Inverno do Mundo
Capítulo V
Woody sentiu que a reunião estava se virando contra Molotov. Era óbvio que o russo tinha a m esm a im pressão: ele conversava com seus assessores em voz alta o suficiente para que Woody distinguisse a raiva em sua voz. Mas será que iria se retirar?
O m inistro das Relações Exteriores belga, careca, baixo e gordo, com um a papada avantaj ada, sugeriu um m eio-term o: fez um a proposta expressando a esperança de que o novo governo polonês se organizasse a tem po de estar representado ali, em São Francisco, antes do fim da conferência.
Todos olharam para Molotov. Ele tinha a possibilidade de sair com dignidade daquela situação. Mas será que aceitaria?
Apesar da expressão zangada, o russo concordou com um leve m as perceptível m eneio de cabeça.
E foi o fim da crise.
Ora, pensou Woody , duas vitórias no m esm o dia. As coisas parecem estar correndo bem .
V
Carla saiu para a fila da água.
Fazia dois dias que as torneiras estavam secas. Por sorte, as donas de casa berlinenses tinham descoberto que, a cada poucos quarteirões, a cidade dispunha de bom bas de rua antiquadas, havia m uito sem uso, conectadas a poços artesianos. Por incrível que parecesse, apesar de enferruj adas e m eio em perradas, as bom bas ainda funcionavam . Assim , todo dia de m anhã, as m ulheres faziam fila com seus baldes e j arros.
Os bom bardeios aéreos haviam cessado, supostam ente porque o inim igo se encontrava às portas da cidade. Mas ainda era perigoso andar na rua, pois a artilharia do Exército Verm elho estava atacando Berlim . Carla não sabia m uito bem por que eles estavam se dando esse trabalho. A m aior parte da cidade j á estava destruída. Quarteirões inteiros e áreas ainda m aiores tinham sido com pletam ente destruídos. Todos os serviços de fornecim ento estavam interrom pidos. Nenhum ônibus ou trem circulava m ais. Os desabrigados se contavam aos m ilhares, talvez m ilhões. A cidade não passava de um im enso cam po de refugiados. Mesm o assim , os proj éteis continuavam a cair. A m aioria dos habitantes passava o dia nos porões de casa ou em abrigos antiaéreos públicos. Mas todos tinham que sair para buscar água.
No rádio, pouco antes de a energia ser cortada de vez, a BBC anunciara que o cam po de concentração de Sachsenhausen fora libertado pelo Exército Verm elho. Sachsenhausen ficava ao norte de Berlim , o que indicava que os soviéticos, vindos do leste, estavam cercando a capital em vez de entrar direto. A m ãe de Carla deduziu que os russos queriam m anter afastadas as forças am ericanas, britânicas, francesas e canadenses, que se aproxim avam rapidam ente pelo oeste. Maud havia citado Lenin: “Quem controla Berlim controla a Alem anha, e quem controla a Alem anha controla a Europa.”
Mas o Exército alem ão não havia se rendido. Mesm o em desvantagem num érica, com m enos arm am entos, pouca m unição e gasolina, e passando fom e, eles perseveravam . Os líderes continuavam m andando soldados para tentar resistir a inim igos m ais fortes, e os soldados alem ães obedeciam às ordens, lutavam com energia e coragem , e m orriam às centenas de m ilhares. Entre esses soldados estavam os dois hom ens que Carla m ais am ava: Erik, seu irm ão, e Werner, seu nam orado. Ela não tinha a m enor ideia de onde eles estavam lutando ou se ainda estavam vivos.
Carla havia desm antelado a rede de espionagem . O com bate estava se transform ando em caos, e planos de batalha não significavam quase nada. As inform ações secretas de Berlim tinham pouco valor para os conquistadores soviéticos. Não valia m ais a pena correr riscos para obtê-las. Os espiões tinham queim ado seus m anuais de código e escondido seus transm issores entre os escom bros dos prédios bom bardeados. Haviam j urado nunca m encionar seus feitos. Tinham sido coraj osos, encurtado a guerra e salvado vidas. No entanto, esperar que o povo alem ão derrotado visse as coisas sob essa perspectiva era ser otim ista dem ais. Sua coragem deveria perm anecer para sem pre secreta.
