Inverno do Mundo
Capítulo II
– Eu sei.
– Então isto aqui não é apenas um a conversa casual.
– Não. O senhor disse que m ilhões de pessoas vão m orrer só porque os nazistas são orgulhosos dem ais para se render.
– Eu disse isso?
– Mas pode aj udar a salvar alguns desses m ilhões.
– Com o?
Carla fez um a pausa. Era nesse ponto que poria sua vida em risco.
– Eu posso passar para as pessoas certas qualquer inform ação que o senhor obtiver.
Ela prendeu a respiração. Se estivesse errada em relação a Beck, poderia se considerar um a m ulher m orta.
Mas o que viu na expressão do coronel foi assom bro. Era difícil im aginar que aquela j ovem enferm eira despachada e eficiente pudesse ser um a espiã. Mas Carla viu que Beck acreditava nela.
– Acho que estou entendendo – disse ele.
Ela lhe entregou um a pasta verde do hospital, vazia.
Ele a pegou.
– Para que serve isto? – perguntou.
– O senhor é soldado, deve saber o que é cam uflagem .
Ele assentiu.
– A senhorita está arriscando a vida – falou, e ela viu em seus olhos algo parecido com adm iração.
– Agora o senhor tam bém está.
– Sim – disse o coronel Beck. – Mas j á estou acostum ado.
II
De m anhã bem cedo, Thom as Macke levou o j ovem Werner Franck até a prisão de Plötzensee, no subúrbio de Charlottenburg, a oeste de Berlim .
– Você precisa ver isso – falou. – Então poderá dizer ao coronel Dorn com o som os eficientes.
Ele estacionou o carro na Königsdam m e conduziu Werner até os fundos da prisão principal. Os dois entraram num côm odo com oito m etros de com prim ento e m ais ou m enos a m etade de largura. Ali, à sua espera, estava um hom em de casaca, cartola e luvas brancas. O traj e peculiar fez Werner franzir o cenho.
– Este é Herr Reichhart – disse Macke. – O verdugo.
Werner engoliu em seco.
– Quer dizer que vam os assistir a um a execução?
– Sim .
Com ar casual que podia ser fingido, Werner perguntou:
– E por que o traj e de gala?
Macke deu de om bros.
– Tradição.
Um a cortina preta dividia o côm odo em duas partes. Quando Macke a afastou, Werner viu oito ganchos presos a um a viga de ferro que ia de um a ponta a outra do telhado.
– São para enforcam entos? – indagou.
Macke assentiu com a cabeça.
Havia tam bém um a m esa de m adeira equipada com correias para prender pessoas. Em um a das extrem idades da m esa via-se um aparato alto, de form ato característico. No chão, um cesto pesado.
O j ovem tenente estava pálido.
– Um a guilhotina – falou.
– Exatam ente – disse Macke. Então olhou para o relógio. – Não terem os que esperar m uito.
Mais hom ens entraram . Vários deles m enearam a cabeça para Macke, indicando que j á o conheciam . Macke falou no ouvido de Werner:
– O regulam ento exige a presença de j uízes e funcionários do tribunal, e tam bém do diretor e do capelão da prisão.
Werner engoliu em seco. Macke pôde ver que ele não estava gostando daquilo.
Não esperava que ele fosse gostar m esm o. O m otivo para ter levado o tenente até ali não tinha nada a ver com im pressionar o general Dorn. Macke estava desconfiado de Werner. Algum a coisa no rapaz não lhe parecia verdadeira.
Werner trabalhava para Dorn; quanto a isso não restava dúvida. Acom panhara o general num a visita à sede da Gestapo, após a qual Dorn escrevera um bilhete tecendo elogios rasgados ao esforço de contraespionagem de Berlim no qual citava Macke. Depois disso, o inspetor passara sem anas envolto num a áurea cálida de orgulho.
No entanto, não conseguia esquecer o com portam ento de Werner naquela noite, quase um ano antes, quando os dois estiveram prestes a capturar um espião num a fábrica de peles desativada. O rapaz havia entrado em pânico... ou não? Fosse por acidente ou de propósito, dera ao pianista um alerta para que fugisse. Macke não conseguia se livrar da suspeita de que o pânico fora fingido e que Werner, na verdade, o alertara de form a fria e intencional.
