Inverno do Mundo
Capítulo dois
1935
– Há duas coisas que você precisa saber sobre as garotas de Buffalo – disse Daisy Peshkov. – Elas bebem m uito e são todas esnobes.
Eva Rothm ann deu um a risadinha.
– Não acredito em você – falou. Quase j á não se percebia seu sotaque alem ão.
– Ah, é verdade – insistiu Daisy. As duas estavam em seu quarto decorado de cor-de-rosa e branco, experim entando roupas em frente a um espelho de três folhas de corpo inteiro. – Azul-m arinho e branco devem ficar bem em você – em endou ela. – O que acha? – Suspendeu um a blusa até j unto do rosto de Eva e estudou o resultado. O contraste de cores parecia lhe cair bem .
Daisy estava procurando em seu arm ário um a roupa que Eva pudesse usar para um piquenique na praia. Eva não era um a m oça bonita e os babados e laçarotes que enfeitavam m uitas das roupas de Daisy a deixavam m ais desm azelada. Listras com binavam m elhor com seus traços m arcantes.
Eva tinha cabelos escuros e olhos de um castanho tam bém escuro.
– Você pode usar cores fortes – disse-lhe Daisy .
Eva tinha poucas roupas. Seu pai, um m édico j udeu de Berlim , gastara todas as suas econom ias para m andá-la para os Estados Unidos, e ela havia chegado um ano antes, sem nada. Um a instituição de caridade financiava seus estudos no m esm o colégio interno de Daisy – as duas tinham a m esm a idade, 19 anos. Eva, porém , não tinha para onde ir nas férias de verão, e Daisy , por im pulso, convidara-a para ficar em sua casa.
Inicialm ente Olga, m ãe de Daisy , havia resistido.
– Ah, m as você passa o ano todo na escola... fico tão ansiosa para ter m inha filha com igo no verão!
– Ela é ótim a, m ãe – dissera Daisy . – É encantadora, descontraída e um a grande am iga.
– Im agino que você sinta pena por ela ser refugiada dos nazistas.
– Não estou nem aí para os nazistas. Sim plesm ente gosto dela.
– Tudo bem , m as ela precisa ficar na nossa casa?
– Mãe, ela não tem para onde ir!
Com o sem pre, no final Olga deixara Daisy fazer o que queria.
– Esnobes? – disse Eva, continuando a conversa com a am iga. – Ninguém poderia ser esnobe com você!
– Ah, poderia, sim .
– Mas você é tão bonita e cheia de vida.
Daisy não se deu o trabalho de negar.
– Elas odeiam isso em m im .
– E você é rica.
Era verdade. O pai de Daisy era podre de rico, sua m ãe havia herdado um a fortuna, e a própria Daisy teria direito a um bom dinheiro quando fizesse 21 anos.
– Isso não quer dizer nada. Nesta cidade, o que vale é há quanto tem po a pessoa é rica. Se você trabalha, não é ninguém . As pessoas superiores são aquelas que vivem dos m ilhões deixados pelos bisavós. – Ela falava em tom alegre e zom beteiro, para esconder seu ressentim ento.
– E seu pai é fam oso! – acrescentou Eva.
– As pessoas acham que ele é um gângster.
Josef Vy alov, avô de Daisy, tinha sido proprietário de bares e hotéis. Lev Peshkov, seu pai, usara os lucros desses estabelecim entos para com prar velhos teatros de vaudevile e transform á-los em salas de cinem a. Hoj e em dia, era tam bém dono de um estúdio em Holly wood.
Eva ficou indignada por Daisy .
– Com o podem dizer um a coisa dessas?
– Acreditam que ele contrabandeava bebidas. Acho que têm razão. Não vej o de que outro m odo ele teria conseguido ganhar dinheiro com bares durante a Lei Seca. Enfim , é por isso que m am ãe nunca será convidada para fazer parte da Sociedade de Senhoras de Buffalo.
As duas olharam para Olga, que estava sentada na cam a de Daisy lendo o Buffalo Sentinel. Nas fotos de quando era j ovem , Olga era um a beldade longilínea. Agora estava gorda e acabada. Perdera o interesse pela própria aparência, m as dedicava grande energia a fazer com pras com Daisy e não econom izava para deixar a filha linda. Olga ergueu os olhos do j ornal e disse:
– Não tenho certeza de que as pessoas se im portem com o fato de seu pai ter sido contrabandista, m eu bem . Mas ele é im igrante russo e, nas raras ocasiões em que resolve ir à m issa, vai à igrej a ortodoxa da Ideal Street. Isso é quase tão ruim quanto ser católico.