Enquanto Carla aguardava sua vez na fila, um esquadrão da Juventude Hitlerista, de ação antitanques, passou em direção ao leste, ao com bate. Era com posto por dois hom ens na casa dos 50 anos e um a dezena de adolescentes, todos de bicicleta. Presas na frente de cada bicicleta estavam duas das novas peças de artilharia antitanque de um só tiro cham adas Panzerfäuste. Os uniform es estavam folgados dem ais nos adolescentes, e seus capacetes largos teriam parecido côm icos não fosse sua situação lam entável. Estavam indo enfrentar o Exército Verm elho.
Cam inhavam para a m orte.
Carla olhou para outro lado quando eles passaram : não queria se lem brar de seus rostos.
Quando estava enchendo o balde, Frau Reichs, que estava atrás dela na fila, perguntou-lhe em voz baixa, para que ninguém m ais ouvisse:
– A senhorita é am iga da m ulher do m édico, não é?
Carla ficou tensa. Frau Reichs obviam ente estava se referindo a Hannelore Rothm ann. O doutor tinha desaparecido j unto com os pacientes psiquiátricos do Hospital Judaico. Rudi, filho de Hannelore, j ogara fora a estrela am arela e j untara-se aos j udeus que viviam na clandestinidade, conhecidos com o “U-Boote”, subm arinos, na gíria de Berlim . Mas Hannelore, que não era j udia, continuava na velha casa.
Por 12 anos um a pergunta com o a que Carla acabara de ouvir – a senhorita é am iga da m ulher de um j udeu? – teve o peso de um a acusação. O que representaria agora? Carla não sabia. Frau Reichs era apenas um a conhecida; não podia confiar nela. Carla fechou a torneira.
– O Dr. Rothm ann era m édico da nossa fam ília quando eu era pequena – respondeu, cautelosa. – Por quê?
A outra m ulher assum iu seu lugar j unto à bica e com eçou a encher um latão de óleo de cozinha.
– Frau Rothm ann foi levada em bora – disse ela. – Achei que a senhorita fosse querer saber.
Aquilo era m uito com um . Pessoas eram “levadas em bora” o tem po todo. Quando acontecia com alguém próxim o, contudo, era um a punhalada no coração.
De nada adiantava tentar descobrir o que havia acontecido com eles – na verdade, era até perigoso: quem fazia perguntas sobre desaparecidos costum ava sum ir tam bém . Ainda assim , Carla teve que indagar:
– A senhora sabe para onde ela foi levada?
Dessa vez houve resposta:
– Para o cam po de trânsito da Schulstrasse. – Ao ouvir aquilo, Carla se encheu de esperança. – Fica no antigo Hospital Judaico, em Wedding. Sabe onde é?
– Sei, sim .
Carla às vezes trabalhava no hospital, ilegalm ente, então sabia que o governo havia ocupado um dos prédios, o laboratório de patologia, e cercado a área com aram e farpado.
– Espero que ela estej a bem – com entou Frau Reichs. – Ela foi boa com igo quando m inha Steffi adoeceu.
A m ulher fechou a torneira e se afastou com seu latão cheio d’água.
Carla seguiu apressada na direção oposta, a cam inho de casa.
Tinha que fazer algum a coisa por Hannelore. Era quase im possível tirar alguém de um cam po, m as, agora que tudo estava desm oronando, talvez houvesse um j eito.
Levou o balde até sua casa e o entregou a Ada.
Maud tinha ido para a fila de com pra de com ida. Carla vestiu seu uniform e de enferm eira, pensando que o traj e talvez pudesse aj udar. Explicou para Ada aonde estava indo e tornou a sair.
Teve que ir a pé até Wedding. A cam inhada era de uns quatro quilôm etros. Perguntou-se se valeria a pena. Mesm o que encontrasse Hannelore, provavelm ente não conseguiria aj udá-la. Mas então pensou em Eva, em Londres, e em Rudi, escondido em algum lugar de Berlim : com o seria terrível se perdessem a m ãe nas últim as horas da guerra. Ela precisava tentar.
A polícia do Exército estava nas ruas, detendo os passantes e verificando seus docum entos. Trabalhavam em grupos de três, form ando tribunais sum ários, e interessavam -se principalm ente por hom ens em idade de com bater. Não incom odaram Carla, vestida com seu uniform e de enferm eira.
Era estranho ver, naquela paisagem urbana bom bardeada, as esplendorosas m acieiras e cerej eiras cheias de botões brancos e cor-de-rosa, e ouvir, nos instantes de silêncio entre duas explosões, os pássaros cantarem com a m esm a alegria de qualquer prim avera.
Para seu horror, Carla viu vários hom ens enforcados em postes de rua, alguns de uniform e. A m aioria dos cadáveres tinha um cartaz pendurado no pescoço com as palavras “Covarde” ou “Desertor”. Sabia que tinham sido condenados pelos tribunais de três integrantes que coalhavam as ruas. Será que os nazistas ainda não estavam satisfeitos com toda aquela m atança? Carla teve vontade de chorar.
Por causa de bom bardeios de artilharia, foi forçada a procurar abrigo três vezes. Na últim a, a poucas centenas de m etros do hospital, pareceu-lhe que soviéticos e alem ães lutavam a poucas ruas dali. O tiroteio era tão cerrado que Carla sentiu-se tentada a dar m eia-volta. Hannelore provavelm ente j á estava condenada, talvez até m orta. Por que Carla deveria sacrificar a própria vida tam bém ? Mas seguiu em frente m esm o assim .
Quando chegou a seu destino, a noite j á havia caído. O hospital ficava na Iranische Strasse, na esquina com a Schulstrasse. As árvores que m argeavam as ruas estavam cobertas de folhas novas. O prédio do laboratório, agora transform ado em cam po de trânsito, estava vigiado. Carla cogitou abordar o vigia e explicar sua m issão, m as essa estratégia lhe pareceu pouco prom issora. Im aginou se conseguiria entrar pelo sistem a de túneis sem ser notada.
Entrou no prédio principal. O hospital estava funcionando. Todos os pacientes tinham sido rem ovidos para o subsolo e túneis. Os profissionais trabalhavam à luz de lam parinas a óleo. Pelo cheiro, Carla concluiu que a descarga dos banheiros não estava funcionando. A água era trazida em baldes de um velho poço no j ardim .
Para sua surpresa, soldados traziam com panheiros feridos para receber tratam ento. De repente não se im portavam m ais com o fato de os m édicos e enferm eiras serem j udeus.
Seguiu um túnel que passava por baixo do j ardim até o subsolo do laboratório. Conform e im aginava, havia um vigia na porta. No entanto, o rapaz da Gestapo olhou para seu uniform e e acenou para que ela passasse, sem interrogá-la. Talvez não visse m ais finalidade algum a naquele trabalho de guarda.
Carla agora estava dentro do cam po. Perguntou-se se conseguiria sair com a m esm a facilidade.
O cheiro ali estava pior, e ela logo entendeu por quê. O subsolo estava abarrotado. Centenas de pessoas se esprem iam em quatro depósitos. Estavam sentadas ou deitadas no chão; as m ais sortudas se apoiavam nas paredes. Estavam todas suj as, fedidas e exaustas. Olharam para Carla com expressão desinteressada.
Ela levou apenas alguns m inutos para encontrar Hannelore.
A esposa do m édico nunca fora bonita, m as antigam ente era um a m ulher im ponente, de traços fortes. Agora estava m acilenta, com o a m aioria dos outros berlinenses, e tinha os cabelos grisalhos e sem vida. Suas faces estavam encovadas e enrugadas de preocupação.
Hannelore conversava com um a adolescente que estava naquela fase em que um a m enina pode parecer voluptuosa dem ais para sua idade: seios e quadris de m ulher, m as rosto de criança. A m enina estava sentada no chão, aos prantos, enquanto Hannelore, aj oelhada ao seu lado, segurava sua m ão e falava em voz baixa e tranquilizadora.
Ao ver Carla, ela se levantou e exclam ou:
– Meu Deus! O que você está fazendo aqui?
– Pensei que, se eu disser a eles que você não é j udia, talvez eles a deixem ir em bora.
– Que coragem !
– Seu m arido salvou m uitas vidas. Alguém tinha que salvar a sua.
Por um instante, Carla pensou que Hannelore fosse chorar. Sua expressão pareceu prestes a desm oronar. Ela então piscou e balançou a cabeça.
– Esta é Rebecca Rosen – falou, com voz controlada. – Os pais dela m orreram hoj e na explosão de um proj étil.
– Sinto m uito, Rebecca – disse Carla. A m enina ficou calada. – Quantos anos você tem ? – perguntou Carla.
– Vou fazer 14.
– Você vai ter que ser m adura agora.
– Por que não m orri tam bém ? – lam entou-se a m enina. – Estava bem ao lado deles. Deveria ter m orrido. Agora estou sozinha.
– Você não está sozinha – disse Carla depressa. – Nós estam os aqui. – Tornou a se virar para Hannelore. – Quem é o responsável por isto aqui?
– Walter Dobberke.
– Vou dizer a ele que precisa deixar a senhora partir.
– Ele j á foi em bora hoj e. E seu sub é um sargento que tem o cérebro do tam anho de um a ervilha. Olhe, ali vem Gisela. Ela é am ante de Dobberke.
A m oça que se aproxim ava era graciosa, com longos cabelos louros e pele branca e sedosa. Ninguém olhou para ela. Seu rosto exibia um a expressão desafiadora.
– Eles fazem sexo no leito da sala de eletrocardiogram a, no andar de cim a – explicou Hannelore. – Em troca, recebe com ida a m ais. Ninguém fala com ela, só eu. É que eu não acho que possam os j ulgar os outros pelos acordos que fazem . Afinal, estam os vivendo num inferno.
Carla não tinha tanta certeza. Não ficaria am iga de um a m oça j udia que fosse para a cam a com um nazista.
Gisela olhou para Hannelore e se aproxim ou.
– Ele recebeu novas ordens – falou, tão baixo que Carla teve que se esforçar para ouvir. Então hesitou.
– E? – insistiu Hannelore. – Quais são as ordens?
A voz de Gisela se transform ou num sussurro:
– Fuzilar todo m undo que está aqui.
Carla sentiu um aperto no peito, com o se a m ão fria de alguém o tivesse esprem ido. Todas aquelas pessoas – inclusive Hannelore e a j ovem Rebecca.
– Walter não quer fazer isso – continuou Gisela. – Na verdade, não é um hom em m au.
– Quando ele deve nos m atar? – indagou Hannelore com um a calm a fatalista.
– Im ediatam ente. Mas prim eiro ele quer destruir os registros. Hans-Peter e Martin estão pondo as pastas no crem atório neste exato m om ento. É um trabalho dem orado, então ainda tem os algum as horas. Talvez o Exército Verm elho chegue a tem po de nos salvar.
– Ou talvez não – disse Hannelore, firm e. – Existe algum j eito de o convencerm os a desobedecer às ordens? Pelo am or de Deus, a guerra praticam ente acabou!
– Antigam ente eu conseguia convencê-lo a fazer qualquer coisa – disse Gisela, triste. – Mas ele está se cansando de m im . Vocês sabem com o são os hom ens.
– Mas ele deveria pensar no próprio futuro. A qualquer m om ento, os Aliados estarão m andando aqui. Eles vão punir os crim es nazistas.
– Se estiverm os todos m ortos, quem poderá acusá-lo? – indagou Gisela.
– Eu – respondeu Carla.
As outras duas a encararam sem dizer nada.
Então Carla se deu conta de que, m esm o não sendo j udia, seria fuzilada para não poder testem unhar.
Tentando ter algum a ideia, ela disse:
– Se Dobberke nos poupar, talvez isso possa aj udá-lo com os Aliados.
– É um a ideia – respondeu Hannelore. – Poderíam os todos assinar um a declaração dizendo que ele salvou nossas vidas.
Carla olhou para Gisela com o quem faz um a pergunta. Apesar da expressão de dúvida, a m oça disse:
– Talvez ele aceite.
Hannelore olhou em volta.
– Olhem , ali está Hilde – falou. – Ela serve de secretária para Dobberke. – Ela cham ou a outra m ulher e explicou-lhe o plano.
– Posso datilografar os docum entos de liberação para todo m undo – disse Hilde. – Então pedim os a ele que os assine antes de lhe entregarm os a declaração.
Não havia guardas ali no subsolo, apenas no térreo e no túnel, de m odo que os prisioneiros podiam se m ovim entar livrem ente. Hilde foi até o côm odo que servia de escritório subterrâneo para Dobberke. Prim eiro, datilografou a declaração. Hannelore e Carla percorreram o subsolo explicando o plano e fazendo todo m undo assinar. Enquanto isso, Hilde datilografou os docum entos de liberação.
Quando term inaram , j á era o m eio da noite. Não havia m ais nada que pudessem fazer até Dobberke aparecer na m anhã seguinte.
Carla se deitou no chão ao lado de Rebecca Rosen. Não havia outro lugar onde dorm ir.
Algum tem po depois, a m enina com eçou a chorar baixinho.
Carla não soube m uito bem o que fazer. Queria reconfortá-la, m as nenhum a palavra lhe ocorreu. O que dizer para um a criança que acabara de ver os pais m orrerem ? O choro abafado prosseguiu. Por fim , Carla acabou rolando para o outro lado e abraçando Rebecca.
