Inverno do Mundo

Ken Follett · Capítulo 14 de 153

Páginas do PDF

Inverno do Mundo

Capítulo III

Mais um a vez, Greg ficou espantado com o poder de seu pai. Lev podia m andar espancar pessoas; oferecer oito m ilhões de dólares do dinheiro dos outros; assustar um presidente; seduzir a noiva de outro hom em . E tam bém era capaz de arruinar um negócio com um sim ples telefonem a.

– Espere só e você verá – disse ele ao filho. – Daqui a um m ês, Dave Rouzrokh vai estar im plorando para eu com prar sua cadeia de cinem as... por m etade do preço que eu lhe ofereci hoj e.

 

III

– Não sei qual é o problem a com esse cachorro – disse Daisy. – Ele não faz nada que eu m ando. Está m e deixando louca. – Sua voz trem ia, havia um a lágrim a em seu olho e ela só estava exagerando um pouquinho.

Charlie Farquharson analisou o filhote.

– Não há nada de errado com ele – declarou. – Que graça. Qual é o nom e dele?

– Jack.

– Ah.

Os dois estavam sentados em cadeiras no bem -cuidado j ardim de quase um hectare da casa de Daisy. Depois de cum prim entar Charlie, Eva m uito discretam ente havia se retirado para escrever um a carta para casa. Um pouco m ais afastado, o j ardineiro Henry afofava com um a enxada um canteiro de am ores-perfeitos roxos e am arelos. Sua esposa, a criada Ella, trouxe um a j arra de lim onada e alguns copos, que arrum ou sobre um a m esinha dobrável.

O cão era um pequeno filhote de Jack Russell, pequeno e forte, branco com m anchas m arrons. Tinha um ar inteligente, com o se entendesse tudo o que os hum anos diziam , m as não parecia ter qualquer inclinação para obedecer. Daisy o segurou no colo e acariciou-lhe o focinho delicadam ente com a ponta dos dedos, de um j eito que esperava que Charlie achasse estranham ente perturbador.

– Não gostou do nom e?

– Só achei um pouco óbvio. – Charlie olhou para a m ão branca de Daisy sobre o focinho do cachorro e rem exeu-se na cadeira, pouco à vontade.

Daisy não queria exagerar na dose. Se provocasse m uito Charlie, ele sim plesm ente iria em bora. Era por isso que continuava solteiro aos 25 anos: várias m oças de Buffalo, entre elas Dot Renshaw e Muffie Dixon, tinham achado im possível fazê-lo se com prom eter. Mas Daisy era diferente.

– Então escolha um nom e para ele.

– Seria bom se tivesse duas sílabas, com o Bonzo, para que ele reconhecesse o nom e m ais facilm ente.

Daisy não fazia a m enor ideia de com o dar nom e a cães.

– Que tal Rover? – sugeriu ela.

– Muito com um . Talvez Rusty sej a m elhor.

– Perfeito! – disse ela. – Então o nom e dele vai ser Rusty .

O cachorro se desvencilhou das m ãos de Daisy sem dificuldade e pulou no chão.

Charlie o pegou. Daisy reparou que ele tinha as m ãos grandes.

– Você precisa m ostrar a Rusty quem é que m anda – disse Charlie. – Segure-o bem firm e e só o deixe descer quando você m andar. – Ele pôs o cão de volta no colo dela.

– Mas ele é tão forte! E tenho m edo de m achucá-lo.

Charlie sorriu de um j eito condescendente.

– Você provavelm ente não conseguiria m achucá-lo nem se quisesse. Segure a coleira com força... pode torcer um pouco se precisar. Depois ponha a outra m ão nas costas dele com firm eza.

Daisy seguiu as instruções de Charlie. O cachorro sentiu a pressão m ais forte de sua m ão e ficou parado, com o se estivesse esperando para ver o que iria acontecer em seguida.

– Mande que ele sente e ao m esm o tem po em purre o traseiro dele para baixo.

– Sentado – disse ela.

– Fale m ais alto e dê bastante ênfase ao “s”. Depois em purre com força.

– Rusty , sentado! – disse ela, em purrando para baixo o traseiro do filhote, que sentou.

– Pronto – disse Charlie.

– Com o você é inteligente! – elogiou Daisy , efusiva.

Charlie pareceu satisfeito.

– É só um a questão de saber o que fazer – disse, m odesto. – Com cachorros, é preciso ser sem pre bem enfática e decidida. Você praticam ente tem que latir para eles. – Ele se recostou na cadeira, parecendo contente. Era bem grandão e ocupava a cadeira toda. Falar sobre algo em que era especialista o fizera relaxar, com o Daisy havia torcido para que acontecesse.

Tinha lhe telefonado naquela m esm a m anhã.

– Estou desesperada! – dissera. – Tenho um cachorrinho novo e não sei o que fazer com ele. Você pode m e dar uns conselhos?

– Qual é a raça dele?

– Jack Russell.

– Ah, a m inha preferida... tenho três cães dessa raça!

– Que coincidência!

Com o Daisy previa, Charlie se oferecera para ir até sua casa aj udá-la a adestrar o filhote.

– Acha m esm o que Charlie é o rapaz certo para você? – perguntara Eva, cética.

– Está falando sério? – retrucara Daisy . – Ele é um dos m elhores partidos de Buffalo!

Agora, no j ardim , dizia para ele:

– Aposto que você tam bém levaria m uito j eito com crianças.

– Ah, isso eu j á não sei.

– Você adora cachorros, m as os trata com firm eza. Tenho certeza de que isso tam bém funciona com crianças.

– Não faço ideia. – Ele m udou de assunto: – Você pretende entrar para a faculdade em setem bro?

– Talvez vá para Oakdale. É um a escola para m oças e o curso dura dois anos. A m enos que...

– A m enos que o quê?

A m enos que eu m e case, ela queria dizer, m as em vez disso falou:

– Não sei. A m enos que aconteça algum a outra coisa.

– Com o o quê, por exem plo?

– Eu gostaria de conhecer a Inglaterra. Meu pai foi a Londres e conheceu o príncipe de Gales. E você? Quais são seus planos?

– Sem pre acham os que eu fosse assum ir o banco de papai, m as agora o banco não existe m ais. Mam ãe tem um pouco de dinheiro da fam ília dela e sou eu que o adm inistro, m as, tirando isso, estou m eio sem rum o.

– Você deveria criar cavalos – disse Daisy. – Sei que seria ótim o nisso. – Ela era boa am azona e ganhara prêm ios quando m ais nova. Im aginou-se com Charlie no parque, cada um m ontado em um belo tordilho, e seus dois filhos logo atrás, em pôneis. A visão a fez sentir um calor que a ilum inou por dentro.

– Adoro cavalos – disse Charlie.

– Eu tam bém ! Quero criar cavalos de corrida. – Esse entusiasm o Daisy não precisou fingir. Tinha o sonho de criar um a linhagem de cam peões. Ela considerava os donos de cavalos de corrida a m aior das elites internacionais.

– Puros-sangues custam m uito dinheiro – com entou Charlie, desanim ado.

Daisy tinha m uito dinheiro. Se Charlie se casasse com ela, nunca m ais precisaria se preocupar com isso na vida. É óbvio que ela não disse nada, m as im aginou que Charlie estivesse pensando a m esm a coisa e deixou que esse pensam ento ficasse suspenso no ar, im plícito, pelo tem po m ais longo possível.

Depois de algum tem po, Charlie falou:

– Seu pai m andou m esm o espancar aqueles dois sindicalistas?

– Que ideia m ais absurda! – Daisy não sabia se Lev Peshkov tinha feito um a coisa dessas, m as não ficaria surpresa se fosse verdade.

– Os hom ens que vieram de Nova York com andar a greve – insistiu Charlie. – Eles foram hospitalizados. O Sentinel disse que eles brigaram com sindicalistas daqui, m as todo m undo acha que o responsável foi seu pai.

– Eu nunca falo sobre política – disse Daisy em tom j ovial. – Quando você ganhou seu prim eiro cachorro?

Charlie m ergulhou num a longa rem iniscência. Daisy ficou pensando no que fazer em seguida. Já consegui que ele viesse até aqui, pensou, e o deixei à vontade. Agora preciso deixá-lo excitado. Mas acariciar o cãozinho sugestivam ente o deixara perturbado. O que eles precisavam era de um pouco de contato físico casual.

– Qual é a próxim a coisa que devo fazer com Rusty ? – perguntou ela depois de Charlie concluir a história.

– Ensiná-lo a andar j unto – respondeu Charlie sem pestanej ar.

– Com o é que se faz isso?

– Você tem biscoitos para cães?

– Claro. – As j anelas da cozinha estavam abertas e Daisy elevou a voz para que a criada a escutasse. – Ella, pode m e trazer aquela caixa de biscoitos de cachorro, por favor?

Pouco depois, Charlie partiu um dos biscoitos e em seguida pegou o filhote no colo. Segurou um pedaço de biscoito dentro do punho fechado, deixou Rusty cheirar e então abriu a m ão, perm itindo que ele com esse. Pegou outro pedaço, certificando-se de que o cão soubesse que o biscoito estava dentro de sua m ão. Então se levantou e pôs o cãozinho a seus pés. Rusty m anteve o olhar cravado na m ão de Charlie, que disse:

– Junto!

Ele deu alguns passos. O filhote foi atrás.

– Bom m enino! – disse Charlie, dando o biscoito para ele.

– Que incrível! – exclam ou Daisy .

– Depois de um tem po, você não vai m ais precisar do biscoito... ele vai andar j unto só por um a festinha. E depois vai acabar fazendo isso autom aticam ente.

– Charlie, você é um gênio!

Ele pareceu contente. Tinha olhos castanhos bonitos, parecidos com os do filhote, reparou ela.

– Agora tente você – falou ele.

Daisy im itou o que Charlie havia feito e obteve o m esm o resultado.

– Está vendo? – disse Charlie. – Não é tão difícil.

Daisy riu, encantada.

– Nós deveríam os abrir um negócio – disse ela. – Farquharson e Peshkov, adestradores de cães.

– Que boa ideia – disse ele, e parecia falar sério.

Aquilo estava correndo m uito bem , pensou Daisy .

Ela foi até a m esa e serviu dois copos de lim onada.

Em pé ao seu lado, ele disse:

– Em geral sou m eio tím ido com as garotas.

Não m e diga, pensou Daisy , m as m anteve a boca bem fechada.

– Mas é tão fácil conversar com você – prosseguiu ele. Na sua cabeça, aquilo tudo era um a feliz coincidência.

Quando ela estava lhe entregando o copo, atrapalhou-se e derram ou lim onada em cim a dele.

– Ah, com o eu sou desastrada! – exclam ou.

– Não foi nada – disse ele, m as a bebida havia m olhado seu blazer de linho e sua calça branca de algodão. Ele pegou um lenço e com eçou a enxugar.

– Deixe que eu faço isso – disse Daisy , pegando o lenço da m ão dele.

Ela chegou bem perto para enxugar sua lapela. Charlie ficou im óvel, e ela soube que devia estar sentindo o cheiro de seu perfum e Jean Naté – notas superiores de lavanda, base de alm íscar. Com gestos que eram verdadeiras carícias, ela passou o lenço pela frente do paletó dele, em bora a lim onada não houvesse nem respingado ali.

– Está quase – falou, com o se lam entasse ter de parar tão cedo.

Ela então se apoiou sobre um dos j oelhos, com o se o estivesse adorando. Com a m esm a leveza de um a borboleta, com eçou a encostar o lenço nas partes m olhadas da calça dele. Enquanto alisava sua coxa, adotou um ar de inocência sedutora e ergueu os olhos. Charlie a encarava, enfeitiçado, respirando forte pelo nariz.