Inverno do Mundo
Capítulo VII
Foi até o m eio da ponte. Verificou cada corpo em busca de pulsação, m as não restava dúvida: estavam todos m ortos.
Um a um , pegou os com panheiros e j ogou-os por cim a do parapeito.
O últim o foi Ace Webber. Quando o corpo do rapaz bateu na água, Woody falou:
– Descansem em paz, am igos.
Ficou parado por alguns segundos, de cabeça baixa e olhos fechados.
Quando se virou, o sol estava nascendo.
VII
O grande tem or dos planej adores da invasão Aliada era que os alem ães reforçassem rapidam ente suas tropas na Norm andia e organizassem um forte contra-ataque capaz de repelir os invasores de volta para o m ar, num a repetição do desastre de Dunquerque.
Lloy d William s estava entre os hom ens que tentavam garantir que isso não acontecesse.
Sua tarefa de aj udar prisioneiros foragidos a voltar para casa se tornara de baixa prioridade após a invasão, e ele agora estava trabalhando com a resistência francesa.
No fim de m aio, a BBC transm itira m ensagens em código que deram início a um a cam panha de sabotagem na França ocupada pelos alem ães. Nos prim eiros dias de j unho, centenas de linhas telefônicas foram cortadas, geralm ente em lugares de difícil acesso. Depósitos de gasolina foram incendiados; estradas, bloqueadas por árvores; pneus, cortados.
Lloy d estava aj udando os ferroviários, que eram com unistas fervorosos e se autodenom inavam Résistance Fer, a “resistência férrea”. Durante anos, haviam enlouquecido os nazistas com sua subversão dissim ulada. Trens que transportavam soldados alem ães iam parar, sabia-se lá com o, em linhas secundárias obscuras, a m uitos quilôm etros de seu destino. Locom otivas quebravam sem explicação, vagões descarrilavam . A situação era tão grave que os ocupantes m andaram buscar ferroviários na Alem anha para adm inistrar o sistem a. Mas os problem as só pioraram . Na prim avera de 1944, os ferroviários franceses com eçaram a danificar sua própria m alha. Explodiram trilhos e sabotaram os pesados guindastes necessários para rem over trens acidentados.
Os nazistas não aceitaram tudo isso passivam ente. Centenas de ferroviários foram executados e m ilhares deportados para cam pos. Mas a cam panha se intensificava e, quando o Dia D chegou, o tráfego em algum as partes da França havia sido paralisado.
Agora, no dia seguinte ao Dia D, Lloy d estava no alto do barranco j unto à linha principal que seguia para Rouen, capital da Norm andia, num ponto em que os trilhos entravam num túnel. Daquela posição, podia ver um trem se aproxim ando a quase dois quilôm etros de distância.
Estava acom panhado por dois outros hom ens, cuj os codinom es eram Légionnaire e Cigare. Légionnaire era o chefe da Resistência na sua região. Cigare trabalhava na ferrovia. Lloy d trouxera a dinam ite. Fornecer arm am entos era o principal papel dos britânicos na Resistência francesa.
Os três estavam parcialm ente escondidos pelo m ato alto salpicado de flores silvestres. Aquele era o tipo de lugar aonde se poderia levar um a garota num dia bonito com o o que fazia, pensou Lloy d. Daisy teria gostado.
Um trem surgiu ao longe. Enquanto o com boio se aproxim ava, Cigare o observava. Com cerca de 60 anos, Cigare era m usculoso, m agro e baixinho, e tinha o rosto enrugado de um fum ante inveterado. Quando o trem ainda estava a cerca de m eio quilôm etro, balançou a cabeça num a negativa. Aquele não era a com posição que eles estavam esperando. A locom otiva passou cuspindo fum aça e entrou no túnel. Puxava quatro vagões de passageiros, todos lotados, transportando um a m istura de civis e m ilitares. Lloy d tinha presas m ais im portantes para capturar.
Légionnaire olhou para o relógio. Tinha a pele bem m orena e um bigode preto, e Lloy d im aginou que devesse ter antepassados africanos. Agora, estava nervoso. Os três encontravam -se m uito expostos, ao ar livre, em plena luz do dia. Quando m ais tem po ficassem ali, m aiores as chances de serem vistos.
– Quanto falta? – perguntou Légionnaire, preocupado.
Cigare deu de om bros.
– Vam os ver.
– Se quiser, j á pode ir – disse Lloy d em francês. – Está tudo pronto.
Légionnaire não respondeu. Não iria perder a ação. Em nom e de seu prestígio e de sua autoridade, queria poder dizer: “Eu estava lá.”
Cigare ficou m ais tenso e, num a tentativa de enxergar ao longe, estreitou os olhos, fazendo a pele em volta deles se enrugar.
– Então – falou, enigm ático. Ergueu-se até ficar de j oelhos.
Lloy d m al conseguia ver o trem , m uito m enos identificá-lo, m as Cigare estava alerta. Um a coisa Lloy d pôde perceber: aquele trem estava andando bem m ais depressa do que o anterior. Conform e a com posição foi se aproxim ando, ele observou tam bém que era m ais com prida: 24 vagões no m ínim o.
– É esse – afirm ou Cigare.
O pulso de Lloy d se acelerou. Se Cigare estivesse certo, aquele era um trem m ilitar alem ão transportando m ais de m il oficiais e soldados para os cam pos de batalha da Norm andia – talvez o prim eiro de m uitos. A tarefa de Lloy d era garantir que nem aquele, nem qualquer outro que viesse depois dele atravessasse o túnel.
Foi então que viu outra coisa. Um avião seguia o trem . Enquanto ele observava, a aeronave alinhou seu curso ao do trem e com eçou a perder altitude.
Era britânica.
Lloy d reconheceu o m odelo: um caça-bom bardeiro Hawker Ty phoon, apelidado de Tiffy . Os Tiffies eram tripulados por um hom em só e m uitas vezes recebiam a perigosa m issão de penetrar fundo nas linhas inim igas para perturbar as com unicações. Que piloto coraj oso, pensou Lloy d.
Mas aquele avião não fazia parte de seus planos. Ele não queria que o trem fosse destruído antes de chegar ao túnel.
– Que m erda! – praguej ou.
O Tiffy disparou um a raj ada de m etralhadora nos vagões.
– Que diabo é isso? – perguntou Légionnaire.
– Não faço a m ínim a ideia – respondeu Lloy d em inglês.
Podia ver que a locom otiva puxava um m isto de vagões de passageiros e de gado. Mas os vagões de anim ais provavelm ente tam bém transportavam pessoas.
Agora voando m ais rápido, o avião sobrevoou o trem e m etralhou os vagões. Era equipado com quatro canhões de 20m m alim entados por um a cinta, que produziam um barulho assustador, m ais alto que o rugido do m otor do avião e que o enérgico resfolegar do trem . Lloy d não pôde evitar sentir certa pena dos soldados presos lá dentro, sem poder se abrigar daquela chuva letal de balas. Perguntou-se por que o piloto não disparava seus foguetes. Em bora fosse difícil de m irá-los com precisão, tinham alto poder de destruição quando lançados sobre trens e carros. Talvez j á tivessem sido disparados contra um alvo anterior.
Alguns dos alem ães puseram a cabeça coraj osam ente para fora das j anelas com o intuito de disparar, em vão, pistolas e fuzis contra o avião.
Foi então que Lloy d viu um a bateria antiaérea m ontada em cim a de um vagão plano logo atrás da locom otiva. Dois artilheiros arm avam apressadam ente a grande peça de artilharia. Ela girou na base e o cano se ergueu em direção à aeronave.
O piloto parecia não ter visto nada, pois m anteve o curso e seguiu sobrevoando o trem , disparando raj adas no teto dos vagões.
A peça de artilharia disparou e errou.
Lloy d im aginou se conheceria o piloto. Apenas uns cinco m il hom ens integravam o serviço ativo da RAF por vez. Muitos deles j á tinham ido às festas de Daisy. Lloy d pensou em Hubert St. John, um rapaz brilhante form ado em Cam bridge com quem , algum as sem anas antes, ele conversara, recordando os tem pos de estudante; em Dennis Chaucer, caribenho de Trinidad que reclam ava m uito da insossa com ida inglesa, principalm ente do purê de batatas que parecia acom panhar todas as refeições; e em Brian Mantel, australiano sim pático que Lloy d guiara em sua últim a travessia dos Pireneus. O coraj oso piloto do Tiffy podia m uito bem ser alguém com quem ele j á tivesse cruzado.
A bateria antiaérea tornou a disparar e errou de novo.
Ou o piloto não a tinha visto, ou achava que não pudesse ser atingido, pois não fez nenhum a m anobra para se esquivar. Em vez disso, continuou a voar perigosam ente baixo e a alvej ar sem dó o trem de soldados.
A locom otiva estava a poucos segundos do túnel quando o avião foi atingido.
Cham as j orraram do m otor do Tiffy, que com eçou a soltar um a fum aça preta. O piloto se desviou dos trilhos do trem , m as j á era tarde.
A com posição entrou no túnel e os vagões foram passando velozes pelo ponto em que Lloy d estava. Ele viu que todos encontravam -se lotados, com centenas de soldados alem ães.
O Tiffy veio voando bem para cim a de Lloy d. Por um instante, ele pensou que seria atingido. Em bora j á estivesse deitado no chão, levou as m ãos à cabeça com o se esse gesto estúpido pudesse protegê-lo.
O Tiffy passou rugindo uns trinta m etros acim a dele.
Então Légionnaire pressionou o detonador.
Um rugido sem elhante ao de um trovão ecoou dentro do túnel quando os trilhos explodiram , seguido por um terrível guinchar de aço retorcido.
No início, os vagões cheios de soldados continuaram a passar depressa, m as no instante seguinte seu avanço foi interrom pido. As pontas de dois vagões interligados se ergueram no ar, form ando um V invertido. Lloy d ouviu os hom ens lá dentro gritarem . Todos os vagões descarrilaram e tom baram na entrada do túnel, com o se fossem palitos de fósforo. Peças de ferro se am assaram feito papel e um a chuva de cacos de vidro atingiu os sabotadores, que assistiam a tudo de cim a do barranco. Os três corriam o risco de m orrer por causa da explosão que eles m esm os haviam provocado e, sem dizer nada, se levantaram e saíram correndo.
Quando alcançaram um a distância segura, tudo j á havia term inado. Um a coluna de fum aça subia do túnel: no caso im provável de algum dos hom ens a bordo ter sobrevivido ao acidente, iria m orrer queim ado.
O plano de Lloy d tinha sido um sucesso. Ele não apenas m atara centenas de soldados inim igos e destruíra um trem com o tam bém bloqueara um a ferrovia im portante. Em casos de acidentes em túneis, levava sem anas para que as vias fossem liberadas. Aquilo dificultaria m uito que os alem ães reforçassem suas defesas na Norm andia.
Ele estava horrorizado.
Tinha visto m orte e destruição na Espanha, m as nada que se com parasse àquilo. E fora ele o responsável.
Um novo estrondo ecoou e, quando ele olhou na direção do barulho, viu que o Tiffy tinha caído. Em bora o avião estivesse em cham as, a fuselagem não fora afetada. Talvez o piloto estivesse vivo.
Correu em direção ao avião, com Cigare e Légionnaire em seu encalço.
A aeronave acidentada havia caído de barriga. Um a das asas se partira ao m eio. O m otor soltava fum aça. A tam pa de acrílico estava escurecida pela fuligem , por isso Lloy d não conseguiu ver o piloto.
Pisou na asa e soltou o trinco da tam pa. Cigare fez o m esm o do outro lado. Juntos deslizaram -na para trás.
O piloto estava desacordado. Usava capacete, óculos e um a m áscara de oxigênio cobrindo o nariz e a boca. Lloy d não soube dizer se era alguém conhecido.
Perguntou-se onde estaria o tanque de oxigênio e se este j á teria estourado.
Légionnaire teve um pensam ento parecido.
– Tem os que tirá-lo daqui antes que o avião exploda – falou.
Lloy d esticou a m ão para dentro do cockpit e soltou o cinto de segurança. Então segurou o piloto pelas axilas e o puxou. O hom em estava totalm ente inerte. Lloy d não tinha com o saber quais eram os seus ferim entos. Nem tinha certeza de que ele estava vivo.
Arrastou-o para fora do cockpit e carregou-o sobre o om bro com o um bom beiro até um a distância segura do avião. Com a m aior delicadeza possível, deitou o hom em no chão de barriga para cim a.
Ouviu um barulho, um m isto de ar se deslocando e pancada, e ao olhar para trás viu que o avião estava em cham as.
Curvou-se por cim a do piloto e, cuidadosam ente, tirou os óculos e a m áscara de oxigênio. O rosto era tão fam iliar que Lloy d teve um choque.
O piloto era Boy Fitzherbert.
E ele estava respirando.
Lloy d lim pou o sangue de seu nariz e de sua boca.
Boy abriu os olhos. No início não pareceu haver qualquer sinal de discernim ento por trás deles. Então, um m inuto depois, sua expressão se alterou e ele disse: