Inverno do Mundo

Ken Follett · Capítulo 79 de 153

Páginas do PDF

Inverno do Mundo

Capítulo III

– Certo.

– Não poderíam os m andar um a m ensagem sobre Midway que os j aponeses tivessem que retransm itir em código? Assim , quando interceptássem os a versão cifrada, descobriríam os com o eles estão codificando o nom e Midway .

Strong pareceu refletir.

– Pode ser – falou. – Talvez tivéssem os que m andar nossa m ensagem aberta, sem código, para nos certificarm os de que eles entenderiam .

– É, pode ser. Teria que ser algo não m uito confidencial, com o, por exem plo, “Epidem ia de doença venérea em Midway , favor enviar rem édios”, ou algo do gênero.

– Mas por que os j apas iriam retransm itir um a coisa dessas?

– Certo, então teria que ser algum a coisa com significado m ilitar, m as que não fosse altam ente confidencial. Algo com o a previsão do tem po.

– Hoj e em dia, até os boletins m eteorológicos são secretos.

O criptógrafo da m esa ao lado deu um a sugestão:

– Que tal um racionam ento de água? Se eles estão planej ando ocupar o lugar, seria um a inform ação im portante.

– Caram ba, pode dar certo! – Strong estava ficando anim ado. – Suponham os que Midway m ande um a m ensagem aberta para o Havaí dizendo que houve um a pane na sua estação de dessalinização.

– E o Havaí responde dizendo que vam os m andar um navio-pipa – em endou Chuck.

– Se os j aponeses estiverem m esm o planej ando atacar Midway , com certeza vão retransm itir isso. Precisariam providenciar água doce.

– E eles retransm itiriam em código, para não nos alertar sobre seu interesse por Midway .

As m ensagens foram enviadas no m esm o dia.

No dia seguinte, um a m ensagem de rádio j aponesa inform ou um racionam ento de água em AF.

O alvo era Midway .

O alm irante Nim itz com eçou a m ontar um a arm adilha.

 

III

Nessa noite, enquanto m ais de m il operários se ocupavam do conserto do porta-aviões Yorktown, realizando os reparos sob lâm padas de arco voltaico, Chuck e Eddie foram ao The Band Round the Hat, um bar situado num beco escuro de Honolulu. Com o sem pre, o lugar estava lotado de m arinheiros e m oradores da cidade. Apesar de haver alguns casais de enferm eiras, quase todos os clientes eram hom ens. Chuck e Eddie gostavam desse bar porque todos eram iguais a eles. As lésbicas, por sua vez, iam lá porque os hom ens não davam em cim a delas.

Nada era explícito, é claro. Era possível ser expulso da Marinha e preso por atos hom ossexuais. Apesar disso, o lugar era descontraído. O líder da banda usava m aquiagem . A cantora havaiana era um hom em vestido de m ulher, m as, de tão convincente, algum as pessoas não percebiam . O dono do estabelecim ento não poderia ser m ais gay. Hom ens podiam dançar j untos, e ninguém cham ava de bunda-m ole quem pedisse um verm ute.

Desde a m orte de Joanne, Chuck tinha m ais certeza do am or que sentia por Eddie. É claro que sem pre soubera que, em tese, seu nam orado poderia m orrer; m as o perigo nunca lhe parecera real. Depois do ataque a Pearl Harbor, não passava um dia sequer sem recordar a im agem daquela linda m oça caída no chão, ensanguentada, e do irm ão soluçando ao seu lado. Poderia m uito bem ter sido ele aj oelhado j unto a Eddie, sentindo aquela dor insuportável. Naquele 7 de dezem bro, os dois tinham escapado da m orte por um triz, m as agora estavam em guerra, e a vida não valia nada. Cada dia que passavam j untos era um presente, porque poderia ser o últim o.

Chuck estava apoiado no bar com um a cervej a na m ão, enquanto Eddie estava sentado num banco alto. Os dois riam de um piloto da Marinha cham ado Trevor Paxm an – m ais conhecido com o Trixie –, que falava sobre a ocasião em que tentara fazer sexo com um a garota.

– Fiquei horrorizado! – disse ele. – Pensei que lá em baixo fosse ser tudo lim pinho e fofo, com o as m oças das pinturas... Mas ela era m ais peluda que eu! – Todos riram com vontade. – Parecia um gorila!

Então, com o canto do olho, Chuck viu a figura atarracada do capitão Vanderm eier entrar no bar.

Poucos oficiais frequentavam bares de alistados. Não que fosse proibido: era só um sinal de descaso e falta de bom senso, com o usar botas suj as de lam a para ir ao restaurante do Ritz-Carlton. Eddie se virou, torcendo para que Vanderm eier não o visse.

Mas não teve sorte. O capitão foi direto até onde eles estavam e falou:

– Ora, ora... Todas as m oças estão reunidas, é?

Trixie se virou e desapareceu no m eio dos outros clientes.

– Para onde ele foi? – perguntou Vanderm eier.

O capitão j á estava em briagado a ponto de enrolar a língua.

Chuck viu o sem blante de Eddie ficar som brio.

– Boa noite, capitão – falou, rígido. – Aceita um a cervej a?

– Uísque com gelo.

Chuck pegou a bebida. Vanderm eier tom ou um gole e disse:

– Então, ouvi dizer que aqui tudo acontece por baixo dos panos... É isso m esm o? – Ele olhou para Eddie.

– Não faço ideia – respondeu este, frio.

– Ora, vam os – disse Vanderm eier. – Fica entre nós.

Então deu um tapinha no j oelho de Eddie, que se levantou abruptam ente, em purrando o banco do bar para trás.

– Não toque em m im – falou.

– Calm a, Eddie – pediu Chuck.

– A Marinha não tem nenhum regulam ento dizendo que tenho que deixar essa bichona m e patolar!

– Do que você m e cham ou? – perguntou Vanderm eier com a voz arrastada.

– Se ele tocar em m im outra vez, j uro que arranco essa cabeça horrorosa dele – am eaçou Eddie.

– Capitão Vanderm eier, eu conheço um lugar bem m elhor do que este – disse Chuck. – Gostaria de ir até lá?