Inverno do Mundo
Capítulo IV
Woody se recostou na cadeira.
– Ora, m as é o nosso casam ento!
Joanne olhou para o noivo.
– Talvez fosse m elhor fazerm os um a cerim ônia discreta no cartório, só com alguns am igos.
Woody deu de om bros.
– Por m im , tudo bem .
– Isso deixaria m uitas pessoas chateadas – disse Gus, severo.
– Mas não nós – retrucou Woody. – A pessoa m ais im portante desse dia é a noiva, e quero que ela tenha tudo o que desej a.
– Escutem aqui, todos vocês – interrom peu Rosa. – Não vam os nos exaltar. Gus, querido, talvez você tenha que cham ar Peter Cobb para conversar e explicar a ele, com delicadeza, que você tem a sorte de ter um filho idealista, que vai se casar com um a m oça m aravilhosa e igualm ente idealista, e que os dois recusaram o seu veem ente pedido de que o convidassem para o casam ento. Você sente m uito, m as não pode seguir as próprias inclinações nessa questão, da m esm a form a que Peter não pôde seguir as dele ao votar contra a lei antilincham ento. Ele vai sorrir e dizer que com preende e que sem pre gostou de você por sua sinceridade.
Após vários instantes de hesitação, Gus decidiu ceder graciosam ente:
– Acho que você tem razão, querida. – Então sorriu para Joanne. – De toda form a, eu seria um bobo se brigasse com a m inha adorável nora por causa de Peter Cobb.
– Obrigada... – respondeu Joanne. – Já posso com eçar a cham á-lo de papai?
Woody quase soltou um arquej o. Era a coisa perfeita a dizer. Com o ela era esperta!
– Isso m e faria m uito feliz – respondeu Gus.
Woody pensou ter visto um a lágrim a brilhar no olho do pai.
– Então obrigada, papai – disse Joanne.
Que tal, pensou Woody ? Ela havia enfrentado o senador Dewar – e vencera.
Que m ulher!
IV
No dom ingo, Eddie quis ir com Chuck buscar sua fam ília no hotel.
– Não sei, am or – respondeu Chuck. – Você e eu devem os parecer bons am igos, não inseparáveis.
Ainda não havia am anhecido. Os dois estavam num m otel e tinham que voltar de fininho ao quartel antes que o sol raiasse.
– Você tem vergonha de m im – disse Eddie.
– Com o você pode dizer um a coisa dessas? Eu o levei para j antar com a m inha fam ília!
– Aquilo foi ideia da sua m ãe, não sua. Mas o seu pai gostou de m im , não é?
– Todos adoraram você. Quem não adoraria? Mas eles não sabem que você é um hom ossexual im undo.
– Não sou um hom ossexual im undo. Sou um hom ossexual bem lim pinho.
– É verdade.
– Deixe eu ir com você, por favor. Quero conhecer m elhor a sua fam ília. É m uito im portante para m im .
Chuck deu um suspiro.
– Está bem .
– Obrigado. – Eddie o beij ou. – Ainda tem os tem po de...
Chuck sorriu.
– Se form os rápidos.
Duas horas depois, os dois estavam em frente ao hotel no Packard da Marinha. Seus quatro passageiros apareceram às sete e m eia. Rosa e Joanne usavam chapéus e luvas. Gus e Woody estavam de terno de linho branco. Woody levara sua câm era. Ele estava de m ãos dadas com a noiva.
– Olhe só o m eu irm ão – cochichou Chuck no ouvido de Eddie. – Ele está tão feliz!
– Ela é linda.
Os dois seguraram as portas do carro e os Dewar acom odaram -se no banco de trás da lim usine. Woody e Joanne ocuparam os assentos retráteis. Chuck saiu com o carro e seguiu em direção à base naval.
A m anhã estava esplendorosa. No rádio, a estação KGMB tocava hinos religiosos. O sol brilhava na lagoa e se refletia nas escotilhas de vidro e am uradas de m etal polido de um a centena de em barcações.
– Um a beleza, não é? – com entou Chuck.
Eles entraram na base e foram até o estaleiro da Marinha, onde havia um a dezena de navios em docas flutuantes e diques secos para reparos, m anutenção e reabastecim ento. Chuck parou em frente ao Cais dos Oficiais. Todos saltaram do carro para adm irar os im ponentes encouraçados que flutuavam na lagoa, m aravilhosos à luz da m anhã. Woody tirou um a foto.
