Inverno do Mundo

Ken Follett · Capítulo 60 de 153

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Inverno do Mundo

Capítulo IX

Segundos depois, alguém gritou:

– Fogo!

No exato m om ento em que todas as pessoas em volta prestaram atenção no incêndio dentro da lixeira, um táxi encostou em frente à loj a, um Mercedes 260D preto, m odelo norm al. Um rapaz bonito com uniform e de tenente da Força Aérea desceu do carro. Quando o tenente estava pagando o taxista, Volody a entrou no táxi e bateu a porta.

No chão do carro, num lugar que o m otorista não conseguia ver, havia um exem plar da Neues Volk, a revista nazista de propaganda racial. Volody a o pegou, m as não leu.

– Algum im becil tocou fogo num a lixeira – com entou o taxista.

– Hotel Adlon – disse Volody a, e o carro com eçou a andar.

Ele folheou as páginas da revista e confirm ou que havia um envelope pardo escondido lá dentro.

Apesar de ansioso para abri-lo, esperou.

Desceu do táxi em frente ao hotel, m as não entrou. Em vez disso, atravessou o Portão de Brandem burgo e foi para o parque. As árvores exibiam folhas novas e viçosas. Era um dia quente de prim avera, e várias pessoas estavam dando seu passeio vespertino.

A revista parecia queim ar a pele da m ão de Volody a. Ele encontrou um banco num local discreto e sentou-se.

Desdobrou a revista e, usando-a com o barreira, abriu o envelope pardo.

Retirou um docum ento. Era um a cópia em papel-carbono, um pouco apagada, m as legível. Tinha o título de:

Diretriz nº 21: Operação “Barbarossa”

Friedrich Barbarossa foi o im perador alem ão que liderou a Terceira Cruzada, em 1189.

O texto com eçava assim : “A Wehrm acht alem ã precisa estar preparada, antes m esm o do térm ino da guerra contra a Inglaterra, para derrotar a Rússia num a cam panha rápida.”

Volody a soltou um arquej o. Aquilo era pura dinam ite. O espião de Tóquio estava certo; e Stalin, errado. A União Soviética corria um perigo m ortal.

Com o coração aos pulos, ele verificou o final do docum ento. Estava assinado “Adolf Hitler”.

Vasculhou as páginas em busca de um a data e encontrou. A invasão estava m arcada para 15 de m aio de 1941.

Junto a essa data havia um a anotação a lápis com a letra de Werner Franck: “A data foi m udada para 22 de j unho.”

– Ah, Deus, ele conseguiu – disse Volody a alto. – Confirm ou a invasão.

Tornou a guardar o docum ento no envelope e este dentro da revista.

Aquilo m udava tudo.

Levantou-se do banco e seguiu cam inhando até a em baixada soviética para dar a notícia.

 

IX

Não havia estação em Akelberg, por isso Carla e Frieda desceram na parada m ais próxim a, a pouco m ais de 15 quilôm etros, e tiraram suas bicicletas do trem .

Estavam de short e suéter, calçavam sandálias confortáveis e tinham tranças no cabelo. Pareciam duas integrantes da Liga das Jovens Alem ãs, a Bund Deutscher Mädel, ou BDM. Era com um essas m oças saírem j untas em viagens de bicicleta. Se faziam outra coisa além de pedalar, sobretudo à noite, nos hotéis espartanos em que se hospedavam , era tem a de farta especulação. Segundo os rapazes, BDM era um a sigla para Bubi Drück Mir, algo com o “venha m e com er”.

As duas consultaram o m apa e saíram da cidade em direção a Akelberg.

Carla pensava no pai 24 horas por dia. Sabia que nunca iria superar o horror de tê-lo encontrado violentam ente espancado e à beira da m orte. Passara dias aos prantos. Mas outra em oção acom panhava sua tristeza: raiva. Não iria sim plesm ente ficar triste. Faria algum a coisa.

Transtornada de dor, Maud no início tentara convencer a filha a não ir a Akelberg.

– Meu m arido m orreu, m eu filho está no Exército... Não quero que m inha filha arrisque a vida tam bém ! – protestara ela.

Depois do enterro, quando o horror e a histeria cederam lugar a um luto m ais calm o e profundo, Carla lhe perguntara qual seria a vontade do pai. Maud passou um longo tem po pensando. Só no dia seguinte respondeu:

– Ele iria querer que você continuasse a luta.

Era difícil para Maud dizer aquilo, m as am bas sabiam que era verdade.

Frieda não tivera nenhum a conversa desse tipo com os pais. Sua m ãe, Monika, fora apaixonada por Walter quando j ovem e ficara arrasada com a m orte dele. Mesm o assim , teria se horrorizado se soubesse o que Frieda estava fazendo. Seu pai, Ludi, a teria trancado na adega. Am bos achavam que ela tinha ido passear de bicicleta ou, no m áxim o, que tivesse saído para encontrar algum nam orado pouco recom endável.

A região era m ontanhosa, m as as duas am igas estavam em boa form a e, um a hora depois, j á desciam um a encosta rum o à pequena cidade de Akelberg. Carla ficou apreensiva: elas agora estavam em território inim igo.

Entraram num café. Não havia Coca-Cola à venda.

– Isto aqui não é Berlim ! – disse a m ulher atrás do balcão, indignada com o se elas tivessem pedido que um a orquestra lhes fizesse um a serenata.

Carla se perguntou por que alguém que não gostava de forasteiros decidia abrir um café.

Com praram dois copos quentes de Fanta, um refrigerante alem ão, e aproveitaram a oportunidade para encher seus cantis com água.

Não sabiam onde exatam ente ficava o hospital. Tinham que pedir inform ações, m as Carla tem ia que levantassem suspeitas. Os nazistas da cidade talvez se interessassem por duas desconhecidas fazendo perguntas. Quando estavam pagando, Carla disse:

– Tem os que encontrar o restante do nosso grupo no cruzam ento perto do hospital. Em que direção fica?

A m ulher não a encarou.

– Não tem hospital nenhum aqui.

– A Instituição Médica de Akelberg – insistiu Carla, repetindo o nom e que constava no papel tim brado.

– Deve ser outra Akelberg.

Carla teve a im pressão de que a m ulher estava m entindo.

– Que estranho – disse ela, continuando a fingir. – Espero que não estej am os no lugar errado.

Elas saíram em purrando as bicicletas pela rua principal. Não havia outro j eito, pensou Carla: teria que pedir inform ações.

Um velho de aspecto inofensivo estava sentado num banco em frente a um bar, aproveitando o sol da tarde.

– Onde fica o hospital? – perguntou-lhe Carla, disfarçando o nervosism o com um tom j ovial.

– Atravessem a cidade e subam a colina à esquerda – respondeu ele. – Mas não entrem lá... poucas pessoas saem ! – Ele deu um a gargalhada, com o se houvesse acabado de contar um a piada.

A inform ação era m eio vaga, m as teria que bastar, pensou Carla. Decidiu não atrair m ais atenção perguntando outra vez.

Um a m ulher de lenço na cabeça segurou o braço do velho.

– Não deem ouvidos a ele... Não sabe o que está dizendo – falou ela, com ar preocupado. Puxou o velho para fazê-lo se levantar e com eçou a em purrá-lo pela calçada. – Fique de boca fechada, seu velho idiota – resm ungou.

Aquelas pessoas pareciam desconfiar do que estava acontecendo em sua cidade. Por sorte, elas reagiam sendo antipáticas e não se introm etendo. Talvez não fossem correr para cham ar a polícia ou o Partido Nazista.

Carla e Frieda seguiram m ais um pouco pela rua e encontraram um Albergue da Juventude. Havia m ilhares de estabelecim entos com o aquele na Alem anha, destinados a acolher j ustam ente o tipo de pessoa que elas estavam fingindo ser: j ovens atléticas fazendo um vigoroso passeio ao ar livre. Pediram um quarto. As acom odações eram m uito sim ples, com beliches de três andares, m as o preço era m ódico.

