Inverno do Mundo

Ken Follett · Capítulo 136 de 153

Páginas do PDF

Inverno do Mundo

Capítulo IV

Ele ergueu o rosto; sua expressão estava contorcida de em oção.

– O inferno acabou – disse ela.

– Ah, é?

– É – respondeu ela com firm eza. – A vida está difícil, m as os nazistas foram em bora, a guerra term inou. Hitler está m orto, e os estupradores do Exército Verm elho foram controlados, de certa form a. O pesadelo acabou. Nós dois estam os vivos... e j untos.

Ele estendeu a m ão e segurou a dela.

– Tem razão.

– Tem os Walli, e daqui a um m inuto você vai conhecer um a m enina de 15 anos cham ada Rebecca, que de certa form a virou m inha filha. Precisam os form ar um a nova fam ília com o que a guerra nos deixou, da m esm a form a que tem os que construir novas casas com o entulho espalhado pelas ruas.

Ele assentiu.

– Eu preciso do seu am or – disse Carla. – Rebecca e Walli tam bém .

Werner se levantou devagar. Ela o encarou com um ar de expectativa. Ele não disse nada, m as, depois de um a longa pausa, passou os braços em volta dela e do bebê, abraçando-os delicadam ente.

 

IV

Com as regras dos tem pos de guerra ainda em vigor, o governo britânico tinha o direito de abrir m inas de carvão onde quisesse, independentem ente da vontade do proprietário das terras. Os donos só eram com pensados por perdas de lucros agrícolas ou de propriedades com erciais.

O m inistro-adj unto do Carvão, Billy William s, autorizou um a m ina a céu aberto no terreno de Tŷ Gwy n, a m ansão do conde Fitzherbert situada nos arredores de Aberowen.

Com o as terras não tinham uso com ercial, nenhum a indenização foi paga.

Houve indignação nos bancos ocupados pelos deputados conservadores da Câm ara dos Com uns.

– A sua pilha de escória vai ficar bem debaixo das j anelas do quarto da condessa! – disse um deputado indignado.

Billy William s sorriu.

– A pilha de escória do conde passou cinquenta anos debaixo da j anela da m inha m ãe.

Na véspera do dia em que os engenheiros com eçaram as escavações, Lloy d William s e Ethel acom panharam Billy até Aberowen. Lloy d relutou em deixar Daisy, que deveria dar à luz em duas sem anas, m as aquele era um m om ento histórico, e ele queria estar presente.

Seus avós estavam com quase 80 anos. Apesar dos óculos de lentes feitas de cristal de rocha, Granda estava quase cego, e Grandm am andava curvada.

– Que coisa boa – disse Grandm am quando todos se sentaram em volta de sua velha m esa na cozinha. – Meus dois filhos aqui com igo.

Ela serviu carne ensopada com purê de nabo e grossas fatias de pão caseiro cobertas de banha. Para acom panhar, grandes canecas de chá doce com bastante leite.

Lloy d havia com ido esse tipo de refeição com frequência quando era criança, m as agora achava a com ida tosca. Sabia que, m esm o nos tem pos difíceis, as francesas e as espanholas conseguiam servir pratos saborosos, delicadam ente tem perados com alho e ervas. Sentiu vergonha da própria exigência e fingiu com er e beber com apetite.

– É um a pena os j ardins de Tŷ Gwy n desaparecerem – com entou Grandm am sem qualquer delicadeza.

Billy se ofendeu.

– Com o assim ? As pessoas precisam de carvão.

– Mas todo m undo am a aqueles j ardins. Eles são lindos. Desde que eu era m enina, ia lá pelo m enos um a vez por ano. É um a pena vê-los desaparecer.

– Tem um ótim o parque de recreação bem no m eio de Aberowen!

– Não é a m esm a coisa – retrucou Grandm am , sem se deixar abalar.

– As m ulheres nunca vão entender de política – com entou Granda.

– Não – concordou Grandm am . – Im agino que nunca, m esm o.

Lloy d cruzou olhares com a m ãe. Ethel sorriu e não disse nada.

Billy e Lloy d dividiram o segundo quarto, e Ethel fez um a cam a no chão da cozinha.

– Passei todas as noites da m inha vida neste quarto até ir para o Exército – disse Billy quando os dois se deitaram . – E todos os dias de m anhã olhava pela j anela e via aquela m aldita pilha de escória.

– Fale baixo, tio Billy – disse Lloy d. – Não quero que Grandm am ouça você praguej ar.

– É, tem razão – respondeu Billy .

Na m anhã seguinte, depois do café, todos subiram a colina até a m ansão. O tem po estava am eno e não chovia, o que era raro. A gram a nova de verão suavizava a linha das m ontanhas no horizonte. Quando Tŷ Gwy n apareceu, Lloy d não pôde evitar vê-la m ais com o um a linda casa do que com o um sím bolo de opressão. As duas coisas se aplicavam , é claro: em política, nada era sim ples.

Os grandes portões de ferro estavam abertos. A fam ília William s entrou na propriedade. Um a m ultidão j á estava reunida: os operários com suas m áquinas, um a centena de m ineiros e seus fam iliares, o conde Fitzherbert acom panhado pelo filho, Andrew, alguns j ornalistas com bloquinhos e um a equipe de film agem .

Os j ardins estavam esplendorosos. A aleia de castanheiras ancestrais estava repleta de folhas, cisnes nadavam no lago, e os canteiros de flores reluziam com seus inúm eros m atizes. Lloy d im aginou que o conde tivesse se esforçado para deixar o j ardim no auge da beleza. Ele queria que, aos olhos do m undo, o governo trabalhista parecesse um destruidor.

Lloy d se pegou sentindo em patia por Fitz.

O prefeito de Aberowen estava dando um a entrevista.

– O povo desta cidade é contra a m ina a céu aberto.

Lloy d ficou espantado: o conselho m unicipal de Aberowen era trabalhista e devia ser difícil para seus integrantes se opor ao governo.

– Durante m ais de cem anos, a beleza destes j ardins consolou a alm a de pessoas que vivem num a paisagem industrial som bria – prosseguiu o prefeito. Então deixou de lado o discurso ensaiado para acrescentar um a lem brança pessoal: – Pedi m inha m ulher em casam ento debaixo daquele cedro.

O prefeito foi interrom pido por um barulho m etálico m uito alto, com o os passos de um gigante de ferro. Virando-se na direção do acesso que conduzia à casa, Lloy d viu um a im ensa m áquina se aproxim ando. Parecia o m aior guindaste do m undo. Tinha um a lança im ensa, com trinta m etros de com prim ento, e um a caçam ba que poderia facilm ente abarcar um cam inhão. O m ais espantoso de tudo era que a m áquina se m ovia sobre sapatas de aço giratórias que faziam a terra trem er toda vez que batiam no chão.

– É um a escavadeira de arrasto da Monighan com tração própria. Consegue pegar seis toneladas de terra por vez.

A equipe com eçou a film ar enquanto a m onstruosa m áquina subia o acesso à casa.

Lloy d só tinha um a reserva em relação ao Partido Trabalhista: m uitos socialistas possuíam um a veia autoritária e puritana. Seu pai era assim , seu tio Billy tam bém . Eles não se sentiam à vontade em relação aos prazeres sensoriais. Preferiam o sacrifício e a abnegação. Desdenhavam a beleza estonteante daqueles j ardins, considerando-a irrelevante. Estavam errados.

Ethel não era assim , nem Lloy d. Talvez a veia desm ancha-prazeres tivesse sido erradicada de sua linhagem . Ele torceu para que sim .

Fitz dava um a entrevista no cam inho de cascalho rosado enquanto o operador da escavadeira m anobrava sua m áquina até a posição certa.

– O m inistro-adj unto do Carvão lhes disse que, quando a m ina ficar exaurida, o j ardim passará pelo que ele cham a de um program a de restauração eficaz – inform ou ele. – Eu digo a vocês que essa prom essa não vale nada. Meu avô e m eu pai levaram m ais de um século para fazer o j ardim chegar ao auge de beleza e da harm onia em que se encontra agora. Seria preciso m ais cem anos para restaurá-lo.

A lança da escavadeira foi baixada até ficar em um ângulo de 45 graus em relação aos arbustos e canteiros de flores do j ardim . A caçam ba foi posicionada acim a do gram ado de croquê. Houve um longo intervalo de espera. Todos os presentes se calaram .

– Vam os logo com isso, pelo am or de Deus – disse Billy bem alto.

Um engenheiro de capacete soprou um apito.

A caçam ba foi largada no chão, produzindo um forte baque. Seus dentes de aço m orderam o gram ado verde e plano. O cabo de arrasto se retesou, ouviu-se um rangido alto de esforço m ecânico e então a caçam ba com eçou a se m over para trás. Ao se arrastar pelo chão, arrancou um canteiro de im ensos girassóis am arelos, o roseiral, arbustos e um pequeno pé de m agnólia. Ao final da traj etória, a caçam ba ficou cheia de terra, flores e plantas.

Então foi erguida a um a altura de sete m etros, soltando terra e botões de flor.

A lança girou de lado. Lloy d viu que era m ais alta que a casa. Quase pensou que a caçam ba fosse quebrar as j anelas do andar de cim a, m as o operador da escavadeira era experiente e parou bem a tem po. O cabo afrouxou, a caçam ba se inclinou e seis toneladas de j ardim foram despej adas no chão a poucos m etros da entrada.

A caçam ba foi recolocada na posição original, e o processo se repetiu.

Lloy d olhou para Fitz e viu que ele estava chorando.