– Que inj ustiça – com entou Eva.
– E tenho que lhe avisar que eles tam bém não gostam m uito de j udeus – disse Daisy. Eva na verdade era m etade j udia. – Desculpe o m au j eito.
– Pode ter o m au j eito que quiser... em com paração com a Alem anha, este país parece a Terra Prom etida.
– Não com em ore dem ais – alertou Olga. – Segundo este j ornal aqui, m uitos líderes em presariais am ericanos odeiam o presidente Roosevelt e adm iram Adolf Hitler. E eu sei que é verdade, porque o pai de Daisy é um deles.
– Política é um a chatice – com entou Daisy . – Algum a notícia interessante no Sentinel?
– Sim . Muffie Dixon vai ser apresentada à corte da Grã-Bretanha.
– Que sorte a dela – disse Daisy , am argurada, sem conseguir esconder a invej a.
– “A Srta. Muriel Dixon, filha do finado Charles Dixon, o Chuck, m orto na França durante a guerra, será apresentada no Palácio de Buckingham na próxim a terça-feira pela esposa do em baixador norte-am ericano, Sra. Robert W. Bingham ” – leu Olga.
Mas Daisy j á tinha ouvido o suficiente sobre Muffie Dixon.
– Eu j á fui a Paris, m as não a Londres – disse ela a Eva. – E você?
– Tam bém não – respondeu Eva. – A prim eira vez que saí da Alem anha foi quando peguei o navio para os Estados Unidos.
De repente, Olga exclam ou:
– Ai, não!
– O que foi? – perguntou Daisy .
Sua m ãe am assou o j ornal.
– Seu pai levou Glady s Angelus à Casa Branca.
– Ah, é? – Daisy teve a sensação de ter levado um tapa. – Mas ele disse que iria levar a m im !
Na tentativa de conquistar apoio para seu proj eto cham ado New Deal, o presidente Roosevelt convidara cem em presários para um a recepção. Para Lev Peshkov, Franklin D. Roosevelt era praticam ente um com unista, m as ficara lisonj eado em ser convidado para ir à Casa Branca. Olga, porém , recusara-se a acom panhá-lo, dizendo com raiva:
– Não estou disposta a fingir para o presidente que nós tem os um casam ento norm al.
Oficialm ente, Lev m orava com elas, naquela suntuosa casa em estilo prairie anterior à guerra construída pelo vovô Vy alov, m as passava a m aior parte das noites no grandioso apartam ento da cidade onde m antinha sua am ante de m uitos anos, Marga. Além disso, todos achavam que ele estava tendo um caso com a m aior estrela de seu estúdio, um a atriz cham ada Glady s Angelus. Daisy entendia por que a m ãe se sentia desprezada. Ela tam bém se sentia assim quando Lev saía de carro para passar as noites com sua outra fam ília.
Ficara em polgada quando ele a convidara para acom panhá-lo à Casa Branca no lugar da m ãe. Tinha dito a todo m undo que iria. Nenhum de seus am igos nunca fora apresentado ao presidente, com exceção dos irm ãos Dewar, cuj o pai era senador.
Lev não lhe dissera a data exata e ela im aginara que o pai fosse avisá-la na últim a hora, com o costum ava fazer. Mas ele havia m udado de ideia, ou quem sabe sim plesm ente se esquecera. De todo m odo, tinha desprezado Daisy m ais um a vez.
– Eu sinto m uito, m eu bem – disse Olga. – Mas prom essas nunca significaram m uita coisa para o seu pai.
Eva tinha um a expressão com passiva. A pena da am iga feriu Daisy. O pai de Eva estava a m ilhares de quilôm etros dali e talvez ela nunca m ais tornasse a vê-lo, m as m esm o assim sentia pena de Daisy , com o se a situação dela fosse pior do que a sua.
Aquilo fez Daisy se sentir desafiadora. Não iria deixar aquele incidente estragar seu dia.
– Bem , nesse caso vou ser a única garota de Buffalo que j á levou um bolo por causa de Glady s Angelus – disse ela. – Mas então, o que devo usar?
Em Paris, as saias nesse ano estavam absurdam ente curtas, m as a conservadora alta sociedade de Buffalo só acom panhava a m oda m uito de longe. No entanto, Daisy tinha um vestido curto, na altura dos j oelhos, do m esm o tom de azul-claro de seus olhos. Talvez esse fosse o dia de tirá-lo do arm ário. Ela despiu o vestido que estava usando e pôs o outro.
– Que tal? – perguntou.
– Ai, Daisy , ficou lindo, m as... – disse Eva.
– Os olhos deles vão pular das órbitas – disse Olga. Ela gostava quando Daisy se vestia para m atar. Talvez isso a fizesse se lem brar de sua j uventude.
– Daisy , se eles são todos uns esnobes, por que você quer ir a essa festa? – perguntou Eva.
– Charlie Farquharson vai estar lá, e estou pensando em m e casar com ele – respondeu Daisy .
– Sério?
– Ele é um ótim o partido – disse Olga, enfática.
– Com o ele é? – quis saber Eva.
– Um am or – respondeu Daisy. – Não é o rapaz m ais bonito de Buffalo, m as é doce e gentil, m ais para tím ido.
– Parece m uito diferente de você.
– Os opostos se atraem .
– Os Farquharson são um a das fam ílias m ais antigas de Buffalo – atalhou Olga.
– Esnobes? – perguntou Eva, arqueando as sobrancelhas escuras.
– Muito – respondeu Daisy. – Mas o pai de Charlie perdeu todo o dinheiro no Crash de Wall Street e depois m orreu... alguns dizem que se m atou. Então eles precisam recuperar a fortuna da fam ília.
Eva fez cara de chocada.
– Está dizendo que espera que ele se case com você por dinheiro?
– Não. Ele vai se casar com igo porque vou enfeitiçá-lo. Mas a m ãe dele vai m e aceitar por causa do m eu dinheiro.
– Você diz que vai enfeitiçá-lo. Ele está sabendo dessa história?
– Ainda não. Mas talvez eu com ece hoj e à tarde. Sim , esta sem dúvida é a roupa certa.
Daisy usou o vestido azul-claro e Eva, as listras azul-m arinho e brancas. Quando ficaram prontas, j á estavam atrasadas.
A m ãe de Daisy não queria ter m otorista. “Eu m e casei com o m otorista do m eu pai e isso estragou m inha vida”, costum ava dizer. Ficava apavorada que Daisy fizesse algo parecido – era por isso que fazia tanto gosto em Charlie Farquharson. Sem pre que precisava ir a algum lugar com seu barulhento Stutz 1925, fazia Henry, o j ardineiro, tirar as galochas e vestir um terno preto. Mas Daisy tinha seu próprio carro, um Sport Coupe da Chevrolet.
Daisy gostava de dirigir – adorava o poder e a velocidade associados a isso. As duas garotas saíram da cidade rum o ao sul. Ela quase lam entou que a praia ficasse a m enos de dez quilôm etros.
Enquanto dirigia, ficou pensando na vida com o esposa de Charlie. Com o seu dinheiro e a posição social dele, os dois seriam o casal m ais im portante da sociedade de Buffalo. Nos j antares que oferecessem , a louça, a prataria e os cristais seriam tão elegantes que as pessoas soltariam arquej os de adm iração. Eles teriam o m aior iate do porto e dariam festas a bordo para outros casais ricos que gostassem de se divertir. As pessoas ansiariam por um convite da Sra. Charles Farquharson. Nenhum evento beneficente seria um sucesso sem Daisy e Charlie na m esa principal. Em sua m ente, ela assistiu a si m esm a num film e, com um fabuloso vestido de Paris, andando por entre um a m ultidão de adm iradores, hom ens e m ulheres, e sorrindo graciosam ente em retribuição aos elogios que recebia.
Ainda estava sonhando acordada quando chegaram à praia.
A cidade de Buffalo ficava na parte norte do estado de Nova York, perto da fronteira com o Canadá. A praia de Woodlawn era um a faixa de areia de pouco m enos de dois quilôm etros à m argem do lago Erie. Daisy estacionou e as duas com eçaram a atravessar as dunas.
