Inverno do Mundo

Ken Follett · Capítulo 41 de 153

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Inverno do Mundo

Capítulo IV

Daisy estava apaixonada.

Agora sabia que nunca havia am ado ninguém antes de Lloy d. Em bora tivesse ficado entusiasm ada com Boy, nunca o am ara de verdade. Quanto ao pobre Charlie Farquharson, no m áxim o sentira apreço por ele. Antigam ente acreditava que poderia am ar quem quisesse e que sua principal responsabilidade era fazer um a escolha inteligente. Agora entendia que não era nada disso. A inteligência não tinha nada a ver com o assunto, e não havia escolha. O am or era um terrem oto.

Tirando as duas horas que passava com Lloy d à noite, sua vida era vazia. O restante do dia era só espera; a noite era pura lem brança.

Lloy d era o travesseiro no qual repousava a cabeça. Era a toalha com a qual secava os seios ao sair da banheira. Era o nó dos dedos que levava à boca, pensativa.

Com o tinha sido capaz de ignorá-lo por quatro anos? O am or de sua vida aparecera na sua frente no baile do Trinity e tudo o que ela havia reparado era que ele estava usando roupas em prestadas! Por que não o tom ara nos braços, o beij ara e insistira para que se casassem na m esm a hora?

Im aginava que Lloy d soubesse desde o início. Devia ter se apaixonado por ela à prim eira vista. Havia lhe im plorado que dispensasse Boy :

– Term ine com ele – dissera, na noite em que foram à casa de espetáculos. – Sej a m inha nam orada.

E ela apenas rira. Mas ele vislum brara a verdade que ela não tinha conseguido ver.

No entanto, algum a intuição bem no fundo de seu ser lhe dissera para beij á-lo naquela calçada de May fair, na penum bra entre dois postes de rua. Na época, havia considerado aquilo um capricho prazeroso. A verdade é que tinha sido a coisa m ais inteligente que ela fizera na vida, pois provavelm ente havia consolidado a devoção que ele tinha por ela.

Agora, em Tŷ Gwy n, Daisy se recusava a pensar no que iria acontecer dali para a frente. Estava vivendo um dia após outro, cam inhando nas nuvens, sorrindo a troco de nada. Recebeu um a carta aflita de sua m ãe em Buffalo, preocupada com a saúde e o estado m ental da filha depois do aborto, e enviou um a resposta tranquilizadora. Olga incluíra na carta algum as notícias esparsas: Dave Rouzrokh m orrera em Palm Beach; Muffie Dixon se casara com Philip Renshaw; Rosa, esposa do senador Dewar, escrevera um livro de sucesso cham ado Nos bastidores da Casa Branca, com fotografias de Woody. Um m ês antes, tudo aquilo a teria deixado com saudades de casa; agora lhe despertava apenas um leve interesse.

Daisy só ficava triste ao pensar no bebê que perdera. A dor passara depressa e o sangram ento havia cessado em um a sem ana, m as a perda a deixara abalada. Ela não chorava m ais por causa disso, m as de vez em quando se pegava olhando para o nada, pensando se teria sido m enina ou m enino, e com o seria seu rostinho. De repente percebia, com um sobressalto, que havia passado um a hora sem se m exer.

A prim avera tinha chegado, e ela cam inhava pela encosta das m ontanhas, exposta ao vento, usando botas im perm eáveis e um a capa de chuva. Às vezes, quando tinha certeza de que ninguém a não ser as ovelhas podia escutá-la, gritava a plenos pulm ões:

– Estou apaixonada por ele!

Estava preocupada com a reação de Lloy d às suas suspeitas sobre os pais dele. Talvez tivesse sido um erro abordar esse assunto, pois apenas o deixara triste. Sua j ustificativa, porém , era válida: m ais cedo ou m ais tarde, a verdade provavelm ente viria à tona, e era m elhor escutar esse tipo de coisa de alguém que o am asse. O espanto atordoado de Lloy d lhe tocava o coração e a fazia am á-lo ainda m ais.

Ele lhe contou que tinha pedido um a licença. Na segunda sem ana de m aio, dia do feriado britânico de Pentecostes, iria a um balneário no litoral sul cham ado Bournem outh assistir à convenção anual do Partido Trabalhista.

Sua m ãe tam bém estaria lá, assim ele teria um a chance de perguntar a ela sobre sua origem . Daisy achou que ele parecia ao m esm o tem po ansioso e assustado.

Lowther certam ente teria lhe negado a licença, m as em m arço, quando fora enviado para fazer aquele curso, Lloy d j á tinha falado com o coronel Ellis-Jones, e das duas um a: ou o coronel ia com a cara de Lloy d, ou então sim patizava com o partido. O fato era que lhe concedera um a licença e Lowther não podia cancelar isso. Naturalm ente, se os alem ães invadissem a França, ninguém poderia sair de licença.

A possibilidade de Lloy d partir de Aberowen sem saber que ela o am ava provocou em Daisy um a estranha apreensão. Ela não sabia explicar por quê, m as precisava lhe contar antes que ele fosse em bora.

A viagem de Lloy d estava m arcada para quarta-feira, e ele voltaria seis dias depois. Por coincidência, Boy dissera que chegaria na quarta-feira à noite para lhe fazer um a visita. Por m otivos que não entendeu m uito bem , Daisy ficou aliviada que os dois não fossem estar na m ansão ao m esm o tem po.

Decidiu fazer sua confissão a Lloy d na terça-feira, véspera de sua viagem . Não tinha a m enor ideia do que diria ao m arido no dia seguinte.

Ao pensar na conversa que teria com Lloy d, deu-se conta de que ele com certeza tentaria beij á-la e, quando isso acontecesse, seriam am bos dom inados por seus sentim entos, e então iriam para a cam a. Depois disso, passariam a noite inteira abraçados.

Nesse ponto, a necessidade de discrição se introm eteu em sua fantasia. Para o bem dos dois, Lloy d não podia ser visto saindo de seus aposentos pela m anhã. Lowthie j á estava desconfiado. Daisy percebia isso nas atitudes dele para com ela, ao m esm o tem po reprovadoras e cafaj estes, quase com o se o m aj or achasse que, em vez de Lloy d, era por ele que ela deveria se apaixonar.

Seria m uito m elhor se os dois pudessem se encontrar em algum outro lugar para aquela conversa decisiva. Ela pensou nos quartos sem uso da ala oeste e ficou sem ar. Lloy d poderia ir em bora quando o dia raiasse e, caso alguém o visse, não saberia que estivera com ela. E Daisy poderia sair do quarto depois, totalm ente vestida, e fingir que estava à procura de algum obj eto perdido da fam ília, um quadro talvez. Na verdade, pensou, tornando ainda m ais com plexa a m entira que contaria se houvesse necessidade, poderia pegar algum obj eto no quarto de guardados e colocá-lo no quarto de dorm ir com antecedência, pronto para ser usado com o prova de sua história.

Às nove da m anhã de terça-feira, quando todos os alunos estavam em aula, ela percorreu o andar de cim a carregando um conj unto de frascos de perfum e com tam pas de prata escurecida e um espelhinho de m ão no m esm o feitio. Já se sentia culpada. O tapete do corredor fora retirado, e seus passos ecoavam alto nas tábuas do piso, com o se anunciassem a chegada de um a prostituta. Felizm ente, não havia ninguém nos quartos.

Foi até a Suíte Gardênia, que ela acreditava estar sendo usada com o depósito de roupa de cam a, em bora não tivesse certeza. Não havia ninguém no corredor quando entrou. Fechou a porta depressa atrás de si. Estava ofegante. Ainda não fiz nada de errado, disse a si m esm a.

Sua lem brança provou-se correta: por todo o quarto, encostadas nas paredes revestidas com um a estam pa de gardênias, estavam dispostas pilhas perfeitas de lençóis, cobertores e travesseiros, envoltas em protetores de algodão grosseiro e am arradas com barbante, com o grandes em brulhos.

O quarto cheirava a m ofo, e ela abriu um a j anela. Os m óveis originais ainda estavam ali: um a cam a, um guarda-roupa, um a côm oda, um a escrivaninha e um a penteadeira curva com três espelhos. Ela pôs o conj unto de frascos de perfum e sobre a penteadeira e então fez a cam a com um dos lençóis ali guardados. Sentiu o tecido frio sob os dedos.

