Inverno do Mundo

Ken Follett · Capítulo 93 de 153

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Inverno do Mundo

Capítulo quinze

 

1943 (I)

 

Lloy d William s seguia no fim de um a fila indiana form ada por fugitivos desesperados que subiam um a estreita trilha na m ontanha.

Não estava ofegante: j á havia se acostum ado com aquilo. Atravessara os Pireneus várias vezes. Calçava alpercatas de sola de corda, que proporcionavam m ais aderência ao chão pedregoso. Por cim a do m acacão azul, usava um sobretudo pesado. O sol agora estava forte, m as depois, quando o grupo chegasse a altitudes m aiores e a noite caísse, a tem peratura ficaria abaixo de zero.

À sua frente seguiam dois pôneis robustos, três m oradores da região e oito fugitivos exaustos e m altrapilhos, todos carregados com bagagens. Três deles eram pilotos am ericanos – a tripulação sobrevivente de um desastre com um bom bardeiro Liberator B-24, que tivera de fazer um pouso de em ergência na Bélgica. Dois outros eram oficiais britânicos fugidos do cam po de prisioneiros Oflag 65, perto de Estrasburgo. Os dem ais eram um com unista tcheco, um a violinista j udia e um inglês m isterioso cham ado Waterm ill, “m oinho d’água”, que devia ser espião.

Todos tinham percorrido um longo cam inho e enfrentado várias dificuldades. Aquela era a últim a etapa da viagem – e tam bém a m ais perigosa. Se fossem pegos agora, seriam torturados até traírem os hom ens e as m ulheres valentes que os haviam aj udado a fugir.

Teresa liderava o grupo. A subida era árdua para quem não estava acostum ado, m as era preciso m anter um ritm o forte a fim de m inim izar o tem po durante o qual ficariam expostos. Lloy d descobrira que os refugiados tinham m enos tendência a ficar para trás quando eram conduzidos por um a m ulher m ignon e lindíssim a.

A trilha ficou plana e se abriu para um a pequena clareira. De repente, um a voz alta ecoou, falando francês com sotaque alem ão:

– Parem !

A fila estacou abruptam ente.

Dois soldados alem ães surgiram de trás de um a pedra. Estavam arm ados com fuzis de repetição Mauser, cada um com cinco tiros.

Por reflexo, Lloy d levou a m ão ao bolso do sobretudo no qual trazia sua Luger 9m m carregada.

Fugir do continente europeu tinha ficado m ais difícil, e o trabalho de Lloy d se tornara ainda m ais perigoso. No fim do ano anterior, os alem ães haviam ocupado a m etade sul da França, ignorando com desdém o governo francês de Vichy com o a farsa m am bem be que sem pre fora. Um a zona proibida de dezesseis quilôm etros de largura fora delim itada ao longo da fronteira com a Espanha. Era nessa zona que Lloy d e seu grupo estavam agora.

Teresa falou com os soldados em francês:

– Bom dia, senhores. Com o vão?

Lloy d, que a conhecia bem , pôde ouvir o trem or do m edo em sua voz, m as torceu para que os guardas não percebessem .

Havia m uitos fascistas e alguns com unistas entre os policiais franceses, m as todos eram preguiçosos, e nenhum estava disposto a perseguir refugiados pelos desfiladeiros gelados dos Pireneus. Os alem ães, no entanto, eram diferentes. Soldados alem ães haviam se instalado em cidadezinhas da fronteira e com eçaram a patrulhar os cam inhos e trilhas nas m ontanhas usados por Lloy d e Teresa. Esses ocupantes não faziam parte da nata m ilitar: os m elhores soldados estavam lutando na Rússia, onde recentem ente haviam desistido de invadir Stalingrado após um a longa e sangrenta batalha. Muitos dos alem ães que estavam na França eram ou velhos, ou m uito j ovens, ou feridos de guerra. Mas isso parecia torná-los ainda m ais decididos a provar seu valor. Ao contrário dos franceses, raram ente faziam vista grossa.

O m ais velho dos soldados, um hom em de m agreza cadavérica e bigode cinza, perguntou a Teresa:

– Para onde estão indo?

– Para o vilarej o de Lam ont. Tem os m antim entos para o senhor e seus colegas.

Um a unidade alem ã havia se m udado para um vilarej o isolado na m ontanha e expulsara os m oradores locais. Só então percebera com o era difícil abastecer tropas naquele local. Levar com ida para os alem ães – e ainda obter um lucro interessante com isso – tinha sido um a ideia genial de Teresa e ainda lhes rendera um a autorização para circular pela zona proibida.

O soldado m agro olhou com desconfiança para os hom ens de m ochila.

– Tudo isso é para soldados alem ães?

– Sim – respondeu Teresa. – Não há nenhum outro com prador lá em cim a. – Ela tirou do bolso um pedaço de papel. – Aqui está a ordem , assinada pelo seu sargento Eisenstein.

O soldado leu o bilhete com cuidado e o devolveu. Então olhou para o tenente-coronel Will Donelly , um piloto am ericano gordo.

– Ele é francês?

Lloy d levou a m ão à pistola que trazia no bolso.

A aparência dos fugitivos era um problem a. Os franceses e espanhóis daquela região costum avam ser baixos e m orenos. E todos eram m agros. Tanto Lloy d quanto Teresa correspondiam a essa descrição, assim com o o tcheco e a violinista j udia. Os dois britânicos, porém , eram pálidos e louros, e os am ericanos eram im ensos.

– Guillaum e nasceu na Norm andia – respondeu Teresa. – Toda aquela m anteiga...

O m ais novo dos dois soldados alem ães, um rapaz pálido e de óculos, sorriu para Teresa. Era fácil sorrir para ela.

– Vocês trouxeram vinho? – perguntou ele.

– Claro.

Os dois soldados ficaram visivelm ente anim ados.

– Vão querer um pouco agora? – perguntou Teresa.

– Este sol dá sede – disse o m ais velho.

Lloy d abriu um dos cestos carregados pelos pôneis, pegou quatro garrafas de vinho branco de Roussillon e as entregou aos alem ães. Os soldados em punharam duas garrafas cada. De repente, todos com eçaram a sorrir e se cum prim entar.

– Podem passar, am igos – disse o soldado m ais velho.

Os fugitivos prosseguiram . Lloy d não achava m esm o que fosse haver problem as, m as nunca se podia ter certeza, e ficou aliviado por ter passado pelo posto de vigia.

Levaram m ais duas horas para chegar a Lam ont. O povoado paupérrim o, com um punhado de casas de construção prim itiva e alguns currais de ovelhas vazios, ficava nos lim ites de um a pequena chapada na m ontanha, sobre a qual o capim novo da prim avera com eçava a despontar. Lloy d teve pena das pessoas que m oravam ali antes. Tinham tão pouco e até isso lhes fora tirado.

O grupo foi até o centro do vilarej o e, com alívio, tirou dos om bros o carregam ento que trazia. Então foi cercado por soldados alem ães.

Aquela era a hora m ais perigosa, pensou Lloy d.

O sargento Eisenstein tinha sob seu com ando um pelotão de 15 a vinte hom ens. Todos aj udaram a descarregar os m antim entos: pão, linguiça, peixe fresco, leite condensado, com ida enlatada. Os soldados ficavam felizes em receber m antim entos e gostavam de ver caras novas. Anim ados, tentavam puxar conversa com seus benfeitores.

Os fugitivos tinham que falar o m ínim o possível. Era m uito fácil se denunciarem nessa hora; bastava um sim ples deslize. Alguns alem ães falavam francês bem o suficiente para detectar sotaque inglês ou am ericano. Mesm o os que tinham pronúncia razoável, com o Teresa e Lloy d, podiam se entregar caso com etessem um erro de gram ática. Era m uito fácil trocar sur la table por sur le table, m as esse era um erro que francês nenhum j am ais com eteria.

Para com pensar, os dois verdadeiros franceses do grupo se esforçavam para se m ostrar falantes. Sem pre que um soldado com eçava a conversar com um fugitivo, um deles se introm etia.

Teresa entregou um a conta ao sargento, que levou m uito tem po para conferir os núm eros e depois para contar o dinheiro.

Por fim , eles puderam ir em bora, com as m ochilas vazias e o coração m ais leve.

Desceram a m ontanha por quase um quilôm etro na m esm a direção da qual tinham vindo, depois se separaram . Teresa seguiu em frente com os franceses e os pôneis. Lloy d e os fugitivos pegaram um a trilha que subia.

A essa altura, os dois soldados alem ães da clareira j á deviam estar em briagados dem ais para reparar que o grupo que descia era m enor que aquele que subira antes. No entanto, caso fizessem perguntas, Teresa diria que alguns integrantes do grupo tinham com eçado um a partida de carteado com os soldados e que desceriam depois. Então haveria um a troca de turno dos vigias e os alem ães perderiam o controle dos fatos.

Lloy d fez seu grupo cam inhar por duas horas, depois perm itiu dez m inutos de descanso. Todos haviam recebido garrafas d’água e pacotinhos de figos secos, para dar energia. Tinham instruções para não trazer m ais nada: Lloy d sabia, por experiência própria, que livros estim ados, prataria, enfeites e discos sem pre acabavam ficando pesados dem ais e sendo j ogados num barranco cheio de neve antes de os viaj antes chegarem ao ponto m ais alto da m ontanha, com os pés cheios de bolhas.

Aquele era o trecho m ais difícil. Dali em diante, o cam inho ficaria m ais escuro, m ais frio e m ais pedregoso.

Pouco antes de onde a neve com eçava, Lloy d instruiu os fugitivos a encherem suas garrafas com água de um riacho frio e cristalino.

Quando a noite caiu, eles prosseguiram . Era perigoso deixar que os fugitivos dorm issem : podiam m orrer congelados. Todos estavam cansados e escorregavam e cam baleavam nas pedras cobertas de gelo. Era inevitável que seu ritm o dim inuísse. Lloy d não podia deixar a fila se espalhar m uito: os retardatários podiam se perder, e os distraídos corriam o risco de cair em desfiladeiros íngrem es. Mas ele nunca tinha perdido ninguém ... até agora.

Muitos dos fugitivos eram oficiais, e era naquele m om ento que às vezes contestavam Lloy d, discordando quando ele os m andava prosseguir. Por conta disso Lloy d fora prom ovido a m aj or, para ter m ais autoridade.

No m eio da noite, quando o m oral dos fugitivos estava m ais baixo, Lloy d anunciou:

– Vocês agora estão na Espanha, um território neutro!

Apesar de cansados, todos com em oraram . Na verdade, ele não sabia exatam ente onde ficava a fronteira, e sem pre fazia esse anúncio quando o grupo m ais precisava de um a inj eção de ânim o.

Os fugitivos voltaram a se anim ar quando o dia raiou. Ainda faltava um a parte do cam inho, m as a estrada agora descia, e suas pernas e seus braços frios foram se aquecendo aos poucos.

Quando o sol saiu, eles m argearam um a pequena cidade com um a igrej a cor de terra no alto de um a colina. Logo depois da cidade, chegaram a um grande celeiro j unto à estrada. Lá dentro havia um cam inhão Ford com a caçam ba coberta por um a lona suj a. Era grande o suficiente para transportar todo o grupo. Ao volante estava o capitão Silva, um inglês de m eia-idade e ascendência espanhola que trabalhava com Lloy d.

Lloy d ficou surpreso ao encontrar tam bém o m aj or Lowther, encarregado do curso de inteligência em Tŷ Gwy n, que exibira um a atitude esnobe e reprovadora em relação à sua am izade com Daisy – ou talvez fosse apenas invej a.

Lloy d sabia que Lowther tinha sido transferido para a em baixada britânica em Madri e im aginava que trabalhasse para o MI6, o Serviço Secreto de Inteligência, m as não esperava encontrá-lo assim tão longe da capital.

O m aj or usava um terno caro de flanela branca, am arrotado e suj o. Postado j unto ao cam inhão, tinha um ar de autoridade.

– Eu assum o a partir daqui, William s – disse ele. Olhando para os fugitivos, perguntou: – Qual de vocês é Waterm ill?

Waterm ill podia ser um nom e de verdade ou um codinom e.

O inglês m isterioso deu um passo à frente e apertou a m ão de Lowther.

– Eu sou o m aj or Lowther. Vou levá-lo direto para Madri. – Ele se virou para Lloy d antes de com pletar: – Infelizm ente, o restante do grupo vai ter que se dirigir para a estação de trem m ais próxim a.

– Espere um instante – disse Lloy d. – Este cam inhão pertence à m inha organização. – Ele havia com prado o veículo com dinheiro do MI9, departam ento que aj udava prisioneiros a fugirem . – E o m otorista trabalha para m im .

– Não posso fazer nada – disse Lowther depressa. – Waterm ill tem prioridade.

O Serviço Secreto de Inteligência sem pre achava que tinha prioridade.

– Não concordo – disse Lloy d. – Não vej o m otivo para não poderm os ir todos até Barcelona no cam inhão, com o planej ado. Depois você pode levar Waterm ill até Madri de trem .

– Não pedi sua opinião, garoto. Obedeça e fim de papo.

O próprio Waterm ill interveio, em tom conciliador:

– Não tenho problem a nenhum em dividir o cam inhão.