército não tinham identificado o alem ão com o um a pessoa de alto risco. Ele era estrangeiro, m as m uitos cientistas tam bém o eram , e provavelm ente não havia m ais nada que o com prom etesse.
Aquele era tam bém o centro com ercial da cidade, não um bairro residencial, e as ruas estavam cheias. Mesm o assim , depois de um as duas horas, Volody a com eçou a se preocupar que alguém pudesse notá-lo zanzando por ali.
Então os Frunze saíram .
Will estava m ais pesado do que fora 12 anos antes – nos Estados Unidos não havia restrições alim entares. Apesar de ter apenas 30 anos, seus cabelos estavam com eçando a rarear na frente. Ele ainda tinha a m esm a expressão solene. Usava um a cam isa esporte e calça de brim cáqui, um a com binação com um nos Estados Unidos.
A esposa, por sua vez, não estava vestida de form a tão conservadora. Tinha os cabelos presos sob um a boina e usava um vestido de algodão sem corte de um tom indistinto de m arrom , m as trazia um a coleção de pulseiras em am bos os braços e vários anéis nos dedos. Volody a se lem brou de que os artistas se vestiam assim na Alem anha antes de Hitler.
O casal seguiu andando pela rua, e ele foi atrás.
Perguntou-se qual seria o posicionam ento político da m ulher e que diferença sua presença faria na difícil conversa que estava prestes a ter com Frunze. Na Alem anha, o cientista tinha sido social-dem ocrata ferrenho, então era im provável que sua m ulher fosse conservadora. Essa suposição era corroborada pela aparência da Sra. Frunze. Por outro lado, ela provavelm ente não sabia que o m arido tinha revelado segredos aos soviéticos em Londres. Era um a incógnita.
Volody a teria preferido lidar com Frunze sozinho e cogitou ir em bora e voltar no dia seguinte. No entanto, a recepcionista do hotel tinha reparado no seu sotaque estrangeiro e talvez no outro dia j á houvesse alguém do FBI o vigiando. Poderia lidar com isso, pensou, em bora naquela cidade pequena a tarefa não fosse ser tão fácil quanto em Nova York ou em Berlim . E o dia seguinte era sábado, então os Frunze decerto passariam o tem po todo j untos. Quanto m ais ele teria que esperar até conseguir encontrar Frunze sozinho?
Nunca havia um j eito fácil de fazer aquilo. Pesando bem os prós e os contras, resolveu agir naquela noite m esm o.
O casal Frunze entrou num restaurante.
Volody a passou em frente ao estabelecim ento e olhou pela j anela. Era um restaurante barato, com cubículos. Pensou em entrar e sentar-se à m esa com os dois, m as decidiu deixá-los com er prim eiro. De barriga cheia, estariam de bom hum or.
Esperou m eia hora, observando a porta de longe. Então, m uito ansioso, entrou.
O casal estava term inando de j antar. Enquanto Volody a atravessava o restaurante, Frunze ergueu os olhos e em seguida os desviou, sem reconhecê-lo.
Deslizou para o assento do com partim ento ao lado de Alice e disse em voz baixa, em alem ão:
– Olá, Willi, lem bra-se de m im , da escola?
Frunze o exam inou com atenção por vários segundos, e então abriu um sorriso.
– Peshkov? Volody a Peshkov? É você m esm o?
Volody a foi tom ado por um a onda de alívio. Frunze continuava sim pático. Não havia nenhum a barreira de hostilidade a ser superada.
– Sou eu m esm o – respondeu. Estendeu a m ão, e Frunze a apertou. Virando-se para Alice, falou em inglês: – Desculpe, falo m uito m al a sua língua.
– Não precisa tentar – retrucou ela em alem ão fluente. – Minha fam ília era de im igrantes da Bavária.
– Sabe que andei pensando em você? – disse Frunze, m uito espantado. – Porque conheci outro hom em com o m esm o sobrenom e... Greg Peshkov.
– É m esm o? Meu pai tinha um irm ão cham ado Lev que veio para cá por volta de 1915.
– Não, o tenente Peshkov é bem m ais j ovem . Mas, enfim ... O que você está fazendo aqui?
Volody a sorriu.
– Vim falar com você. – Antes que Frunze pudesse perguntar por quê, ele prosseguiu: – Da últim a vez que o vi, você era secretário do Partido Social-Dem ocrata em Neuköln. – Aquele era seu segundo passo. Depois de estabelecer um prim eiro contato cordial, estava fazendo Frunze recordar seu idealism o j uvenil.
– Essa experiência m e convenceu que a social-dem ocracia não funciona – disse o alem ão. – Ficam os totalm ente im potentes contra os nazistas. Foi preciso a intervenção da União Soviética para detê-los.
Era verdade, e Volody a ficou satisfeito que Frunze reconhecesse isso. No entanto, o m ais im portante era que o com entário m ostrava que as ideias políticas do cientista não tinham sido atenuadas pela vida abastada nos Estados Unidos.
– Estávam os pensando em tom ar uns drinques num bar logo aqui na esquina – disse Alice. – Vários cientistas vão lá na sexta à noite. Quer nos acom panhar?
A últim a coisa que Volody a queria era ser visto em público com os Frunze.
– Não sei – respondeu. Na verdade, j á fazia m uito tem po que estava ali no restaurante com o casal. Era hora do passo três: lem brar a Frunze sua terrível culpa. Ele se inclinou para a frente e baixou a voz: – Willi, você sabia que os am ericanos iriam j ogar bom bas nucleares no Japão?
Houve um a pausa dem orada. Volody a prendeu a respiração. Sua aposta era de que o alem ão estava torturado pelo rem orso.
Por alguns instantes, tem eu ter ido longe dem ais. Frunze parecia à beira das lágrim as.
Então ele inspirou fundo e se controlou.
– Não. Eu não sabia – respondeu. – Nenhum de nós sabia.
Alice interveio, zangada:
– Achávam os que as Forças Arm adas am ericanas fossem dar alguma dem onstração do poder da bom ba, com o um a am eaça para fazer os j aponeses se renderem . – Aquilo significava que ela sabia sobre a bom ba antes, observou Volody a. Não ficou surpreso. Os hom ens tinham dificuldade para esconder esse tipo de inform ações das esposas. – Então nós estávam os esperando um a detonação em algum m om ento, em algum lugar – prosseguiu ela. – Mas im aginam os que eles fossem destruir um a ilha desabitada, ou talvez algum com plexo m ilitar com várias arm as e poucas pessoas.
– Isso poderia ter se j ustificado – retom ou Frunze. – Mas... – Sua voz se transform ou num sussurro: – ... ninguém im aginou que eles fossem lançar a bom ba sobre um a cidade e m atar 80 m il hom ens, m ulheres e crianças.
Volody a assentiu.
– Achei m esm o que você pensaria assim . – Na verdade, estivera torcendo por isso.
– E quem não pensaria? – indagou o alem ão.
– Deixe eu lhe perguntar um a coisa ainda m ais im portante. – Aquele era o passo quatro. – Eles vão fazer de novo?
– Não sei – respondeu Frunze. – Pode ser. Deus nos livre.
Volody a disfarçou a satisfação. Tinha feito Frunze se sentir responsável pelo uso de arm as nucleares tanto no passado quanto no futuro.
– É isso que nós pensam os – falou, assentindo.
– Nós quem ? – perguntou Alice, incisiva.
Ela era esperta e provavelm ente m ais experiente que o m arido. Seria difícil enganá-la, e Volody a decidiu nem tentar. Tinha que correr o risco de lhe dizer a verdade.
– Um a pergunta j usta – respondeu. – E não fiz essa viagem toda para enganar um velho am igo. Sou m aj or da Inteligência do Exército Verm elho.
O casal o encarou. Aquela ideia j á devia ter lhes passado pela cabeça, m as eles ficaram surpresos com a confissão.
– Preciso lhes dizer um a coisa – prosseguiu Volody a. – Algo m uito im portante. Existe algum lugar onde possam os conversar em particular?
Os dois pareceram hesitar.
– No nosso apartam ento? – sugeriu Frunze.
– Deve estar gram peado pelo FBI.
Frunze j á tinha algum a experiência em operações clandestinas, m as Alice ficou chocada.
– O senhor acha? – indagou, incrédula.
– Acho. Podem os sair de carro da cidade?
– Tem um lugar aonde vam os de vez em quando por volta desta hora para ver o pôr do sol – disse Frunze.
– Perfeito. Vão para o carro, entrem e esperem por m im . Chegarei um m inuto depois de vocês.
Frunze pagou a conta e saiu do restaurante com Alice, e Volody a os seguiu. Durante o curto traj eto, verificou que não havia ninguém atrás dele. Chegou ao Ply m outh e entrou. Os três se acom odaram no banco da frente, ao estilo am ericano. Frunze saiu da cidade.
Eles percorreram um a estrada de terra batida até o cum e de um m orro baixo. Frunze parou o carro. Volody a acenou para que todos descessem e então os fez avançar uns cem m etros, só para o caso de o carro tam bém estar gram peado.
De frente para a paisagem de solo pedregoso e arbustos baixos, com o sol poente ao fundo, Volody a deu o quinto passo:
– Nós acham os que a próxim a bom ba nuclear vai ser lançada em algum lugar da União Soviética.
