Inverno do Mundo

Ken Follett · Capítulo 143 de 153

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Inverno do Mundo

Capítulo II

Depois disso, Ily a fora para a cam a cedo, o que dava a entender que com eçaria a trabalhar cedo no dia seguinte.

Mas que idiota eu fui, pensou Volody a. Os sinais estavam todos lá e precisei da noite inteira para percebê-los.

Pulou da cam a. Talvez não fosse tarde dem ais.

Vestiu-se depressa e pôs um sobretudo pesado, um cachecol e um chapéu. Não havia táxis em frente ao hotel – era cedo dem ais. Ele poderia ter m andado cham ar um carro do Exército Verm elho, m as o tem po que o m otorista levaria para ser acordado e trazer o carro o faria perder quase um a hora.

Por isso decidiu ir a pé. O Palácio Czernin ficava a apenas três quilôm etros do hotel. Ele saiu do belo centro de Praga no sentido oeste, atravessou a ponte São Carlos e subiu depressa a colina em direção ao palácio.

O m inistro Masary k não estava à sua espera e não era obrigado a conceder um a audiência a um coronel do Exército Verm elho. No entanto, Volody a teve certeza de que o tcheco ficaria curioso o suficiente para recebê-lo.

Cam inhou depressa pela neve. Quando chegou ao palácio, o relógio m arcava 6h45. A construção era um a im ensa estrutura em estilo barroco, cuj os três andares superiores exibiam um a grandiosa fileira de m eias-colunas coríntias. Constatou com espanto que o lugar estava m uito pouco vigiado. Um guarda apontou para a porta da frente. Volody a atravessou o saguão rebuscado sem que ninguém o interpelasse.

Esperava encontrar um im becil da polícia secreta atrás de um a m esa na recepção, m as não viu ninguém . Aquilo era um m au sinal. Ele ficou apreensivo.

O saguão conduzia a um pátio interno. Ao olhar por um a j anela, viu o que parecia um hom em adorm ecido na neve. Talvez tivesse caído por estar em briagado; nesse caso, corria o risco de m orrer congelado.

Volody a testou a porta e descobriu que estava aberta.

Atravessou correndo o pátio quadrado. O hom em de pij am a azul de seda estava deitado de bruços no chão. Nenhum a neve o cobria, sinal de que devia estar ali havia poucos m inutos. Volody a se aj oelhou ao seu lado. O hom em estava im óvel e não parecia respirar.

Volody a ergueu os olhos. Fileiras de j anelas idênticas davam para o pátio, com o soldados em um desfile m ilitar. Estavam todas bem fechadas por causa do tem po frio – m enos um a, logo acim a do hom em de pij am a, que estava escancarada.

Com o se alguém tivesse sido j ogado lá de cim a.

Volody a virou a cabeça sem vida do hom em para ver seu rosto.

Era Jan Masary k.

 

II

Três dias depois, em Washington, o Estado-Maior das três Forças Arm adas am ericanas apresentou ao presidente Trum an um plano de guerra em ergencial para enfrentar um a invasão soviética à Europa Ocidental.

O risco de um a terceira guerra m undial era um assunto quente na im prensa.

– Nós acabam os de ganhar a guerra – disse Jacky Jakes a Greg Peshkov. – Com o é possível estarm os à beira de outra?

– É isso que não paro de m e perguntar – respondeu Greg.

Os dois estavam sentados no banco de um parque. Greg descansava depois de ter j ogado bola com Georgy .

– Que bom que ele é j ovem dem ais para lutar – com entou Jacky .

– Tam bém acho.

Am bos olharam para o filho. Georgy estava de pé, conversando com um a m enina loura da sua idade. Os cadarços de seu tênis Ked’s estavam desam arrados, a cam isa para fora da calça. Tinha 12 anos e estava crescendo. Um a penugem fina despontava no lábio superior e ele parecia quase dez centím etros m ais alto do que um a sem ana antes.

– Tem os trazido nossos soldados de volta o m ais rápido possível – disse Greg. – Os britânicos e os franceses fizeram o m esm o. Mas o Exército Verm elho não se m exeu. Resultado: eles agora têm três vezes m ais tropas na Alem anha do que nós.

– Os am ericanos não querem outra guerra.

– É claro que não. E Trum an espera ser reeleito em novem bro, portanto vai fazer de tudo para evitar um conflito. Mas m esm o assim ele pode acontecer.

– Você vai sair do Exército em breve. O que pretende fazer?

Um trem or na voz de Jacky o fez desconfiar de que a pergunta não era tão casual quanto ela queria dar a entender. Ele a encarou, m as não conseguiu ler sua expressão. Então respondeu:

– Supondo que os Estados Unidos não estej am em guerra, vou m e candidatar ao Congresso em 1950. Meu pai concordou em financiar a cam panha. Vou com eçar logo depois da eleição presidencial.

Jacky desviou o olhar e perguntou de form a m ecânica:

– Por qual partido?

Greg se perguntou se tinha dito algum a coisa que a aborrecera.

– Republicano, claro.

– E o casam ento?

Ele ficou espantado.

– Por que está perguntando isso?

Jacky então voltou a encará-lo.

– Você vai se casar? – insistiu.

– Para dizer a verdade, vou sim . O nom e dela é Nelly Fordham .

– Foi o que pensei. Quantos anos ela tem ?

– Vinte e dois. Com o assim ? Pensou m esm o?

– Um político precisa de um a esposa.

– Estou apaixonado por ela!

– É claro que está. A fam ília dela é da política?

– O pai é advogado em Washington.

– Boa escolha.

Greg se irritou:

– Você está sendo bem cínica!

