Inverno do Mundo
Capítulo II
– Com o você se sentiu em relação a isso? – indagou Werner.
Carla hesitou. Era perigoso falar abertam ente sobre esse tipo de coisa. Mas ela conhecia Werner desde m enina, ele sem pre fora de esquerda, e era um dos Jovens do Swing. Merecia sua confiança.
– Agrada-m e o fato de alguém estar se opondo aos nazistas – disse ela. – Isso m ostra que nem todos os alem ães estão paralisados pelo m edo.
– Há m uitas coisas que se pode fazer contra os nazistas – disse ele em voz baixa. – Além de usar batom .
Ela supôs que ele estivesse sugerindo que ela poderia distribuir aqueles panfletos. Será que Werner estava envolvido nesse tipo de atividade? Não. Ele era m uito play boy. Heinrich talvez: era um rapaz m uito arrebatado.
– Não, obrigada – disse ela. – Tenho m uito m edo.
Os dois term inaram suas Cocas e tornaram a entrar. A pista agora estava lotada e m al havia espaço para dançar.
Para surpresa de Carla, Werner a convidou para a últim a dança. Pôs um disco de Bing Crosby cantando “Only Forever”. Carla ficou anim ada. Ele a segurou com força e, j untos, eles deslizaram , m ais do que dançaram , ao som da balada lenta.
No final, com o era tradição, alguém apagou a luz por um m inuto, para que os casais pudessem se beij ar. Carla ficou encabulada: conhecia Werner desde que os dois eram crianças. No entanto, sem pre se sentira atraída por ele, então ergueu o rosto, ansiosa. Com o ela im aginava, ele lhe deu um beij o experiente e ela retribuiu com entusiasm o. Para seu deleite, sentiu a m ão dele apalpar delicadam ente seu seio. Incentivou-o abrindo a boca. Então a luz se acendeu e tudo term inou.
– Bem , isso foi um a surpresa – disse ela, ofegante.
Ele deu seu sorriso m ais charm oso.
– Talvez eu possa surpreender você de novo algum dia desses.
II
Carla estava passando pelo hall de casa a cam inho da cozinha para tom ar café quando o telefone tocou.
– Carla von Ulrich.
Ouviu a voz de Frieda:
– Ai, Carla, m eu irm ãozinho m orreu!
– O quê? – Carla m al pôde acreditar no que tinha escutado. – Ah, Frieda, eu sinto m uito! Onde ele m orreu?
– Naquele hospital. – Frieda soluçava.
Carla se lem brou de Werner ter lhe contado que Axel fora transferido para o m esm o hospital de Akelberg onde Kurt estava.
– Morreu de quê?
– Apendicite.
– Que horror! – Carla estava triste pela am iga, m as tam bém desconfiada. No m ês anterior, quando o professor Willrich lhes falara sobre o novo tratam ento de Kurt, tivera um a sensação ruim . Será que o tratam ento era m ais experim ental do que o m édico dera a entender? Será que poderia até ser perigoso? – Você sabe de m ais algum a coisa?
– Nós só recebem os um a carta breve. Meu pai está furioso. Ele ligou para o hospital, m as não conseguiu falar com os responsáveis.
– Vou passar na sua casa. Chegarei aí em alguns m inutos.
– Obrigada.
Carla desligou e entrou na cozinha.
– Axel Franck m orreu naquele tal hospital de Akelberg – anunciou.
Walter, seu pai, estava conferindo a correspondência da m anhã.
– Ah! – exclam ou ele. – Pobre Monika.
Carla se lem brou de que, segundo as histórias da fam ília, Monika Franck j á fora apaixonada por Walter. A expressão preocupada no rosto do pai lhe pareceu tão sofrida que ela se perguntou se ele sentira algum carinho por Monika, m esm o estando apaixonado por Maud. Que com plicação, o am or.
A m ãe de Carla, atualm ente m elhor am iga de Monika, com entou:
– Ela deve estar arrasada.
Walter tornou a baixar os olhos para a correspondência e disse, em tom de surpresa:
– Esta carta é para Ada.
O silêncio dom inou a cozinha.
Carla ficou encarando o envelope branco enquanto a em pregada o pegava da m ão de Walter.
Ada não recebia m uitas cartas.
Erik estava em casa – era o últim o dia de sua curta licença –, de m odo que quatro pessoas observaram Ada abrir o envelope.
Carla prendeu a respiração.
Ada sacou um a carta datilografada em papel tim brado. Leu a m ensagem depressa, deu um arquej o e então com eçou a gritar:
– Não! Não pode ser!
Maud pulou da cadeira e tom ou Ada nos braços.
Walter pegou a carta de sua m ão e leu.
– Ah, não, que tristeza – falou. – Pobrezinho do Kurt. – Ele pousou o papel sobre a m esa do café da m anhã.
Ada com eçou a soluçar.
– Meu m enininho, m eu m enininho querido, e m orreu longe da m ãe... não posso suportar isso!
Carla lutou para conter as lágrim as. Estava atordoada.
– Axel e Kurt? – falou. – Ao m esm o tem po?
Ela pegou a carta. O papel estava tim brado com o nom e do hospital e o endereço em Akelberg. O texto dizia:
Prezada Sra. Hempel,
É com pesar que venho comunicar-lhe a perda irreparável de seu filho, Kurt Walter
Hempel, de 8 anos. Ele faleceu no dia 4 de abril, neste hospital, em decorrência de um
apêndice supurado. Todo o possível foi feito para tentar salvá-lo, mas sem resultado. Queira
aceitar minhas mais sinceras condolências.
A carta estava assinada pelo chefe da equipe m édica.
Carla ergueu os olhos. Sua m ãe estava sentada ao lado de Ada, com os braços em volta dela e segurando sua m ão enquanto ela soluçava.
Carla tam bém estava triste, porém m ais alerta do que Ada. Foi com a voz trêm ula que se dirigiu ao pai:
– Há algo de errado nesta história.
– Por que está dizendo isso?
– Leia de novo. – Ela lhe entregou a carta. – Apendicite.
– E daí?
– Kurt j á tinha rem ovido o apêndice.
– Eu m e lem bro – falou o pai. – Ele passou por um a cirurgia de em ergência logo depois de com pletar 6 anos.
À dor de Carla m isturava-se um a desconfiança irritada. Será que Kurt tinha m orrido por causa de algum a experiência perigosa que o hospital agora estava tentando acobertar?
– Por que eles iriam m entir? – perguntou ela.
Erik bateu com o punho na m esa.
– Por que vocês estão dizendo que é m entira? – bradou. – Por que sem pre acusam o governo? Está claro que isto é um erro! Algum datilógrafo se enganou ao copiar o texto!
Mas Carla não tinha tanta certeza.
– Um datilógrafo que trabalha num hospital provavelm ente sabe o que é um apêndice.
– Você está se aproveitando desta tragédia pessoal para atacar as autoridades! – disse Erik, furioso.
– Calados, vocês dois – ordenou Walter.
Os dois filhos olharam para ele. Havia um tom diferente em sua voz.
– Erik talvez tenha razão – ponderou. – Se for assim , o hospital não vai criar problem as para responder às nossas perguntas e fornecer m ais detalhes sobre as m ortes de Kurt e Axel.
– É claro que não – concordou Erik.
– E, se quem tiver razão for Carla – prosseguiu Walter –, eles vão tentar im pedir as investigações, guardar inform ações e intim idar os pais das crianças m ortas sugerindo que suas perguntas são inj ustificadas.
Tal sugestão deixou Erik m enos à vontade.
Meia hora antes, Walter era um hom em m urcho. Agora, por algum m otivo, parecia ter ganhado corpo outra vez.
– Vam os descobrir assim que com eçarm os a fazer perguntas.
– Vou fazer um a visita a Frieda – disse Carla.
– Você não tem que trabalhar? – indagou sua m ãe.
– Hoj e estou no plantão da noite.
Carla telefonou para Frieda, contou-lhe que Kurt tam bém havia m orrido e disse que estava indo lá para conversar sobre o assunto. Vestiu o sobretudo, pôs o chapéu e as luvas e em purrou a bicicleta até o lado de fora da casa. Era um a ciclista veloz, e levou apenas 15 m inutos para chegar à residência dos Franck, em Schöneberg.