Não tinha coragem de prender e torturar Werner. É claro que isso era possível, m as Dorn poderia criar problem as, e Macke seria interrogado. Seu chefe, o superintendente Kringelein, j á não gostava m uito dele e pediria provas concretas contra Werner – e a verdade era que Macke não tinha nenhum a.
Mas aquilo ali deveria revelar a verdade.
A porta tornou a se abrir, e dois guardas da prisão entraram segurando os braços de um a m oça cham ada Lili Markgraf.
Macke ouviu Werner soltar um arquej o.
– O que houve? – indagou.
– O senhor não m e disse que seria um a m oça – respondeu Werner.
– Você a conhece?
– Não.
Lili tinha 22 anos, Macke sabia, m as parecia m ais nova. Seus cabelos louros tinham sido cortados naquela m anhã e estavam curtos com o os de um rapaz. Ela m ancava e m ovia-se curvada para a frente, com o se tivesse algum ferim ento na barriga. Usava um vestido azul sim ples feito de algodão grosso, sem gola, com decote redondo. Tinha os olhos verm elhos de tanto chorar. Os guardas a seguravam com firm eza, sem querer correr qualquer risco.
– Essa m ulher foi denunciada por um parente, que encontrou um m anual de código escondido em seu quarto – explicou Macke. – O código russo de cinco dígitos.
– Por que ela está andando assim ?
– Efeitos do interrogatório. Mas não conseguim os nenhum a inform ação.
A expressão de Werner se m anteve im passível.
– Que pena – com entou ele. – Ela poderia nos levar a outros espiões.
Macke não percebeu nenhum sinal de fingim ento.
– Ela só conhecia seu cúm plice com o Heinrich, sem sobrenom e... de toda form a, ele podia estar usando um codinom e. Minha conclusão é que raram ente lucram os com a prisão de m ulheres. Elas nunca sabem m uita coisa.
– Mas pelo m enos agora vocês têm o m anual do código.
– Se é que isso vale algum a coisa. Os russos m udam a palavra-chave com regularidade, portanto continuam os com dificuldade para decifrar suas m ensagens.
– Que pena.
Um dos hom ens pigarreou e, em voz alta o suficiente para que todos escutassem , disse que era o presidente do tribunal e em seguida leu a sentença de m orte.
Os guardas conduziram Lili até a bancada de m adeira. Deram -lhe a chance de se deitar por livre e espontânea vontade, m as a m oça deu um passo para trás, então eles a seguraram para forçá-la. Ela não se debateu. Os guardas a deitaram de barriga para baixo e prenderam -na com as correias.
O capelão com eçou a recitar um a prece.
Lili im plorava.
– Não, não – falou, sem levantar a voz. – Por favor, m e soltem . Me soltem . – Ela falava de form a coerente, com o se estivesse apenas pedindo um favor a alguém .
O hom em de cartola olhou para o presidente, que fez que não com a cabeça e disse:
– Ainda não. É preciso concluir a prece.
A voz de Lili tornou-se m ais aguda e urgente:
– Não quero m orrer! Estou com m edo! Não façam isso com igo, por favor!
O verdugo tornou a olhar para o presidente do tribunal. Dessa vez, o hom em sim plesm ente o ignorou.
Macke ficou estudando Werner. O rapaz parecia achar aquela cena repulsiva, m as o m esm o valia para todos os outros hom ens presentes. Com o teste, não estava dando m uito certo. A reação de Werner m ostrava que ele era um rapaz sensível, não um traidor. Talvez Macke tivesse que pensar em algum a outra coisa.
Lili com eçou a gritar.
Até Macke se im pacientou.
O pastor term inou a oração às pressas.
Assim que ele disse “Am ém ”, Lili parou de protestar, com o se soubesse que era o fim .
O presidente m eneou a cabeça.
O verdugo acionou um a alavanca, e a lâm ina suspensa caiu.
A guilhotina em itiu um ruído sem elhante a um sussurro ao cortar o pescoço pálido de Lili. O sangue esguichou quando a cabeça com cabelos curtos rolou para a frente e caiu no cesto com um baque alto que pareceu ecoar pela sala.