Inverno do Mundo
Capítulo III
No dia seguinte, Werner disse a Carla:
– Que horror. Estam os falando sobre o m esm o assunto há m ais de 24 horas. Se não fizerm os outra coisa, acabarem os loucos. Vam os ao cinem a.
Eles foram até a Kurfürstendam m , um a rua de teatros e loj as que todos cham avam de Ku’dam m . A m aioria dos bons cineastas alem ães j á tinha ido para Holly wood anos antes, e os film es produzidos no país agora eram de segunda categoria. Eles assistiram a Três soldados, que se passava durante a invasão da França.
Os três soldados eram um sargento nazista durão, um rapaz que vivia choram ingando e reclam ando e tinha um ar de j udeu, e um j ovem idealista. O idealista fazia perguntas do tipo “Mas os j udeus nos fazem algum m al?” e, em resposta, ouvia longas e severas preleções do sargento. Quando a batalha com eçava, o chorão adm itia ser com unista, desertava e m orria atingido por um a bom ba durante um ataque aéreo. O idealista lutava com bravura, era prom ovido a sargento e tornava-se um adm irador do Führer. O roteiro era ruim , m as as cenas de batalha eram em ocionantes.
Werner segurou a m ão de Carla durante todo o film e. Ela torceu para que ele a beij asse na sala escura, m as isso não aconteceu.
Quando as luzes se acenderam , ele falou:
– Bem , o film e era péssim o, m as ao m enos consegui m e distrair por algum as horas.
Os dois saíram do cinem a e foram até o carro.
– Quer dar um a volta? – sugeriu ele – Talvez sej a nossa últim a oportunidade. A partir da próxim a sem ana este carro vai ficar na garagem .
Ele dirigiu até a floresta de Grunewald. No cam inho, Carla voltou a pensar na conversa que tivera com Gottfried von Kessel na véspera. Por m ais que a virasse e revirasse na m ente, não havia com o evitar a terrível conclusão à qual todos os quatro haviam chegado. Kurt e Axel não tinham sido vítim as acidentais de um experim ento m édico perigoso, com o ela pensara no início. Gottfried havia negado isso de form a veem ente. No entanto, apesar de se esforçar, ele não conseguira negar que o governo estava m atando deliberadam ente os deficientes e m entindo para as fam ílias. Era difícil acreditar nisso, m esm o em se tratando de pessoas im placáveis e brutais com o os nazistas. No entanto, a reação de Gottfried fora o exem plo m ais óbvio de culpa que Carla j á testem unhara na vida.
Quando chegaram à floresta, Werner saiu da estrada e percorreu um a trilha de terra batida até o carro ficar escondido pela vegetação. Carla im aginou que ele j á tivesse levado outras garotas até ali.
Ele apagou os faróis e eles foram cercados por um a escuridão profunda.
– Vou falar com o general Dorn – disse ele. Dorn era seu chefe, um oficial im portante da Aeronáutica. – E você?
– Meu pai disse que não existe m ais oposição política, m as que as igrej as continuam fortes. Ninguém que sej a fiel às suas crenças religiosas aprovaria o que está sendo feito.
– Você é religiosa? – perguntou Werner.
– Na verdade, não. Meu pai é. Para ele, a fé protestante faz parte da herança alem ã que tanto am a. Minha m ãe frequenta a igrej a com ele, em bora eu desconfie que a teologia dela talvez não sej a tão ortodoxa. Eu acredito em Deus, m as não consigo im aginar que Ele se im porte com o fato de as pessoas serem protestantes, católicas, m uçulm anas ou budistas. E gosto de cantar os hinos.