A tarde j á caía quando elas saíram da cidade m ontadas nas bicicletas. Pouco m enos de dois quilôm etros adiante, chegaram a um a curva à esquerda. Não havia placa, m as a estrada subia a colina, então seguiram por ela.

A apreensão de Carla aum entou. Quanto m ais perto chegassem , m ais difícil seria parecer inocentes caso fossem interpeladas.

Cerca de um quilôm etro e m eio depois, viram um a casa grande no m eio de um parque. Não parecia isolada por m uro ou cerca, e a estrada conduzia até a porta. Mais um a vez, não havia placas.

Inconscientem ente, Carla esperava encontrar no alto da colina um castelo sinistro de pedra cinzenta, j anelas gradeadas e portas de carvalho com dobradiças de ferro. Mas aquilo ali era um a casa de cam po típica da Bavária: telhado bem inclinado, beirais largos, sacadas de m adeira, um pequeno cam panário. Com certeza nada tão horrível quanto o assassinato de crianças poderia acontecer ali. A casa tam bém parecia pequena para um hospital. Foi então que ela viu que um anexo m oderno fora construído num a das laterais, com um a cham iné bem alta.

As duas desceram das bicicletas e as apoiaram na lateral da casa. Carla estava com o coração na boca ao subir os degraus até a entrada. Por que não havia guardas? Talvez porque ninguém fosse tão ousado para investigar aquele lugar.

Não havia cam painha nem aldraba, m as, quando Carla em purrou a porta, esta se abriu. A garota entrou e Frieda foi atrás. As duas se viram no m eio de um hall frio, com chão de pedra e paredes brancas nuas. Havia diversas portas ali, m as todas estavam fechadas. Um a m ulher de m eia-idade e óculos descia um a escada larga. Usava um vestido cinza elegante.

– Pois não? – falou.

– Olá – disse Frieda, em tom casual.

– O que estão fazendo? Não podem entrar aqui.

Frieda e Carla tinham preparado um a história.

– Eu só queria visitar o lugar onde m eu irm ão m orreu – disse Frieda. – Ele tinha 15 anos...

– Isto aqui não é um a instituição pública! – disse a m ulher, indignada.

– É, sim . – Frieda fora criada num a fam ília rica e não se deixava intim idar por subalternos.

Um a enferm eira de seus 19 anos surgiu de um a das portas laterais e as encarou. A m ulher de vestido cinza se dirigiu a ela.

– Enferm eira König, vá cham ar Herr Röm er agora m esm o.

A m oça se retirou, apressada.

– Vocês deveriam ter escrito antes – disse a m ulher.

– A senhora não recebeu m inha carta? – perguntou Frieda. – Escrevi para o chefe da equipe m édica. – Não era verdade: ela estava im provisando.

– Não recebem os nenhum a carta desse tipo! – Estava claro que a m ulher achava que um a solicitação estapafúrdia com o a de Frieda não teria passado despercebida.

Carla aguçou os ouvidos. Havia um silêncio estranho naquele lugar. Já convivera com deficientes físicos e m entais, adultos e crianças, e eles em geral não eram silenciosos. Mesm o atrás daquelas portas fechadas, deveria ser possível ouvir gritos, risos, choros, vozes protestando bem alto e balbucios desconexos. Mas ali não havia nada. Aquilo m ais parecia um necrotério.

Frieda experim entou um a nova tática.

– Talvez a senhora possa m e dizer onde fica o túm ulo do m eu irm ão? Eu gostaria de visitá-lo.

– Não há túm ulos aqui. Nós tem os um incinerador. – Ela se corrigiu na hora: – Um crem atório.

– Sim , eu vi a cham iné – disse Carla.

– Onde estão as cinzas do m eu irm ão? – quis saber Frieda.

