Inverno do Mundo
Capítulo VIII
Apesar da dor, Lloy d abriu os olhos para ver o que estava acontecendo.
Macke puxou Robert pelo recinto até um a m esa de m adeira. Tirou do bolso um docum ento e um a caneta-tinteiro.
– Seu restaurante agora vale m etade do que lhe ofereci da últim a vez: 10 m il m arcos.
– Qualquer coisa – disse Robert, aos prantos. – Deixe-m e em paz com Jörg.
– Assine aqui – ordenou Macke. – Depois vocês três poderão ir para casa.
Robert assinou.
– Este cavalheiro pode servir de testem unha – disse Macke, entregando a caneta a um dos cam isas-pardas. Correu os olhos pelo recinto e seu olhar cruzou com o de Lloy d. – E talvez o nosso tem erário hóspede inglês possa ser nossa segunda testem unha.
– Faça o que ele está m andando e pronto, Lloy d – disse Robert.
Lloy d se levantou com dificuldade, esfregou a cabeça dolorida, pegou a caneta e assinou.
Triunfante, Macke pôs o contrato no bolso e saiu.
Robert e Lloy d voltaram para j unto de Jörg.
Mas ele j á estava m orto.
VIII
Walter e Maud foram à estação ferroviária de Lehrte, ao norte do Reichstag incendiado, para se despedir de Ethel e Lloy d. O prédio em estilo neorrenascentista parecia um palácio francês. Com o chegaram cedo, foram sentar em um dos cafés da estação para esperar o trem .
Lloy d estava contente por ir em bora. Em seis sem anas, aprendera m uita coisa, tanto sobre a língua alem ã quanto sobre política, m as agora queria voltar para casa, contar aos outros o que tinha visto e alertá-los para que a m esm a coisa não acontecesse em seu país.
Mesm o assim , sentia-se estranham ente culpado por partir. Estava indo para um lugar governado pela lei, onde a im prensa era livre e não era crim e ser social-dem ocrata. Estava deixando a fam ília Von Ulrich num a ditadura cruel, onde um hom em inocente podia ser devorado por cães sem que ninguém j am ais fosse responsabilizado pelo crim e.
Os Von Ulrich estavam arrasados. Walter m ais do que Maud. Eram com o pessoas que tivessem recebido um a notícia ruim ou enfrentado um a m orte na fam ília. Pareciam incapazes de pensar em qualquer outra coisa que não a catástrofe que os havia acom etido.
Lloy d fora solto com profusas desculpas do Ministério das Relações Exteriores da Alem anha e um a explicação oficial que era ao m esm o tem po abj eta e m entirosa, dando a entender que ele havia se m etido num a briga por insensatez e depois sido preso por um erro adm inistrativo que as autoridades lam entavam profundam ente.
– Recebi um telegram a de Robert – disse Walter. – Ele chegou bem a Londres.
Com o era cidadão austríaco, Robert conseguira sair da Alem anha sem m uita dificuldade. Tirar seu dinheiro do país tinha sido m ais com plicado. Walter pedira que Macke depositasse o dinheiro num banco da Suíça. No início, o agente dissera que isso era im possível, m as Walter o havia pressionado, am eaçando contestar a venda no tribunal e dizendo que Lloy d estava disposto a testem unhar que o contrato fora assinado sob pressão. No final das contas, Macke m exera alguns pauzinhos.
– Fico feliz que Robert tenha conseguido sair – disse Lloy d.
Ficaria m ais feliz ainda quando ele próprio estivesse seguro em Londres. Sua cabeça ainda doía e ele sentia um a pontada nas costelas toda vez que se virava na cam a.
– Por que vocês não vão para Londres? – perguntou Ethel a Maud. – Os dois. Ou m elhor, a fam ília toda.
– Talvez devêssem os ir m esm o – disse Walter, olhando para a esposa.
Mas Lloy d pôde ver que não estava sendo totalm ente sincero.
– Você fez o m elhor que pôde – continuou Ethel. – Lutou com bravura. Mas o outro lado venceu.
– Ainda não acabou – disse Maud.
– Mas vocês estão correndo perigo.
– A Alem anha tam bém .
– Se forem m orar em Londres, Fitz talvez am oleça e aj ude vocês.
Lloy d sabia que o conde Fitzherbert era um dos hom ens m ais ricos da Grã-Bretanha, por causa das m inas de carvão que havia debaixo de suas terras em Gales do Sul.
– Ele não iria m e aj udar – disse Maud. – Fitz não dá o braço a torcer. Sei disso e você tam bém sabe.
– Tem razão – concordou Ethel. Lloy d se perguntou com o a m ãe podia ter tanta certeza, m as não teve chance de perguntar. Ethel prosseguiu: – Bom , com a sua experiência, você não teria dificuldade para arrum ar trabalho num j ornal de Londres.
– E eu? O que iria fazer lá? – indagou Walter.
– Não sei – adm itiu Ethel. – Mas o que vai fazer aqui? Não adianta m uita coisa ser um representante quando o Parlam ento é im potente. – Lloy d sentiu que ela estava sendo de um a franqueza brutal, m as, com o era do seu feitio, dizia o que precisava ser dito.
Entendia o argum ento da m ãe, m as achava que os Von Ulrich deveriam ficar.
– Eu sei que vai ser difícil – falou Lloy d. – Mas, se as pessoas decentes fugirem do fascism o, ele vai se espalhar ainda m ais depressa.
– Já está se espalhando de toda form a – rebateu Ethel.
Maud surpreendeu a todos dizendo com veem ência:
– Eu não vou. Recuso-m e term inantem ente a sair da Alem anha.
Todos a encararam .
– Há 14 anos vivo aqui. Sou alem ã – disse ela. – Este agora é o m eu país.
– Mas você nasceu na Inglaterra – disse Ethel.
– Um país é antes de tudo as pessoas que vivem nele – disse Maud. – Eu não am o a Inglaterra. Meus pais m orreram faz tem po e m eu irm ão m e renegou. Am o a Alem anha. Para m im , a Alem anha é Walter, m eu m arido m aravilhoso; é Erik, m eu filho desencam inhado; é Carla, m inha filha incrivelm ente esperta; é Ada e seu filhinho deficiente; é m inha am iga Monika e sua fam ília; são m eus colegas j ornalistas... Eu vou ficar para enfrentar os nazistas.
– Você j á fez m ais do que a sua parte – disse Ethel com delicadeza.
O tom de Maud se encheu de em oção.
– Meu m arido dedicou sua vida inteira, todo o seu ser a tornar este país um lugar livre e próspero. Não vai ser por m inha causa que ele vai desistir do trabalho de um a vida toda. Se ele perder isso, vai perder a alm a.
Ethel insistiu de um a form a que só um a velha am iga podia fazer.
– Mas você deve se sentir tentada a m andar seus filhos para um lugar seguro...
– Tentada? Eu sonho com isso, anseio por isso, desej o isso desesperadam ente! – Ela com eçou a chorar. – Carla vive tendo pesadelos com cam isas-pardas e Erik veste aquele uniform e cor de m erda sem pre que tem um a oportunidade. – Lloy d ficou espantado com a veem ência dela. Nunca tinha ouvido um a m ulher de classe dizer “m erda”. – É claro que eu quero tirá-los daqui – prosseguiu Maud. Lloy d pôde ver com o ela estava dividida. Ela esfregou as m ãos com o se as estivesse lavando, virou a cabeça de um lado para outro, confusa, e por fim falou, com a voz m uito trêm ula por causa de seu conflito interior: – Mas isso seria errado, tanto para eles quanto para nós. Eu não vou m e entregar! É m elhor sofrer com o m al do que ficar parado sem fazer nada.
Ethel tocou o braço da am iga.
– Desculpe-m e por ter perguntado. Talvez tenha sido besteira m inha. Eu deveria ter sabido que você não iria fugir.
– Fico feliz por você ter perguntado – disse Walter. Ele estendeu o braço e segurou as m ãos esguias da m ulher. – Essa pergunta pairava no ar entre m im e Maud, sem que nenhum de nós tocássem os no assunto. Já era hora de encararm os a questão. – Suas m ãos repousavam , unidas, sobre a m esa.
Lloy d raram ente pensava na vida afetiva da geração de sua m ãe: eram pessoas de m eia-idade, casadas, e isso parecia resum ir a questão. Mas agora podia ver que existia entre Walter e Maud um a ligação profunda que ia m uito além do hábito de convivência de um casam ento m aduro. Eles não tinham qualquer ilusão: sabiam que, ficando na Alem anha, estariam pondo em risco sua vida e a dos filhos. Mas o seu com prom isso m útuo era m ais forte do que a m orte.
Lloy d se perguntou se algum dia iria conhecer um am or assim .
Ethel olhou para o relógio.
– Ai, m eu Deus! Vam os perder o trem !
Lloy d pegou as m alas e os dois correram pela plataform a. Um apito soou. Eles subiram no trem bem a tem po. Am bos se debruçaram na j anela enquanto saíam da estação.
Em pé na plataform a, Walter e Maud acenaram e foram ficando cada vez m enores, até sum irem de vista.