Inverno do Mundo
Capítulo III
– Talvez ainda estej am lá fora.
Bicks e Greg correram até a porta.
Bicks abriu cam inho pela m ultidão que ainda passava pelas saídas. Greg ficou logo atrás. Am bos chegaram à calçada em frente ao teatro e olharam para os dois lados. Greg não conseguiu ver Yenkov, m as Bicks tinha olhos de águia.
– Do outro lado da rua! – gritou.
O adido cultural e sua esposa m alvestida estavam de pé j unto ao m eio-fio, e um a lim usine preta se aproxim ava lentam ente do casal.
Yenkov estava segurando um j ornal dobrado.
Greg e Bicks atravessaram a rua correndo.
A lim usine parou.
Greg foi m ais rápido do que Bicks e chegou prim eiro à outra calçada.
Yenkov não os tinha notado. Sem pressa, abriu a porta do carro, e então se afastou para deixar a esposa entrar.
Greg se j ogou em cim a dele. Os dois caíram no chão. A Sra. Yenkov gritou.
Greg se levantou com esforço. O m otorista j á tinha saltado e dava a volta no carro, m as Bicks ergueu a credencial e gritou:
– FBI!
Yenkov deixara cair o j ornal e estendeu a m ão para recuperá-lo. Porém Greg foi m ais rápido. Pegou o j ornal, deu um passo atrás e o abriu.
Lá dentro havia um m aço de papéis. O de cim a era um diagram a que Greg reconheceu na m esm a hora: o m ecanism o do gatilho de im plosão de um a bom ba de plutônio.
– Meu Deus! – exclam ou. – Esta inform ação é quentíssim a!
Yenkov pulou para dentro do carro, bateu a porta e trancou-a por dentro.
O m otorista tornou a assum ir o volante e deu a partida.
III
Era sábado à noite, e o apartam ento de Daisy em Piccadilly estava lotado. Devia haver um as cem pessoas lá dentro, pensou ela, satisfeita.
Daisy havia se tornado líder de um grupo de voluntários da Cruz Verm elha. Todo sábado, dava um a festa para os funcionários am ericanos da organização e convidava enferm eiras do Hospital St. Bart’s para conhecê-los. Pilotos da RAF tam bém frequentavam essas festas. Todos se esbaldavam com seu estoque ilim itado de uísque escocês e gim , e dançavam ao som dos discos de Glenn Miller tocados em seu gram ofone. Sabendo que cada festa daquelas poderia ser a últim a para alguns dos hom ens, ela fazia o possível para deixá-los felizes – exceto beij á-los, m as disso as enferm eiras se encarregavam .
Daisy nunca bebia em suas festas. Tinha m uita coisa em que pensar. Casais viviam se trancando no banheiro, e era preciso tirá-los de lá à força, a fim de perm itir que o local fosse usado para sua verdadeira finalidade. Se um general realm ente im portante se em briagasse, tinha que ser levado para casa em segurança. Muitas vezes faltava gelo – ela não conseguia fazer seus em pregados britânicos entenderem quanto o gelo era im portante num a festa.
Durante algum tem po após se separar de Boy Fitzherbert, os únicos am igos de Daisy tinham sido a fam ília Leckwith. Ethel, m ãe de Lloy d, nunca a j ulgara. Em bora fosse um pilar de respeitabilidade, havia com etido erros no passado, e isso a tornava m ais com preensiva. Toda quarta-feira à noite, Daisy ia à casa de Ethel em Aldgate para tom ar chocolate quente e ouvir rádio. Era sua noite preferida na sem ana.
Ela havia sido rej eitada pela sociedade duas vezes: a prim eira em Buffalo, a segunda em Londres. Então ocorreu-lhe o pensam ento deprim ente de que talvez fosse culpa sua. Talvez seu lugar não fosse naqueles rígidos grupos da alta roda, com suas estritas regras de conduta. Ela era um a boba por se deixar atrair por eles.
O problem a era que adorava festas, piqueniques, eventos esportivos e reuniões nas quais as pessoas se divertiam e se vestiam com elegância.