Agora fiz algo errado, pensou. Preparei a cam a para m e deitar com m eu am ante.

Olhou para os travesseiros branquinhos, para os cobertores cor-de-rosa debruados de cetim , e im aginou-os ali j untos, Lloy d e ela, enlaçados num abraço interm inável e beij ando-se com um a sofreguidão enlouquecida. Pensar nisso deixou-a tão excitada que ela se sentiu fraca.

Ouviu passos do lado de fora, ecoando no piso com o os seus. Quem poderia ser? Talvez Morrison, o velho lacaio, indo verificar um a calha que pingava ou um a vidraça rachada. Aguardou, com o coração acelerado de culpa, enquanto ouvia os passos se aproxim arem , depois se afastarem outra vez.

O susto acalm ou sua excitação e refrescou o calor que sentia por dentro. Ela deu um a últim a olhada no quarto e saiu.

Não havia ninguém no corredor.

Foi seguindo em frente, e o barulho dos sapatos no chão denunciava sua presença. Agora, porém , parecia totalm ente inocente, disse a si m esm a. Podia ir aonde quisesse. Tinha m ais direito de estar ali do que qualquer outra pessoa. Estava em casa. Seu m arido era o herdeiro daquilo tudo.

O m arido que ela cuidadosam ente planej ava trair.

Sabia que deveria estar paralisada de culpa, m as na verdade sentia-se ansiosa por fazer aquilo, e consum ida pelo desej o.

Agora precisava avisar Lloy d. Ele fora aos seus aposentos na noite anterior, com o sem pre, m as ela não pudera m arcar aquele encontro com ele na véspera. Ele pediria explicações e, nesse caso, ela estava certa de que contaria tudo e o levaria para a sua cam a, estragando todo o plano. Assim , precisava falar com ele rapidam ente naquele dia m esm o.

Os dois em geral não se encontravam durante o dia, a não ser quando ela esbarrava com ele por acaso, no corredor ou na biblioteca. Com o poderia ter certeza de encontrá-lo? Subiu a escada dos fundos até o sótão. Os alunos do curso não estavam em seus quartos, m as a qualquer m om ento um deles poderia aparecer para buscar algo que tivesse esquecido. Ela precisava ser rápida.

Entrou no quarto de Lloy d. O cheiro dele pairava no ar. Ela não conseguia definir exatam ente que perfum e era aquele. Não viu nenhum vidro de colônia no quarto, m as ao lado da navalha havia um pote de loção. Abriu-o e sentiu o cheiro: sim , era isso, cítricos e especiarias. Será que ele era vaidoso?, pensou. Talvez um pouquinho. Em geral andava bem -vestido, m esm o de uniform e.

Iria deixar um bilhete para ele. Em cim a da penteadeira viu um bloco de papel de carta vagabundo. Abriu-o e arrancou um a das folhas. Correu os olhos pelo quarto em busca de algo com que pudesse escrever. Sabia que ele tinha um a caneta-tinteiro preta com seu nom e gravado no corpo, m as devia ter levado para tom ar notas durante a aula. Encontrou um lápis na gaveta de cim a.

O que poderia escrever? Precisava tom ar cuidado para o caso de outra pessoa ler o bilhete. No fim das contas, acabou escrevendo apenas: “Biblioteca”. Deixou o bloquinho aberto em cim a da penteadeira, onde ele não poderia deixar de ver, e então saiu do quarto.

Ninguém a viu.

Lloy d provavelm ente passaria por ali em algum m om ento, pensou, talvez para encher a caneta com a tinta do frasco em cim a da penteadeira. Então veria o bilhete e iria encontrá-la.

Ela foi esperar na biblioteca.

A m anhã foi longa. Andava lendo autores vitorianos – que pareciam entender seu atual estado de espírito –, m as nesse dia a Sra. Gaskell não conseguiu prender sua atenção, e ela passou a m aior parte do tem po olhando pela j anela. Sendo m aio, os j ardins de Tŷ Gwy n deveriam estar cobertos por um a profusão colorida de flores prim averis, m as a m aioria dos j ardineiros tinha se alistado nas Forças Arm adas, e o restante não estava cultivando flores, m as legum es e verduras.

Vários alunos do curso entraram na biblioteca pouco antes das onze e se acom odaram nas poltronas de couro verde com seus cadernos, m as Lloy d não estava entre eles.

Daisy sabia que a últim a aula da m anhã term inava ao m eio-dia e m eia. Nessa hora, os hom ens se levantaram e saíram da biblioteca, m as Lloy d não apareceu.

Com certeza ele passaria no quarto agora, pensou ela, nem que fosse apenas para largar os livros e lavar as m ãos no banheiro próxim o.

Os m inutos foram passando e o gongo soou, anunciando o alm oço.

Foi então que Lloy d entrou na biblioteca, e o coração de Daisy disparou.

Ele estava com um ar preocupado.

– Acabei de ver o seu recado – falou. – Está tudo bem ?

Sua prim eira preocupação era com ela. Qualquer problem a que ela tivesse não era um estorvo para ele, m as um a oportunidade de aj udá-la que ele se apressava em aproveitar. Nenhum hom em j am ais tinha se im portado tanto assim com ela, nem m esm o seu pai.

– Está tudo bem , sim – respondeu. – Você sabe com o é um a gardênia? – Passara a m anhã inteira ensaiando o que iria dizer.

– Acho que sim . Parece um a rosa. Por quê?

– Na ala oeste há um quarto cham ado Suíte Gardênia. Tem um a gardênia branca pintada na porta, e está cheio de roupa de cam a. Acha que conseguiria encontrá-lo?

– Claro.

– Em vez de ir ao m eu quarto, encontre-m e lá hoj e à noite. Na m esm a hora de sem pre.

Ele a encarou, tentando entender o que estava acontecendo.

– Tudo bem – falou. – Mas por quê?

– Eu quero lhe dizer um a coisa.

– Que em polgante – disse ele, m as sua expressão estava intrigada.

Ela pôde adivinhar o que estava passando pela cabeça de Lloy d. Ele estava louco de anim ação com a ideia de que ela talvez quisesse um encontro rom ântico, m as ao m esm o tem po dizia a si m esm o que aquilo era um sonho im possível.

– Vá alm oçar – disse ela.

Ele hesitou.

– Nos vem os à noite – disse ela.

– Mal posso esperar – retrucou ele, e saiu da biblioteca.

Ela voltou para o quarto. Maisie, que não era grande coisa com o cozinheira, havia lhe preparado um sanduíche com duas fatias de pão e um a de presunto em conserva. Daisy estava com frio na barriga: não teria conseguido com er nem que aquilo fosse sorvete de pêssego.

Deitou-se para descansar. Seus pensam entos em relação à noite que estava por vir eram tão explícitos que ela ficou encabulada. Aprendera m uito sobre sexo com Boy – que obviam ente tinha um a vasta experiência com outras m ulheres – e por isso sabia bastante do que os hom ens gostavam . Queria fazer tudo com Lloy d: beij ar cada parte de seu corpo, fazer o que Boy cham ava de soixante-neuf, engolir seu sêm en. Esses pensam entos eram tão excitantes que ela precisou de todo o seu autocontrole para não se tocar.

Às cinco da tarde, tom ou um a xícara de café, depois lavou os cabelos e se banhou dem oradam ente. Raspou as axilas e aparou os pelos pubianos m uito fartos. Secou-se e passou um a loção leve por todo o corpo. Então se perfum ou e com eçou a se vestir.

Pôs um a roupa de baixo nova. Experim entou todos os seus vestidos. Gostou do efeito de um deles, com finas alças azuis e brancas, m as a frente tinha botõezinhos que levariam um a eternidade para serem abertos, e ela sabia que iria querer se despir depressa. Estou pensando com o um a puta, disse a si m esm a, e não soube se deveria achar graça ou ficar envergonhada. No final das contas, acabou escolhendo um vestido de caxem ira verde-hortelã de corte sim ples, na altura dos j oelhos, que deixava à m ostra suas pernas bem -torneadas.

Olhou-se no espelho estreito preso do lado de dentro da porta do arm ário. Estava bonita.

Sentou-se na beirada da cam a para calçar as m eias. Então Boy entrou.

Daisy sentiu a cabeça girar. Se não estivesse sentada, teria caído no chão. Ficou encarando o m arido sem acreditar.

– Surpresa! – disse ele, todo anim ado. – Cheguei um dia antes.

– É – respondeu ela quando finalm ente conseguiu recuperar a voz. – Que surpresa.

Ele se curvou para beij á-la. Daisy nunca gostara m uito da língua do m arido em sua boca, pois sem pre tinha gosto de álcool e cigarro. Boy não se im portava com o seu desagrado e, na verdade, parecia gostar de forçá-la. Nesse dia, porém , por culpa, ela retribuiu o beij o e pôs a língua na boca dele tam bém .

– Puxa! – exclam ou Boy quando ficou sem ar. – Que anim ação.

Você não faz ideia, pensou Daisy ; ao m enos espero que não.

– O exercício foi adiantado em um dia – explicou ele. – Não tive tem po de avisá-la.

– Quer dizer que vai passar a noite aqui? – perguntou ela.

– Vou.

E Lloy d iria viaj ar na m anhã seguinte.

– Você não parece m uito contente – com entou Boy. Olhou para o vestido dela. – Tinha algum outro com prom isso?

– Que com prom isso eu poderia ter? – rebateu Daisy. Precisava recuperar o controle da situação. – Um a noite no pub Two Crowns, talvez? – indagou, com sarcasm o.

– Por falar nisso, vam os tom ar um drinque. – Ele saiu do quarto em busca de um a bebida.

Daisy enterrou o rosto nas m ãos. Com o era possível aquilo ter acontecido? Era o fim do seu plano. Teria que arrum ar algum j eito de avisar Lloy d. E não poderia lhe declarar seu am or num sussurro apressado, com Boy por perto.

Disse a si m esm a que o plano só seria adiado por alguns dias. Lloy d estaria de volta na terça-feira seguinte. A espera seria um a verdadeira agonia, m as ela sobreviveria, e seu am or tam bém . Ainda assim , quase chorou de tanta decepção.

Term inou de calçar as m eias e os sapatos e foi até a saleta contígua.

Boy tinha encontrado um a garrafa de uísque e dois copos. Para ser agradável, ela aceitou um a dose.

– Vi que a criada está preparando um a torta de peixe para o j antar – com entou ele. – Estou fam into. Ela cozinha bem ?

– Na verdade, não. A com ida dela é passável, se você estiver com fom e.

– Ah, sem pre tem os o uísque – disse ele, servindo-se de m ais um a dose.

– O que você tem feito? – Daisy estava louca para que ele falasse, de m odo que ela não precisasse conduzir a conversa. – Voou até a Noruega? – Era lá que os alem ães estavam vencendo a prim eira batalha terrestre da guerra.

– Graças a Deus, não. Que tragédia. Esta noite haverá um debate im portante na Câm ara dos Com uns. – Ele com eçou a falar sobre os erros com etidos pelos com andantes britânicos e franceses.

Quando o j antar ficou pronto, Boy desceu até a adega para buscar um vinho. Daisy achou que aquela era um a chance de alertar Lloy d. Mas onde ele estaria? Ela consultou o relógio de pulso. Eram sete e m eia. Ele devia estar j antando no refeitório. Não poderia entrar lá e sussurrar algum a coisa em seu ouvido enquanto ele estivesse sentado à m esa com os outros oficiais: seria o m esm o que revelar a todo m undo que os dois eram am antes. Será que havia um j eito de tirá-lo de lá? Esforçou-se para pensar em algo, m as, antes que conseguisse, Boy voltou com ar triunfante, trazendo na m ão um a garrafa de Dom Pérignon 1921.

– O prim eiro cham panhe de safra que eles fabricaram – com entou. – Um m arco.

Os dois se sentaram à m esa para com er a torta de peixe de Maisie. Daisy tom ou um a taça de cham panhe, m as não conseguiu com er. Ficou rem exendo a com ida, tentando fazer parecer que estava j antando norm alm ente. Boy repetiu o prato.

De sobrem esa, Maisie serviu pêssegos em conserva com leite condensado.

– A guerra tem sido ruim para a culinária britânica – com entou Boy .

– Não que ela fosse grande coisa antes – respondeu Daisy, ainda se esforçando para parecer norm al.

A essa hora, Lloy d j á devia estar na Suíte Gardênia. O que ele faria caso ela não conseguisse lhe m andar um recado? Será que passaria a noite toda lá, esperando, torcendo para que ela chegasse? Ou desistiria à m eia-noite e voltaria para a sua cam a? Ou desceria ao subsolo para procurá-la? Isso poderia ser constrangedor.

Boy sacou um grande charuto e fum ou com ar satisfeito, de vez em quando m ergulhando a ponta que não estava acesa num copo de conhaque. Daisy tentou pensar em um a desculpa para deixá-lo ali e subir, m as nada lhe ocorreu. Que pretexto poderia dar para visitar os aposentos dos alunos a essa hora da noite?

Ainda não tinha feito nada quando ele apagou o charuto e disse:

– Bem , hora de dorm ir. Quer ser a prim eira a usar o banheiro?

Sem saber o que m ais poderia fazer, ela se levantou e foi para o quarto. Bem devagar, tirou as roupas que vestira com tanto cuidado para Lloy d. Lavou o rosto e vestiu sua cam isola m enos atraente. Então se deitou na cam a.

Apesar de estar razoavelm ente em briagado ao se acom odar ao seu lado, Boy quis fazer sexo. Essa ideia a deixou consternada.

– Sinto m uito – disse ela. – O Dr. Mortim er avisou que eu não podia ter relações conj ugais por três m eses. – Não era verdade. Mortim er dissera que, cessada a hem orragia, não haveria problem a nenhum . Ela se sentiu terrivelm ente desonesta. Tinha planej ado fazer sexo com Lloy d nessa m esm a noite.

– Com o assim ? – perguntou Boy , indignado. – Por quê?

Ela respondeu de im proviso:

– Se fizerm os cedo dem ais, parece que pode afetar m inhas chances de engravidar de novo.

Isso o convenceu. Boy estava desesperado por um herdeiro.

– Ah, paciência – disse ele, e se virou para o outro lado.

No m inuto seguinte, j á estava dorm indo.

Daisy ficou acordada, com a m ente em turbilhão. Será que poderia sair de fininho agora? Teria que se vestir – com certeza não podia peram bular pela casa de cam isola. Boy tinha o sono pesado, m as levantava m uitas vezes para ir ao banheiro. E se fizesse isso enquanto ela estava fora e a visse voltar de roupa? Que história plausível ela poderia inventar? Todo m undo sabia que só havia um m otivo para um a m ulher sair de fininho à noite por um a casa de cam po.

Lloy d teria que sofrer. E ela sofreu j unto, pensando nele naquele quarto bolorento, sozinho e decepcionado. Será que ele iria se deitar de uniform e e pegar no sono? Ficaria com frio, a m enos que puxasse um dos cobertores para se proteger. Será que im aginaria que houvera algum a em ergência, ou sim plesm ente pensaria que ela lhe dera um bolo sem se im portar com ele? Talvez se sentisse abandonado e ficasse chateado com ela.

Lágrim as escorriam pelo seu rosto. Boy roncava; ele j am ais saberia.

Ela adorm eceu j á de m adrugada e sonhou que precisava pegar um trem , m as que coisas bobas não paravam de acontecer para atrasá-la: o táxi a levava para o lugar errado, ela precisava percorrer um a distância inesperada e longa carregando a m ala, não conseguia achar a passagem e, quando chegava à plataform a, um a carruagem antiquada estava à sua espera e ela levaria m uitos dias para chegar a Londres.

Quando despertou do sonho, Boy estava no banheiro fazendo a barba.

Ela ficou desanim ada. Levantou-se e se vestiu. Maisie preparou o desj ej um , e Boy com eu ovos com bacon e torradas com m anteiga. Quando term inaram a refeição, j á eram nove horas. Lloy d disse que iria em bora às nove. Talvez estivesse no hall de entrada naquele exato m om ento, com a m ala na m ão.

Boy se levantou da m esa e entrou no banheiro com o j ornal. Daisy conhecia seus hábitos m atinais: ele iria passar de cinco a dez m inutos lá dentro. De repente, sua apatia desapareceu. Ela saiu da saleta e subiu correndo a escada até o hall.