Inverno do Mundo

Ken Follett · Capítulo 86 de 153

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Inverno do Mundo

Capítulo V

Maud assum iu um ar desafiador.

– Ele está apaixonado por m im .

– Ah...

Pensar na m ãe envolvida em um relacionam ento am oroso deixou Erik constrangido.

– Sej a com o for, não podem os fazer isso – disse Carla.

– Por que não? – indagou Erik.

– Porque, se os russos ganharem a batalha, você pode m orrer!

– Provavelm ente vou m orrer, de qualquer j eito.

Carla ouviu a própria voz ficar m ais agitada e aguda:

– Mas estaríam os aj udando os russos a m atarem você!

– Mesm o assim , quero que vocês façam isso – disse Erik, de um ím peto.

Ele baixou os olhos para o linóleo xadrez que cobria a m esa da cozinha, m as a cena que via estava a m ais de m il quilôm etros dali.

Carla estava m uito dividida. Se o irm ão queria que ela fizesse aquilo...

– Mas por quê? – perguntou ela.

– Fico pensando naquelas pessoas descendo a encosta da pedreira, de m ãos dadas. – Sobre a m esa, apertou as próprias m ãos, um a na outra, com força suficiente para deixar a pele m arcada. – Se puderm os dar um fim a isso, estou disposto a arriscar m inha vida. Quero arriscar... Vou m e sentir m elhor em relação a m im m esm o e ao m eu país. Por favor, Carla, se puder, transm ita esse plano de batalha para os russos.

Ela ainda estava hesitante.

– Tem certeza?

– Eu lhe im ploro.

– Então vou transm itir – disse ela.

 

V

Thom as Macke disse a seus hom ens – Wagner, Richter e Schneider – para se com portarem da m elhor form a possível.

– Werner Franck é só um tenente, m as trabalha para o general Dorn. Quero que ele tenha a m elhor im pressão possível da nossa equipe e do nosso trabalho. Nada de palavrões, piadas, com ida em serviço nem violência, a m enos que sej a realm ente necessário. Se capturarm os um espião com unista, podem dar uns chutes nele. Mas, se não pegarm os ninguém , não quero que vocês arranj em outro qualquer só por diversão.

Em geral, ele deixava passar esse tipo de coisa, pois aj udava a m anter as pessoas tem erosas de desagradar os nazistas. Mas Franck talvez fosse um rapaz sensível.

Werner chegou pontualm ente, de m oto, à sede da Gestapo na Prinz-Albrecht-Strasse. Todos entraram na cam inhonete de vigilância, equipada com um a antena giratória no teto. Havia tanto equipam ento de rádio lá dentro que o espaço era apertado. Richter assum iu o volante, e eles saíram pela cidade naquele início de noite, horário preferido pelos espiões para m andar m ensagens para o inim igo.

– Por que será? – indagou Werner.

– A m aioria dos espiões tem um em prego regular – explicou Macke. – Faz parte do seu disfarce. Então passam o dia trabalhando em algum escritório ou fábrica.

– Claro – disse Werner. – Nunca pensei nisso.

Macke estava preocupado com a possibilidade de não captar nada nessa noite. Morria de m edo de ser responsabilizado pelos revezes sofridos pelo Exército alem ão na Rússia. Tinha feito o m elhor que podia, m as, no Terceiro Reich, esforços não rendiam prêm ios.

Às vezes acontecia de a unidade não interceptar m ensagem algum a. Em outras ocasiões, captava duas ou três, e Macke tinha que escolher qual delas seguir e quais ignorar. Tinha certeza de que havia m ais de um a rede de espionagem na cidade, e elas provavelm ente ignoravam a existência um as das outras. Ele estava tentando fazer um trabalho im possível com ferram entas inadequadas.

Estavam perto da Potsdam erplatz quando captaram um a m ensagem . Macke reconheceu o som característico.

– É um pianista – falou, aliviado. Ao m enos poderia provar a Werner que o equipam ento funcionava. Alguém estava transm itindo núm eros de cinco algarism os, um depois do outro. – A inteligência soviética usa um código no qual pares de algarism os representam letras – explicou Macke a Werner. – Por exem plo, 11 pode ser um A. Transm itir sinais em grupos de cinco algarism os é só um a convenção.

O operador de rádio, um engenheiro elétrico cham ado Mann, leu em voz alta um conj unto de coordenadas, e Wagner usou um lápis e um a régua para traçar um a linha num m apa. Richter engatou a m archa da cam inhonete e tornou a andar.

O pianista continuou a transm itir a m ensagem , e os bipes ecoavam bem alto dentro da cam inhonete. Fosse quem fosse aquele operador, Macke o detestava.

– Com unista im undo – bradou. – Um dia ele vai estar no nosso subsolo, im plorando para que eu o deixe m orrer e acabe logo com a dor.

Werner perdeu a cor. Não estava acostum ado com o trabalho da polícia, pensou Macke.

Em poucos instantes, o rapaz recuperou o controle.

– Do j eito que o senhor descreve, o código soviético não parece m uito difícil de quebrar – falou, pensativo.

– Correto! – Macke estava satisfeito por Werner ter entendido tão depressa. – Mas eu estava sim plificando. Eles têm alguns refinam entos. Depois de codificar a m ensagem com o um a série de algarism os, o pianista escreve um a palavra-chave debaixo dela repetidas vezes... Um a palavra com o Kurfürstendam m , digam os... E depois a codifica tam bém . Então subtrai os segundos algarism os dos prim eiros e transm ite o resultado.

– Ou sej a, é quase im possível decifrar o código sem conhecer a palavra-chave!

– Exatam ente.

Eles tornaram a parar perto do prédio incendiado do Reichstag e traçaram um a segunda linha no m apa. As duas linhas se cruzavam em Friedrichshain, a leste do centro.

Macke ordenou ao m otorista que seguisse para nordeste, aproxim ando-os do local provável, para lhes proporcionar um a terceira linha de um ângulo diferente.

– A experiência m ostra que é m elhor fazer três m edições – disse Macke a Werner. – O equipam ento trabalha com aproxim ação, e as m edições suplem entares reduzem a m argem de erro.

– Vocês sem pre pegam o espião? – perguntou Werner.

– De form a algum a. Na m aioria dos casos, não o pegam os. Muitas vezes sim plesm ente não conseguim os ser rápidos o bastante. Ele pode m udar de frequência no m eio da transm issão, então nós o perdem os. Há ocasiões em que ele para a transm issão no m eio e retom a de outro lugar. Tam bém pode ter algum cúm plice vigiando, que nos vê chegar e o alerta para fugir.

– Vários em pecilhos possíveis.

– Mais cedo ou m ais tarde, porém , acabarem os pegando o pianista.

Richter parou a cam inhonete, e Mann fez a terceira m edição. As três linhas traçadas a lápis no m apa de Wagner se encontravam form ando um pequeno triângulo perto da estação do Leste. O pianista estava em algum lugar entre a ferrovia e o canal.

Macke inform ou a localização a Richter e acrescentou:

– O m ais rápido que puder.

Reparou que Werner estava suando. Talvez estivesse m esm o quente dentro da cam inhonete. Além do m ais, o j ovem tenente não devia estar acostum ado a ver m uita ação. Estava aprendendo com o era a vida na Gestapo. Melhor assim , pensou Macke.

Richter seguiu para o sul pela Warschauer Strasse, atravessou a linha do trem e entrou num bairro industrial de arm azéns, depósitos e pequenas fábricas. Um grupo de soldados carregava bolsas m ilitares em frente a um a das entradas dos fundos da estação; deviam estar em barcando para o front oriental. E, em algum lugar deste m esm o bairro, um conterrâneo está fazendo o que pode para traí-los, pensou Macke, zangado.

Wagner apontou para um a rua estreita que saía da estação.

– Ele está nos prim eiros cento e poucos m etros da rua, m as pode ser de qualquer um dos lados – falou. – Se levarm os a cam inhonete até m ais perto, talvez ele nos vej a.

– Certo, pessoal, vocês sabem o que fazer – disse Macke. – Wagner e Richter vão pela esquerda. Schneider e eu vam os pela direita. – Os quatro em punharam m artelos de cabo com prido. – Franck, venha com igo.

Havia algum as pessoas na rua – um hom em de boina de operário seguia depressa em direção à estação; um a velha de roupas esfarrapadas cam inhava pela rua, decerto indo fazer faxina em algum escritório. Todos os passantes se afastaram apressados, sem querer atrair a atenção da Gestapo.

Os dois grupos de agentes foram entrando nos prédios um após outro, cada parceiro se alternando para seguir na frente. A m aioria dos estabelecim entos j á estava fechada, por isso precisaram acordar alguns zeladores. Quando estes dem oravam m ais de um m inuto para chegar à porta, eles a derrubavam . Um a vez lá dentro, percorriam o prédio depressa, verificando todas as salas.

O pianista não estava no prim eiro quarteirão.

O prim eiro prédio do lado esquerdo do quarteirão seguinte tinha um cartaz desbotado que inform ava: “Moda em Peles”. Era um a fábrica de dois andares que se estendia até a rua lateral. Parecia abandonada, m as a porta da frente era de aço, e as j anelas, gradeadas: um a fábrica de peles precisava m esm o de m uita segurança.

Macke conduziu Werner pela rua lateral, à procura de um a entrada. O prédio ao lado, em ruínas, fora danificado por bom bas. O entulho tinha sido retirado da rua, e um a placa pintada à m ão dizia: “Perigo – Entrada Proibida”. Os restos de um letreiro identificavam o local com o um arm azém de m óveis.

Eles passaram por cim a de um a pilha de pedras e tábuas cheias de farpas, tentando avançar o m ais depressa possível, m as sendo obrigados a tom ar cuidado. Um a parede rem anescente ocultava os fundos do prédio. Macke foi até a parte de trás e encontrou um buraco que conduzia à fábrica contígua.

Tinha a forte sensação de que o pianista estava lá dentro.

Passou pelo buraco, e Werner o seguiu.

Eles se viram dentro de um escritório vazio. Havia um a velha escrivaninha de aço, sem cadeira, e um arquivo na outra ponta. O calendário preso à parede era do ano de 1939, provavelm ente o últim o em que os berlinenses tinham podido pagar por frivolidades com o casacos de pele.

Macke ouviu um passo no piso do andar de cim a.

Sacou a arm a.

Werner estava desarm ado.

Eles abriram a porta do escritório e chegaram a um corredor.

Macke reparou em várias outras portas abertas. Havia tam bém um a escada e, debaixo dela, um a porta que talvez levasse ao subsolo.

O inspetor cam inhou na ponta dos pés pelo corredor em direção à escada, então percebeu que Werner estava verificando a passagem para o subsolo.

– Acho que ouvi um barulho vindo lá de baixo – disse o rapaz.

Ele girou a m açaneta, m as o trinco da porta era frágil. Deu um passo para trás e ergueu o pé direito.

– Não... – disse Macke.

– Sim ... posso ouvi-los! – disse Werner, abrindo a porta com um chute.

O estrondo ecoou pela fábrica vazia.

Werner entrou correndo pela porta e sum iu. Um a luz se acendeu, revelando um a escada de pedra.

– Não se m exa! – gritou Werner. – Você está preso!

Macke desceu a escada atrás dele.

Quando chegou ao subsolo, encontrou Werner de pé no fim da escada, com um a expressão de quem não estava entendendo.

Não havia ninguém ali.

Do teto pendiam varais nos quais provavelm ente deviam ficar pendurados os casacos de pele. Em pé num dos cantos via-se um im enso rolo de papel pardo, decerto para em brulhar as roupas. Mas não havia nenhum rádio, tam pouco nenhum espião transm itindo m ensagens para Moscou.

– Seu im becil de m erda – disse Macke a Werner.

O inspetor deu m eia-volta e tornou a subir a escada correndo. Werner foi atrás. Os dois atravessaram o saguão da fábrica e se dirigiram ao andar de cim a.

Existiam três filas de m esas de trabalho sob um teto de vidro. Antigam ente, aquela sala devia viver cheia de m ulheres operando m áquinas de costura. Agora não havia ninguém ali.

Um a porta de vidro conduzia a um a saída de incêndio, m as estava trancada. Macke olhou para fora e não viu ninguém .