– Elas serão m andadas para vocês no devido tem po.

– Não as m isturem com as de m ais ninguém , sim ?

O pescoço da m ulher ficou m uito verm elho, e Carla im aginou que eles de fato m isturavam as cinzas, im aginando que ninguém fosse notar.

A enferm eira König reapareceu seguida por um hom em corpulento usando um uniform e de enferm eiro.

– Ah, Röm er – disse a m ulher de cinza. – Por favor, queira acom panhar estas m oças para fora daqui.

– Só um instante – disse Frieda. – Têm certeza de que isto é certo? Eu só queria ver o lugar onde m eu irm ão m orreu.

– Certeza absoluta.

– Então a senhora não vai se im portar em m e dizer seu nom e.

A m ulher hesitou por um segundo.

– Frau Schm idt. Agora, por favor, vão em bora.

Röm er avançou na direção das duas com um a atitude am eaçadora.

– Já estam os indo – disse Frieda, com a voz fria. – Não tem os nenhum a intenção de dar a Herr Röm er um pretexto para nos m olestar.

O hom em m udou de direção e abriu a porta para elas.

As duas saíram , subiram nas bicicletas e tornaram a descer a estrada.

– Você acha que ela acreditou na nossa história? – perguntou Frieda.

– Totalm ente – respondeu Carla. – Nem perguntou nossos nom es. Se tivesse desconfiado de algo, teria cham ado a polícia na m esm a hora.

– Mas nós não descobrim os m uita coisa. Vim os a cham iné. Mas não encontram os nada que se possa cham ar de prova.

Carla estava um pouco desanim ada. Conseguir provas não era tão sim ples quanto parecia.

Voltaram para o albergue, tom aram banho, trocaram de roupa e saíram em busca de algo para com er. O único café era o da dona m al-hum orada. Lá com eram panquecas de batata com salsicha. Em seguida, foram até o bar da cidade. Pediram duas cervej as e puxaram conversa alegrem ente com os outros clientes, m as ninguém lhes deu atenção. Isso por si só j á era suspeito. Por toda a Alem anha, as pessoas tinham receio de desconhecidos, pois qualquer um poderia ser um delator nazista, ainda assim Carla se perguntou em quantas cidades duas j ovens poderiam passar um a hora dentro de um bar sem que ninguém tentasse flertar com elas.

Voltaram para o albergue a fim de dorm ir cedo. Carla não sabia m ais o que fazer. No dia seguinte, voltariam para casa de m ãos vazias. Parecia-lhe inacreditável estar a par daquelas m ortes terríveis m as ser incapaz de im pedi-las. Tinha vontade de gritar de tanta frustração.

Ocorreu-lhe que Frau Schm idt – se é que esse era m esm o seu nom e – poderia desenvolver algum a suspeita em relação às visitantes. Na hora, aceitara que Carla e Frieda fossem o que diziam ser, m as talvez ficasse desconfiada m ais tarde e cham asse a polícia só para garantir. Não seria difícil encontrar as duas. Havia apenas cinco hóspedes no albergue nessa noite, e elas eram as únicas m ulheres. Ficaram de orelha em pé, tem endo a batida fatal na porta.

Se questionadas, contariam parte da verdade: que o irm ão de Frieda e o afilhado de Carla tinham m orrido em Akelberg, e que elas queriam visitar os túm ulos, ou ao m enos ver o local onde haviam m orrido e passar alguns instantes ali prestando hom enagem a eles. A polícia da cidade talvez acreditasse nessa história. Se verificassem com Berlim , porém , logo descobririam a ligação delas com Walter von Ulrich e Werner Franck, dois hom ens investigados pela Gestapo por terem feito perguntas capciosas a respeito de Akelberg. Então Carla e Frieda estariam em sérios apuros.

Quando se preparavam para se deitar nos beliches de aspecto desconfortável, alguém bateu à porta.