O m ordom o a deixou entrar e disse que a fam ília ainda estava reunida na sala de j antar. Assim que ela pôs os pés no côm odo, o pai de Frieda, Ludwig Franck, perguntou-lhe aos berros:
– O que disseram a vocês lá no Sanatório Infantil Wannsee?
Carla não gostava m uito de Ludwig. Era um hom em truculento, de direita, e havia apoiado os nazistas nos prim eiros tem pos. Talvez tivesse m udado de opinião – àquela altura, m uitos em presários j á não pensavam com o antes –, m as não dem onstrava a hum ildade que deveria acom panhar o fato de ter estado tão errado.
Ela não respondeu im ediatam ente. Sentou-se à m esa e olhou para a fam ília reunida: Ludwig, Monika, Werner e Frieda, o m ordom o parado ao fundo. Organizou as ideias.
– Vam os, m enina, diga! – exigiu Ludwig. Estava zangado e agitava no ar um a carta m uito parecida com a de Ada.
Monika levou a m ão ao braço do m arido para contê-lo.
– Calm a, Ludi.
– Eu quero saber! – bradou ele.
Carla encarou seu sem blante rosado e seu bigodinho preto. Viu que ele estava transtornado de tristeza. Em qualquer outra circunstância, teria se recusado a conversar com alguém tão grosseiro. Mas Ludwig tinha um a desculpa para o m au com portam ento, e ela resolveu deixar passar.
– O diretor, professor Willrich, nos disse que havia um novo tratam ento para a doença de Kurt.
– O m esm o que disse a nós – falou Ludwig. – Que tipo de tratam ento?
– Eu lhe fiz essa m esm a pergunta, m as ele alegou que eu não seria capaz de entender. Quando insisti, ele disse que o tratam ento envolvia rem édios, m as não deu inform ações m ais detalhadas. Posso ver sua carta, Herr Franck?
A expressão de Ludwig lhe deu a entender que era ele quem deveria estar fazendo as perguntas, m as m esm o assim ele entregou o papel a Carla.
A carta era exatam ente igual à de Ada, e a m oça teve um a sensação esquisita de que o datilógrafo tinha escrito várias delas, m udando apenas os nom es.
– Com o é possível dois m eninos terem m orrido de apendicite ao m esm o tem po? – indagou Franck. – Não é um a doença contagiosa.
– Kurt com certeza não m orreu de apendicite, pois não tinha apêndice – disse Carla. – Foi rem ovido há dois anos.
– Certo – disse Ludwig. – Chega de conversa. – Ele arrancou a carta da m ão de Carla. – Vou falar com alguém do governo sobre isso. – Ele saiu.
Monika foi atrás do m arido, seguida pelo m ordom o.
Carla foi até Frieda e segurou sua m ão.
– Eu sinto m uito – falou.
– Obrigada – respondeu Frieda com um sussurro.
Carla foi até Werner. Ele se levantou e a abraçou. Ela sentiu um a lágrim a cair em sua testa. Foi dom inada por um a forte em oção que não soube identificar m uito bem . Tinha o coração triste, m as a pressão do corpo de Werner contra o seu e o toque suave de suas m ãos a deixaram anim ada.
Depois de vários instantes, Werner deu um passo atrás.
– Meu pai ligou duas vezes para o hospital – falou, zangado. – Da segunda vez, disseram que não tinham m ais nenhum a inform ação e desligaram na cara dele. Mas vou descobrir o que aconteceu com m eu irm ão, e ninguém vai m e dispensar.
– Descobrir não vai trazê-lo de volta – declarou Frieda.
– Mesm o assim , eu quero saber. Se for preciso, irei até Akelberg.
– Fico m e perguntando se há alguém em Berlim que possa nos aj udar – disse Carla.
– Teria de ser alguém do governo – falou Werner.
– O pai de Heinrich trabalha no governo – lem brou Frieda.
Werner estalou os dedos.
– É claro! Antigam ente ele era do Partido do Centro, m as agora é nazista, e tem um cargo im portante no Ministério das Relações Exteriores.
