Inverno do Mundo

Ken Follett · Capítulo 145 de 153

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Inverno do Mundo

Capítulo IV

– Já faz tanto tem po que os valentões e arruaceiros estão no poder... – lam entou, aos soluços. – Será que isso nunca vai acabar?

 

IV

Nessa noite, a agência de notícias soviética transm itiu um anúncio. A partir das seis horas da m anhã seguinte, todo o transporte de passageiros indo ou vindo da parte ocidental de Berlim – trens, carros, barcas que trafegavam pelos canais – seria interrom pido. Nenhum item de abastecim ento poderia entrar: fosse com ida, leite, rem édios ou carvão. Com o as estações geradoras de eletricidade seriam fechadas, eles iriam interrom per o fornecim ento de energia elétrica – apenas nos setores ocidentais.

A cidade estava sitiada.

Lloy d William s encontrava-se na sede das Forças Arm adas britânicas em Berlim . Houvera um curto recesso parlam entar, e Ernie Bevin viaj ara de férias para Sandbanks, no litoral sul da Inglaterra, m as ficara preocupado o bastante para m andar Lloy d à capital alem ã a fim de supervisionar a introdução da nova m oeda e m antê-lo inform ado.

Daisy não havia acom panhado o m arido. Davey, seu filho caçula, tinha apenas 6 m eses. Além disso, ela e Eva Murray estavam m ontando em Hoxton um a clínica de controle de natalidade para m ulheres que estava prestes a ser inaugurada.

Lloy d estava apavorado que aquela crise conduzisse a um a guerra. Já havia lutado em duas, e não queria ter que passar por um a terceira. Tinha dois filhos pequenos que torcia para crescerem num m undo de paz. Era casado com a m ulher m ais bonita, m ais sexy e m ais adorável do m undo, e queria passar m uitas e longas décadas ao lado dela.

O general Clay, governador m ilitar norte-am ericano viciado em trabalho, deu ordens a seus subordinados para organizar um com boio de blindados que avançaria pela Autobahn de Helm stedt, na parte ocidental do país, até Berlim , atravessando o território soviético e tirando da frente qualquer obstáculo.

Lloy d ficou sabendo desse plano ao m esm o tem po que o governador britânico, Sir Brian Robertson, e ouviu-o com entar com sua voz m arcada de soldado:

– Se Clay fizer isso, haverá guerra.

Porém nenhum a outra coisa fazia sentido. Os am ericanos ainda fizeram outras sugestões, com o Lloy d soube ao conversar com os assessores m ais j ovens de Clay. O secretário do Exército am ericano, Kenneth Roy al, queria paralisar a reform a m onetária. Clay lhe respondeu que esta j á tinha ido longe dem ais para ser revertida. Então Roy al propôs evacuar todos os am ericanos de Berlim . Clay lhe disse que isso era exatam ente o que os soviéticos queriam .

Sir Brian sugeriu criar um corredor aéreo para abastecer a cidade. A m aioria das pessoas considerava isso im possível. Alguém calculou que Berlim precisava de quatro m il toneladas de com bustível e com ida por dia. Será que havia aeronaves suficientes no mundo para transportar tanta coisa? Ninguém sabia. De todo m odo, Sir Brian ordenou à RAF que pusesse o plano em prática.

Na sexta-feira à tarde, Sir Brian se encontrou com Clay , e Lloy d foi convidado a participar da reunião. O britânico disse ao am ericano:

– Os russos podem bloquear a Autobahn para que seu com boio não passe e esperar para ver se os tanques terão coragem de atacar; m as não acho que irão abater aviões.

– Não vej o com o poderem os fornecer víveres suficientes por via aérea – tornou a dizer Clay .

– Nem eu – concordou Sir Brian. – Mas tem os que fazer isso até pensarm os em algo m elhor.

Clay pegou o telefone.

– Ligue para o general LeMay, em Wiesbaden – pediu. Depois de alguns m inutos, tornou a falar: – Curtis, você tem algum avião aí capaz de transportar carvão?

Houve um a pausa.

– Carvão – repetiu Clay m ais alto.

Outra pausa.

– Sim , foi isso m esm o que eu disse... carvão.

Instantes depois, Clay ergueu os olhos para Sir Brian.

– Ele disse que a Força Aérea am ericana pode transportar qualquer coisa.

Os britânicos voltaram para sua sede.

No sábado, Lloy d arrum ou um m otorista do Exército e entrou no setor soviético para um a m issão pessoal. Foi até o endereço no qual visitara a fam ília Von Ulrich 15 anos antes.

Sabia que Maud continuava m orando na m esm a casa. Ela e sua m ãe tinham voltado a se corresponder no final da guerra. As cartas de Maud disfarçavam com bravura o que sem dúvida devia ser um a grave privação. Ela não pedira aj uda. De toda form a, não havia nada que Ethel pudesse fazer por ela – a Grã-Bretanha ainda estava enfrentando o racionam ento.

A casa estava m uito diferente. Em 1933, era um belo im óvel urbano, um pouco m alconservado, m as ainda assim gracioso. Agora parecia abandonada. A m aioria das j anelas estava fechada por tábuas ou j ornais em vez de vidro. Havia buracos de bala na alvenaria, e o m uro do j ardim tinha desabado. Fazia m uitos anos que o m adeiram e externo não era pintado.

Lloy d passou alguns instantes sentado dentro do carro, olhando a casa. Na últim a vez que estivera ali, tinha 18 anos, e Hitler acabara de se tornar chanceler da Alem anha. O j ovem Lloy d nem sonhava com os horrores que o m undo iria testem unhar. Nem ele nem ninguém desconfiavam de quão perto o fascism o chegaria de triunfar sobre toda a Europa, e de quanto teriam que sacrificar para derrotá-lo. Seu estado de espírito lem brava um pouco o aspecto atual da casa dos Von Ulrich: m altratada, bom bardeada e atingida por tiros, m as ainda de pé.

Ele subiu o acesso até a casa e bateu.

Reconheceu a criada que veio abrir a porta.

– Olá, Ada, lem bra-se de m im ? – perguntou em alem ão. – Lloy d William s.

A casa estava m elhor por dentro do que por fora. Ada o conduziu até a sala de estar, onde um a j arra de vidro com flores enfeitava o piano. O sofá estava coberto por um a colcha de cores vivas, sem dúvida para esconder os buracos do estofam ento. Os j ornais que faziam as vezes de vidraças deixavam entrar um a quantidade surpreendente de luz.

Um m enino de 2 anos entrou na sala e exam inou o visitante com franca curiosidade. Vestido com roupas visivelm ente feitas em casa, tinha um aspecto oriental.

– Quem é você? – perguntou.

– Meu nom e é Lloy d. E o seu?

– Walli – respondeu o m enino. Então saiu correndo da sala, e Lloy d o ouviu dizer a alguém do lado de fora: – O m oço fala esquisito!

E eu crente que m eu alem ão era bom , pensou Lloy d.

Então ouviu a voz de um a m ulher de m eia-idade:

– Não fale assim ! É falta de educação.

– Desculpe, vovó.

No instante seguinte, Maud entrou na sala.

Sua aparência deixou Lloy d chocado. Ela estava com 50 e poucos anos, m as parecia ter 70. Tinha os cabelos grisalhos, o rosto em aciado, e seu vestido de seda azul estava puído. Ela o beij ou no rosto com lábios m urchos.

– Lloy d William s, que alegria ver você!

Essa m ulher é m inha tia, pensou Lloy d com um a sensação m eio estranha. Mas Maud não sabia do parentesco: Ethel soubera guardar segredo.

Ela foi seguida por Carla, irreconhecível, e por seu m arido. Quando Lloy d conhecera Carla, ela era um a m enina precoce de 11 anos; agora, segundo seus cálculos, estava com 26. Em bora tivesse um a aparência sem idesnutrida – assim com o a m aioria dos alem ães –, era um a m oça bonita e tinha um a atitude confiante que deixou Lloy d surpreso. Algo na sua postura o fez pensar que ela talvez estivesse grávida. Sabia, pelas cartas de Maud, que Carla tinha se casado com Werner. Atraente e sedutor em 1933, o alem ão continuava igualzinho.

Eles passaram um a hora pondo a conversa em dia. A fam ília tinha enfrentado horrores inim agináveis e falava sobre isso com franqueza, m as ainda assim Lloy d teve a sensação de que eles estavam om itindo os piores detalhes. Contou-lhes sobre Daisy e Evie. Durante a conversa, um a adolescente entrou e perguntou a Carla se podia ir à casa de um a am iga.

– Esta é nossa filha Rebecca – disse Carla a Lloy d.

A m enina devia ter 16 anos. Lloy d im aginou que fosse adotada.

– Já fez o dever de casa? – perguntou-lhe Carla.

– Farei am anhã de m anhã.

– Faça agora, por favor – disse Carla com firm eza.

– Ah, m ãe!

– Sem discussão – insistiu Carla. Então virou-se de novo para Lloy d, e Rebecca saiu da sala pisando firm e.

Eles conversaram sobre a crise. Com o m em bro do Conselho Municipal, Carla estava m uito envolvida. Sua visão sobre o futuro de Berlim era pessim ista. Segundo ela, os russos sim plesm ente fariam a população passar fom e até o Ocidente ceder e entregar a cidade ao controle total da União Soviética.

– Deixe eu lhe m ostrar um a coisa que talvez faça você m udar de ideia – disse Lloy d. – Podem vir com igo de carro?

Maud ficou em casa com Walli, m as Carla e Werner acom panharam Lloy d. Ele pediu ao m otorista que os levasse até Tem pelhof, o aeroporto localizado no setor am ericano. Quando chegaram , conduziu-os até um a j anela alta da qual podiam ver a pista.

Lá em baixo estava enfileirada um a dezena de aeronaves Sky train C-47, nariz contra cauda, algum as pintadas com a estrela am ericana, outras com o sím bolo circular da RAF. As portas dos com partim entos de carga estavam abertas, e havia um cam inhão parado diante de cada um a. Carregadores alem ães e aviadores am ericanos descarregavam as aeronaves. Havia sacos de farinha, grandes barris de querosene, caixas de m aterial m édico e caixotes de m adeira contendo m ilhares de garrafas de leite.

Enquanto eles assistiam , aviões vazios decolaram , e outros se aproxim aram para aterrissar.

– Im pressionante – com entou Carla, com os olhos m arej ados. – Nunca vi nada igual.

– Nunca existiu nada igual – retrucou Lloy d.

– Mas os britânicos e am ericanos vão conseguir sustentar isso? – perguntou ela.

– Acho que serem os obrigados.

– Mas por quanto tem po?

– Quanto for preciso – respondeu Lloy d com decisão.

E foi o que fizeram .