O coração de Carla parou. Ela pensou no que a Gestapo tinha feito com seu pai. Sabia que não suportaria ser torturada. Em dois m inutos, diria o nom e de todos os Jovens do Swing que conhecia.

Frieda, que era m enos fantasiosa, falou:

– Não faça essa cara de apavorada! – Então abriu a porta.

Não era a Gestapo, m as um a m oça baixinha, bonita e loura. Carla levou alguns instantes para reconhecer a enferm eira König sem o uniform e.

– Preciso falar com vocês – disse ela. Estava abalada, ofegante e chorosa.

Frieda a convidou a entrar. A m oça se sentou num a das cam as e enxugou os olhos com a m anga do vestido. Então disse:

– Não consigo m ais guardar isso para m im .

Carla olhou de relance para Frieda. As duas estavam pensando a m esm a coisa.

– Guardar o quê, enferm eira König?

– Meu nom e é Ilse.

– O m eu é Carla, e esta é Frieda. A que você está se referindo, Ilse?

A m oça falou com um a voz tão baixa que elas m al conseguiram escutá-la:

– Nós m atam os todo m undo.

Carla m al conseguia respirar.

– No hospital? – conseguiu articular.

Ilse assentiu com um gesto de cabeça.

– Os pobres coitados que chegam nos ônibus cinza. São crianças, às vezes bebês, e pessoas idosas, avós. Todos m ais ou m enos incapazes. Às vezes estão com um aspecto horrível, babados e suj os dos próprios excrem entos, m as não é culpa deles, e alguns são de fato encantadores e inocentes. Não faz diferença... m atam os todos.

– Com o?

– Com um a inj eção de escopolam ina associada a m orfina.

Carla assentiu. Era um anestésico m uito com um , fatal se houvesse overdose.

– E o tratam ento especial que os doentes supostam ente deveriam receber?

Ilse balançou a cabeça.

– Não há tratam ento algum .

– Ilse, deixe eu ver se entendi direito – falou Carla. – Eles m atam todos os pacientes que vêm para cá?

– Todos.

– Assim que chegam ?

– No m esm o dia, no m áxim o no dia seguinte.

Era o que Carla desconfiava, m as ainda assim a realidade nua e crua era aterrorizante, e ela sentiu náuseas.

Depois de alguns instantes, perguntou:

– Tem algum paciente lá agora?

– Vivo, não. Passam os a tarde aplicando inj eções. Por isso Frau Schm idt ficou tão assustada quando vocês apareceram .

– Por que eles não dificultam o acesso de estranhos à casa?

– Acham que guardas e aram e farpado em volta de um hospital tornariam óbvio que algo sinistro acontece lá. Sej a com o for, ninguém nunca tentou nos visitar antes.

– Quantas pessoas m orreram hoj e?

– Cinquenta e duas.

Carla sentiu um arrepio.

– O hospital m atou 52 pessoas na tarde de hoj e, por volta da hora em que estivem os lá?

– Isso.

– Quer dizer que agora estão todas m ortas?

Ilse assentiu.

Um a ideia vinha brotando na m ente de Carla, e ela decidiu levá-la adiante.

– Eu quero ver – falou.

Ilse assum iu um a expressão assustada.

– Com o assim ?

– Quero entrar no hospital e ver os cadáveres.

– Eles j á estão sendo incinerados.

– Então quero ver isso. Você consegue nos pôr para dentro?

– Hoj e à noite?

– Agora m esm o.

– Ah, m eu Deus.

– Você não é obrigada a fazer nada – disse Carla. – Já foi m uito coraj osa de vir falar conosco. Se não quiser fazer m ais nada, tudo bem . Mas, se nós quiserm os pôr fim a isso, precisam os de provas.

– Provas.

– É. Olhe aqui, o governo tem vergonha desse proj eto... Por isso que ele é m antido em segredo. Os nazistas sabem que os alem ães norm ais não vão tolerar o assassinato de crianças. Mas as pessoas preferem acreditar que nada está acontecendo, e é fácil não dar atenção a um boato, sobretudo vindo de um a garota. Então precisam os de provas.

– Entendo. – O rosto bonito de Ilse adquiriu um ar de som bria determ inação. – Está bem , então. Vou levar vocês.

Carla se levantou.

– Com o você chega lá norm alm ente?

– De bicicleta. Deixo do lado de fora.

– Então vam os todas de bicicleta.

Elas saíram . A noite havia caído. O céu estava parcialm ente encoberto, e as estrelas em itiam pouca luz. Usaram os faróis das bicicletas para sair da cidade e subir a colina. Quando puderam ver o hospital, apagaram os faróis e continuaram a pé, em purrando as bicicletas. Ilse as conduziu por um a trilha na floresta que levava aos fundos do prédio.

Carla sentiu um cheiro desagradável, parecido com o cano de descarga de um carro. Aspirou o ar pelo nariz, intrigada.

– O incinerador – explicou Ilse.

– Ah, não!

Elas esconderam as bicicletas no m eio de alguns arbustos e, sem fazer barulho, cam inharam até a porta dos fundos. Estava destrancada. Entraram .

Os corredores estavam m uito ilum inados. Não havia recantos de som bra: aquilo parecia m esm o o hospital que fingia ser. Se cruzassem com alguém , estariam totalm ente visíveis. Suas roupas as denunciariam com o intrusas. O que elas fariam nesse caso? Sairiam correndo, decerto.

Ilse percorreu depressa um corredor, dobrou num a curva e abriu um a porta.

– Aqui – sussurrou.

As três entraram .

Frieda deixou escapar um guincho de horror e tapou a boca.

– Ai, m eu santo Pai do céu! – lam entou Carla.

Em um a sala grande e fria estavam dispostos cerca de trinta cadáveres, todos nus, deitados de costas sobre as m esas. Alguns eram gordos, outros m agros; alguns velhos e encarquilhados, outros crianças, e um deles era um bebê de cerca de 1 ano. Uns poucos estavam encolhidos e deform ados, m as a m aioria parecia fisicam ente norm al.

Todos tinham um pequeno curativo autoadesivo no braço esquerdo, local onde fora aplicada a inj eção.

Carla ouviu Frieda chorar baixinho e se obrigou a ser forte.

– Onde estão os outros? – perguntou com um sussurro.

– Já foram levados para o forno – respondeu Ilse.

Elas ouviram vozes vindas de trás da porta dupla no canto m ais afastado da sala.

– Tem os que sair! – falou Ilse.

Voltaram para o corredor. Carla fechou a porta, deixando apenas um a frestinha para espiar. Viu Herr Röm er e outro hom em entrarem pelas portas em purrando um carrinho de hospital.

Eles não olharam na direção de Carla. Estavam conversando sobre futebol. Ela ouviu Röm er dizer:

– Faz só nove anos que ganham os o cam peonato nacional. Ganham os do Eintracht Frankfurt por 2 a 0.

– Sim , m as m etade dos seus craques era de j udeus e foram todos em bora.

Carla entendeu que eles estavam falando sobre o Bay ern de Munique.

– Os velhos tem pos vão voltar, basta term os a estratégia certa – disse Röm er.

Ainda conversando, os dois foram até um a m esa sobre a qual j azia o cadáver de um a m ulher gorda. Seguraram -na pelos om bros e j oelhos e então, sem cuidado algum , transferiram -na para o carrinho, grunhindo por causa do esforço.

Em purraram o carrinho até outra m esa e puseram um segundo cadáver por cim a do prim eiro.

Depois de recolherem três corpos, saíram da sala em purrando o carrinho.

– Vou atrás deles – disse Carla.

Ela atravessou o necrotério até a porta dupla, seguida por Frieda e Ilse. Entraram num a área de aspecto m ais industrial que m édico: paredes pintadas de m arrom , piso de concreto, arm ários e suportes para ferram entas.

Espiaram por trás de um a curva.