Faltavam poucos m inutos para as oito. Chuck ouviu sinos de igrej a badalarem ali perto, em Pearl City. A bordo dos navios, um a sirene convocava a tripulação do turno da m anhã para o desj ej um , e, às oito horas em ponto, equipes se reuniram para hastear as bandeiras. No convés do Nevada, um a banda tocava “The Star-Spangled Banner”, o hino nacional dos Estados Unidos.
Os seis cam inharam até o píer, onde um a lancha os aguardava. A em barcação tinha capacidade para 12 passageiros, e era equipada com um m otor inboard, ou sej a, localizado dentro de um com partim ento na popa. Eddie deu a partida enquanto Chuck aj udava os outros a subir. O pequeno m otor ganhou vida com um alegre borbulhar. Chuck ficou em pé na proa enquanto Eddie afastava a lancha do píer e a virava de frente para os encouraçados. Quando ganharam velocidade, a proa se levantou, proj etando na água dois rastros de espum a sim étricos, que pareciam as asas de um a gaivota.
Chuck ouviu um avião e olhou para cim a. A aeronave vinha do oeste e voava tão baixo que parecia correr o risco de cair. Im aginou que estivesse prestes a pousar na pista da Marinha localizada em Ford Island.
Sentado na proa ao lado de Chuck, Woody franziu o cenho e perguntou:
– Que avião é esse?
Chuck conhecia todas as aeronaves do Exército e da Marinha, m as teve dificuldade para identificar aquela.
– Está parecendo um Tipo 97 – disse ele.
O Tipo 97 era o torpedeiro da Marinha Im perial j aponesa e tinha com o base um porta-aviões.
Woody apontou a câm era para a aeronave.
Quando ela se aproxim ou, Chuck viu dois grandes sóis verm elhos pintados nas asas.
– É um avião j aponês! – exclam ou.
Eddie, que estava na proa pilotando a lancha, ouviu o que ele disse e falou:
– O pessoal deve ter pintado isso para algum exercício de sim ulação. Um treinam ento-surpresa para estragar a m anhã de dom ingo de todo m undo.
– É, im agino que sim – disse Chuck.
Foi então que viu um segundo avião atrás do prim eiro.
E m ais outro.
– Que diabo está acontecendo? – perguntou o senador, nervoso.
Os aviões se inclinaram acim a do estaleiro naval e passaram bem perto da lancha, seu barulho aum entando até virar um rugido digno das cataratas do Niágara. Chuck viu que eram uns dez; não, vinte; não, m ais.
Os aviões iam direto para a Fila dos Encouraçados.
Woody parou de tirar fotos e disse:
– Não pode ser um ataque de verdade... Ou pode? – Além de dúvida, sua voz tam bém dem onstrava m edo.
– Com o esses aviões podem ser j aponeses? – indagou Chuck, incrédulo. – O Japão fica a m ais de 6.500 quilôm etros daqui! Nenhum avião tem essa autonom ia de voo.
Ele se lem brou de que os porta-aviões da Marinha j aponesa tinham entrado em silêncio de rádio. A unidade de inteligência havia suposto que estivessem em águas j aponesas, m as nunca confirm ara isso.
Cruzou olhares com o pai e im aginou que Gus estivesse recordando a m esm a conversa.
De repente, tudo ficou claro, e a incredulidade se transform ou em m edo.
O avião que liderava a form ação sobrevoou o Nevada, o últim o encouraçado da fila. Ouviu-se um a salva de canhões. No convés, m arinheiros correram para todos os lados e a banda parou de tocar, fazendo o som m orrer de form a desordenada à m edida que as notas eram interrom pidas.
Na lancha, Rosa deu um grito.
– Meu Deus do céu, é um ataque! – exclam ou Eddie.
O coração de Chuck com eçou a bater acelerado. Os j aponeses estavam bom bardeando Pearl Harbor, e ele se encontrava num a pequena em barcação no m eio da lagoa. Olhou para o rosto assustado dos outros – seus pais, seu irm ão, Eddie –, e percebeu que todas as pessoas que ele am ava estavam ali.
Torpedos com pridos em form a de bala com eçaram a cair do corpo dos aviões e a m ergulhar nas águas calm as da lagoa.
– Eddie, dê m eia-volta! – gritou Chuck.
Mas Eddie j á estava m anobrando a lancha, fazendo um a curva fechada.
Quando a em barcação virou, Chuck viu que outro grupo de aeronaves com os grandes discos verm elhos pintados nas asas sobrevoava a base aérea de Hickam . Eram bom bardeiros de m ergulho e estavam descendo do céu com o aves de rapina sobre as fileiras de aviões am ericanos perfeitam ente dispostas nas pistas.
Com o era possível aqueles desgraçados estarem ali em tam anha quantidade? Metade da Força Aérea j aponesa parecia estar sobrevoando Pearl.
Woody voltou a tirar fotos.
Chuck ouviu um baque surdo, com o um a explosão subterrânea, seguido im ediatam ente por outro. Virou-se. Um clarão de cham as surgiu acim a do Arizona, e o encouraçado com eçou a soltar fum aça.
A popa da lancha afundou m ais ainda na água quando Eddie acelerou.
– Rápido, rápido! – disse Chuck, desnecessariam ente.
Chuck ouviu o cham ado insistente e ritm ado de um a sirene vindo de um dos navios, convocando a tripulação a seus postos de com bate, e entendeu que aquilo era mesmo um a batalha e que sua fam ília estava bem no m eio dela. Instantes depois, em Ford Island, a sirene de ataque aéreo com eçou a ecoar com o um lam ento baixo, e foi ficando cada vez m ais aguda, até alcançar sua nota m ais alta e urgente.
Um a longa série de explosões ecoava da Fila de Encouraçados conform e os torpedos atingiam seus alvos.
– Olhe o Wee Vee! – gritou Eddie. Era assim que eles cham avam o West Virginia . – Está adernando para bom bordo!
Chuck viu que ele tinha razão. O encouraçado exibia um rom bo do lado m ais próxim o aos aviões inim igos. Milhões de toneladas de água deviam ter entrado no casco em poucos segundos para fazer um a em barcação daquele porte tom bar.
Bem ao lado, o m esm o acontecia com o Oklahoma e, para seu horror, Chuck viu m arinheiros escorregando indefesos, deslizando pelo convés inclinado e despencando dentro d’água pela lateral do navio.
Ondas provocadas pelas explosões sacudiram a lancha. Todos se seguraram nas bordas.
Chuck viu um a chuva de bom bas atingir a base de hidroplanos, na ponta m ais próxim a de Ford Island. As frágeis aeronaves, atracadas próxim as um as das outras, foram totalm ente destruídas, e fragm entos de asas e fuselagens saíram voando pelo ar, com o folhas num furacão.
Graças ao seu treinam ento de inteligência, Chuck tentava identificar tipos de aeronaves inim igas, e detectou um terceiro m odelo: o m ortal Mitsubishi Zero, o m elhor caça do m undo a operar a partir de porta-aviões. O Zero tinha apenas duas bom bas pequenas, m as tam bém era equipado com duas m etralhadoras e dois canhões de 20m m . Naquele ataque, devia ter a m issão de escoltar os bom bardeiros para defendê-los de caças am ericanos – só que todos os caças continuavam no solo, onde m uitos j á tinham sido destruídos. Isso deixava os Zeros livres para m etralhar prédios, equipam entos e tropas.
Ou então, pensou Chuck com m edo, um a fam ília que atravessava a lagoa, desesperada para chegar ao cais.
Por fim , os Estados Unidos com eçaram a reagir. Em Ford Island e nos conveses dos navios ainda não atingidos, peças de artilharia antiaérea e m etralhadoras norm ais ganharam vida, som ando seu barulho à cacofonia de ruídos letais. Morteiros antiaéreos explodiam com o flores negras desabrochando no céu. Quase na m esm a hora, um operador de m etralhadora em terra atingiu em cheio um caça de m ergulho. O cockpit explodiu em cham as, e o avião caiu na lagoa com um forte baque, levantando água. Chuck vibrou e agitou os punhos no ar.
O West Virginia adernado com eçou a voltar à vertical, m as continuou afundando, e Chuck entendeu que o com andante devia ter aberto as válvulas de segurança de estibordo para fazer com que a em barcação afundasse na vertical, dando à tripulação m ais chances de sobreviver. O Oklahoma, porém , não teve a m esm a sorte e, com um m isto de assom bro e terror, os ocupantes da lancha viram o im enso navio com eçar a em borcar.
– Ah, m eu Deus, olhem a tripulação – disse Joanne.
Atarantados, os m arinheiros escalavam o convés agora m uito íngrem e e pulavam por cim a da am urada de estibordo, num a tentativa desesperada de se salvar. No entanto, quando o im enso navio enfim virou de cabeça para baixo e com eçou a afundar, Chuck percebeu que aqueles eram os que tiveram m ais sorte: quantas centenas de hom ens não estariam presos sob o convés?
– Segurem -se! – gritou Chuck.
Um a im ensa onda gerada pelo naufrágio do Oklahoma se aproxim ava. Seu pai segurou sua m ãe, e Woody segurou Joanne. A onda os atingiu e ergueu a lancha até um a altura inim aginável. Chuck titubeou, m as continuou a segurar a borda. A lancha não afundou. Ondas m enores se seguiram , fazendo-os balançar, m as todos estavam a salvo.
Ainda se encontravam a quase m eio quilôm etro da m argem , constatou ele, consternado.
Por incrível que parecesse, o Nevada, que fora m etralhado logo no início, com eçou a se afastar. Alguém devia ter tido a presença de espírito de m andar todos os navios zarparem do porto. Se conseguissem sair, talvez pudessem se separar e se tornar alvos m ais difíceis.
Então um estrondo dez vezes m ais potente que os outros ecoou da Fila dos Encouraçados. A explosão foi tão violenta que Chuck sentiu seu im pacto com o um golpe no peito, em bora j á estivesse a quase um quilôm etro de distância. Cham as foram cuspidas da torre de tiro núm ero 2 d o Arizona. Um a fração de segundo depois, a m etade anterior do navio pareceu explodir. Destroços saíram voando, e vigas de m etal retorcido e placas deform adas se ergueram no ar em m eio à fum aça com a m esm a lentidão de um pesadelo, com o pedaços de papel queim ado num a fogueira. A parte da frente do navio foi engolfada por labaredas e fum aça. O m astro im ponente tom bou para a frente com o um bêbado.
– O que foi isso? – perguntou Woody .
– O depósito de m unição do navio deve ter explodido – respondeu Chuck, percebendo, com profunda tristeza, que centenas de seus com panheiros da Marinha deviam ter m orrido naquela detonação gigantesca.
Um a coluna de fum aça verm elho-escura com o a de um a pira funerária subiu pelos ares.
Então ouviu-se um barulho bem alto de algo caindo, e a lancha deu um tranco ao ser atingida por algum a coisa. Todos se abaixaram . Chuck caiu de j oelhos e pensou que devia ser um a bom ba, depois percebeu que isso não era possível, pois ainda estava vivo. Quando conseguiu se recuperar, viu que um pesado fragm ento de m etal de um m etro de com prim ento tinha perfurado o convés da lancha logo acim a do m otor. Era um m ilagre não ter acertado ninguém .
Mas o m otor m orreu.
A lancha perdeu velocidade e parou. Ficou à deriva enquanto os aviões j aponeses despej avam o fogo do inferno sobre a lagoa.
– Chuck, tem os que sair daqui agora – disse Gus, tenso.
– Eu sei. – Chuck e Eddie exam inaram o estrago. Tentaram rem over o pedaço de m etal do convés de m adeira, m as viram que estava bem preso.
– Não há tem po para isso! – exclam ou Gus.
– O m otor j á era m esm o, Chuck – disse Woody .
Eles ainda estavam distantes da m argem . No entanto, a lancha era equipada para um a em ergência com o aquela. Chuck soltou um par de rem os e em punhou um deles. Eddie pegou o outro. A lancha era grande para ser conduzida a rem o, e eles avançaram devagar.
Para sua sorte, houve um a pausa no ataque. O céu não estava m ais cheio de aviões. Im ensas espirais de fum aça subiam dos navios atingidos, incluindo um a coluna de 300 m etros de altura do Arizona, que sofrera danos irreparáveis. No entanto, não houve novas explosões. Dando m ostras de um a determ inação incrível, o Nevada agora seguia em direção à entrada do porto.
A água em volta dos navios estava coalhada de botes salva-vidas, lanchas a m otor e m arinheiros nadando ou boiando agarrados a destroços. Afogar-se não era seu único tem or: o com bustível dos navios avariados tinha se espalhado pela superfície da lagoa e pegara fogo. Os gritos de socorro dos que não conseguiam nadar se m isturavam aos dos queim ados, form ando um a sinfonia dantesca.
Chuck olhou de relance para o relógio de pulso. Tinha a im pressão de que o ataque j á durava m uitas horas, m as, para sua surpresa, apenas m eia hora havia se passado.
No exato instante em que ele pensava isso, teve início a segunda fase.
Dessa vez, os aviões vieram do leste. Alguns foram atrás do Nevada, que tentava fugir. Outros elegeram com o alvo o estaleiro da Marinha, onde os Dewar haviam em barcado na lancha. Quase na m esm a hora, o destróier Shaw, que estava sobre um dique flutuante, explodiu em cham as e nuvens de fum aça. Mais óleo se espalhou pela água e pegou fogo. Então, no m aior dos diques secos, o encouraçado Pennsylvania foi atingido. Dois destróieres que estavam no m esm o dique tam bém voaram pelos ares quando seus depósitos de m unição explodiram .
Chuck e Eddie rem avam com força e suavam com o cavalos de corrida.
No estaleiro, surgiram fuzileiros navais – sem dúvida vindos da caserna próxim a –, que com eçaram a trazer equipam entos de com bate a incêndio.
Por fim , a lancha chegou ao Cais dos Oficiais. Chuck pulou no píer e am arrou rapidam ente a em barcação, enquanto Eddie aj udava os outros a desem barcar. Todos correram até o carro.
Chuck pulou para o banco do m otorista e deu a partida no m otor. O rádio ligou autom aticam ente e eles ouviram o locutor da KGMB dizer:
– Todo o pessoal do Exército, da Marinha e da Aeronáutica deve se apresentar para o serviço im ediatam ente.
O próprio Chuck não tivera oportunidade de se apresentar a ninguém , m as tinha certeza de que suas prim eiras ordens seriam para garantir a segurança dos quatro civis que estavam sob seus cuidados, sobretudo porque entre eles havia duas m ulheres e um senador.
Assim que todos entraram , o carro partiu.
A segunda onda do ataque parecia estar chegando ao fim . A m aioria dos aviões j aponeses se afastava do porto. Mesm o assim , Chuck dirigiu depressa: talvez ainda houvesse um a terceira onda.
O portão principal do estaleiro estava aberto. Se não estivesse, ele teria se sentido tentado a arrebentá-lo.
Não havia m ais nenhum carro na rua.
Chuck saiu em disparada do porto e seguiu pela rodovia Kam eham eba. Quanto m ais se afastasse de Pearl Harbor, m ais segura estaria sua fam ília, pensou.
Foi então que viu um Zero sozinho vindo na sua direção.
O avião voava baixo, seguindo a rodovia, e em poucos instantes Chuck percebeu que seu alvo era o carro.
Os canhões do caça ficavam nas asas, e havia um a boa chance de os j aponeses não conseguirem acertar o carro, que era um alvo estreito. As m etralhadoras, porém , situavam -se bem próxim as um a da outra, de am bos os lados da tam pa do m otor. Se o piloto fosse esperto, iria usá-las.
Atarantado, Chuck olhou para os dois lados da estrada. Não havia nenhum esconderij o, nada além de canaviais.
Com eçou a ziguezaguear com o carro. Inteligente, o piloto do avião não tentou acom panhá-lo. A estrada não era m uito larga e, se Chuck entrasse no canavial, a velocidade do carro dim inuiria radicalm ente. Ao perceber que quanto m ais rápido andasse, m enos chances teria de ser alvej ado, ele pisou fundo no acelerador.
De repente era tarde dem ais para qualquer estratégia. O avião estava tão perto que Chuck pôde ver nas asas os furos negros redondos pelos quais saíam os tiros dos canhões. No entanto, conform e ele previra, o piloto com eçou a atacar com as m etralhadoras, e os tiros levantaram poeira da estrada à sua frente.
Chuck m oveu o carro para a esquerda até o m eio da estrada, e então, em vez de continuar na m esm a direção, deu um a guinada para a direita. O piloto corrigiu o curso da aeronave. Balas atingiram o capô do carro. O para-brisa se espatifou. Eddie soltou um urro de dor e, no banco de trás, um a das m ulheres gritou.
Então o Zero desapareceu.
O carro com eçou a ziguezaguear, descontrolado. Um a das rodas dianteiras devia ter sido danificada. Chuck lutou com o volante para tentar se m anter na estrada. O veículo derrapou no asfalto, bateu na vegetação que m argeava a estrada e parou com um solavanco.
O m otor com eçou a soltar cham as, e Chuck sentiu cheiro de gasolina.
– Todo m undo para fora do carro! – berrou. – Antes que o tanque exploda!
Ele abriu a porta do m otorista e pulou para fora. Escancarou a porta traseira para que o pai saltasse, puxando sua m ãe atrás dele. Viu os dem ais descendo pelo outro lado.
– Corram ! – gritou Chuck, m as não havia necessidade.
Eddie j á seguia para o canavial, m ancando com o se tivesse sido atingido. Woody m eio puxava, m eio carregava Joanne, que tam bém parecia ferida. Seu pai e sua m ãe, aparentem ente ilesos, entraram no canavial às pressas. Ele foi atrás. Todos percorreram cerca de cem m etros, então se j ogaram no chão.
Houve um instante de calm aria. O barulho dos aviões tinha virado um zum bido distante. Chuck olhou para o céu e viu a fum aça oleosa do porto se elevar a m ilhares de m etros. Acim a dela, os últim os poucos bom bardeiros de grande altitude se afastavam rum o ao norte.
Então ouviu-se um estrondo que feriu seus tím panos. Mesm o de olhos fechados, ele pôde perceber o forte clarão do tanque de gasolina explodindo. Um a onda de calor passou por cim a dele.
Erguendo a cabeça, olhou para trás. O carro estava pegando fogo.
Ele se levantou com um pulo.
– Mãe! Você está bem ?
– Por m ilagre, estou ilesa – respondeu Rosa com calm a enquanto seu pai a aj udava a ficar de pé.
Chuck então correu os olhos pelo canavial à procura dos outros. Correu até Eddie, que estava sentado com o tronco ereto, segurando a coxa.
– Você foi atingido?
– Dói pra caralho – respondeu Eddie. – Mas não está sangrando m uito. – Ele forçou um sorriso. – Acho que foi no alto da coxa, m as não atingiu nenhum órgão vital.
– Vam os levá-lo para o hospital.
Foi então que Chuck ouviu um som terrível.
Seu irm ão estava aos prantos.
Woody chorava não com o um bebê, m as com o um a criança perdida: um lam ento alto e cheio de soluços, de puro sofrim ento.
Na m esm a hora Eddie entendeu que aquele era o som de um coração partido.
Chuck correu até o irm ão. Woody estava aj oelhado no chão, com o peito trem endo, a boca aberta e os olhos inundados de lágrim as. Seu terno de linho branco estava todo suj o de sangue, m as ele não se ferira. Entre um soluço e outro, gem ia:
– Não, não!
Joanne estava deitada de costas no chão à sua frente.
Chuck logo viu que ela estava m orta. Seu corpo perm anecia im óvel, e os olhos abertos tinham um a expressão vazia. A frente do vestido de algodão estam pado com listras de cores alegres estava em papada de sangue verm elho-vivo, que j á escurecia em alguns pontos. Chuck não conseguiu ver o ferim ento, m as im aginou que ela tivesse levado um tiro no om bro que atingira a artéria axilar. A hem orragia a devia ter m atado em poucos m inutos.
Não soube o que dizer.
Os outros se aproxim aram e se postaram ao seu lado: a m ãe, o pai e Eddie. Rosa se aj oelhou no chão ao lado de Woody e o abraçou.
– Pobrezinho do m eu filho – falou, com o se ele ainda fosse um a criança.
Eddie passou o braço em volta dos om bros de Chuck e lhe deu um abraço discreto.
Gus se aj oelhou j unto ao corpo. Estendeu a m ão e segurou a do filho m ais velho.
Os soluços de Woody se acalm aram um pouco.
– Feche os olhos dela, Woody – disse o pai.
A m ão de Woody trem ia. Com esforço, ele conseguiu estabilizá-la.
Levou as pontas dos dedos em direção às pálpebras de Joanne.
Então, com infinita delicadeza, fechou seus olhos.