– Será que Heinrich nos levaria para conversar com ele? – indagou Carla.
– Se Frieda pedir, sim – respondeu Werner. – Ele faz qualquer coisa por Frieda.
Carla não duvidava disso. Heinrich sem pre fora m uito intenso em tudo o que fazia.
– Vou ligar para ele agora m esm o – disse Frieda.
Ela foi até o hall. Carla e Werner sentaram -se lado a lado. Ele pôs o braço em volta dela, e ela encostou a cabeça em seu om bro. Carla não soube dizer se essas m ostras de afeição eram apenas um efeito colateral da tragédia ou se tinham outro significado.
Frieda voltou a entrar na sala e disse:
– Se form os até lá im ediatam ente, o pai de Heinrich pode falar conosco agora m esm o.
Entraram todos no carro esporte de Werner, esprem endo-se no banco da frente.
– Não sei com o você consegue m anter este carro funcionando – com entou Frieda quando o irm ão com eçou a dirigir. – Nem papai consegue gasolina para uso particular.
– Digo ao m eu chefe que é para assuntos oficiais – respondeu Werner, que trabalhava para um general im portante. – Mas não sei por quanto tem po ainda ele vai engolir essa história.
A fam ília Von Kessel m orava no m esm o subúrbio que os Franck. Werner levou cinco m inutos para chegar lá.
Em bora m enor que a dos Franck, a residência dos Von Kessel era luxuosa. Heinrich foi recebê-los na porta e os conduziu até um a sala de estar cheia de livros encadernados em couro e com um a antiga escultura alem ã em m adeira representando um a águia.
Frieda o cum prim entou com um beij o.
– Obrigada por fazer isso – disse ela. – Não deve ter sido fácil... sei que você não se dá m uito bem com seu pai.
Heinrich ficou radiante de prazer.
A m ãe dele lhes ofereceu café e bolo. Parecia um a pessoa afetuosa, sim ples. Depois de servi-los, retirou-se com o se fosse um a criada.
Então Gottfried, pai de Heinrich, entrou na sala. Tinha os m esm os cabelos grossos e lisos do filho, só que grisalhos.
– Pai, estes são Werner e Frieda Franck. O pai deles fabrica os “Rádios do Povo” – apresentou Heinrich.
– Ah, sim – disse Gottfried. – Já vi seu pai no Herrenklub.
– E esta é Carla von Ulrich... acredito que o senhor tam bém conheça o pai dela.
– Fom os colegas na em baixada alem ã de Londres – respondeu Gottfried com cautela. – Em 1914.
Ele claram ente não estava feliz em ter sido lem brado de sua antiga associação com um social-dem ocrata. Pegou um pedaço de bolo, deixou-o cair desastradam ente em cim a do tapete, tentou sem sucesso recolher as m igalhas, então desistiu e se recostou na cadeira.
Do que será que ele tem m edo?, pensou Carla.
Heinrich foi direto ao m otivo da visita:
– Pai, im agino que o senhor j á tenha ouvido falar em Akelberg.
Carla observava Gottfried com atenção. Algo atravessou seu sem blante por um a fração de segundo, m as ele logo adotou um a expressão indiferente.
– Um a cidadezinha na Bavária? – falou.
– Tem um hospital lá – disse Heinrich. – Para deficientes m entais.
– Não m e lem bro de ter ouvido falar disso.
– Desconfiam os que algum a coisa estranha estej a acontecendo por lá, e estávam os nos perguntando se o senhor estaria a par.
– É claro que não. O que está acontecendo por lá?
Werner entrou na conversa:
– Meu irm ão m orreu nesse hospital, de apendicite, ao que parece. O filho da criada dos Von Ulrich m orreu no m esm o dia, no m esm o hospital, da m esm a doença.
– Que tristeza... Mas deve ser coincidência, não?
– O filho da m inha criada não tinha apêndice – disse Carla. – Ele foi subm etido a um a cirurgia para retirá-lo há dois anos.
– Entendo que vocês estej am ansiosos para averiguar o que aconteceu – disse Gottfried. – A versão fornecida é m uito insatisfatória. Mas a explicação m ais provável é que haj a um erro no docum ento.
– Neste caso, gostaríam os de ter certeza – disse Werner.
– É claro. Já escreveram para o hospital?
– Escrevi um a vez perguntando quando m inha criada poderia visitar o filho – disse Carla. – Ninguém nunca respondeu.
– Meu pai ligou para o hospital hoj e de m anhã – disse Werner. – O chefe da equipe m édica bateu o telefone na cara dele.
– Puxa. Que falta de educação. Mas vocês sabem que isso não chega a ser um assunto para o Ministério das Relações Exteriores.
Werner inclinou o corpo para a frente.
– Herr Von Kessel, seria possível que os dois m eninos estivessem envolvidos num experim ento secreto que deu errado?
– Não, im possível – respondeu ele, e Carla teve a sensação de que era verdade. – Isso com certeza não está acontecendo. – Sua voz soava aliviada.
As perguntas de Werner pareciam ter se esgotado, m as Carla não estava satisfeita. Perguntou-se por que Gottfried parecia tão feliz com a garantia que acabara de dar. Será que estava escondendo algo ainda pior?
Ocorreu-lhe um a possibilidade tão terrível que ela m al conseguiu concebê-la.
– Bem , se for só isso... – disse Gottfried.
– O senhor tem certeza de que eles não m orreram por causa de um a terapia experim ental que deu errado? – indagou Carla.
– Certeza absoluta.
– Para ter tanta certeza de que não foi por isso, o senhor deve ter algum a ideia do que de fato está acontecendo em Akelberg.
– Não necessariam ente – disse ele, m as toda a sua tensão havia retornado, e ela percebeu que havia tocado num ponto sensível.
– Eu m e lem bro de ter visto um cartaz nazista – prosseguiu ela. Fora essa a lem brança que desencadeara a terrível ideia que acabara de ter. – Mostrava um enferm eiro ao lado de um deficiente m ental. O texto dizia algo com o “Sessenta m il m arcos alem ães: é o que essa pessoa portadora de um defeito hereditário custa para nossa sociedade durante a vida. Com panheiro, esse dinheiro é seu tam bém !” Acho que era um anúncio num a revista.
– Já vi propagandas desse tipo – disse Gottfried com desdém , com o se aquilo não tivesse nada a ver com ele.
Carla se levantou.
– Herr Von Kessel, o senhor é católico e criou Heinrich segundo os preceitos da fé cristã.
– Heinrich agora diz que é ateu – disse Gottfried, com um m uxoxo de desdém .
– Mas o senhor não é. E considera a vida hum ana sagrada.
– Sim , considero.
– Está nos dizendo que os m édicos de Akelberg não estão testando novas e perigosas terapias nos deficientes, e acredito no senhor.
– Obrigado.
– Mas eles por acaso estão fazendo outra coisa? Algo ainda pior?
– Não, não.
– Eles estão matando os deficientes de propósito?
Gottfried balançou a cabeça em silêncio.
Carla chegou m ais perto dele e baixou a voz, com o se houvesse apenas os dois na sala:
– Com o um católico que considera a vida hum ana sagrada, o senhor seria capaz de pôr a m ão no coração e m e dizer que crianças deficientes m entais não estão sendo assassinadas em Akelberg?
Gottfried sorriu, fez um gesto tranquilizador e abriu a boca para falar, m as não conseguiu pronunciar um a palavra sequer.
Carla se aj oelhou no tapete diante dele.
– Pode fazer isso agora, por favor? Neste instante? Aqui na sua casa estão quatro j ovens alem ães, seu filho e três am igos. Conte-nos a verdade, é só o que lhe pedim os. Olhe nos m eus olhos e diga que o seu governo não m ata crianças deficientes.
O silêncio na sala era total. Gottfried pareceu prestes a dizer algum a coisa, m as m udou de ideia. Fechou os olhos com força, torceu a boca num esgar e então baixou a cabeça. Os quatro j ovens ficaram observando, com assom bro, seu rosto contorcido.
Por fim , ele abriu os olhos. Olhou para cada um deles, e por últim o encarou o próprio filho.
Então se levantou e saiu da sala.