Frunze assentiu.
– Que Deus não perm ita, m as acho que você pode ter razão.
– E não há absolutam ente nada que possam os fazer a respeito – prosseguiu Volody a, insistindo sem dó. – Nenhum a precaução que possam os tom ar, nem barreiras que possam os erguer ou qualquer form a de proteger nossa população. Não existe defesa contra a bom ba nuclear... a bom ba que você criou, Willi.
– Eu sei – disse Frunze, arrasado.
Ele obviam ente achava que, se a União Soviética fosse atacada com arm as nucleares, seria culpa sua.
Passo seis.
– A única proteção seria term os nossa própria bom ba nuclear.
Nisso Frunze não quis acreditar.
– Isso não é defesa – disse ele.
– Mas é um fator dissuasivo.
– Pode ser – adm itiu ele.
– Não querem os que essas bom bas se espalhem – disse Alice.
– Nem eu – disse Volody a. – Mas o único j eito seguro de im pedir que os am ericanos arrasem Moscou da m esm a form a que arrasaram Hiroshim a é a União Soviética ter sua própria bom ba nuclear e am eaçar um a retaliação.
– Ele tem razão, Willi – disse Alice. – Todos nós sabem os disso.
Volody a viu que ela era o lado m ais forte do casal.
Para o passo sete, baixou a voz:
– Quantas bom bas os am ericanos têm agora?
Aquele era um m om ento crucial. Se respondesse àquela pergunta, Frunze teria cruzado um lim ite. Até então, a conversa deles era genérica. Mas agora Volody a estava pedindo inform ações confidenciais.
Frunze hesitou por m uito tem po. Por fim , olhou para Alice.
Volody a a viu m enear a cabeça quase im perceptivelm ente.
– Um a só – disse o alem ão.
O russo disfarçou a sensação de triunfo. Frunze acabara de trair os am ericanos. Aquele era o prim eiro m ovim ento, o m ais difícil. Um segundo segredo seria m ais fácil de revelar.
– Mas logo terão outras – acrescentou Frunze.
– É um a corrida e, se nós a perderm os, vam os m orrer – disse Volody a em tom de urgência. – Tem os que fabricar pelo m enos um a bom ba nuclear antes que eles as fabriquem em quantidade suficiente para nos aniquilar.
– E vocês conseguem ?
Essa era a deixa para o passo oito.
– Precisam os de aj uda.
Ele viu o sem blante de Frunze se endurecer, e im aginou que o alem ão estivesse recordando o que o fizera se recusar a cooperar com a NKVD.
– E se disserm os que não podem os aj udar? – perguntou Alice a Volody a. – Que é perigoso dem ais?
Volody a agiu com o m andavam seus instintos. Ergueu as m ãos no gesto de quem se rende.
– Voltarei para casa e direi que fracassei – falou. – Não posso obrigá-los a fazer nada que não queiram . Não iria querer pressioná-los ou coagi-los de form a algum a.
– Sem am eaças? – perguntou Alice.
Aquilo confirm ou o palpite de Volody a de que a NKVD tentara intim idar Frunze. Eles tentavam intim idar todo m undo: era só o que sabiam fazer.
– Eu não estou nem tentando convencê-lo – disse Volody a ao cientista. – Estou apenas expondo os fatos. O resto fica a seu critério. Se você quiser aj udar, estou aqui para ser seu contato. Se não quiser, não se fala m ais no assunto. Vocês são inteligentes. Mesm o se quisesse, eu não poderia enganá-los.
O casal tornou a se entreolhar. Ele torceu para que os dois estivessem pensando em quanto ele era diferente do últim o agente soviético que os abordara.
O silêncio se prolongou, angustiante.
Quem finalm ente falou foi Alice:
– Que tipo de aj uda vocês querem ?
Aquilo não era um sim , m as era m elhor do que um a recusa e conduzia logicam ente ao passo nove.
– Minha m ulher faz parte da equipe de físicos – disse ele, esperando que a inform ação desse um toque de hum anidade bem na hora em que eles corriam o risco de considerá-lo m anipulador. – Segundo ela, há vários cam inhos para se chegar a um a bom ba nuclear, e não tem os tem po de testar todos eles. Se souberm os o que deu certo para vocês, podem os poupar anos de pesquisa.
– Faz sentido – disse Willi.
Agora o passo dez, o m aior de todos:
– Precisam os saber que tipo de bom ba foi lançado sobre o Japão.
A expressão de Frunze era de pura agonia. Ele olhou para a m ulher. Dessa vez ela não m eneou a cabeça, tam pouco fez que não. Parecia tão dividida quanto o m arido.