Inverno do Mundo

Ken Follett · Capítulo 61 de 153

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Inverno do Mundo

Capítulo X

– Sim , aceito.

 

X

Volody a Peshkov estava contente por ter voltado para casa. Era verão, e Moscou estava no auge, ensolarada e quente. Na segunda-feira, 30 de j unho, ele retornou à sede da Inteligência do Exército Verm elho, vizinha ao cam po de pouso de Khody nka.

Tanto Werner Franck quanto o espião de Tóquio estavam certos: a Alem anha invadira a União Soviética no dia 22 de j unho. Volody a e todo o pessoal da em baixada soviética em Berlim tinham voltado para Moscou de navio e de trem . Ele tivera prioridade e chegara m ais depressa do que a m aioria: alguns ainda estavam a cam inho.

Percebia agora quanto Berlim o estava deprim indo. Os nazistas eram m açantes com sua prepotência e seu triunfalism o. Eram com o um tim e de futebol na com em oração de um a vitória, que ia ficando cada vez m ais em briagado e m ais chato e se recusava a ir para casa. Volody a estava farto deles.

Algum as pessoas poderiam dizer que, na União Soviética era a m esm a coisa, com sua polícia secreta, sua rígida ortodoxia e suas atitudes puritanas em relação a prazeres abstratos com o a pintura e a m oda. Mas elas estavam erradas. O com unism o era um a obra em andam ento, e erros eram com etidos no cam inho para um a sociedade j usta. A NKVD, com suas câm aras de tortura, era um a aberração, um câncer no corpo do com unism o. Um dia, ela seria extirpada. Mas provavelm ente não enquanto durasse a guerra.

Preparando-se para o início do conflito, Volody a havia equipado seus espiões de Berlim com rádios e m anuais de código clandestinos com bastante antecedência. Agora, m ais do que nunca, era vital que os poucos e coraj osos opositores do nazism o continuassem a passar inform ações para os soviéticos. Antes de partir, ele destruíra todos os registros de seus nom es e endereços, que agora só existiam em sua cabeça.

Encontrara seu pai e sua m ãe bem -dispostos e com saúde, em bora o pai parecesse preocupado: era responsabilidade sua preparar Moscou para os ataques aéreos. Fora visitar a irm ã Any a e o m arido, Ily a Dvorkin, bem com o os sobrinhos gêm eos, que tinham agora 1 ano e m eio: Dm itriy, cuj o apelido era Dim ka, e Tatiana, que todos cham avam de Tania. Infelizm ente, Volody a achou o pai das crianças tão desprezível quanto antes.

Depois de um dia agradável em casa e de um a boa noite de sono em seu antigo quarto, estava pronto para voltar ao trabalho.

Passou pelo detector de m etais na entrada do prédio da Inteligência. Apesar de feios e utilitários, os conhecidos corredores e escadarias lhe despertaram nostalgia. Ao cam inhar pelo prédio, quase esperou que as pessoas viessem parabenizá-lo: m uitas deviam saber que fora ele quem confirm ara a operação Barbarossa. No entanto, ninguém o abordou. Talvez estivessem apenas sendo discretos.

Ele entrou num a grande área aberta, cheia de datilógrafas e arquivistas, e dirigiu-se a um a recepcionista de m eia-idade:

– Olá, Nika... ainda por aqui?

– Bom dia, capitão Peshkov – respondeu ela, não tão calorosa quanto ele esperava. – O coronel Lem itov gostaria de falar com o senhor im ediatam ente.

Assim com o o pai de Volody a, Lem itov não era im portante o suficiente para sofrer com o grande expurgo do final dos anos 1930, e tinha sido prom ovido para o lugar de um infeliz ex-superior. Volody a não sabia m uita coisa sobre o expurgo, m as achava difícil acreditar que tantos oficiais im portantes tivessem sido desleais a ponto de m erecer a punição. Não que soubesse exatam ente que punição era essa. Eles podiam estar exilados na Sibéria, presos em algum lugar ou então m ortos. Sabia apenas que tinham desaparecido.

– Ele agora fica na sala grande no fim do corredor principal – acrescentou Nika.

Volody a percorreu a sala coletiva, acenando com a cabeça e sorrindo para um ou dois conhecidos, m as novam ente teve a sensação de que não era o herói que esperava ser. Bateu na porta de Lem itov torcendo para que o chefe pudesse esclarecer a situação.

– Pode entrar.

Volody a entrou, bateu continência e fechou a porta atrás de si.

– Bem -vindo de volta, capitão. – Lem itov deu a volta na m esa. – Cá entre nós, excelente trabalho em Berlim . Obrigado.

– Fico honrado com o elogio, senhor – respondeu Volody a. – Mas por que cá entre nós?

– Porque você contradisse Stalin. – O coronel ergueu a m ão para im pedir que ele protestasse. – Ele não sabe que foi você, claro. Mesm o assim , depois do expurgo, algum as pessoas por aqui ficam nervosas em se associar a qualquer um que siga o cam inho errado.

– O que eu deveria ter feito? – indagou Volody a, incrédulo. – Falsificado inform ações erradas?

Lem itov balançou a cabeça enfaticam ente.

– Não m e entenda m al, você fez o que era certo. E eu o protegi. Só não espere que as pessoas por aqui o tratem com o herói.

– Está bem – disse Volody a. A situação era pior do que ele im aginava.

– Pelo m enos agora você tem sua própria sala... fica a três portas daqui. Vai precisar passar um ou dois dias se atualizando.

Volody a interpretou aquilo com o um a dispensa.

– Sim , coronel – falou. Bateu continência e saiu.

Pequena e sem tapete, a sala não tinha nenhum luxo, m as era só dele. Com o andara ocupado tentando voltar para casa o m ais rápido possível, estava desatualizado em relação ao avanço da invasão alem ã. Sendo assim , deixou a decepção de lado e com eçou a ler os relatórios dos com andantes do cam po de batalha sobre a prim eira sem ana de guerra.

À m edida que a leitura avançava, foi ficando cada vez m ais desanim ado.

A invasão tinha pego o Exército Verm elho de surpresa.

Parecia im possível, m as sua m esa estava coberta de evidências disso.

Em 22 de j unho, dia do ataque alem ão, m uitas unidades avançadas do Exército Verm elho estavam sem munição.

E não parava por aí. Nos cam pos de pouso, os aviões tinham sido dispostos em filas bem certinhas, sem cam uflagem , de form a que, nas prim eiras horas da guerra, a Luftwaffe destruíra 1.200 aeronaves soviéticas. Unidades do Exército tinham sido enviadas para enfrentar os alem ães sem arm am entos adequados, sem cobertura aérea e sem inform ação sobre as posições inim igas; consequentem ente, foram aniquiladas.

E, o pior de tudo, a ordem de Stalin para o Exército Verm elho agora era a seguinte: é proibido recuar. Todas as unidades tinham que lutar até o últim o hom em , e os oficiais deveriam se suicidar com um tiro para não serem capturados. Os soldados nunca podiam se reagrupar em posição defensiva diferente e m ais forte. Isso significava que todas as derrotas se transform avam em m assacres.

O resultado era que o Exército Verm elho estava perdendo m uitos hom ens e equipam entos.

O alerta do espião de Tóquio e a confirm ação de Werner Franck tinham sido ignorados por Stalin. Mesm o depois que o ataque com eçara, o líder soviético insistira que aquilo era um ato de provocação pontual, conduzido por oficiais m ilitares alem ães sem o conhecim ento de Hitler, que poria um fim à agressão assim que ficasse sabendo dela.

Quando se tornou im possível negar que aquilo não era um a provocação, m as a m aior invasão da história da guerra, os alem ães j á haviam dizim ado as posições avançadas soviéticas. Em um a sem ana, conseguiram adentrar quase 500 quilôm etros no território soviético.

Era um a catástrofe – m as o que fazia Volody a ter vontade de gritar era que tudo aquilo poderia ter sido evitado.

Não restava dúvida sobre de quem era a culpa. A União Soviética era um a autocracia. Um a única pessoa tom ava as decisões: Josef Stalin. Ele havia com etido um erro desastroso por conta da teim osia e da burrice. E agora seu país estava correndo um grande perigo.

Até então, Volody a acreditava que o com unism o soviético fosse a verdadeira ideologia, m aculada apenas pelos excessos da polícia secreta, a NKVD. Agora entendia que o defeito estava no topo da cadeia de com ando. Beria e a NKVD só existiam porque Stalin perm itia. Era ele quem estava im pedindo a m archa rum o ao verdadeiro com unism o.

Mais tarde nesse m esm o dia, enquanto olhava pela j anela para o cam po de pouso banhado de sol, refletindo sobre o que havia descoberto, Volody a recebeu um a visita de Kam en. Quatro anos antes, quando eram recém -form ados pela Academ ia de Inteligência Militar, haviam sido tenentes j untos e dividido um a sala com outros dois colegas. Na época, Kam en era um palhaço: fazia piada de todo m undo e atrevia-se a zom bar da inflexível ortodoxia soviética. Agora estava m ais gordo e parecia m ais sério. Talvez com o obj etivo de aparentar m ais m aturidade, deixara crescer um bigodinho preto igual ao de Molotov, o m inistro das Relações Exteriores.

Kam en fechou a porta atrás de si e sentou-se. Tirou do bolso um brinquedo: um soldadinho de m etal com um a chave nas costas. Deu corda na chave e pôs o brinquedo sobre a m esa de Volody a. O soldadinho com eçou a balançar os braços com o se estivesse m archando, e o m ecanism o foi perdendo energia com um ruído alto que lem brava os estalos de um a lingueta.

– Stalin não é visto há dois dias – disse Kam en em voz baixa.

Volody a entendeu que o soldadinho de corda estava ali para abafar qualquer gram po que pudesse estar escondido em sua sala.

– Com o assim , não é visto? – indagou.

– Não apareceu no Krem lin e não atende o telefone.

Volody a ficou espantado. O líder de um a nação não podia sim plesm ente sum ir.

– O que ele está fazendo?

– Ninguém sabe. – O soldadinho parou. Kam en deu corda no brinquedo outra vez. – No sábado à noite, quando ficou sabendo que o Grupam ento Militar Ocidental soviético fora cercado pelos alem ães, ele disse: “Tudo está perdido. Eu desisto. Lenin criou esta nação, e nós fodem os com ela.” Então foi para Kuntsevo. – Stalin tinha um a casa de cam po perto dessa cidade, nos arredores de Moscou. – Ontem não apareceu no Krem lin no horário habitual, m eio-dia. Quando ligaram para Kuntsevo, ninguém atendeu. O m esm o aconteceu hoj e.

Volody a se inclinou para a frente.

– Será que ele está tendo... – Sua voz se transform ou num sussurro. – ...um colapso m ental?

Kam en fez um gesto de im potência.

– Não seria de espantar. Contrariando todos os indícios, ele insistiu que a Alem anha não iria nos atacar este ano, e vej a só o que aconteceu.

Volody a assentiu. Fazia sentido. Stalin se perm itira ser oficialm ente cham ado de Pai, Professor, Grande Líder, Transform ador da Natureza, Grande Guia, Gênio da Hum anidade, o Maior Gênio de Todos os Tem pos e Povos. Mas agora ficara provado até m esm o para ele que estava errado, ao passo que todos os outros estavam certos. Havia quem se m atasse em circunstâncias com o essas.

A crise era ainda pior do que Volody a pensava. A União Soviética não estava apenas sendo atacada e perdendo; tam bém estava sem líder. Aquele devia ser o m om ento m ais perigoso para o país desde a revolução.

Mas seria tam bém um a oportunidade? Seria um a chance de se livrar de Stalin?

A últim a vez que Stalin parecera vulnerável fora em 1924, quando o testam ento de Lenin afirm ara que ele não tinha capacidade para assum ir o controle da nação. Desde que superara essa crise, seu poder parecia inabalável, m esm o – e Volody a agora via isso com clareza – quando suas decisões beiravam a loucura: os expurgos, os erros na Espanha, a nom eação do sádico Beria com o chefe da polícia secreta, o pacto com Hitler. Seria aquela situação a chance de finalm ente escapar do seu j ugo?

Volody a escondeu sua anim ação de Kam en e de todos os outros. Guardou os pensam entos para si durante o traj eto de ônibus para casa sob a luz suave do entardecer de verão. A viagem foi atrasada por um lento com boio de cam inhões que rebocavam peças de artilharia antiaérea – provavelm ente ordenado por seu pai, responsável pela defesa de Moscou contra ataques aéreos.

Será que Stalin poderia ser deposto?

Volody a pensou quantas pessoas próxim as ao Krem lin estariam se fazendo a m esm a pergunta.

Entrou na Casa do Governo, o prédio de dez andares onde ficava o apartam ento dos pais, bem em frente ao Krem lin, na outra m argem do rio Moscou. Seus pais tinham saído, m as sua irm ã estava lá com os gêm eos. O m enino tinha olhos e cabelos escuros. Com um lápis verm elho na m ão, rabiscava um j ornal velho. A m enina tinha os m esm os olhos azuis intensos de Grigori – assim com o Volody a, segundo diziam . Veio im ediatam ente m ostrar a boneca ao tio.