Mas Daisy agora sabia que não precisava de aristocratas britânicos nem de am ericanos de fam ílias tradicionais e ricas para se divertir. Tinha criado a própria sociedade, m uito m elhor que a deles. Algum as das pessoas que lhe viraram as costas depois que ela deixara Boy agora viviam lhe dando indiretas para insinuar que gostariam de com parecer a um a de suas fam osas noitadas de sábado. E m uitos convidados vinham ao seu apartam ento relaxar e se divertir depois de algum j antar grandioso e insuportável num a residência palaciana qualquer de May fair.
Aquela era a m elhor festa de todas, pois Lloy d estava em Londres de licença.
Ele agora vivia com Daisy no apartam ento às vistas de todos. Ela não se im portava nem um pouco com a opinião dos outros: sua reputação nos círculos respeitáveis j á era tão ruim que seria im possível prej udicá-la m ais. De toda form a, a urgência do am or em tem pos de guerra levara m uita gente a violar as regras. Em se tratando desses assuntos, os em pregados dom ésticos às vezes podiam ser tão rígidos quanto duquesas, m as todos os funcionários de Daisy a adoravam , então ela e Lloy d nem fingiam dorm ir em quartos separados.
Ela adorava ir para a cam a com ele. Lloy d não era tão experiente quanto Boy, m as com pensava isso com entusiasm o – e disposição para aprender. Cada noite que passavam j untos era um a verdadeira viagem de exploração.
Enquanto observavam seus convidados conversando, rindo, bebendo, fum ando, dançando e se agarrando, Lloy d sorriu para ela e perguntou:
– Está feliz?
– Quase – respondeu ela.
– Quase?
Ela suspirou.
– Quero ter filhos, Lloy d. Pouco m e im porto se não som os casados. Bem , é claro que m e im porto, m as quero ter um filho m esm o assim .
A expressão dele ficou séria.
– Você sabe o que penso sobre filhos ilegítim os.
– Sim , eu sei. Você j á m e explicou. Mas quero ter um pedacinho seu para am ar se você m orrer.
– Farei o possível para continuar vivo.
– Eu sei.
No entanto, se as suspeitas de Daisy estivessem certas e ele estivesse trabalhando disfarçado em território ocupado, corria o risco de ser executado, do m esm o m odo que os espiões alem ães eram executados na Grã-Bretanha. Ele iria desaparecer, e ela não teria m ais nada.
– Sei que um m ilhão de m ulheres vivem na m esm a situação que eu, m as não consigo im aginar a vida sem você. Acho que eu m orreria.
– Se eu pudesse obrigar Boy a se divorciar de você, com certeza faria isso.
– Bem , isso não é assunto para um a festa. – Ela olhou para o salão. – Ora, vej am só! Acho que aquele ali é Woody Dewar!
Woody estava usando um uniform e de tenente. Daisy foi cum prim entá-lo. Era estranho vê-lo de novo depois de nove anos – em bora ele não estivesse m uito diferente, só m ais velho.
– Há m ilhares de soldados am ericanos aqui agora – disse-lhe ela enquanto os dois dançavam um foxtrote ao som de “Pennsy lvania Six-Five Thousand”. – Devem os estar prestes a invadir a França. O que m ais poderia ser?
– Os generais im portantes com certeza não contam seus planos a tenentes recém -recrutados – respondeu Woody. – Mas, assim com o você, não im agino nenhum outro m otivo para eu estar aqui. Não podem os deixar o com bate todo nas costas dos russos por m uito m ais tem po.
– Quando você acha que vai ser?
– As ofensivas sem pre com eçam no verão. Final de m aio ou com eço de j unho, é o que todos estão pensando.
– Assim tão cedo!
– Mas ninguém sabe onde.
– O ponto m ais curto da travessia é de Dover a Calais – disse Daisy .
– E é por isso que as defesas alem ãs estão concentradas em torno de Calais. Então talvez tentem os pegá-los de surpresa, desem barcando no litoral sul, por exem plo, perto de Marselha.
– Quem sabe então a guerra acabe de vez.
– Duvido. Quando tiverm os um a posição consolidada, ainda precisarem os conquistar a França, e depois a Alem anha. É um cam inho longo.
– Ah, m eu Deus – m urm urou Daisy .
Woody parecia precisar de diversão. E ela conhecia a garota perfeita para isso. Isabel Hernandez era beneficiária do program a de bolsas de estudos Rhodes e estava fazendo m estrado em história no St. Hilda’s College, na Universidade de Oxford. Era linda, m as os rapazes a achavam chata, por ser intelectual dem ais. Woody , porém , não ligaria para isso.
– Venha aqui um instante – disse Daisy, cham ando Isabel. – Woody, esta é m inha am iga Bella. Ela é de São Francisco. Bella, este é Woody Dewar, de Buffalo.
Os dois se cum prim entaram com um aperto de m ãos. Bella era alta, tinha cabelos escuros e cheios e a pele m orena – com o Joanne Rouzrokh. Woody sorriu para ela e perguntou:
– O que você está fazendo aqui em Londres?
Daisy os deixou a sós.
A ceia foi servida à m eia-noite. Sem pre que ela conseguia m antim entos am ericanos, oferecia presunto com ovos; caso contrário, o m enu era sanduíches de queij o. A com ida proporcionava um a trégua durante a qual as pessoas podiam conversar, m ais ou m enos com o um intervalo no teatro. Ela reparou que Woody Dewar ainda estava falando com Bella Hernandez, e os dois pareciam m uito entretidos. Certificou-se de que todos tinham tudo de que precisavam , e então foi sentar em um canto com Lloy d.
– Já resolvi o que gostaria de fazer depois da guerra, se ainda estiver vivo – disse ele. – Além de m e casar com você, claro.
– O quê?
– Vou tentar um a vaga no Parlam ento.
– Que m aravilha, Lloy d! – disse Daisy, entusiasm ada. Ela envolveu o pescoço dele com os dois braços e lhe deu um beij o.
– Ainda é cedo para com em orar. Apresentei m eu nom e em Hoxton, o distrito contíguo ao de Mam . Mas talvez o Partido Trabalhista de lá não m e aceite. E, m esm o que aceitem , talvez eu não ganhe. Hoxton no m om ento tem um deputado liberal m uito forte.
– Quero aj udar você – disse ela. – Poderia ser seu braço direito. Posso escrever seus discursos... aposto que seria boa nisso.
– Eu adoraria que você m e aj udasse.
– Com binado, então!
Os convidados m ais velhos foram em bora depois de com er, m as a m úsica prosseguiu e a bebida não acabou, de m odo que o clim a da festa ficou ainda m ais descontraído. Woody agora dançava um a m úsica lenta com Bella. Daisy se perguntou se aquele seria o seu prim eiro rom ance depois de Joanne.
As carícias foram ficando m ais ousadas, e as pessoas com eçaram a desaparecer dentro dos dois quartos. Não podiam trancar as portas – Daisy tirava as chaves –, então às vezes diversos casais acabavam j untos no m esm o côm odo, m as ninguém parecia se im portar. Certa vez Daisy encontrara duas pessoas abraçadas dentro do arm ário de vassouras, profundam ente adorm ecidas.
À um a da m anhã, seu m arido apareceu.
Ela não tinha convidado Boy, m as ele chegou acom panhado por dois pilotos am ericanos. Daisy deu de om bros e os deixou entrar. Ele estava bêbado e sim pático, e dançou com várias enferm eiras antes de tirá-la para dançar.
Daisy se perguntou se ele estaria apenas bêbado ou se teria abrandado sua atitude para com ela. Nesse caso, quem sabe poderia reconsiderar a questão do divórcio?
Ela aceitou, e os dois dançaram um jitterbug. A m aioria dos convidados não fazia ideia de que eles fossem um casal separado, m as os que sabiam ficaram surpresos.
– Li no j ornal que você com prou m ais um cavalo de corrida – disse ela, puxando assunto.
– Lucky Laddie – respondeu Boy . – Custou oito m il guinéus... um preço recorde.
– Espero que valha a pena.
Ela adorava cavalos e pensara que os dois fossem com prar e treinar anim ais de corrida j untos, m as Boy não quisera com partilhar essa paixão com a esposa. Para Daisy, essa fora um a das frustrações de seu casam ento.
Ele pareceu ler seus pensam entos.
– Eu decepcionei você, não foi?
– Foi.
– E você m e decepcionou.
Aquilo era novidade para ela. Depois de pensar um pouco, perguntou:
– Por não ter fechado os olhos para as suas infidelidades?
– Exatam ente. – Ele estava bêbado o suficiente para ser sincero.