Soube im ediatam ente que havia feito a coisa certa. A m enina se aninhou j unto a ela, com a cabeça em seu peito. Carla afagou-lhe as costas com o se ela fosse um bebê. Aos poucos, os soluços se acalm aram , e Rebecca enfim adorm eceu.
Carla não dorm iu. Passou a noite inteira proferindo discursos im aginários para o com andante do cam po. Ora apelava aos princípios dele, ora o am eaçava com a j ustiça Aliada, e às vezes ainda argum entava em nom e do interesse do próprio com andante.
Tentou não pensar no processo de fuzilam ento. Erik havia lhe contado com o os nazistas executavam pessoas na Rússia, 12 de cada vez. Im aginou que eles tam bém fossem ter um sistem a eficaz ali. Era difícil pensar nisso. Talvez fosse m elhor assim .
Provavelm ente conseguiria escapar ao fuzilam ento caso fosse em bora do cam po agora, ou assim que am anhecesse. Não era prisioneira, não era j udia, e seus docum entos estavam em perfeita ordem . Poderia sair pelo m esm o lugar por onde entrara, vestida com seu uniform e de enferm eira. Mas isso significaria abandonar tanto Hannelore quanto Rebecca. Não conseguia se forçar a fazer isso, por m ais que ansiasse sair dali.
O com bate nas ruas do lado de fora do hospital prosseguiu até as prim eiras horas da m adrugada, quando houve um a breve pausa. Quando o dia raiou, foi retom ado. Agora estava próxim o o suficiente para, além da artilharia, Carla poder ouvir tam bém as raj adas de m etralhadora.
Bem cedo de m anhã, os guardas trouxeram um panelão de sopa rala e um saco cheio de pedaços descartados de pães velhos. Carla tom ou a sopa e com eu o pão, depois, com relutância, foi ao banheiro, cuj a im undície era indescritível.
Então, j unto com Hannelore, Gisela e Hilde, subiu ao térreo para esperar Dobberke. Os proj éteis haviam voltado a cair, e elas estavam correndo perigo a cada segundo que passavam fora do subsolo, m as queriam falar com o com andante assim que ele chegasse.
Dobberke não apareceu no horário habitual. Segundo Hilde, ele costum ava ser pontual. Talvez estivesse atrasado por causa dos com bates nas ruas. Poderia tam bém ter sido m orto, é claro. Carla torceu para que não. Seu sub, o sargento Ehrenstein, era burro dem ais para escutar qualquer argum ento.
Quando Dobberke j á estava um a hora atrasado, Carla com eçou a perder as esperanças.
Um a hora m ais tarde, ele chegou.
– O que é isso? – perguntou, ao ver as quatro m ulheres esperando por ele no saguão. – Um a reunião de m ães?
Foi Hannelore que respondeu:
– Todos os prisioneiros assinaram um a declaração dizendo que o senhor salvou suas vidas. Esse docum ento pode salvar a sua vida, se o senhor aceitar nossos term os.
– Não sej a ridícula – retrucou ele.
– Segundo a BBC, as Nações Unidas têm um a lista com os nom es dos oficiais nazistas que participaram de assassinatos em m assa – disse Carla. – Daqui a um a sem ana, o senhor pode ser j ulgado. Não gostaria de ter um a declaração assinada afirm ando que poupou vidas?
– É crim e escutar a BBC – disse ele.
– Mas não tão grave quanto assassinato.
Hilde tinha um a pasta na m ão.
– Já datilografei ordens de soltura para todos os prisioneiros – disse ela. – Se o senhor as assinar, nós lhe darem os a declaração.
– Eu poderia sim plesm ente tom á-la.
– Ninguém j am ais acreditará na sua inocência se estiverm os todos m ortos.
Dobberke sentia raiva por estar naquela situação, m as não tinha segurança suficiente para sim plesm ente virar as costas.
– Eu poderia fuzilar vocês por insolência – am eaçou.
– A derrota é assim – retrucou Carla, im paciente. – Pode ir se acostum ando.
O sem blante do nazista ficou som brio de raiva, e ela percebeu que tinha ido longe dem ais. Desej ou poder retirar o que acabara de dizer. Ficou encarando a expressão furiosa de Dobberke, tentando não dem onstrar m edo.
Nesse exato instante, um proj étil caiu em frente ao hospital. As portas sacudiram e um a j anela se espatifou. Todos se encolheram instintivam ente, m as ninguém se feriu.
Quando tornaram a se em pertigar, a expressão de Dobberke havia m udado. A raiva fora substituída por algo que parecia resignação m isturada com repulsa. O coração de Carla acelerou. Será que ele havia desistido?
O sargento Ehrenstein se aproxim ou correndo.
– Ninguém se feriu, com andante – inform ou.
– Ótim o, sargento.
Ehrenstein estava prestes a entrar novam ente quando Dobberke o cham ou de volta.
– Este cam po está fechado a partir de agora – falou.
Carla prendeu a respiração.
– Fechado, com andante? – Além de espanto, a voz do sargento tinha um tom agressivo.
– Novas ordens. Diga aos hom ens que eles podem ir... – Dobberke hesitou. – Diga-lhes que se apresentem no bunker ferroviário da estação da Friedrichstrasse.
Carla sabia que Dobberke estava inventando aquilo, e Ehrenstein tam bém pareceu desconfiar.
– Quando, com andante?
– Agora m esm o.
– Agora m esm o. – Ehrenstein ficou parado, com o se aquelas palavras suscitassem m aiores esclarecim entos.
Dobberke sustentou seu olhar.
– Muito bem , com andante – disse o sargento. – Vou avisar os hom ens. – E então se retirou.
Carla sentiu um a onda de triunfo, m as disse a si m esm a que ainda não estava livre.
– Mostre-m e a declaração – disse Dobberke a Hilde.
Hilde abriu a pasta. Esta continha um a dúzia de folhas de papel, todas com as m esm as palavras datilografadas no cabeçalho e o restante do espaço coberto de assinaturas. Entregou-lhe os papéis.
Dobberke os dobrou e guardou no bolso.
Hilde então pôs diante dele os form ulários de soltura.
– Assine aqui, por favor.
– Vocês não precisam de m andados de liberação – disse ele. – Não tenho tem po de assinar m eu nom e centenas de vezes. – Ele se levantou.
– A polícia está nas ruas – disse Carla. – Estão enforcando gente nos postes. Precisam os de docum entos.
Ele apalpou o bolso.
– Se encontrarem esta declaração, eu é que serei enforcado. – Ele se encam inhou para a porta.
– Walter, leve-m e com você! – gritou Gisela.
O com andante se virou para ela e falou:
– Levar você com igo? O que m inha m ulher diria?
Então saiu e bateu a porta.
Gisela caiu em prantos.
Carla foi até a porta, a abriu e ficou olhando Dobberke se afastar. Não havia nenhum outro agente da Gestapo à vista: todos j á tinham obedecido às ordens do com andante e abandonado o cam po.
Quando chegou à rua, Dobberke com eçou a correr.
Deixou o portão aberto.
Em pé ao lado de Carla, Hannelore assistia a tudo com um a expressão incrédula.
– Estam os livres, acho – disse Carla.
– Tem os que contar aos outros.
– Eu conto – falou Hilde. Ela desceu a escada que conduzia ao subsolo.
Cheias de m edo, Carla e Hannelore percorreram o cam inho que separava a entrada do laboratório do portão aberto. Então hesitaram e se entreolharam .
– Estam os com m edo de ser livres – disse Hannelore.
Atrás delas, um a voz de m enina exclam ou:
– Carla, não vá em bora sem m im !
Era Rebecca, que vinha correndo pelo cam inho com os seios balançando sob a blusa encardida.
Carla suspirou. Ganhei um a filha, pensou. Não estou pronta para ser m ãe, m as o que posso fazer?
– Então vam os – falou. – Mas prepare-se para correr.
Percebeu que não precisava se preocupar com a agilidade de Rebecca: a m enina com certeza era capaz de correr m ais depressa que Carla e Hannelore.
Elas atravessaram o j ardim do hospital até o portão principal. Ali, pararam e olharam para os dois lados da Iranische Strasse. A rua parecia tranquila. Elas atravessaram e correram até a esquina. Quando Carla olhou para a Schulstrasse, ouviu um a raj ada de m etralhadora e constatou que m ais acim a estava havendo um tiroteio. Viu soldados alem ães recuarem na sua direção, perseguidos por hom ens do Exército Verm elho.
Olhou em volta. Não havia onde se esconder a não ser atrás das árvores, que não proporcionavam quase nenhum a proteção.
Um obus aterrissou no m eio da rua, cinquenta m etros m ais adiante, e explodiu. Carla sentiu o im pacto, m as não foi ferida.
Sem dizer nada um as para as outras, as três correram de volta para o terreno do hospital.
Retornaram ao prédio do laboratório. Alguns dos outros prisioneiros estavam em pé j unto ao aram e farpado, com o se não se atrevessem a sair.
– O subsolo está cheirando m al, m as neste m om ento é o lugar m ais seguro – disse-lhes Carla.
Ela entrou no prédio e desceu a escada, e a m aioria dos outros a seguiu.
Perguntou-se quanto tem po teria que ficar ali. O Exército alem ão seria obrigado a se render, m as quando? De algum a form a, quaisquer que fossem as circunstâncias, não conseguia im aginar Hitler se entregando. Toda a vida daquele hom em tinha se baseado em gritos arrogantes de que ele era o chefe. Com o alguém assim podia reconhecer que estava errado, que era estúpido e m au? Que havia assassinado m ilhões de pessoas e feito o país ser devastado pelas bom bas? Que iria entrar para a história com o o hom em m ais cruel que j á existira? Não, não era possível. Ele iria enlouquecer, m orrer de vergonha ou então pôr um a pistola na boca e puxar o gatilho.
Mas quanto tem po isso levaria para acontecer? Um dia ainda? Um a sem ana? Mais?
Gritos se fizeram ouvir no andar de cim a.
– Eles chegaram ! Os russos chegaram !
Carla ouviu botas pesadas descendo a escada. Onde eles tinham conseguido botas tão boas? Com os am ericanos?
Então eles entraram : quatro, seis, oito, nove hom ens de rosto suj o, arm ados com subm etralhadoras de carregador tipo tam bor, prontos para m atar com a m esm a rapidez com que olhavam para você. Pareceram ocupar um espaço enorm e. Em bora estivessem ali para libertar aquelas pessoas, houve quem recuasse ao vê-los.
Os soldados avaliaram o am biente. Viram que aqueles prisioneiros em aciados, em sua m aioria m ulheres, não representavam perigo algum . Baixaram as arm as. Alguns entraram nos côm odos adj acentes.
Um soldado alto arregaçou a m anga esquerda. Usava seis ou sete relógios de pulso. Gritou algum a coisa em russo enquanto apontava para os relógios com a coronha da arm a. Carla pensou ter entendido o que ele estava dizendo, m as quase não conseguiu acreditar. Então o hom em agarrou um a m ulher idosa, levantou a m ão dela e apontou para sua aliança de casam ento.
– Eles vão nos levar o pouco que os nazistas não roubaram ? – perguntou Hannelore.
Sim . O soldado alto adquiriu um a expressão frustrada e tentou tirar a aliança da m ulher. Ao entender o que ele queria, ela m esm a tirou o anel e entregou a ele.
O russo pegou a aliança, assentiu, então indicou o recinto em volta.
Hannelore deu um passo à frente.
– Essas pessoas são prisioneiras! – disse ela, em alem ão. – São j udeus ou parentes de j udeus, perseguidos pelos nazistas!
Quer tenha entendido ou não, ele não lhe deu atenção, apenas continuou apontando com insistência para os relógios que trazia no braço.
Os poucos que ainda tinham algum obj eto de valor que não houvesse sido roubado nem trocado por com ida os entregaram .
A liberação pelo Exército Verm elho não seria o acontecim ento feliz que tantos ansiavam .
Mas o pior ainda estava por vir.
O soldado alto apontou para Rebecca.
Ela se encolheu para longe dele e tentou se esconder atrás de Carla.
Um segundo hom em , baixinho e louro, pegou Rebecca e a arrastou para longe. A m enina gritou, e o baixinho sorriu com o se aquele som lhe agradasse.
Carla teve a terrível sensação de que sabia o que iria acontecer.
O baixinho segurou Rebecca com firm eza enquanto o m ais alto apertava seus seios com violência, e então disse algo que fez am bos rirem .
As pessoas em volta puseram -se a gritar em protesto.
O m ais alto ergueu a arm a. Carla se apavorou, com m edo de que ele atirasse. Se puxasse o gatilho de um a subm etralhadora naquele recinto lotado, deixaria dezenas de m ortos e feridos.
Os outros tam bém perceberam o perigo e se calaram .
Os dois soldados recuaram em direção à porta levando Rebecca. A m enina berrava e se debatia, m as não conseguia se soltar.
Quando eles chegaram à porta, Carla deu um passo à frente e gritou:
– Esperem !
Algo na voz dela os fez parar.
– Ela é j ovem dem ais – disse Carla. – Tem só 13 anos! – Não teve certeza se eles entenderam . Ergueu as duas m ãos para m ostrar dez dedos, depois um a só, com três. – Treze!
O soldado alto pareceu com preendê-la. Abriu um sorriso e disse, em alem ão:
– Frau ist Frau. – Mulher é m ulher.
Para a própria surpresa, Carla se pegou dizendo:
– Vocês precisam de um a m ulher de verdade. – Andou lentam ente até eles. – Levem a m im em vez dela. – Tentou dar um sorriso sedutor. – Não sou criança. Sei o que fazer. – Ela chegou m ais perto, o suficiente para sentir o cheiro azedo de um hom em que não tom ava banho havia m eses. Tentando ocultar a repulsa, baixou a voz e com pletou: – Sei do que um hom em precisa. – Levou a m ão ao próprio seio em um gesto sugestivo. – Deixem a criança em paz.
O soldado alto olhou outra vez para Rebecca. Os olhos da m enina estavam verm elhos de tanto chorar e seu nariz escorria, fazendo-a parecer m ais criança e m enos m ulher.
Ele tornou a olhar para Carla.
– Tem um a cam a lá em cim a – disse ela. – Querem que eu lhes m ostre?
Mais um a vez, não teve certeza se ele havia entendido, m as pegou-o pela m ão e o fez segui-la pela escada que conduzia ao térreo.
O louro soltou Rebecca e foi atrás.
Agora que tinha conseguido o que queria, Carla se arrependeu de sua bravata. Sua vontade era se desvencilhar dos russos e sair correndo. Mas eles certam ente a m atariam a tiros, depois voltariam para pegar Rebecca. Carla pensou na m enina arrasada que acabara de perder os pais. Ser estuprada no dia seguinte com certeza iria destruí-la para sem pre. Carla tinha que salvá-la.
Isso não vai m e destruir, pensou Carla. Posso superar um a coisa dessas. Voltarei a ser eu m esm a depois.
Conduziu os dois soldados até a sala de eletrocardiogram a. Sentiu frio, com o se seu coração estivesse congelando, e seus pensam entos ficaram em botados. Ao lado da cam a havia um a lata do lubrificante que os m édicos usavam para m elhorar a condutividade dos eletrodos. Depois de tirar a calcinha, pegou um a boa dose de lubrificante e passou na vagina. Talvez aquilo a im pedisse de sangrar.
Precisava m anter a farsa. Tornou a se virar para os dois soldados. Horrorizada, viu três outros seguirem os colegas para dentro da sala. Tentou sorrir, m as não conseguiu.
Deitou-se de costas e abriu as pernas.
O soldado alto se aj oelhou diante dela. Com um puxão, rasgou a blusa de seu uniform e para expor os seios. Ela pôde ver que ele estava se acariciando para fazer o pênis ficar ereto. Ele se deitou por cim a dela e a penetrou. Carla disse a si m esm a que aquilo não tinha nenhum a relação com o que ela e Werner tinham vivido j untos.
Virou a cabeça para o lado, m as o soldado segurou seu queixo e tornou a virar seu rosto de frente, obrigando-a a encará-lo. Carla fechou os olhos. Sentiu que ele a beij ava e tentava enfiar a língua em sua boca. Seu hálito cheirava a carne podre. Quando ela fechou a boca, o soldado lhe deu um soco na cara. Ela gritou e abriu a boca ferida para ele. Tentou pensar no quão pior teria sido aquilo para um a m enina virgem de 13 anos.
O soldado soltou um grunhido e ej aculou dentro dela. Carla tentou não deixar o noj o transparecer em seu rosto.
O hom em então saiu de cim a dela e o louro baixinho tom ou seu lugar.
Carla tentou fechar a própria m ente e transform ar o corpo em algo independente, um tipo de m áquina, um obj eto sem qualquer relação com ela. Aquele não quis beij á-la, m as chupou seus seios e m ordeu-lhe os m am ilos. Quando ela gritou de dor, pareceu satisfeito e m ordeu com m ais força.
O tem po passou, e ele tam bém ej aculou.
Um terceiro soldado deitou em cim a dela.
Carla percebeu que, quando aquilo tudo term inasse, não poderia tom ar um banho, pois não havia água corrente na cidade. Esse pensam ento passou a dom inar todos os outros. Os fluidos daqueles hom ens estariam dentro de seu corpo, o cheiro entranhado em sua pele, a saliva em sua boca, e ela não teria com o se lavar direito. De algum a form a, isso foi pior do que todo o restante. Toda sua coragem se evaporou, e ela com eçou a chorar.
O terceiro soldado se satisfez, e então o quarto se deitou sobre ela.