No apartam ento estava tam bém Zoy a Vorotsy ntsev, a linda física que Volody a conhecera quatro anos antes, às vésperas de partir para a Espanha. Ela e Any a tinham descoberto um interesse com um pela m úsica folclórica russa: iam j untas a recitais, e Zoy a tocava gudok, um instrum ento de três cordas. Nenhum a das duas tinha dinheiro para com prar um fonógrafo, m as havia um na casa de Grigori, e elas estavam ouvindo a gravação de um a orquestra de balalaikas. Grigori não era um grande apreciador de m úsica, m as achou o disco anim ado.

Zoy a usava um vestido de verão de m angas curtas do m esm o tom claro de seus olhos azuis. Quando Volody a lhe fez a pergunta-padrão sobre com o ela estava, a resposta foi um ríspido:

– Muito brava.

Os russos tinham m uitos m otivos para estarem bravos naquele m om ento.

– Por quê? – perguntou Volody a.

– Minha pesquisa de física nuclear foi cancelada. Todos os cientistas com os quais trabalho foram transferidos para outros proj etos. Eu m esm a estou trabalhando para aprim orar o proj eto das m iras dos bom badeiros.

Volody a achou isso bastante razoável.

– Estam os em guerra, afinal de contas.

– Você não entende – disse ela. – Escute o que vou dizer: quando passa por um processo cham ado fissão, o m etal urânio libera um a quantidade de energia descom unal. Descomunal. Nós sabem os disso, e os cientistas ocidentais tam bém sabem ... j á lem os seus artigos em publicações científicas.

– Mesm o assim , a questão das m iras dos bom bardeiros parece m ais urgente.

– Esse processo, a fissão, poderia ser usado para criar bom bas cem vezes m ais potentes do que as que existem agora – disse Zoy a, zangada. – Um a única explosão nuclear poderia aniquilar Moscou. E se os alem ães fabricarem um a bom ba dessas e nós não tiverm os um a tam bém ? Vai ser com o se eles tivessem fuzis e nós apenas espadas!

– Mas há algum m otivo para crer que os cientistas de outros países estej am trabalhando num a bom ba de fissão? – perguntou Volody a, cético.

– Tem os certeza de que estão. O conceito de fissão conduz autom aticam ente à ideia de um a bom ba. Se nós pensam os nisso, por que eles não iriam pensar? Mas há outro m otivo, tam bém . Eles divulgaram todos os prim eiros resultados em publicações científicas... E então, de um ano para cá, pararam de repente. Desde este m esm o período no ano passado nenhum artigo sobre fissão é publicado.

– E você acha que os políticos e generais do Ocidente perceberam o potencial m ilitar dessa pesquisa e a tornaram secreta?

– Não consigo pensar em outro m otivo. E a União Soviética nem sequer com eçou a procurar urânio debaixo da terra.

– Hum . – Volody a estava fingindo duvidar, m as na verdade considerava tudo aquilo extrem am ente verossím il. Nem m esm o os m aiores adm iradores de Stalin, grupo que incluía seu próprio pai, alegavam que ele entendesse de ciência. E era m uito fácil para um autocrata ignorar qualquer coisa que o deixasse pouco à vontade.

– Já falei com seu pai – prosseguiu Zoy a. – Ele m e dá ouvidos, m as ninguém o escuta.

– O que você vai fazer, então?

– O que posso fazer? Vou proj etar um a m ira de bom bardeiro m uito boa para os nossos aviadores e cruzar os dedos.

Volody a assentiu. Gostava daquela atitude. Gostava daquela m oça. Ela era inteligente, arrebatada, e um colírio para os olhos. Pensou se aceitaria um convite seu para ir ao cinem a.

Aquela conversa sobre física o fez se lem brar de Willi Frunze, que estudara com ele na Academ ia para Meninos de Berlim . Segundo Werner Franck, Willi era um físico brilhante que agora estudava na Inglaterra. Talvez ele soubesse algum a coisa sobre a bom ba de fissão que estava deixando Zoy a tão zangada. E, se ainda fosse com unista, talvez estivesse disposto a revelar o que sabia. Volody a disse a si m esm o que não podia se esquecer de m andar um telegram a para o setor da Inteligência do Exército Verm elho na em baixada de Londres.

Seus pais entraram na sala. Grigori usava um uniform e de gala. Katerina estava de sobretudo e chapéu. Voltavam de um a das m uitas interm ináveis cerim ônias que o Exército tanto am ava: apesar da invasão alem ã, Stalin insistia em que esses rituais continuassem , pois eram bons para o m oral.

Os avós fizeram carinho nos gêm eos, m as Grigori parecia preocupado. Resm ungou algo sobre um telefonem a, depois se refugiou no escritório. Katerina com eçou a preparar o j antar.

Volody a ficou na cozinha conversando com as três m ulheres, m as estava louco para falar com o pai. Pensava saber o teor do telefonem a urgente que ele tinha que dar: a derrubada de Stalin estava sendo planej ada ou evitada naquele exato m om ento, provavelm ente naquele m esm o prédio.

Após alguns m inutos, ele decidiu interrom per o pai, m esm o se arriscando a enfurecê-lo. Pediu licença e foi até o escritório. Mas Grigori j á estava de saída.

– Tenho que ir a Kuntsevo – disse ele.

Volody a estava louco para saber o que estava acontecendo.

– Por quê? – indagou.

O pai ignorou a pergunta.

– Mandei cham ar m eu carro, m as m eu m otorista j á foi para casa. Você pode m e levar.

Volody a ficou anim ado. Nunca fora à datcha de Stalin. Agora iria até lá num m om ento de crise.

– Vam os – disse-lhe o pai, im paciente.

Eles gritaram suas despedidas do hall e saíram .

O carro de Grigori era um ZIS 101-A preto, cópia soviética do Packard am ericano, com câm bio autom ático de três m archas. A velocidade m áxim a ficava em torno de 130 quilôm etros por hora. Volody a se acom odou ao volante e partiu.

Passou pelo Arbat, bairro de artesãos e intelectuais, e pegou a autoestrada Mozhaisk na direção oeste.

– O senhor foi convocado pelo cam arada Stalin? – perguntou ao pai.

– Não. Stalin está incom unicável há dois dias.

– Foi o que ouvi dizer.

– Ouviu? Deveria ser segredo.

– Não se pode guardar segredo sobre um a coisa dessas. O que está acontecendo agora?

– Estam os indo em grupo a Kuntsevo falar com ele.

Volody a fez a pergunta-chave:

– Com que obj etivo?

– Em prim eiro lugar, para descobrir se ele está vivo ou m orto.

Será que Stalin poderia de fato j á estar m orto sem que ninguém soubesse?, perguntou-se Volody a. Parecia im provável.

– E se ele estiver vivo?

– Não sei. Mas, aconteça o que acontecer, prefiro estar lá para ver do que ficar sabendo depois.

Volody a estava ciente de que gram pos não funcionavam em carros em m ovim ento: tudo o que o m icrofone conseguia captar era o barulho do m otor. Assim , sentia-se seguro de que ninguém iria ouvi-lo. Apesar disso, um tem or o acom eteu quando ele disse o im pensável:

– Stalin pode ser deposto?

– Já disse que não sei – respondeu seu pai, irritado.

Volody a ficou eletrizado. Um a pergunta com o aquela exigia um a negação veem ente. Qualquer outra coisa significava um sim . Seu pai acabara de adm itir a possibilidade de Stalin estar acabado.

A esperança de Volody a aum entou exponencialm ente.

– Pense em com o poderia ser! – falou, anim ado. – O fim dos expurgos! Os cam pos de trabalhos seriam fechados. Meninas não seriam m ais pegas na rua para serem estupradas pela polícia secreta. – Ele quase esperava que o pai o interrom pesse, m as Grigori apenas escutava, com os olhos sem icerrados. Volody a prosseguiu: – A expressão idiota “espião trotskista-fascista” vai desaparecer da nossa língua. Unidades m ilitares que estiverem em desvantagem num érica e sem arm am entos poderão recuar, em vez de se sacrificar inutilm ente. As decisões serão tom adas de form a lógica, por grupos de hom ens inteligentes que se esforçarão para determ inar o que é m elhor para todos. É esse o com unism o com o qual o senhor sonhou trinta anos atrás!

– Seu rapaz tolo – disse Grigori com desprezo. – A últim a coisa que querem os num a hora com o esta é perder nosso líder. Estam os em guerra e recuando! Nosso único obj etivo deve ser defender a revolução, custe o que custar. Precisam os de Stalin agora m ais do que nunca.

Volody a teve a sensação de ter levado um tapa. Já fazia m uitos anos que seu pai não o cham ava de tolo.

Será que Grigori tinha razão? A União Soviética precisava m esm o de Stalin? O líder havia tom ado tantas decisões desastrosas que Volody a não via com o o país poderia ficar pior sob o com ando de outra pessoa.

Chegaram ao seu destino. A casa de Stalin era cham ada de datcha por convenção, m as não era nenhum chalé no cam po. A construção com prida e baixa, com cinco j anelas altas de am bos os lados de um a entrada grandiosa, ficava no m eio de um a floresta de pinheiros e era pintada de um verde fosco, com o para cam uflá-la. Centenas de soldados arm ados protegiam os portões e a cerca dupla de aram e farpado. Grigori apontou um a bateria antiaérea parcialm ente cam uflada por um a rede.

– Fui eu quem pus aquilo ali – com entou.

O guarda do portão reconheceu Grigori, m as ainda assim pediu para ver seus docum entos de identificação. Em bora Grigori fosse general e Volody a capitão da Inteligência, am bos foram revistados em busca de arm as.

Volody a dirigiu até a porta da casa. Não havia nenhum outro carro ali.

– Vam os esperar pelos outros – falou seu pai.

Instantes depois, três outras lim usines ZIS se aproxim aram . Volody a se lem brou de que ZIS significava Zavod Im eni Stalin, Fábrica Cham ada Stalin. Teriam os carrascos acabado de chegar em veículos batizados para hom enagear sua vítim a?

Todos desceram dos carros: oito hom ens de m eia-idade vestidos de terno e com chapéus, que tinham nas m ãos o futuro do país. Entre eles, Volody a reconheceu Molotov, o m inistro das Relações Exteriores, e Beria, chefe da polícia secreta.

– Vam os – disse Grigori.

Volody a se espantou.

– Vou entrar com vocês?

Grigori levou a m ão até debaixo do banco e entregou ao filho um a pistola Tokarev TT-33.

– Ponha no bolso – disse ele. – Se aquele filho da m ãe do Beria tentar m e prender, m ate-o com um tiro.

Volody a pegou a arm a com cuidado: a TT-33 não tinha trava de segurança. Guardou-a no bolso do paletó – a pistola tinha uns 18 centím etros de com prim ento – e desceu do carro. O pente tinha oito balas, recordou.

Todos entraram . Volody a tem eu que o revistassem outra vez e encontrassem a arm a, m as não houve novas revistas.

A casa era pintada em cores escuras e estava m al-ilum inada. Um oficial conduziu o grupo ao que parecia um a pequena sala de j antar. Stalin estava sentado num a poltrona lá dentro.

O hom em m ais poderoso do hem isfério oriental parecia abatido e deprim ido. Correu os olhos pelo grupo que entrava na saleta e perguntou:

– Por que vieram até aqui?

Volody a deu um arquej o. Era óbvio que o líder achava que eles estavam ali para prendê-lo ou executá-lo.

Houve um a pausa dem orada e Volody a entendeu que aqueles hom ens não tinham planej ado nada. Com o poderiam ter feito isso quando nem sabiam se Stalin estava vivo?

Mas o que eles fariam agora? Matá-lo com um tiro? Talvez j am ais houvesse outra oportunidade.

Por fim , Molotov se adiantou.

– Viem os pedir que o senhor volte ao trabalho – disse o m inistro.

Volody a teve que reprim ir o im pulso de protestar.

Stalin fez que não com a cabeça.

– Será que eu saberei corresponder às expectativas das pessoas? Será que conseguirei conduzir o país à vitória?

Volody a estava em basbacado. Será que ele iria m esm o recusar?

– Talvez haj a candidatos m elhores – acrescentou Stalin.

Ele estava lhes dando um a segunda chance de tirá-lo do poder!

Outro m em bro do grupo tom ou a palavra, e Volody a reconheceu o m arechal Voroshilov.

– Não há ninguém m ais digno – disse ele.

De que adiantava aquilo? Não era hora para adulações explícitas.

Então seu pai interveio dizendo:

– É verdade!

Eles não iriam tirar Stalin do poder? Com o podiam ser tão burros?

Molotov foi o prim eiro a dizer algo sensato:

– Nossa proposta é form ar um conselho de guerra cham ado Com itê de Defesa do Estado, um a espécie de versão condensada do Politburo, com um núm ero de com ponentes bem reduzido e poderes abrangentes.

Stalin logo perguntou: