Inverno do Mundo
Capítulo IV
A voz de Werner se transform ou num sussurro:
– Não consigo acreditar num Deus que deixa os nazistas assassinarem crianças.
– Não culpo você por isso.
– O que seu pai vai fazer?
– Falar com o pastor da nossa igrej a.
– Ótim o.
Os dois passaram algum tem po em silêncio. Ele passou o braço em volta dela.
– Tudo bem ? – perguntou, com um sussurro.
Ela estava tensa de tanta expectativa e sua voz pareceu falhar. Sua resposta soou com o um grunhido. Ela tentou outra vez e conseguiu dizer:
– Se isso fizer você parar de se sentir tão triste... sim .
Então ele a beij ou.
Ela retribuiu o beij o com sofreguidão. Ele acariciou-lhe os cabelos e, em seguida, os seios. Nesse ponto, ela sabia que m uitas garotas lhe pediriam que parasse. Segundo elas, se você fosse m ais longe, poderia perder o controle.
Carla decidiu arriscar.
Tocou seu rosto enquanto ele a beij ava. Acariciou-lhe o pescoço com a ponta dos dedos, deliciando-se com a textura de sua pele cálida. Pôs a m ão dentro do paletó dele e com eçou a explorar seu corpo, deslizando os dedos pelos om bros, as costelas e a espinha.
Ao sentir a m ão dele em sua coxa, por baixo da saia, ela deu um suspiro. Assim que ele a tocou entre as pernas, ela afastou os j oelhos. As m oças diziam que os rapazes a considerariam um a vadia se fizesse isso, m as ela não conseguiu evitar.
Ele a tocou exatam ente no ponto certo. Não tentou pôr a m ão dentro de sua roupa de baixo, m as a acariciou de leve por cim a do tecido de algodão. Ela se ouviu em itir pequenos gem idos, prim eiro bem baixinho, em seguida m ais alto. Depois de algum tem po, gritou de prazer, enterrando o rosto no pescoço dele para abafar o som . Então teve que afastar a m ão dele, porque o lugar ficara dem asiado sensível.
Carla estava ofegante. Quando com eçou a recuperar o fôlego, beij ou o pescoço dele. Werner tocou seu rosto carinhosam ente.
Depois de alguns segundos, ela perguntou:
– Posso fazer algum a coisa por você?
– Só se você quiser.
Ela ficou encabulada por querer tanto fazer aquilo.
– O único problem a é que eu nunca...
– Eu sei – disse ele. – Deixe que eu m ostro.
IV
O pastor Ochs era corpulento, tinha um a vida confortável e m orava num a casa grande com sua esposa sim pática e cinco filhos. Carla tem eu que ele não fosse querer se envolver naquela história. Mas ela o havia subestim ado. Ele j á ouvira boatos que vinham atorm entando sua consciência, e concordou em acom panhar Walter até o Sanatório Infantil Wannsee. O professor Willrich não poderia recusar a visita de um religioso interessado.
Com o Carla estivera presente no encontro do m édico com Ada, os dois decidiram levá-la tam bém . Talvez o diretor achasse m ais difícil m udar sua história na frente dela.
No trem , Ochs sugeriu que seria m elhor ele próprio falar.
– O diretor deve ser nazista – disse. A m aioria das pessoas que ocupava cargos de direção era filiada ao partido. – É natural que considere um ex-deputado social-dem ocrata seu inim igo. Vou desem penhar o papel de árbitro im parcial. Acho que assim poderem os descobrir m ais coisas.
Carla não estava tão certa disso. Na sua opinião, o pai seria um interrogador m ais experiente. Walter, porém , aceitou a sugestão do pastor.
Era prim avera, e o tem po estava m ais quente do que na últim a visita de Carla. Havia barcos no lago. Carla decidiu pedir a Werner que fizessem um piquenique ali. Queria aproveitar o m áxim o que podia, antes de ele se afastar dela para sair com outra garota.
Na sala do professor Willrich, a lareira estava acesa, m as um a j anela aberta deixava entrar a brisa fresca vinda do lago.
O diretor apertou a m ão do pastor Ochs e de Walter. Lançou um breve olhar de reconhecim ento para Carla e, em seguida, a ignorou. Convidou-os a se sentarem , m as Carla percebeu que, por baixo daquele verniz de cortesia, havia certa hostilidade. Estava claro que o professor não gostava da ideia de ser interrogado. Pegou um de seus cachim bos e, nervoso, com eçou a m anuseá-lo. Nesse dia, diante de dois hom ens no lugar de duas m ulheres j ovens, estava m enos arrogante.
Ochs iniciou a conversa:
– Professor Willrich, Herr Von Ulrich e outros m em bros da m inha congregação estão preocupados com as m isteriosas m ortes de várias crianças deficientes que eles conheciam .
– Nenhum a criança m orreu de form a m isteriosa aqui – disparou Willrich em resposta. – Na verdade, nenhum a criança m orreu aqui nos últim os dois anos.
Ochs se virou para Walter.
– Considero isso m uito reconfortante, Walter, você não?
– Sim – respondeu Walter.
Carla não pensava o m esm o, m as m anteve a boca fechada por enquanto.
Ochs prosseguiu com voz m elíflua:
– Tenho certeza de que seus pacientes recebem os m elhores cuidados possíveis.
– Sim . – Willrich pareceu um pouco m enos ansioso.
– Mas vocês transferem crianças para outros hospitais?
– É claro, se outra instituição puder oferecer ao paciente algum tratam ento não disponível aqui.
– E, quando um a criança é transferida, im agino que os senhores não sej am necessariam ente m antidos a par do tratam ento que ela recebe ou de seu estado de saúde.
– Exato!
– A não ser que elas voltem .
Willrich não disse nada.
– Algum a delas voltou?
– Não.
Ochs deu de om bros.
– Neste caso, o senhor não pode saber o que aconteceu com elas.
– Justam ente.
Ochs se recostou na cadeira e abriu os braços, num gesto franco.
– Quer dizer que não tem nada a esconder!
– Absolutam ente nada.
– Algum as dessas crianças que foram transferidas m orreram .
Willrich ficou calado.
Com delicadeza, o pastor insistiu:
– Isso é verdade, não é?
– Não posso lhe dar certeza, Herr Pastor.
– Ah! – exclam ou Ochs. – Afinal, o senhor não seria avisado nem m esm o se um a dessas crianças m orresse.
– Com o j á foi dito anteriorm ente.
– Perdoe-m e ser repetitivo, m as só quero esclarecer, de form a que não reste nenhum a dúvida, que o senhor não pode ser solicitado a esclarecer essas m ortes.
– De form a algum a.
Mais um a vez, Ochs se virou para Walter.
– Acho que estam os esclarecendo as coisas de form a esplêndida.
Walter assentiu.
Carla, por sua vez, quis dizer: Nada foi esclarecido!
Mas Ochs tinha voltado a falar:
– Quantas crianças aproxim adam ente foram transferidas, digam os, nos últim os 12 m eses?
– Dez – respondeu Willrich. – Exatam ente dez. – Ele deu um sorriso condescendente. – Nós, cientistas, preferim os não trabalhar com aproxim ações.
– Dez pacientes de...?
– Hoj e tem os aqui 107 crianças.
– Um a proporção bem pequena! – disse Ochs.
Carla estava ficando irritada. Era óbvio que Ochs estava do lado de Willrich! Por que seu pai engolia aquilo?
– E todas essas crianças sofriam da m esm a doença, ou de várias? – perguntou Ochs.
– Várias. – Willrich abriu um a pasta em cim a da m esa. – Debilidade m ental, síndrom e de Down, m icrocefalia, hidrocefalia, m alform ação dos m em bros, do crânio e da coluna vertebral, e paralisia.
– São esses os tipos de pacientes que o senhor foi instruído a encam inhar para Akelberg?
Aquilo era um avanço. Era a prim eira m enção a Akelberg e a prim eira sugestão de que Willrich recebera instruções de um a instância superior. Talvez Ochs fosse m ais sutil do que parecia.
Willrich abriu a boca para dizer algum a coisa, m as Ochs se antecipou a ele e fez outra pergunta: