Inverno do Mundo

Ken Follett · Capítulo 63 de 153

Páginas do PDF

Inverno do Mundo

Capítulo XII

A m issa com eçou. Os sacerdotes entraram , param entados com suas vestes. O padre Peter era o m ais alto. Carla não conseguiu ler nada na expressão de seu rosto, exceto um a religiosidade severa.

Os hinos e as preces não a interessaram . Tinha rezado pelo pai e, duas horas depois, o encontrara violentam ente espancado e à beira da m orte no chão de sua casa. Sentia saudade dele todos os dias; às vezes, todas as horas. Preces não tinham conseguido salvá-lo, e tam pouco protegeriam as pessoas que o governo j ulgasse incapazes. Era preciso ação, não palavras.

Pensar no pai a fez se lem brar do irm ão, Erik. Ele estava em algum lugar da Rússia. Escrevera um a carta para casa, com em orando com j úbilo o progresso rápido da invasão e recusando-se, zangado, a acreditar que Walter fora assassinado pela Gestapo. Afirm ava que o pai obviam ente fora liberado ileso pela polícia e depois atacado na rua por bandidos, com unistas ou j udeus. Erik vivia num m undo de fantasia, além do alcance da razão.

Será que o m esm o se aplicava ao padre Peter?

O padre subiu no púlpito. Carla não sabia que ele faria um serm ão. Perguntou-se o que ele diria. Será que iria se inspirar no que ouvira antes da m issa? Falaria de algo irrelevante, da virtude da m odéstia ou do pecado da invej a? Ou será que fecharia os olhos para agradecer piam ente a Deus pelas sucessivas vitórias do Exército alem ão na Rússia?

De pé no púlpito, m uito alto, o padre correu pela igrej a um olhar que poderia ser de arrogância, orgulho ou desafio.

– “Não m atarás”, diz o quinto m andam ento.

Carla cruzou olhares com Heinrich. O que o padre Peter iria dizer?

A voz do sacerdote se elevou entre as pedras da nave e ecoou pela igrej a:

– Existe um lugar em Akelberg, na Bavária, onde o nosso governo está violando esse m andam ento cem vezes por sem ana!

Carla soltou um arquej o. Ele estava m esm o fazendo isso – pronunciando um serm ão contra o program a! Aquilo poderia m udar tudo.

– Pouco im porta que as vítim as sej am deficientes físicos ou doentes m entais, pouco im porta que não consigam se alim entar sozinhas ou estej am paralisadas. – Peter estava dem onstrando sua raiva. – Bebês indefesos e velhos senis tam bém são filhos de Deus, e a vida deles é tão sagrada quanto a m inha e a de vocês. – Ele elevou o tom de voz: – Matá-los é pecado m ortal! – Ergueu o braço direito com o punho cerrado, e sua voz estrem eceu de em oção: – Estou dizendo a vocês: se não tom arm os um a providência, estarem os pecando tanto quanto os m édicos e as enferm eiras que aplicam as inj eções letais. Se ficarm os calados... – Fez um a pausa. – Se nos calarm os, serem os assassinos tam bém !

 

XII

O inspetor Thom as Macke estava furioso. Tinha feito papel de bobo aos olhos do superintendente Kringelein e de seus outros superiores. Garantira a eles que havia estancado o vazam ento. O segredo de Akelberg – e dos outros hospitais daquele tipo espalhados pelo país – estava seguro, afirm ara. Encontrara os três criadores de caso, Werner Franck, pastor Ochs e Walter von Ulrich, e os silenciara, cada um à sua m aneira.

Mesm o assim , o segredo viera à tona.

O hom em responsável por isso era um j ovem padre arrogante cham ado Peter.

O padre Peter estava agora diante de Macke, nu, am arrado pelos pulsos e tornozelos a um a cadeira construída especialm ente para aquele fim . Sangrava pelas orelhas, pelo nariz e pela boca, e havia vom itado sobre o peito. Tinha eletrodos presos aos lábios, m am ilos e pênis. Um a faixa em volta da testa o im pedia de quebrar o pescoço ao ser sacudido pelas convulsões.

Um m édico sentado ao seu lado verificou seus batim entos cardíacos com um estetoscópio e fez um a cara de dúvida.

– Ele não vai aguentar m uito m ais – falou, em tom casual.

O serm ão sedicioso do padre Peter j á tivera desdobram entos. O bispo de Münster, clérigo m uito m ais im portante, fizera um serm ão parecido denunciando o program a T4. O bispo apelara a Hitler para salvar essas pessoas da Gestapo, dando a entender, de form a astuta, que o Führer não tinha conhecim ento do program a e fornecendo ao líder alem ão um álibi pronto para ser usado.

O serm ão do bispo fora datilografado, reproduzido e passado de m ão em m ão por toda a Alem anha.

A Gestapo havia prendido todas as pessoas que encontrara com um exem plar, m as de nada adiantara. Aquela era a única ocasião na história do Terceiro Reich em que a população reagira indignada a algum a ação do governo.

A repressão foi feroz, m as não surtiu efeito: as cópias do serm ão continuavam a se m ultiplicar, m ais sacerdotes rezavam pelos deficientes, e houve até um a passeata de protesto em Akelberg. Aquilo tinha fugido ao controle.

E a culpa era de Macke.

Ele se curvou sobre Peter. Os olhos do padre estavam fechados e sua respiração curta, m as ele ainda estava consciente. Macke gritou em seu ouvido:

– Quem lhe contou sobre Akelberg?

Não houve resposta.

Peter era a única pista de Macke. As investigações na cidade de Akelberg não haviam revelado nada de significativo. Reinhold Wagner ouvira um a história sobre duas j ovens ciclistas que tinham ido visitar o hospital, m as ninguém sabia quem eram , e outra sobre um a enferm eira que se dem itira de repente e escrevera um a carta dizendo que iria se casar às pressas, m as sem revelar quem era o m arido. Nenhum a das duas pistas levou a lugar algum . De toda form a, Macke tinha certeza de que aquela calam idade não podia ser obra de um grupo de garotas.

Ele m eneou a cabeça para o técnico que operava a m áquina e este girou um botão.

Peter gritou de dor quando a corrente elétrica percorreu seu corpo, supliciando seus nervos. Sacudiu-se com o se estivesse tendo um ataque, e seus cabelos se eriçaram .

O operador desligou a corrente.

– Diga-m e o nom e dele! – berrou Macke.

Por fim , Peter abriu a boca.

Macke chegou m ais perto.

– Não é ele – sussurrou Peter.

– Ela, então! Qual o nom e dela?

– Foi um anj o.

– Maldito sej a você! – Macke segurou o botão e o girou pessoalm ente. – Isto vai continuar até você m e contar! – berrou, enquanto Peter estrem ecia e gritava.

A porta se abriu. Um j ovem agente espiou dentro da sala, ficou pálido e acenou cham ando Macke.

O operador desligou a corrente e os gritos cessaram . O m édico se inclinou para a frente para auscultar o coração de Peter.

– Perdão, inspetor Macke, m as o superintendente Kringelein quer falar com o senhor.

– Agora? – indagou Macke, irritado.

– Foi o que ele disse, senhor.

Macke olhou para o m édico, que deu de om bros e falou:

– Ele é j ovem . Vai estar vivo quando o senhor voltar.

Macke saiu da sala e seguiu o agente ao andar de cim a. A sala de Kringelein ficava no prim eiro piso. Ele bateu e entrou.

– O m aldito padre ainda não falou – inform ou, sem preâm bulos. – Preciso de m ais tem po.

Kringelein era um hom em franzino, de óculos, inteligente, m as fraco de espírito. Convertido tardiam ente ao nazism o, não fazia parte da elite da SS. Faltava a ele o fervor de entusiastas com o Macke.

– Não precisa m ais se preocupar com esse padre – disse ele. – Não estam os m ais interessados em nenhum m em bro do clero. Joguem todos eles em algum cam po e esqueçam que existem .

Macke não pôde acreditar no que estava ouvindo.

– Mas essas pessoas conspiraram para prej udicar o Führer!

– E conseguiram – disse Kringelein. – Enquanto o senhor, por sua vez, fracassou.

Macke desconfiava que, no seu íntim o, Kringelein estivesse contente com aquilo.

– As instâncias superiores tom aram um a decisão – prosseguiu o superintendente. – O Aktion T4 foi cancelado.

Macke ficou estarrecido. Os nazistas nunca perm itiam que as suas decisões fossem influenciadas pelo receio dos ignorantes.

– Não chegam os aonde estam os agora nos dobrando à opinião pública! – exclam ou.

– Desta vez vam os nos dobrar.

– Por quê?

– O Führer não m e explicou pessoalm ente a sua decisão – respondeu Kringelein com sarcasm o. – Mas posso adivinhar. O program a atraiu protestos extrem am ente irados de um a população em geral passiva. Se insistirm os nele, correrem os o risco de um confronto aberto com igrej as de todas as religiões. Isso seria péssim o. Não podem os enfraquecer a unidade e a determ inação do povo alem ão, sobretudo agora que estam os em guerra contra a União Soviética, nosso inim igo m ais forte até o m om ento. Sendo assim , o program a foi cancelado.

– Muito bem , superintendente – disse Macke, controlando a raiva. – Mais algum a coisa?

– Dispensado – respondeu Kringelein.

Macke foi até a porta.