Inverno do Mundo

Ken Follett · Capítulo 20 de 153

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Inverno do Mundo

Capítulo IX

Ao m esm o tem po em que pensava isso, ouvia sua m ãe lhe dizer para nunca ficar perdido de am or. Mas um hom em não podia passar a vida escutando o que a m ãe dizia.

Enquanto percorria a Canal Street de casaca e gravata brancas, ansiava por vê-la com o vestido novo, e talvez se aj oelhar para levantar a barra até ver a calcinha e a cinta-liga.

Entrou no prédio, um a antiga casa agora subdividida. Havia um tapete verm elho e puído na escada, e um cheiro de com ida condim entada pairava no ar. Ele entrou no apartam ento com sua própria chave.

Não havia ninguém . Isso era estranho. Para onde ela teria ido sem ele?

Com o coração cheio de m edo, abriu o arm ário. Só o vestido de cetim cor-de-rosa estava pendurado lá dentro. Todas as outras roupas haviam sum ido.

– Não! – exclam ou. Com o aquilo era possível?

Sobre a m esa bam ba de pinho havia um envelope. Ele o pegou e viu seu nom e escrito na frente, com a letra de Jacky . Ficou apreensivo.

Ele rasgou o envelope com as m ãos trêm ulas e leu a m ensagem curta:

Greg, meu amor,

As últimas três semanas foram as mais felizes de toda a minha vida. No fundo do meu coração, eu sabia que nunca poderíamos nos casar, mas foi bom fingir que

sim.

Você é um rapaz encantador e vai se tornar um bom homem, contanto que não puxe demais

ao seu pai.

Será que Lev tinha descoberto que Jacky estava m orando ali e dera um j eito de obrigá-la ir em bora? Seu pai não faria isso... ou faria?

Adeus e não se esqueça de mim.

Seu presente,

Jacky.

Greg am assou o papel e chorou.

 

IX

– Você está m aravilhosa – disse Eva Rothm ann a Daisy Peshkov. – Se eu fosse um rapaz, m e apaixonaria por você num piscar de olhos.

Daisy sorriu. Eva j á era um pouco apaixonada por ela. E Daisy estava m esm o m aravilhosa, com um vestido de baile de organdi de seda azul-claro que realçava a cor de seus olhos. A saia do vestido tinha um a barra de babados que, na frente, ficava na altura do tornozelo, m as subia de form a divertida atrás até alcançar o m eio da canela, proporcionando um vislum bre encantador das pernas de Daisy enfeitadas por m eias finas e brilhantes. No pescoço, usava um colar de safiras da m ãe.

– Seu pai com prou esse colar para m im na época em que ainda m e tratava bem de vez em quando – dissera Olga. – Mas vam os logo, Daisy , vocês está atrasando todas nós.

Olga usava um vestido azul-m arinho de m atrona, e Eva estava de verm elho, cor que com binava bem com seus cabelos escuros.

Daisy desceu a escada envolta em um a nuvem de felicidade.

As três saíram de casa. Henry, o j ardineiro, que nessa noite fazia as vezes de m otorista, abriu as portas do velho Stutz preto reluzente.

Aquela era a noite de Daisy. Charlie Farquharson iria pedi-la oficialm ente em casam ento. Daria de presente a ela um anel de diam ante que era herança de fam ília – ela j á o vira e aprovara, e o anel fora aj ustado para caber em seu dedo. Ela aceitaria o pedido e eles anunciariam o noivado a todos os convidados do baile.

Ela entrou no carro sentindo-se a própria Cinderela.

Apenas Eva havia m anifestado algum as dúvidas.

– Achei que você fosse escolher alguém que com binasse m ais com você – com entara ela.

– Um hom em que não m e deixe m andar nele, você quer dizer – retrucara Daisy .

– Não, m as alguém com o você: bonito, charm oso, sensual.

Era um com entário estranham ente incisivo para Eva: dava a entender que Charlie era feio, sem graça e nada glam ouroso. Daisy ficara espantada e não soubera o que responder.

Foi sua m ãe que a salvou.

– Eu m e casei com um hom em bonito, charm oso e sensual. E ele m e fez profundam ente infeliz.

Depois disso, Eva não dissera m ais nada.

Quando o carro foi se aproxim ando do Iate Clube, Daisy prom eteu a si m esm a que iria se controlar. Não devia dem onstrar quão triunfante se sentia. Devia agir com o se não houvesse nada de inesperado no fato de sua m ãe ser convidada a entrar para a Sociedade de Senhoras de Buffalo. Quando m ostrasse o enorm e diam ante às outras m oças, seria graciosa a ponto de afirm ar que não m erecia alguém tão m aravilhoso quanto Charlie.

Daisy tinha planos de torná-lo m ais m aravilhoso ainda. Logo depois da lua de m el, ela e Charlie com eçariam a m ontar seu haras de cavalos de corrida. Em cinco anos, estariam participando das com petições de turfe m ais prestigiosas do m undo: Saratoga Springs, Longcham p, Roy al Ascot.

O verão j á cedia lugar ao outono e a noite estava caindo quando o carro se aproxim ou do píer.

– Acho que estam os m uito atrasados hoj e, Henry , infelizm ente – disse Daisy , alegre.

– Não tem problem a, Srta. Daisy – retrucou o j ardineiro. Tinha verdadeira adoração por ela. – Divirta-se.

Na porta, Daisy reparou que Victor Dixon entrou atrás delas. Com o estava se sentindo m uito bem -disposta em relação a todo m undo, falou:

– Ouvi dizer que sua irm ã foi apresentada ao rei da Inglaterra, Victor. Meus parabéns!

– Hum m , é – respondeu ele, com ar encabulado.

As três entraram no clube. A prim eira pessoa que viram foi Ursula Dewar, que concordara em deixar Olga ingressar em seu clube esnobe. Daisy lhe abriu um sorriso caloroso e disse:

– Boa noite, Sra. Dewar.

Ursula parecia aflita com algum a coisa.

– Queira m e dar licença só um instante – disse ela e afastou-se pelo saguão.

Aquela m ulher se achava um a rainha, pensou Daisy, m as nem por isso podia ser m al-educada. Um dia Daisy iria m andar na alta sociedade de Buffalo, m as j urou a si m esm a que seria sem pre encantadora com todos.

As três entraram no toalete fem inino, onde conferiram sua aparência nos espelhos para o caso de algo ter saído do lugar nos vinte m inutos desde que tinham saído de casa. Dot Renshaw entrou, as viu e tornou a sair.

– Garota estúpida – com entou Daisy .

Mas sua m ãe parecia preocupada.

– O que está acontecendo? – perguntou ela. – Nós chegam os aqui há apenas cinco m inutos e três pessoas j á nos esnobaram !

– É invej a – disse Daisy . – Dot queria se casar com Charlie.

– Acho que, a esta altura, Dot Renshaw se casaria com praticam ente qualquer um – com entou Olga.

– Venham , vam os nos divertir – disse Daisy , saindo do toalete.

Quando elas adentraram o salão, Woody Dewar foi cum prim entá-la.

– Finalm ente, um cavalheiro! – disse Daisy .

Em voz baixa, ele falou:

– Só gostaria de dizer que acho errado as pessoas culparem você por qualquer coisa que seu pai tenha feito.

– Sobretudo quando todos com praram bebida dele! – retrucou ela.

Foi então que viu a futura sogra, usando um vestido cor-de-rosa drapeado que não favorecia nem um pouco sua silhueta angulosa. Nora Farquharson não estava m aravilhada com a noiva escolhida pelo filho, m as aceitara Daisy e m ostrara-se encantadora com Olga quando as duas trocaram visitas.

– Sra. Farquharson! – disse Daisy . – Que vestido m ais lindo!

Nora Farquharson deu-lhe as costas e se afastou.

Eva soltou um arquej o.

Um a sensação de horror tom ou conta de Daisy . Ela tornou a se virar para Woody .

– Isso não tem nada a ver com contrabando de bebidas, não é?

– Não.

– O que houve, então?

– É m elhor você perguntar para Charlie. Ele está vindo aí.

Em bora não estivesse calor, Charlie suava.

– O que está acontecendo? – perguntou-lhe Daisy . – Todo m undo está m e tratando m al!

Ele estava m uito nervoso.

– Estão todos m uito bravos com a sua fam ília – disse ele.

– Por quê?

Várias pessoas por perto ouviram seu tom de voz alterado e olharam para ela. Daisy não ligou.

– Seu pai arruinou Dave Rouzrokh – disse Charlie.

– Está se referindo àquele incidente no Ritz-Carlton? O que eu tenho a ver com isso?

– Todos gostam de Dave, m esm o ele sendo persa ou algo assim . E ninguém acredita que ele seria capaz de com eter estupro.

– Eu nunca disse que ele era!

– Eu sei – respondeu Charlie. Sua aflição era evidente.

As pessoas agora os encaravam sem pudor: Victor Dixon, Dot Renshaw, Chuck Dewar.

– Mas eu vou levar a culpa – disse Daisy a Charlie. – É isso?

– O seu pai fez um a coisa horrível.

Daisy estava gelada de m edo. Seria possível seu triunfo lhe escapar assim , na últim a hora?

– Charlie – disse ela. – O que você está querendo dizer? Pelo am or de Deus, sej a claro.

Eva passou o braço em volta da cintura de Daisy , em um gesto de am paro.

– Minha m ãe disse que é im perdoável.

– Com o assim , im perdoável?

Ele a fitou com um a expressão arrasada. Não conseguia se forçar a falar.

Mas nem precisava. Ela j á sabia o que ele iria dizer.

– Está tudo acabado, não é? – falou. – Você está m e dispensando.

Ele assentiu.

– Daisy , vam os em bora daqui – disse Olga, aos prantos.

Daisy olhou em volta. Em pinou o queixo e fitou todos com o rosto erguido: Dot Renshaw, m aliciosam ente satisfeita; Victor Dixon, adm irativo; o adolescente Chuck Dewar, com a boca aberta de choque; e seu irm ão Woody , com um a expressão de em patia.

– Para o inferno, todos vocês! – disse ela bem alto. – Eu vou para Londres dançar com o rei!