– Greg, eu conheço você. Ora, transei com você quando era pouco m ais velho do que Georgy é agora. Você pode enganar todo m undo, m enos sua m ãe e eu.

Com o sem pre, Jacky estava sendo m uito observadora. A m ãe de Greg tam bém havia criticado seu noivado. As duas tinham razão: era um a estratégia de carreira. Mas Nelly era bonita, encantadora e adorava Greg. Qual era o problem a?

– Vou encontrá-la para alm oçar aqui perto em alguns m inutos – disse ele.

– Nelly sabe sobre Georgy ? – perguntou Jacky .

– Não. E é m elhor que continue sem saber.

– Tem razão. Um filho ilegítim o j á é ruim o suficiente; o fato de ele ainda por cim a ser negro poderia arruinar sua carreira.

– Eu sei.

– É quase tão ruim quanto um a esposa negra.

Greg ficou tão surpreso que não se conteve e perguntou:

– Por acaso achou que eu fosse m e casar com você?

A expressão dela foi de am argura.

– Caram ba, Greg, não! Se eu tivesse que escolher entre você e um assassino, pediria um tem po para pensar.

Ele sabia que era m entira. Por alguns instantes, refletiu sobre a possibilidade de se casar com Jacky. Casam entos inter-raciais eram raros e atraíam bastante hostilidade, tanto de negros quanto de brancos. Mas algum as pessoas enfrentavam o preconceito e aguentavam as consequências. Ele nunca tinha conhecido nenhum a m oça de que gostasse tanto quanto de Jacky ; nem m esm o Margaret Cowdry, com quem havia nam orado por alguns anos até ela se cansar de esperar que ele a pedisse em casam ento. Jacky tinha um a língua afiada, m as ele gostava disso, talvez porque sua m ãe fosse igual. Havia algo de profundam ente atraente na ideia de os três ficarem j untos o tem po todo. Georgy passaria a cham á-lo de pai. Eles poderiam com prar um a casa num bairro onde as pessoas tivessem a m ente aberta, um lugar com m uitos universitários e j ovens professores, talvez Georgetown.

Então viu a am iga loura de Georgy ser cham ada pelos pais, e sua m ãe branca zangada agitar um dedo reprovador, e percebeu que se casar com Jacky era a pior ideia do m undo.

Georgy voltou para o banco onde os pais estavam sentados.

– Com o vai a escola? – perguntou-lhe Greg.

– Estou gostando m ais do que antes – respondeu o m enino. – A aula de m atem ática está ficando m ais interessante.

– Eu era bom em m atem ática – com entou Greg.

– Puxa, que coincidência – disse Jacky .

Greg se levantou.

– Tenho que ir. – Apertou de leve o om bro de Georgy. – Continue firm e na m atem ática, com panheiro.

– Pode deixar – respondeu Georgy .

Com um aceno para Jacky , Greg se afastou.

Sem dúvida ela havia pensado em casam ento ao m esm o tem po que ele. Sabia que sair do Exército era um m om ento decisivo na vida dele. Greg seria obrigado a pensar no futuro. Não era possível que ela realm ente tivesse achado que eles fossem se casar, m as m esm o assim devia ter acalentado um a fantasia secreta. Fantasia que ele acabara de despedaçar. Era um a pena. Greg não faria dela sua m ulher m esm o que Jacky fosse branca. Gostava dela e am ava o filho, m as tinha a vida inteira pela frente e queria um a esposa que pudesse lhe proporcionar relações e apoio. O pai de Nelly era um hom em influente na cena política republicana.

Foi a pé até o Napoli, restaurante italiano a alguns quarteirões do parque. Nelly j á estava à sua espera, com os cachos cor de cobre escapando de um chapeuzinho verde.

– Com o você está linda! – disse ele. – Desculpe o atraso. – E se sentou.

A expressão no rosto da m oça era pétrea.

– Vi você no parque – disse ela.

Ai, m erda, pensou Greg.

– Cheguei cedo, então fui m e sentar lá um pouco – continuou Nelly. – Você não m e viu. Então com ecei a m e sentir um a enxerida e fui em bora.

– Quer dizer que você viu m eu afilhado? – perguntou ele com um a alegria forçada.

– É isso que ele é? Você é um a escolha curiosa com o padrinho. Nem frequenta a igrej a.

– Eu o trato bem !

– Qual é o nom e dele?

– Georgy Jakes.

– Você nunca falou nele antes.

– Ah, não?

– Quantos anos ele tem ?

– Doze.

– Então você tinha 16 anos quando ele nasceu. Muito j ovem para um padrinho.

– É, acho que sim .

– E o que a m ãe dele faz da vida?

– É garçonete. Anos atrás, era atriz. Seu nom e artístico era Jacky Jakes. Eu a conheci quando era contratada do estúdio do m eu pai.

Tudo isso era m ais ou m enos verdade, pensou Greg, pouco à vontade.

– E o pai do m enino?

Greg fez que não com a cabeça.

– Jacky é solteira. – Um garçom se aproxim ou. – Que tal um drinque? – perguntou Greg. Talvez um a bebida pudesse aliviar a tensão. – Dois m artínis – pediu ao garçom .

– Pois não, senhor.

Assim que o garçom se afastou, Nelly perguntou:

– Você é o pai do m enino, não é?

– Padrinho.

– Ah, pare de m entir – disse ela, em tom de desdém .

– Com o tem tanta certeza?

– Ele pode até ser negro, m as é a sua cara. Não consegue m anter os cadarços am arrados nem a cam isa para dentro da calça, igualzinho a você. E estava todo sedutor conversando com aquela m enininha loura. É claro que é seu filho.