Inverno do Mundo
Capítulo II
Quando o táxi entrou em sua rua, Charlie lhe deu um beij o.
Era agradável estar nos braços de um hom em e beij ar sua boca, m as ela sabia que era o álcool que a fazia se sentir assim . Na verdade, o único hom em que ela queria beij ar era Lloy d. Apesar disso, só afastou Charlie quando o táxi parou.
– Que tal um a saideira? – sugeriu ele.
Por um instante, ela sentiu-se tentada. Já fazia m uito tem po que não tocava o corpo rígido de um hom em . Mas não sentia desej o por Charlie.
– Não – falou. – Desculpe, Charlie, m as am o outra pessoa.
– Não precisam os ir para a cam a – sussurrou ele. – Mas se pudéssem os, você sabe, dar uns am assos...
Ela abriu a porta do carro e desceu. Estava se sentindo um a desm ancha-prazeres. Ele arriscava a vida diariam ente em seu nom e, e ela nem ao m enos era capaz de lhe proporcionar um pouco de em oção barata.
– Boa noite, Charlie, e boa sorte – falou.
Antes que m udasse de ideia, bateu a porta do carro e entrou em casa.
Subiu direto para o prim eiro andar. Alguns m inutos depois, sozinha na cam a, sentiu-se arrasada. Havia traído dois hom ens: Lloy d, por ter beij ado Charlie; e Charlie, por tê-lo m andado em bora insatisfeito.
Passou o dom ingo quase inteiro deitada, de ressaca.
Na segunda à noite, recebeu um telefonem a.
– Meu nom e é Hank Bartlett – disse a voz j ovem de um am ericano. – Sou am igo de Charlie Farquharson em Duxford. Ele m e falou da senhora, e achei seu núm ero no caderno de telefones dele.
O coração dela parou de bater.
– Por que está m e ligando?
– Infelizm ente, tenho m ás notícias. Charlie m orreu hoj e. Foi abatido quando sobrevoava Abbeville.
– Não!
– Era a prim eira m issão dele no Spitfire.
– Ele m e falou sobre isso – disse ela, atordoada.
– Pensei que a senhora deveria saber.
– Sim , obrigada – respondeu ela num sussurro.
– Ele a achava o m áxim o.
– É m esm o?
– A senhora precisava tê-lo ouvido falar sobre quanto era incrível.
– Eu sinto m uito – disse ela. – Sinto tanto.
Então não conseguiu m ais falar, e desligou o telefone.
II
Chuck Dewar olhou por cim a do om bro do tenente Bob Strong, um dos critptógrafos. Alguns deles eram m uito desorganizados, m as Strong era do tipo m etódico, e tudo o que havia sobre a sua m esa era um a folha de papel na qual ele tinha escrito:
YO-LO-KU-TA-WA-NA
– Não entendo – disse Strong, frustrado. – Se a decodificação estiver correta, aqui está escrito que eles atacaram yolokutawana. Mas isso não quer dizer nada. Essa palavra não existe.
Chuck ficou olhando as seis sílabas j aponesas. Tinha certeza de que deveriam significar algum a coisa para ele, em bora conhecesse pouco o idiom a. No entanto, não conseguiu entender e foi continuar seu trabalho.
O clim a no Antigo Prédio Adm inistrativo estava soturno.
Durante m uitas sem anas após o ataque, Chuck e Eddie encontraram cadáveres inchados dos navios afundados boiando na superfície suj a de óleo de Pearl Harbor. Ao m esm o tem po, as inform ações de inteligência que eles recebiam davam conta de agressões j aponesas ainda m ais devastadoras. Apenas três dias depois de Pearl Harbor, aviões do Japão atacaram a base norte-am ericana de Luzon, nas Filipinas, e destruíram todo o estoque de torpedos da Frota do Pacífico. No m esm o dia, no m ar da China Meridional, afundaram dois encouraçados da Grã-Bretanha, Repulse e Prince of Wales, deixando os britânicos indefesos no Extrem o Oriente.
Parecia im possível detê-los. Não paravam de chegar m ás notícias. Nos prim eiros m eses do novo ano, o Japão derrotou as forças am ericanas nas Filipinas e as britânicas em Hong Kong, Cingapura e Rangum , capital da Birm ânia.
Muitos dos nom es desses lugares eram desconhecidos até m esm o para m arinheiros com o Chuck e Eddie. Para o povo am ericano, deviam soar com o planetas distantes num a história de ficção científica: Guam , Wake, Bataan. Todos, entretanto, conheciam o significado das palavras retirada, subm issão e rendição.
Chuck estava pasm o. Será que o Japão conseguiria m esm o derrotar os Estados Unidos? Ele m al podia acreditar.
Quando o m ês de m aio chegou, os j aponeses haviam alcançado seu obj etivo: tinham agora um im pério que lhes fornecia borracha, estanho e – o m ais im portante – petróleo. As inform ações que vazavam indicavam que estavam governando esse im pério com um a brutalidade que teria deixado o próprio Stalin encabulado.
Mas havia um a m osca na sopa, e era a Marinha dos Estados Unidos. Pensar nisso enchia Chuck de orgulho. Os j aponeses tinham esperado riscar Pearl Harbor do m apa e assum ir o controle do Pacífico, m as não conseguiram isso. Porta-aviões e pesados cruzadores am ericanos continuavam a navegar. Inform ações de inteligência sugeriam que os com andantes j aponeses estavam furiosos com o fato de os am ericanos não se renderem . Depois das perdas de Pearl Harbor, eles estavam em desvantagem num érica e tinham m enos m unição que o inim igo, m as ainda assim não fugiam para se esconder. Em vez disso, haviam passado a lançar ataques-relâm pago contra em barcações j aponesas, causando danos leves, m as levantando o m oral do povo e deixando os j aponeses com a incôm oda sensação de ainda não terem vencido. Então, em 25 de abril, aviões decolaram de um porta-aviões e bom bardearam o centro de Tóquio, infligindo um golpe terrível ao orgulho das Forças Arm adas j aponesas. No Havaí, as com em orações foram intensas. Chuck e Eddie se em bebedaram nessa noite.
No entanto, um confronto decisivo estava por vir. Todos com quem Chuck conversava no Antigo Prédio Adm inistrativo diziam que os j aponeses fariam um ataque m aciço no com eço do verão para incitar os navios am ericanos a revidar todos ao m esm o tem po, no que seria a batalha final. Eles esperavam que a indubitável superioridade de sua Marinha se m ostrasse um fator decisivo, e que a frota am ericana do Pacífico fosse dizim ada. O único j eito de os am ericanos vencerem era se preparando e obtendo inform ações de inteligência de m elhor qualidade – tinham que ser m ais rápidos e m ais espertos.
A Estação HYPO passou esses m eses trabalhando dia e noite para tentar decifrar o JN-25b, o novo código da Marinha Im perial j aponesa. Em m aio, haviam conseguido fazer alguns progressos.
A Marinha am ericana tinha estações de interceptação telegráfica espalhadas por toda a orla do Pacífico, de Seattle até a Austrália. Um grupo de hom ens conhecido com o a Gangue do Telhado ficava sentado, com fones de ouvido e receptores, escutando o tráfego de rádio j aponês. Eles vasculhavam as ondas e anotavam o que ouviam em bloquinhos.
Os sinais eram transm itidos em código Morse, m as os pontos e traços da linguagem naval form avam grupos num éricos de cinco dígitos, cada um representando um a letra, palavra ou frase de um m anual de código. Aparentem ente aleatórios, os núm eros eram transm itidos por cabos seguros para im pressoras situadas no subsolo do Antigo Prédio Adm inistrativo. Só então com eçava a parte m ais difícil: decifrar o código.
Os criptógrafos sem pre com eçavam com coisas pequenas. A últim a palavra de qualquer m ensagem m uitas vezes era OWARI, que significava “fim ”. O analista então procurava outras ocorrências desse grupo na m esm a m ensagem , e escrevia “FIM?” acim a de todos eles.
Os j aponeses os aj udaram com etendo um erro descuidado e pouco característico.
Houve um atraso na entrega dos novos m anuais do código JN-25b para algum as unidades rem otas. Assim , durante algum as sem anas cruciais, o alto-com ando j aponês enviou algum as m ensagens nos dois códigos. Com o os am ericanos tinham decifrado boa parte do JN-25, conseguiram traduzir as m ensagens enviadas no antigo código, com pará-las com as m ensagens cifradas pelo código novo e destrinchar o significado de seus grupos de cinco dígitos. Por algum tem po, seu progresso foi notável.
Depois de Pearl Harbor, os oito criptógrafos originais receberam com o reforço alguns dos m úsicos da banda do encouraçado California, que havia afundado. Por m otivos que ninguém entendia, m úsicos eram m uito bons em decifrar códigos.
Todas as m ensagens eram conservadas; e todos os textos decodificados, arquivados. A com paração era um a parte crucial daquele trabalho. Um analista podia querer ver todas as m ensagens de um determ inado dia, enviadas a um determ inado navio, ou todas as que m encionassem o Havaí. Chuck e os outros auxiliares desenvolviam sistem as cada vez m ais com plexos de indexação cruzada para aj udá-los a encontrar tudo de que precisassem .
A unidade previu que, na prim eira sem ana de m aio, os j aponeses atacariam Port Moresby, base dos Aliados em Papua. Estavam certos, e a Marinha am ericana conseguiu interceptar a frota invasora no m ar de Coral. Am bos os lados cantaram vitória, m as os j aponeses não tom aram Port Moresby. E o alm irante Nim itz, com andante suprem o da Frota do Pacífico, com eçou a confiar em seus criptógrafos.
Os j aponeses não usavam nom es norm ais para se referir às localidades do oceano Pacífico. Cada lugar im portante tinha um nom e em código com posto por duas letras – na verdade, dois kanas, que eram os caracteres do alfabeto j aponês, em bora os criptógrafos em geral usassem equivalentes em caracteres rom anos, de A a Z. Os hom ens do subsolo davam duro para entender o significado de cada um desses codinom es de dois kanas. Seu progresso era lento: MO significava Port Moresby , AH era Oahu, m as m uitos ainda eram um m istério.
Em m aio, acum ulavam -se rapidam ente indícios de que os j aponeses fariam um ataque im portante num local que cham avam de AF.
O m elhor palpite da unidade era que AF significava Midway, atol localizado na extrem idade ocidental da cadeia de ilhas com quase 2.500 quilôm etros de extensão que com eçava no Havaí. Midway ficava a m eio cam inho entre Los Angeles e Tóquio.
É claro que um palpite não bastava. Levando em conta a superioridade num érica da Marinha j aponesa, o alm irante Nim itz precisava ter certeza.
Dia após dia, os colegas de Chuck iam construindo um retrato assustador das diretrizes de batalha do Japão. Os porta-aviões inim igos receberam novos planos. Um a “força de ocupação” foi em barcada: os j aponeses planej avam ocupar todos os territórios que conquistassem .
Aquela parecia ser a batalha decisiva. Mas quando aconteceria o ataque?
Os hom ens do subsolo tinham um orgulho todo especial de ter decodificado um a m ensagem da frota j aponesa solicitando a Tóquio, com urgência, “a entrega im ediata de um a m angueira de abastecim ento”. Estavam satisfeitos em parte por causa da linguagem especializada, m as principalm ente porque a m ensagem com provava a im inência de um a m anobra de longo alcance no m eio do oceano.
No entanto, o alto-com ando am ericano achava que o ataque poderia ocorrer no Havaí, enquanto o Exército tem ia um a invasão na Costa Oeste dos Estados Unidos. Até m esm o a equipe de Pearl Harbor tinha um a desconfiança insistente de que o alvo talvez fosse Johnson Island, um a pista de pouso pouco m ais de 1.500 quilôm etros ao sul de Midway .
Eles precisavam ter certeza absoluta.
Chuck tinha um a ideia sobre com o poderiam proceder, m as hesitava. Os criptógrafos eram m uito inteligentes, ele não. Nunca fora bom aluno na escola. Na segunda série, um colega o cham ara de Chucky Cabeça de Vento. Ele havia chorado, e isso fizera o apelido pegar. Ainda pensava em si m esm o assim , Chucky Cabeça de Vento.
Na hora do alm oço, ele e Eddie pegaram sanduíches e café na cantina e foram se sentar à beira do cais, com vista para o porto. Pearl Harbor estava voltando ao norm al. A m aior parte do óleo havia sido retirada; e alguns dos destroços, recolhidos.
Enquanto eles com iam , um porta-aviões avariado surgiu atrás de Hospital Point e adentrou o porto devagar, soltando vapor pela cham iné e arrastando um a m ancha de óleo que se estendia até alto-m ar. Chuck identificou o navio: era o Yorktown. Seu casco estava negro de fuligem , e havia um enorm e rom bo no convés de pouso, provavelm ente feito por um a bom ba j aponesa na batalha do m ar de Coral. Sirenes e apitos tocaram um a fanfarra em com em oração à entrada do porta-aviões no estaleiro, e rebocadores se j untaram para fazê-lo passar pelos portões abertos do Dique Seco no 1.
– Ouvi dizer que esse navio precisaria de três m eses de reparos – com entou Eddie. Ele trabalhava no m esm o prédio que Chuck, só que no escritório de inteligência naval, no andar de cim a, por isso ouvia m ais fofocas. – Mas vai zarpar novam ente daqui a três dias.
– Com o eles vão conseguir isso?
– Já com eçaram . O chefe de engenharia naval da Marinha veio de avião receber o navio... e j á está a bordo com um a equipe. E olhe só para o dique seco.
Chuck viu que o dique j á parecia um form igueiro de hom ens e equipam entos: nem conseguiu contar quantas m áquinas de solda aguardavam na beira do cais.
– Mesm o assim , só vão conseguir rem endá-lo um pouco – prosseguiu Eddie. – Vão consertar o convés de pouso e possibilitar sua volta aos m ares. Todo o resto, porém , vai ter que esperar.
Algum a coisa no nom e daquele porta-aviões incom odou Chuck. Ele não conseguiu se livrar dessa sensação. O que significava Yorktown? O cerco a Yorktown fora a últim a grande batalha da Guerra de Independência Am ericana. Será que isso significava algum a coisa?
O capitão Vanderm eier passou por eles.
– Voltem ao trabalho, seus m aricas – provocou.
– Qualquer dia desses vou dar um soco nesse cara – disse Eddie entredentes.
– Depois da guerra, Eddie – aconselhou Chuck.
Ao voltar para o subsolo e ver Bob Strong sentado diante de sua m esa, Chuck percebeu que havia solucionado o problem a do colega.
Tornou a espiar por cim a do om bro do criptógrafo e viu a m esm a folha de papel com as m esm as seis sílabas j aponesas:
YO-LO-KU-TA-WA-NA
Com m uito tato, tentou fazer parecer que o próprio Strong houvesse encontrado a solução.
– Tenente, o senhor conseguiu! – falou.
Strong não entendeu.
– Consegui?
– É um nom e em inglês, então os j aponeses o soletraram foneticam ente.
– Yolokutawana é um nom e em inglês?
– Sim , tenente. É assim que os j aponeses pronunciam Yorktown.
– O quê? – Strong parecia desconcertado.
Por alguns terríveis instantes, Chucky Cabeça de Vento perguntou a si m esm o se poderia estar redondam ente enganado.
Então Strong falou:
– Ah, m eu Deus, tem razão! Yolokutawana é Yorktown pronunciado com sotaque j aponês! – Ele riu, feliz. – Obrigado! – com em orou. – Muito bem !
Chuck hesitou. Tivera outra ideia. Será que deveria dizer em voz alta o que estava pensando? Seu trabalho não era decifrar códigos. Mas os Estados Unidos estavam a um passo de serem derrotados. Talvez devesse arriscar.
– Posso fazer outra sugestão? – perguntou.
– Vá em frente.
– É sobre a sigla AF. Precisam os de um a confirm ação definitiva de que ela se refere a Midway , certo?