Viram um côm odo am plo com o um a garagem , ilum inado por luzes fortes que lançavam som bras com pridas. Fazia calor lá dentro e um leve cheiro de algo cozinhando pairava no ar. No m eio do espaço havia um a caixa de aço grande o suficiente para com portar um carro. Um toldo de m etal saía do topo da caixa e atravessava o telhado. Carla entendeu que estava olhando para um forno.

Os dois hom ens tiraram um dos cadáveres de cim a do carrinho e o transferiram para um a esteira rolante de aço. Röm er apertou um botão na parede. A esteira se m oveu, um a porta se abriu e o cadáver entrou no forno.

Então puseram o cadáver seguinte sobre a esteira.

Carla j á tinha visto o suficiente.

Virando-se, acenou para as outras, assinalando que deveriam voltar. Frieda esbarrou em Ilse, que não conseguiu conter um grito. As três congelaram .

Ouviram Röm er perguntar:

– O que foi isso?

– Um fantasm a – respondeu o outro.

– Não brinque com essas coisas! – A voz de Röm er estava trêm ula.

– Vai segurar a outra ponta deste presunto ou não?

– Está bem , está bem .

As três m oças voltaram depressa para o necrotério. Ao ver os cadáveres que ainda estavam lá, Carla pensou em Kurt, filho de Ada, e sentiu um a pontada de tristeza. O m enino ficara deitado ali, com um curativo autoadesivo no braço, e depois fora j ogado sobre a esteira rolante e elim inado com o um saco de lixo. Mas você não foi esquecido, Kurt, pensou.

Saíram para o corredor. Quando estavam fazendo a curva em direção à porta dos fundos, ouviram passos e a voz de Frau Schm idt:

– Por que esses dois estão dem orando tanto?

Seguiram depressa pelo corredor e passaram pela porta. A lua tinha surgido no céu e o j ardim estava m uito claro. Uns 200 m etros à frente no gram ado, Carla viu os arbustos onde haviam escondido as bicicletas.

Frieda foi a últim a a sair e, na pressa, deixou a porta bater.

Carla pensou depressa: Frau Schm idt provavelm ente sairia para investigar aquele barulho. As três não conseguiriam chegar aos arbustos antes que ela abrisse a porta. Precisavam se esconder.

– Por aqui! – sibilou Carla e deu a volta correndo pela quina do prédio. As outras a seguiram .

Elas se encolheram j unto à parede. Carla ouviu a porta se abrir. Prendeu a respiração.

Houve um a pausa dem orada. Então Frau Schm idt resm ungou algo ininteligível e a porta tornou a bater.

Carla espiou pela quina. A m ulher tinha ido em bora.

As três atravessaram correndo o gram ado e pegaram as bicicletas.

Foram em purrando-as pela trilha da floresta até chegarem à estrada. Acenderam os faróis, subiram nas bicicletas e com eçaram a pedalar. Carla estava eufórica. Tinham conseguido!

Quando foram chegando perto da cidade, a sensação de vitória se transform ou em considerações m ais práticas. O que exatam ente haviam conseguido? Qual seria o seu próxim o passo?

Precisavam contar para alguém o que tinham visto. Ela não sabia m uito bem para quem . De qualquer m odo, precisavam convencer alguém . Será que havia um a pessoa que fosse acreditar nelas? Quanto m ais pensava no assunto, m enos certeza tinha.

Quando chegaram ao albergue e desceram das bicicletas, Ilse falou:

– Que bom que tudo isso acabou. Nunca fiquei tão apavorada em toda a m inha vida.

– Ainda não acabou – disse Carla.

– Com o assim ?

– Só vai acabar quando conseguirm os fechar esse hospital e outros do m esm o tipo.

– E com o vão fazer isso?

– Precisam os de você – disse-lhe Carla. – Você é a prova.

– Estava com m edo de ouvi-la dizer isso.

– Aceita vir conosco am anhã, quando voltarm os para Berlim ?

Houve um a longa pausa, e então Ilse respondeu: