Inverno do Mundo

Ken Follett · Capítulo 46 de 153

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Inverno do Mundo

Capítulo sete

 

1940 (II)

 

Erik von Ulrich passou os três prim eiros dias da batalha da França preso num engarrafam ento.

Ele e seu am igo Herm ann Braun faziam parte de um a unidade m édica agregada à 2a Divisão Panzer, ou de Blindados. Não viram nenhum com bate ao atravessar o sul da Bélgica, som ente quilôm etros e quilôm etros de colinas e árvores. Deduziram que estivessem na floresta das Ardenas. Percorriam estradas estreitas, m uitas delas sem pavim entação, e um tanque enguiçado podia causar um congestionam ento de oitenta quilôm etros m uito rapidam ente. Passavam m ais tem po parados e presos em filas do que avançando.

O rosto sardento de Herm ann estava congelado num a careta de aflição.

– Que burrice! – sussurrou ele para Erik, tão baixo que ninguém m ais pôde ouvir.

– Você deveria tom ar cuidado antes de dizer essas coisas... afinal, era da Juventude Hitlerista – respondeu Erik, tam bém em voz baixa. – Tenha fé no Führer. – Mas não estava bravo o suficiente para delatar o am igo.

Quando avançavam , o desconforto era extrem o. Estavam sentados no chão duro de m adeira de um cam inhão m ilitar que sacolej ava por cim a das raízes das árvores, tentando se esquivar dos buracos. Erik ansiava por um a batalha só para poder sair daquele m aldito veículo.

– O que estam os fazendo aqui? – perguntou Herm ann, com a voz m ais alta.

Seu superior, o Dr. Rainer Weiss, viaj ava acom odado num assento de verdade ao lado do m otorista.

– Cum prindo as ordens do Führer, que naturalm ente estão sem pre certas.

Ao dizer isso, o m édico tinha o sem blante im passível, m as Erik teve certeza de que ele estava sendo sarcástico. O m aj or Weiss era m agro, tinha cabelos pretos e usava óculos. Muitas vezes se referia com cinism o ao governo e às Forças Arm adas, m as sem pre de um j eito enigm ático, de m odo que não havia provas contra ele. De toda form a, o Exército àquela altura não podia se dar ao luxo de perder um bom m édico.

Havia dois outros ordenanças m édicos no cam inhão, am bos m ais velhos do que Erik e seu am igo. Um deles, Christof, tinha um a resposta m elhor para a pergunta de Herm ann:

– Talvez os franceses não esperem que ataquem os aqui, j á que o terreno é tão acidentado.

– Terem os a vantagem da surpresa e as defesas serão m ais leves – com pletou seu am igo Manfred.

– Agradeço aos dois pela aula de estratégia. Foi m uito instrutivo – disse Weiss com sarcasm o, m as sem dizer que eles estavam errados.

Apesar de tudo o que acontecera, ainda havia quem não tivesse fé no Führer, e isso deixava Erik pasm o. Sua própria fam ília continuava fechando os olhos às vitórias dos nazistas. Seu pai, outrora um hom em de status e poder, era agora um a figura patética. Em vez de com em orar a conquista da bárbara Polônia, tudo o que ele fazia era lam entar o m au tratam ento concedido aos poloneses – do qual devia ter tom ado conhecim ento por ouvir ilegalm ente algum a estação de rádio estrangeira. Aquele tipo de com portam ento poderia causar problem as para todos eles – inclusive para Erik, culpado de não relatar o fato ao supervisor nazista do quarteirão em que m oravam .

Com a m ãe as coisas não eram m elhores. De vez em quando ela desaparecia com pequenos em brulhos de peixe defum ado ou ovos. Não dava nenhum a explicação, m as Erik tinha certeza de que os levava para Frau Rothm ann, cuj o m arido j udeu não tinha m ais autorização para exercer a m edicina.

Apesar disso, Erik sem pre m andava para casa um a generosa parcela do soldo que recebia, pois sabia que, sem isso, os pais passariam frio e fom e. Em bora detestasse suas opiniões políticas, ele os am ava. Os dois sem dúvida deviam sentir a m esm a coisa em relação a ele e a seu posicionam ento.

Carla, irm ã de Erik, tam bém queria ser m édica e ficara um a fera quando lhe deixaram claro que, na Alem anha atual, aquela era um a profissão para hom ens. Agora fazia um curso de enferm agem , trabalho m uito m ais adequado a um a j ovem alem ã. Ela tam bém aj udava os pais com seu parco salário.

Inicialm ente Erik e Herm ann queriam integrar unidades de infantaria. A im agem que tinham de um a batalha era correr em direção ao inim igo disparando um fuzil, e m atar ou m orrer em nom e da pátria. Entretanto, nenhum dos dois iria m atar ninguém . Am bos tinham cursado um ano de faculdade de m edicina, e um a form ação dessas não podia ser desperdiçada, por isso foram destacados para a unidade m édica.

O quarto dia na Bélgica, segunda-feira, 13 de m aio, foi igual aos três prim eiros até a parte da tarde. Por cim a dos rugidos e roncos de centenas de tanques e m otores de cam inhões, eles com eçaram a ouvir um barulho diferente, m ais alto. Aviões voavam baixo sobre suas cabeças e lançavam bom bas não m uito longe dali. Erik sentiu o nariz coçar com o cheiro dos explosivos.

Fizeram sua pausa de m eio-dia num ponto elevado com vista para o sinuoso vale de um rio. Segundo o m aj or Weiss, aquele era o rio Meuse, e eles estavam a oeste da cidade de Sedan. Tinham entrado na França. Os aviões da Luftwaffe passavam rugindo, um após outro, seguindo na direção de um rio a alguns quilôm etros dali, lançando bom bas e atirando nas cidadezinhas espalhadas pelas m argens, onde provavelm ente havia defesas francesas. No céu, via-se a fum aça de inúm eros incêndios em chalés e fazendas destruídos. A barragem de artilharia aérea não cessava, e Erik quase teve pena das pessoas presas naquele inferno.

Era a prim eira batalha que ele testem unhava. Em pouco tem po, estaria no m eio dela, e talvez algum j ovem soldado francês fosse vê-los de um posto de observação elevado e sentir pena dos alem ães feridos e m ortos. Pensar nisso fez o coração de Erik bater de em oção com o um enorm e tam bor dentro do peito.

Ao olhar para leste, a distância im pedia que se vissem os detalhes da paisagem , m as ainda assim pôde distinguir os pontinhos que eram os aviões e ver colunas de fum aça subindo pelo ar, e entendeu que a batalha estava sendo travada ao longo de vários quilôm etros daquele rio.

Diante de seus olhos, o bom bardeio cessou e os aviões com eçaram a dar m eia-volta e a seguir para o norte; m oviam -se lateralm ente, fazendo as asas oscilarem para cim a e para baixo, para desej ar “boa sorte” ao passar por cim a deles a cam inho de casa.

Mais perto de onde Erik estava, no trecho plano que conduzia ao rio, os tanques alem ães entraram em ação.

Estavam a uns três quilôm etros do inim igo, m as a artilharia francesa j á os atacava da cidade. Erik ficou surpreso que tantos atiradores houvessem sobrevivido ao bom bardeio aéreo. Os disparos faiscavam nas ruínas, o estrondo dos canhões ecoava pelos cam pos e, nos pontos em que os proj éteis explodiam , a terra francesa se desprendia, j orrando para o alto com o chafarizes. Erik viu um tanque voar pelos ares, atingido por um tiro certeiro, e fum aça, m etal e partes de corpos hum anos foram cuspidos da boca desse vulcão. Essa visão lhe deu náuseas.

No entanto, a artilharia francesa não conseguiu deter o avanço alem ão. Os tanques seguiram rastej ando im placáveis em direção ao trecho de rio a leste da cidade, que, segundo Weiss lhes inform ou, se cham ava Donchery. Atrás deles vinham os soldados de infantaria, a bordo de cam inhões e a pé.

– O ataque aéreo não foi suficiente – disse Herm ann. – Onde está nossa artilharia? Precisam os que eles ataquem a cidade com arm as pesadas para dar a nossos tanques e à nossa infantaria um a chance de atravessar o rio e estabelecer um a cabeça de ponte.

Erik sentiu vontade de dar um soco na boca do am igo, para que ele parasse de choram ingar. Estavam prestes a entrar em com bate – precisavam pensar positivo!

Mas Weiss falou:

– Tem razão, Braun... só que a m unição da nossa artilharia está presa na floresta das Ardenas. Só tem os 48 proj éteis.

Um m aj or passou correndo com o rosto m uito verm elho, gritando:

– Para trás! Para trás!

O m aj or Weiss apontou e disse:

– Vam os m ontar nosso posto de atendim ento m édico de cam panha m ais para leste, perto daquela fazenda. – Erik distinguiu um telhado cinzento e baixo, a uns 750 m etros do rio. – Muito bem , adiante!

Eles subiram no cam inhão e desceram a colina com o m otor rugindo. Quando chegaram ao terreno plano, dobraram à esquerda num a estradinha secundária. Erik se perguntou o que iriam fazer com a fam ília que devia m orar naquela casa prestes a ser transform ada em hospital m ilitar. Expulsá-la, im aginou, e m atá-la a tiros caso criasse problem as. Mas para onde iriam aquelas pessoas? Estavam no m eio de um cam po de batalha.

Não precisava ter se preocupado: todos j á tinham deixado a casa.

A construção ficava a pouco m enos de um quilôm etro do centro do confronto, observou Erik. Achou que não fazia sentido m ontar um posto de atendim ento m édico ao alcance das arm as inim igas.

– Maqueiros, podem ir! – gritou Weiss. – Quando voltarem , j á terem os preparado tudo.

Erik e Herm ann pegaram um a m aca dobrável e um kit de prim eiros socorros no cam inhão de m aterial m édico e partiram em direção à batalha. Christof e Manfred seguiam bem à sua frente, e dezenas de colegas vinham atrás. É isso, pensou Erik, exultante: esta é a nossa chance de nos tornarm os heróis. Quem se m ostrará coraj oso sob o fogo inim igo? Quem perderá o controle e rastej ará até um buraco para se esconder?

Atravessaram os cam pos até o rio. O cam inho era longo e pareceria ainda m aior na volta, quando estivessem carregando um soldado ferido.

Passaram por tanques incendiados, m as não havia sobreviventes. Erik desviou os olhos dos restos hum anos carbonizados m isturados ao m etal retorcido. Bom bas explodiam à sua volta, m as não eram m uitos: o rio tinha defesas leves e diversas peças de artilharia francesas haviam sucum bido ao ataque aéreo. Ainda assim , pela prim eira vez na vida Erik estava sendo alvo de disparos, e teve o im pulso absurdo e infantil de tapar os olhos com as m ãos. No entanto, continuou correndo.

Foi então que um proj étil caiu bem na sua frente.

Um forte estrondo ecoou e a terra se sacudiu com o se um gigante tivesse batido o pé. Christof e Manfred foram atingidos em cheio. Erik viu seus corpos saírem voando com o se não tivessem peso. A explosão o derrubou. Caído de barriga para cim a, foi atingido por um a chuva de detritos, m as não se feriu. Com esforço, conseguiu se levantar. Bem na sua frente estavam os corpos estraçalhados de Christof e Manfred. Christof parecia um boneco desconj untado, com o se os m em bros tivessem sido deslocados das articulações. A cabeça de Manfred fora separada do corpo e j azia ao lado dos pés calçados com botas.

Erik ficou paralisado de horror. Na faculdade de m edicina, não tivera que lidar com corpos m utilados e ensanguentados. Estava acostum ado com os cadáveres da aula de anatom ia – havia um para cada dois alunos, e ele e Herm ann dividiam o corpo de um a velha encarquilhada – e tinha visto pessoas vivas serem abertas na m esa de cirurgia. Mas nada disso o havia preparado para aquela cena.

Sua única vontade foi sair correndo.

Deu m eia-volta. Em sua m ente só havia espaço para o m edo. A passos largos e decididos, com eçou a voltar pelo m esm o cam inho pelo qual tinha vindo, em direção à floresta, para longe do cam po de batalha.

Foi Herm ann quem o salvou. Postando-se na sua frente, disse:

– Aonde você vai? Deixe de ser bobo!

Erik não parou de andar e tentou contornar o colega. Herm ann então lhe deu um soco bem forte na barriga, que o fez dobrar o corpo e cair de j oelhos.

– Não fuj a! – disse Herm ann, com um tom de urgência na voz. – Será fuzilado por deserção! Controle-se!

Enquanto tentava recuperar o fôlego, Erik recobrou o bom senso. Percebeu que não podia fugir, não devia desertar, tinha que ficar ali. Aos poucos, sua força de vontade foi superando seu terror. Depois de algum tem po, ele se levantou.

Herm ann o espiava com um ar de cautela.

– Desculpe – disse Erik. – Entrei em pânico. Já passou.

– Então pegue a m aca e vam os em frente.

Erik pegou a m aca dobrável, equilibrou-a sobre o om bro, deu m eia-volta e recom eçou a correr.

Mais perto do rio, Erik e Herm ann encontraram soldados da infantaria. Alguns tiravam botes infláveis da traseira dos cam inhões e os levavam até a beira do rio, enquanto os tanques tentavam lhes dar cobertura, disparando contra as defesas francesas. Erik, porém , que recobrava rapidam ente suas faculdades m entais, logo viu que aquilo era um a batalha perdida: os franceses estavam atrás de paredes e dentro de construções, enquanto a infantaria alem ã se achava exposta na m argem do rio. Assim que conseguiam pôr um dos botes na água, ele era m etralhado.

Mais acim a, o rio fazia um a curva para a direita, de m odo que a infantaria não podia sair do alcance dos tiros franceses sem recuar um longo trecho.

O chão j á estava coalhado de m ortos e feridos.

– Vam os levar este aqui – disse Herm ann, decidido, e Erik se abaixou para obedecer.

Abriram a m aca no chão ao lado de um soldado que gem ia. Erik fez com que ele bebesse água de um cantil, com o aprendera no treinam ento. O hom em parecia ter vários ferim entos superficiais no rosto e um braço inerte. Erik supôs que tivesse levado tiros de m etralhadora, que, por sorte, não haviam atingido seus órgãos vitais. Ele e Herm ann não viram nenhum a hem orragia forte. Puseram o hom em em cim a da m aca, levantaram -na e correram de volta para o posto de atendim ento.

Assim que com eçaram a avançar, o ferido gritou de dor. No entanto, quando pararam , ele cerrou os dentes e gritou:

– Continuem , continuem !

Carregar um hom em num a m aca não era tão fácil quanto parecia. Ainda na m etade do cam inho, Erik achou que seus braços fossem cair. No entanto, pôde ver que a dor do paciente era m uito m aior do que a sua, por isso continuou correndo.

Percebeu com gratidão que nenhum a outra bom ba caía à sua volta. Os franceses estavam concentrando todo seu fogo na m argem do rio, para tentar im pedir que os alem ães atravessassem .

Por fim , Erik e Herm ann chegaram à fazenda com seu paciente. Weiss j á havia organizado o lugar – tirara a m obília supérflua dos côm odos, m arcara lugares no chão para os pacientes, arrum ara a m esa da cozinha para cirurgias. Mostrou a Erik e Herm ann onde pôr o ferido e, em seguida, m andou que fossem buscar outro.

A corrida de volta até o rio foi m ais fácil. Não havia paciente em cim a da m aca, e eles percorriam um declive suave. Quando se aproxim aram da m argem , Erik se perguntou, tem eroso, se tornaria a entrar em pânico.

Viu com apreensão que a batalha estava indo m al. Vários botes m urchos flutuavam no m eio do rio, havia m uito m ais corpos nas m argens – e até o m om ento nenhum alem ão conseguira atravessar.

– Que catástrofe – com entou Herm ann. – Deveríam os ter esperado a nossa artilharia! – Sua voz saiu esganiçada.

– Então perderíam os o elem ento-surpresa, e os franceses teriam tem po de trazer reforços – disse Erik. – Toda aquela viagem dem orada pelas Ardenas não teria adiantado nada.

– Bom , isto aqui não está dando certo – insistiu Herm ann.

Bem no fundo de seu coração, Erik com eçava a questionar se os planos do Führer eram m esm o infalíveis. Pensar assim m inava sua determ inação e am eaçava desestabilizá-lo por com pleto. Felizm ente, não havia m ais tem po para refletir. Eles pararam ao lado de um hom em com a perna quase toda decepada. Tinha m ais ou m enos a sua idade, 20 anos, pele sardenta e cabelos ruivos. Sua perna direita term inava no m eio da coxa, num coto irregular. Por incrível que parecesse, o rapaz estava consciente e os encarou com o se eles fossem dois anj os.

Erik encontrou o ponto certo na virilha do soldado e estancou a hem orragia enquanto Herm ann preparava e aplicava um torniquete. Então puseram o rapaz na m aca e voltaram correndo para o posto.

Herm ann era um alem ão leal, m as às vezes se deixava dom inar por em oções negativas. Quando Erik tinha sentim entos assim , tom ava o cuidado de não expressá-los em voz alta. Desse m odo não prej udicava o m oral de ninguém – e m antinha-se longe de problem as.

Mas não podia evitar os pensam entos. Parecia que a aproxim ação pelas Ardenas não rendera aos alem ães a vitória fácil que esperavam . As defesas do rio Meuse eram frágeis, m as os franceses estavam resistindo ferozm ente. Seria possível que aquela prim eira experiência de batalha destruisse a fé que ele tinha no Führer? Essa ideia lhe causou um a sensação de pânico.

Perguntou-se se as forças alem ãs a leste estariam tendo m ais sucesso. Quando a 2a Divisão – da qual Erik fazia parte – havia se aproxim ado da fronteira, estava acom panhada pela 1a e pela 10a, que agora deviam estar atacando m ais acim a no rio.

Os m úsculos de seu braço doíam sem parar.

Chegaram ao posto de atendim ento pela segunda vez. O lugar agora estava bem agitado: o chão coalhado de hom ens gem endo e chorando, ataduras ensanguentadas por toda parte. Weiss e seus assistentes se m oviam depressa de um corpo m utilado para outro. Erik nunca im aginara que pudesse haver tanto sofrim ento num espaço tão reduzido. De algum a form a, quando o Führer falava em guerra, ele nunca pensava naquele tipo de coisa.

Então percebeu que os olhos de seu paciente estavam fechados.

O m aj or Weiss tom ou a pulsação do soldado e falou, ríspido:

– Ponham -no lá no celeiro... e, porra, não percam tem po m e trazendo cadáveres!

Erik teve vontade de chorar de tanta frustração e tam bém por causa da dor que castigava seus braços e que com eçava a afetar suas pernas.

Eles levaram o corpo do soldado para o celeiro e viram que lá j á havia uns dez rapazes m ortos.

Aquilo era pior do que qualquer coisa que ele pudesse ter im aginado. Quando pensava em batalhas, costum ava im aginar coragem diante do perigo, estoicism o no sofrim ento, heroísm o na adversidade. O que via agora era agonia, gritos, terror, corpos m utilados e um a total falta de fé na sensatez daquela m issão.

Ele e Herm ann voltaram para o rio.

O sol j á estava baixo no céu e houvera um a m udança no cam po de batalha. Os franceses que defendiam Donchery estavam sendo alvo de bom bas disparadas do outro lado do rio. Erik im aginou que, m ais acim a, a 1a Divisão de Blindados houvesse tido m elhor sorte e conseguido assegurar um a cabeça de ponte na m argem sul e que agora estava vindo aj udar os com panheiros pelos flancos. Obviam ente, eles não tinham perdido a m unição na floresta.

Mais anim ados, Erik e Herm ann resgataram outro ferido. Dessa vez, quando voltaram ao posto de atendim ento, receberam duas tigelas de m etal cheias de um a sopa saborosa. O descanso de dez m inutos enquanto com ia fez Erik ter vontade de se deitar e dorm ir a noite inteira. Foi preciso um esforço sobre-hum ano para se levantar, em punhar seu lado da m aca e correr novam ente até o cam po de batalha.

Ao chegar lá, viram um a cena diferente. Tanques atravessavam o rio em cim a de j angadas. Os alem ães da outra m argem estavam sob fogo cerrado, m as disparavam de volta com a aj uda dos reforços da 1a Divisão de Blindados.

Erik viu que, no final das contas, tinham um a chance de alcançar o obj etivo. Ficou m ais anim ado e com eçou a sentir vergonha por ter duvidado do Führer.

Ele e Herm ann continuaram recolhendo os feridos por m uitas horas, até se esquecerem do que era não sentir dor nos braços nem nas pernas. Alguns dos pacientes estavam inconscientes; uns lhes agradeciam , outros os am aldiçoavam ; m uitos apenas gritavam ; uns viviam , outros m orriam .