Já havia um as cinquenta ou sessenta pessoas na festa. Eram os filhos adolescentes da elite de Buffalo, um grupo privilegiado que passava os verões velej ando e praticando esqui aquático durante o dia e frequentando festas e bailes à noite. Daisy cum prim entou os que conhecia, ou sej a, quase todos, e apresentou Eva. Elas pegaram dois copos de ponche. Daisy provou o seu com cautela: alguns dos rapazes achavam divertido batizar a bebida com algum as garrafas de gim .
A festa era de Dot Renshaw, um a m oça de língua afiada com quem ninguém queria se casar. Os Renshaw eram um a fam ília tradicional de Buffalo, com o os Farquharson, m as sua fortuna tinha sobrevivido à quebra da Bolsa. Daisy fez questão de ir falar com o anfitrião, pai de Dot, e agradecer-lhe.
– Desculpe o atraso – disse ela. – Perdi a noção do tem po!
Philip Renshaw a olhou de cim a a baixo.
– Essa saia é bem curta. – Na expressão dele, a desaprovação com petia com a lascívia.
– Que bom que o senhor gostou – respondeu Daisy, fingindo que ele havia lhe feito um elogio direto.
– Que bom que você finalm ente chegou – prosseguiu ele. – Um fotógrafo do Sentinel virá à festa e precisam os de m oças bonitas na foto.
– Então foi por isso que fui convidada – cochichou Daisy para Eva. – Que gentileza dele m e avisar.
Dot apareceu. Tinha rosto fino e nariz pontudo. Daisy sem pre achava que ela parecia prestes a bicar alguém .
– Pensei que você fosse com seu pai conhecer o presidente – disse ela de cara.
Daisy se sentiu hum ilhada. Não deveria ter se gabado disso com todo m undo.
– Vi que ele levou sua... ahn... sua atriz principal – continuou Dot. – Esse tipo de coisa não é m uito com um na Casa Branca.
– Im agino que o presidente goste de conhecer estrelas de cinem a de vez em quando – retrucou Daisy . – Ele tam bém m erece um pouco de glam our, você não acha?
– Não creio que Eleanor Roosevelt tenha aprovado. Segundo o Sentinel, todos os outros cavalheiros levaram as esposas.
– Que atencioso da parte deles – disse Daisy , virando as costas, louca para sair dali.
Viu Charlie Farquharson tentando m ontar um a rede de tênis. Ele era bondoso dem ais para zom bar dela por causa de Glady s Angelus.
– Tudo bem , Charlie? – cum prim entou anim ada.
– Tudo, acho que sim . – Ele se levantou. Era um rapaz alto de cerca de 25 anos, um pouco acim a do peso e com um a postura levem ente curvada, com o se tem esse que a sua altura fosse intim idar os outros.
Daisy apresentou Eva. Charlie se com portava de form a encantadoram ente constrangida quando estava em grupo, sobretudo quando havia m oças, m as fez um esforço e perguntou a Eva o que ela estava achando dos Estados Unidos e se tinha notícias da fam ília em Berlim .
Eva lhe perguntou se ele estava gostando do piquenique.
– Não m uito – respondeu ele, sincero. – Preferiria estar em casa com m eus cachorros.
Ele sem dúvida achava m ais fácil lidar com anim ais de estim ação do que com garotas, pensou Daisy . Mas a m enção aos cachorros era interessante.
– De que raça são os seus cães? – perguntou ela.
– Jack Russell.
Daisy arquivou essa inform ação na cabeça.
Um a cinquentona de traços angulosos se aproxim ou.
– Pelo am or de Deus, Charlie, ainda não m ontou essa rede?
– Estou quase, m ãe – respondeu ele.
Nora Farquharson usava um a pulseira de ouro cravej ada de brilhantes, brincos de diam ante e um colar da Tiffany – m ais j oias do que precisava para um piquenique. A pobreza dos Farquharson era relativa, pensou Daisy. As pessoas diziam que eles haviam perdido tudo, m as a Sra. Farquharson ainda tinha criada, m otorista e dois cavalos para cavalgar no parque.
– Boa tarde, Sra. Farquharson – cum prim entou Daisy. – Esta aqui é m inha am iga Eva Rothm ann, de Berlim .
– Com o vai? – disse Nora Farquharson sem estender a m ão. Não sentia a m enor necessidade de ser sim pática com russos arrivistas, m uito m enos com seus convidados j udeus.
Então um pensam ento pareceu lhe ocorrer.
– Ah, Daisy , você bem que poderia dar um a volta e ver se alguém quer j ogar tênis.
Daisy percebeu que estava sendo tratada com o um a criada, m as resolveu ser dócil.
– Claro – concordou. – Sugiro duplas m istas.
– Boa ideia. – A Sra. Farquharson lhe estendeu um cotoco de lápis e um pedaço de papel. – Pode anotar os nom es aqui.
Daisy deu um sorriso gentil e tirou da bolsa um a caneta de ouro e um bloquinho de notas de couro bege.
– Estou equipada.
Ela sabia quem eram os j ogadores, tanto os bons quanto os ruins. Era sócia do Clube de Tênis, que não era tão exclusivo quanto o Iate Clube. Form ou as duplas: Eva com Chuck Dewar, o filho de 14 anos do senador Dewar; Joanne Rouzrokh com o m ais velho dos irm ãos Dewar, Woody, que, apesar de ter só 15 anos, j á era tão alto quanto o pai; e, naturalm ente, ela m esm a com Charlie.
Daisy ficou espantada ao ver um rosto fam iliar e reconhecer o m eio-irm ão Greg, filho de Marga. Os dois não se encontravam com frequência e fazia um ano que não se viam . Nesse m eio-tem po, ele parecia ter virado hom em . Estava 15 centím etros m ais alto e, em bora ainda tivesse apenas 15 anos, j á exibia a som bra escura de um a barba. Quando criança, era um m enino desarrum ado, e isso não havia m udado. Usava as roupas caras de um j eito descuidado: as m angas do blazer arregaçadas, a gravata listrada frouxa no pescoço, a calça de linho m olhada do m ar e suj a de areia na barra.
Daisy sem pre ficava envergonhada quando encontrava Greg. Ele era um a prova viva de com o seu pai havia rej eitado a ela e à m ãe e escolhido Greg e Marga. Sabia que m uitos hom ens casados tinham am antes, m as a pulada de cerca do pai dela aparecia nas festas para todo m undo ver. Lev deveria ter feito Marga e Greg se m udarem para Nova York, onde ninguém conhecia ninguém , ou então para a Califórnia, onde ninguém via nada de errado no adultério. Ali, eles eram um escândalo perm anente e Greg fazia parte dos m otivos que levavam as pessoas a olhar Daisy com desdém .
Ele perguntou com educação com o ela estava.
– Se quer m esm o saber, estou furiosa – respondeu ela. – Papai m e deixou na m ão... outra vez.
– O que ele fez? – perguntou Greg, desconfiado.
– Ele tinha m e convidado para acom panhá-lo à Casa Branca... m as levou aquela sirigaita da Glady s Angelus. Agora está todo m undo rindo de m im .
– Deve ter sido um a ótim a publicidade para Paixão, o novo film e dela.
– Você sem pre o defende porque ele prefere você a m im .
Greg fez cara de irritação.
– Talvez sej a porque eu o adm iro, em vez de ficar reclam ando dele o tem po inteiro.
– Eu não... – Daisy estava prestes a negar que reclam ava quando percebeu que era verdade. – Bom , talvez eu reclam e, m as ele deveria cum prir suas prom essas, não deveria?
– Ele tem m uito com que se preocupar.
– Talvez então não devesse ter duas am antes além da esposa.
Greg deu de om bros.
– É m uita coisa para adm inistrar.
Depois de alguns instantes de silêncio, os dois acabaram rindo.
– Bom , acho que eu não deveria culpar você – disse Daisy . – Você não pediu para nascer.
– E eu provavelm ente deveria perdoá-la por tirar m eu pai de casa três noites por sem ana... por m ais que eu chorasse e im plorasse para ele ficar.
Daisy nunca havia pensado nas coisas sob aquele ponto de vista. Na sua cabeça, Greg era sem pre o usurpador, o filho ilegítim o que vivia roubando seu pai. Mas agora percebia que a m ágoa dele era tão grande quanto a sua.
Encarou o rapaz. Algum as garotas até poderiam achá-lo atraente, supôs. Ele era j ovem dem ais para Eva, porém . E provavelm ente se tornaria tão egoísta e pouco confiável quanto o pai.
– Enfim – disse ela. – Você quer j ogar tênis?
Ele fez que não com a cabeça.
– O pessoal do Clube de Tênis não gosta de gente com o eu. – Forçou um sorriso indiferente e Daisy percebeu que, assim com o ela, Greg se sentia rej eitado pela alta sociedade de Buffalo. – O m eu esporte é hóquei no gelo – falou.
– Que pena. – Ela continuou sua busca.
Depois de recrutar um a quantidade suficiente de nom es, voltou para j unto de Charlie, que finalm ente conseguira arm ar a rede. Mandou Eva cham ar as duas prim eiras duplas. Então disse a Charlie:
– Venha m e aj udar a m ontar a tabela da com petição.
Os dois se aj oelharam lado a lado e desenharam na areia um diagram a com elim inatórias, sem ifinais e um a final. Quando estavam inserindo os nom es, Charlie perguntou:
– Você gosta de cinem a?
Daisy se perguntou se ele iria convidá-la para sair.
– Claro – respondeu.
– Por acaso j á assistiu a Paixão?
– Não, Charlie, não assisti – disse ela em tom irritado. – A atriz principal é am ante do m eu pai.
Ele ficou chocado.
– Segundos os j ornais, eles são apenas bons am igos.
– E por que você acha que a Srta. Angelus, que m al com pletou 20 anos, é tão amiga assim do m eu pai, que tem 40? – perguntou Daisy com sarcasm o. – Acha que ela gosta das entradas na cabeça dele? Ou daquela barriguinha que ele tem ? Ou será que gosta de seus 50 m ilhões de dólares?
– Ah, entendi – disse ele, parecendo consternado. – Eu sinto m uito.
– Não precisa se desculpar. Estou agindo m al. Você não é igual a todo m undo... não pensa autom aticam ente o pior dos outros.
– Acho que devo ser sim plesm ente burro.
– Não. Só gentil.
Charlie pareceu encabulado, m as contente.
– Vam os andar logo com isso – disse Daisy. – Tem os que m anipular as partidas para que os m elhores j ogadores cheguem à final.
Nora Farquharson tornou a aparecer. Viu Charlie e Daisy aj oelhados lado a lado na areia e em seguida exam inou a tabela.
– Ficou m uito bom , não acha, m ãe? – perguntou Charlie. Era óbvio que ansiava pela sua aprovação.
– Sim , m uito bom . – Ela olhou para Daisy com um ar avaliador, com o um a cadela ao ver um desconhecido se aproxim ar de seus filhotes.
– Foi Charlie que fez quase tudo – disse Daisy .
– Mentira – disse a Sra. Farquharson, indelicada. Olhou para Charlie, depois de volta para Daisy. – Você é um a m oça esperta – falou. Parecia prestes a acrescentar algum a coisa, m as hesitou.
– O que foi? – indagou Daisy .
– Nada. – Ela virou as costas.
Daisy se levantou.
– Eu sei o que ela estava pensando – sussurrou para Eva.
– O quê?
– Você é um a m oça esperta... quase boa o bastante para o m eu filho, se viesse de um a fam ília decente.
– Você não tem com o saber isso – disse Eva, cética.
– É claro que tenho. E vou m e casar com ele nem que sej a só para provar que ela está errada.
– Oh, Daisy , por que você se im porta tanto com o que essa gente pensa?
– Vam os ver as partidas de tênis.
Daisy sentou-se na areia ao lado de Charlie. Ele podia não ser bonito, m as iria venerar a esposa e faria qualquer coisa por ela. A sogra seria um problem a, m as Daisy achava que conseguiria dom á-la.
A alta Joanne Rouzrokh estava sacando. Usava um saiote branco que realçava suas pernas com pridas. Seu parceiro, Woody Dewar, ainda m ais alto do que ela, passou-lhe um a bola. Algum a coisa no m odo com o ele olhou para Joanne fez Daisy pensar que estava atraído por ela, talvez até apaixonado. Mas Woody tinha 15 anos e Joanne, 18. Não havia futuro nenhum ali.
Ela se virou para Charlie.
– Talvez no final das contas eu devesse assistir a Paixão – falou.
Ele não entendeu a indireta.
– Talvez devesse m esm o – respondeu ele, indiferente.
A oportunidade havia passado.
Daisy virou-se para Eva: