Inverno do Mundo

Ken Follett · Capítulo 42 de 153

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Inverno do Mundo

Capítulo V

Lloy d não estava lá. Já devia ter ido em bora. Ela sentiu um peso no coração.

No entanto, ele devia estar indo a pé para a estação: só os ricos e os doentes pegavam táxis para percorrer m enos de dois quilôm etros. Talvez conseguisse alcançá-lo. Saiu pela porta da frente.

Viu-o uns quatrocentos m etros m ais à frente, descendo o acesso à m ansão a passos rápidos, de m ala na m ão. O coração de Daisy deu um pulo. Deixando a cautela de lado, correu atrás dele.

Um a picape leve do Exército, do tipo conhecido com o Tilly, descia o acesso à casa na sua frente. Para seu desespero, dim inuiu a velocidade ao lado de Lloy d.

– Não! – exclam ou Daisy , m as ele estava longe dem ais para escutá-la.

Jogando a m ala na caçam ba da picape, ele subiu na cabine ao lado do m otorista.

Ela continuou a correr, m as foi inútil. A picape voltou a andar e com eçou a ganhar velocidade.

Daisy parou. Ficou olhando a Tilly passar pelos portões de Tŷ Gwy n e sum ir de vista. Tentou não chorar.

Depois de alguns instantes, deu m eia-volta e tornou a entrar na casa.

 

V

A cam inho de Bournem outh, Lloy d pernoitou em Londres, e na noite dessa quarta-feira, 8 de m aio, foi à galeria de visitantes da Câm ara dos Com uns para assistir ao debate que decidiria o futuro do prim eiro-m inistro Neville Cham berlain.

Era com o estar sentado na frisa m ais alta do teatro: os assentos estavam apinhados, eram duros, e a vista para o dram a que se desenrolava lá em baixo era vertiginosa. A galeria estava cheia nessa noite. Lloy d e o padrasto Bernie só tinham conseguido ingressos com m uita dificuldade, graças à influência de sua m ãe, Ethel, que se encontrava sentada ao lado de seu tio Billy j unto com os deputados trabalhistas, no plenário abarrotado.

Lloy d ainda não tivera nenhum a chance de perguntar sobre seus verdadeiros pais, pois todos estavam preocupados dem ais com a crise política. Tanto Lloy d quanto Bernie queriam a renúncia de Cham berlain. O apaziguador do fascism o tinha pouca credibilidade para com andar um a guerra, e a derrocada na Noruega apenas ressaltara este fato.

O debate havia com eçado na noite anterior. Segundo os relatos de Ethel, Cham berlain fora atacado com fúria não apenas pelos deputados trabalhistas, m as tam bém por m em bros de seu próprio partido. O conservador Leo Am ery citara um a frase de Crom well:

– “O senhor j á passou m uito tem po sentado aqui para a qualidade do trabalho que tem feito. Vá em bora e perm ita que nos livrem os do senhor. Em nom e de Deus, vá em bora!”

Era um discurso cruel para se ouvir de um colega, e os gritos de “É isso aí, é isso aí!” vindos de am bos os lados do plenário o tornaram ainda pior.

A m ãe de Lloy d se reunira com as outras deputadas na sala que ocupavam no Palácio de Westm inster. Elas haviam concordado em forçar um a votação. Com o os hom ens não podiam detê-las, j untaram -se a elas. Um a vez anunciada a decisão, na quarta-feira, o debate se transform ou num a votação pela perm anência ou não de Cham berlain no cargo. O prim eiro-m inistro aceitou o desafio e apelou aos am igos que ficassem do seu lado – o que Lloy d interpretou com o um sinal de franqueza.

Nessa noite, os ataques prosseguiam . Lloy d estava achando aquilo ótim o. Detestava Cham berlain por causa de sua política na Espanha. Durante dois anos, de 1937 a 1939, o prim eiro-m inistro defendera a “não intervenção” da Grã-Bretanha e da França, enquanto Alem anha e Itália despej avam arm as e soldados no exército rebelde, e am ericanos ultraconservadores vendiam gasolina e cam inhões para Franco. Se algum político britânico era responsável pelos assassinatos em m assa que Franco estava com etendo, esse hom em era Neville Cham berlain.

– Mas Cham berlain na verdade não é o culpado pelo fiasco na Noruega – disse Bernie para Lloy d num m om ento em que a barulheira dim inuiu. – O chefe do alm irantado é Winston Churchill e, segundo sua m ãe, foi ele quem fez pressão a favor dessa invasão. Depois de tudo o que Cham berlain j á fez, depois da Espanha, da Áustria, da Tchecoslováquia... vai ser um a ironia se for expulso do poder por causa de algo que na realidade não é culpa dele.

– Em últim a instância, tudo é culpa do prim eiro-m inistro – disse Lloy d. – É isso que significa liderar.

Bernie deu um sorriso torto, e Lloy d entendeu que ele estava pensando que os j ovens viam tudo de m aneira m uito sim plista; m as Bernie não disse isso em voz alta.

O debate foi ruidoso, m as a casa silenciou quando o ex-prim eiro-m inistro David Lloy d George se levantou para falar. Lloy d fora batizado em hom enagem a ele. Agora com 77 anos, o político de cabelos brancos falava com a autoridade do hom em que havia vencido a Grande Guerra. Ele foi im placável.

– Não se trata de saber quem são os am igos do prim eiro-m inistro – disse ele, afirm ando o óbvio com um sarcasm o ferino. – A questão é m uito m ais com plexa.

Mais um a vez, Lloy d ficou anim ado ao ouvir o coro de aprovação que em anou tanto do lado conservador do plenário quanto da oposição.

– Ele pediu sacrifícios – disse Lloy d George, e seu sotaque galês nasalado pareceu aguçar ainda m ais o desprezo que sentia. – Nada contribuiria m ais para um a vitória nesta guerra do que ele sacrificar o próprio cargo.

A oposição aprovou aos berros, e Lloy d viu sua m ãe aplaudindo.

Churchill encerrou o debate. Com o orador, era do m esm o nível de Lloy d George, e Lloy d tem eu que sua oratória conseguisse salvar Cham berlain. Mas o Parlam ento inteiro ficou contra ele, interrom pendo e vaiando seu discurso, às vezes tão alto que ele não conseguia se fazer ouvir.

Churchill sentou-se às onze da noite, e a votação com eçou.

O sistem a de votação não era nada prático. Em vez de levantar a m ão ou usar pedacinhos de papel, os deputados tinham que sair do plenário e ser contados ao tornarem a entrar por um de dois saguões: um para “sim ”, outro para “não”. O processo todo levava de quinze a vinte m inutos. Só podia ter sido inventado por hom ens que não tinham m ais o que fazer, dizia Ethel. Estava certa de que seria m odernizado em breve.

Lloy d aguardou com os nervos à flor da pele. A queda de Cham berlain lhe daria profunda satisfação, m as de m odo algum era um a certeza.

Para se distrair, pensou em Daisy – sem pre um a ocupação agradável. Com o tinham sido estranhas as últim as 24 horas que ele passara em Tŷ Gwy n: prim eiro aquele recado com um a única palavra, “Biblioteca”; em seguida a conversa apressada e o convidativo pedido para que ele fosse à Suíte Gardênia; depois um a noite inteira de espera, frio, tédio e incom preensão, aguardando um a m ulher que não aparecera. Tinha ficado lá até as seis da m anhã, arrasado, m as sem querer perder a esperança, até a hora em que foi obrigado a tom ar banho, fazer a barba, trocar de roupa e preparar a m ala para a viagem .

Era óbvio que algo tinha saído errado, ou então ela m udara de ideia. Mas qual seria sua intenção? Ela contara que queria lhe dizer um a coisa. Teria planej ado fazer um a revelação bom bástica, que m erecesse todo aquele suspense? Ou seria algo tão trivial que se esquecera com pletam ente do encontro? Ele teria que esperar até a terça-feira seguinte para perguntar a ela.

Não tinha contado à fam ília que Daisy estava em Tŷ Gwy n. Isso o teria obrigado a lhes explicar qual era seu relacionam ento com ela agora, coisa que não podia fazer, pois ele m esm o não entendia m uito bem . Estava apaixonado por um a m ulher casada? Não sabia dizer. O que ela sentia por ele? Não sabia dizer. O m ais provável, pensou, era que Daisy e ele fossem bons am igos que tinham deixado escapar a chance do am or. E por algum m otivo ele não queria adm itir isso para ninguém , pois lhe parecia um fato insuportavelm ente definitivo.

– Se Cham berlain sair, quem vai assum ir? – perguntou Lloy d a Bernie.

– Estão apostando em Halifax. – Lorde Halifax era o atual m inistro das Relações Exteriores.

– Não! – protestou Lloy d, indignado. – Não podem os ter um conde com o prim eiro-m inistro num m om ento com o este. Além disso, ele é tão apaziguador quanto Cham berlain!

– Concordo – disse Bernie. – Mas quem m ais poderia ser?

– Que tal Churchill?

– Sabe o que Stanley Baldwin disse sobre Churchill? – O conservador Baldwin tinha sido prim eiro-m inistro antes de Cham berlain. – “Quando Winston nasceu, várias fadas voaram até seu berço levando presentes: criatividade, eloquência, energia, com petência. Até aparecer um a fada que disse: ‘Ninguém m erece tantos presentes!’ Então ela pegou o bebê e o sacudiu e torceu com tanta força que o privou de qualquer j uízo ou sensatez.”

Lloy d sorriu.

– Muito engraçado, m as é verdade?

– Tem um fundo de verdade. Na últim a guerra, ele foi responsável pela cam panha de Dardanelos, que foi um a derrota terrível para nós. Agora fez pressão para entrarm os nessa aventura na Noruega: outro fracasso. É bom de oratória, m as os indícios sugerem que tem tendência a ser um pouco sonhador.

– Ele tinha razão nos anos 1930 quanto à necessidade de a Grã-Bretanha se rearm ar – disse Lloy d. – Todos os outros foram contra, inclusive o Partido Trabalhista.

– Churchill vai defender o rearm am ento até no Paraíso, quando o leão se deitar ao lado do cordeiro.

– Acho que precisam os de alguém com um a veia agressiva. Querem os um prim eiro-m inistro que rosne, não que choram ingue.

– Bom , talvez o seu desej o se realize. Os contadores de votos estão voltando.

O resultado da votação foi anunciado: 280 sim , 200 não. Cham berlain vencera. A confusão se instalou no plenário. Os partidários do prim eiro-m inistro aplaudiam , m as outros gritavam exigindo que ele renunciasse.

Lloy d sentiu um a am arga decepção.