Inverno do Mundo

Ken Follett · Capítulo 139 de 153

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Inverno do Mundo

Capítulo III

– Talvez – respondeu o russo. – Estudei na Alem anha quando criança... na Academ ia para Meninos de Berlim .

Greg fez que não com a cabeça.

– Já foi aos Estados Unidos?

– Não.

– Esse é o cara com o sobrenom e igual ao seu – disse Lloy d. – Volody a Peshkov.

– Talvez sej am os parentes – disse Greg. – Meu pai, Lev Peshkov, em igrou em 1914, deixando na Rússia um a nam orada grávida que se casou com o irm ão m ais velho dele, Grigori Peshkov. Será que sou seu m eio-irm ão?

A atitude de Volody a m udou na m esm a hora.

– Com certeza não – respondeu. – Queiram m e dar licença. – E saiu do bar sem com prar nenhum a bebida.

– Que reação m ais brusca – com entou Greg com Lloy d.

– Foi m esm o – concordou o inglês.

– Ele pareceu bem chocado.

– Deve ter sido algum a coisa que você disse.

 

III

Não podia ser verdade, pensou Volody a.

Segundo Greg, Grigori tinha se casado com um a m oça que estava grávida de Lev. Se fosse isso m esm o, o hom em que Volody a sem pre cham ara de pai na verdade era seu tio.

Talvez fosse só coincidência. Ou então o am ericano estivesse apenas tentando criar confusão.

Mesm o assim , Volody a estava com pletam ente tonto de choque.

Voltou para casa na hora de sem pre. Ele e Zoy a eram um casal em franca ascensão e tinham ganhado um apartam ento no Prédio do Governo, a m esm a construção de luxo onde seus pais m oravam . Com o faziam quase todas as noites, Grigori e Katerina foram ao apartam ento do filho na hora do j antar de Koty a. Katerina deu banho no neto, depois Grigori cantou para ele e contou-lhe histórias de fadas russas. Koty a estava com 9 m eses e ainda não falava, m as m esm o assim parecia gostar de ouvir histórias na hora de dorm ir.

Volody a seguiu sua rotina noturna com o se fosse um sonâm bulo. Tentou se com portar norm alm ente, m as constatou que m al conseguia conversar com o pai ou com a m ãe. Apesar de não acreditar na história de Greg, não parava de pensar naquele assunto.

Depois de Koty a dorm ir, quando os avós estavam se preparando para ir em bora, Grigori perguntou ao filho:

– Por acaso estou com um a verruga no nariz?

– Não.

– Então por que passou a noite inteira m e encarando?

Volody a decidiu contar a verdade:

– Conheci um rapaz cham ado Greg Peshkov. Ele faz parte da delegação am ericana. Acha que som os parentes.

– É possível. – O tom de voz de Grigori foi casual, com o se aquilo não tivesse m uita im portância, m as Volody a viu que o pescoço do pai ficou verm elho, um sinal de em oção contida. – A últim a vez que vi m eu irm ão foi em 1919. Desde então, não tive m ais notícias.

– O pai de Greg se cham a Lev e tem um irm ão cham ado Grigori.

– Então esse Greg deve ser seu prim o.

– Ele disse que é m eu m eio-irm ão.

Grigori enrubesceu m ais ainda e não falou nada.

– Com o isso seria possível? – interveio Zoy a.

– Segundo esse Peshkov am ericano, Lev deixou um a nam orada grávida em São Petersburgo, e ela se casou com o irm ão dele – explicou Volody a.

– Que coisa m ais ridícula! – exclam ou Grigori.

Volody a olhou para Katerina.

– Mãe, a senhora não disse nada.

Houve um a pausa dem orada. Só isso j á era significativo. Se a história de Greg não tivesse fundam ento, por que seus pais precisavam pensar? Um frio estranho se abateu sobre Volody a, com o um a névoa gelada.

Por fim , sua m ãe falou:

– Eu era um a m oça volúvel. – Olhou para Zoy a. – Não tinha a cabeça no lugar com o a sua m ulher. – Então suspirou. – Grigori Peshkov se apaixonou por m im à prim eira vista... um bobo, coitadinho. – Ela deu um sorriso carinhoso para o m arido. – Mas o irm ão dele, Lev, tinha roupas vistosas, dinheiro para com prar vodca, am igos gângsteres. Gostei m ais de Lev. Fui ainda m ais boba.

– Então é verdade? – indagou Volody a, estupefato. Parte dele ainda esperava desesperadam ente ouvi-los negar.

– Lev fez o que hom ens desse tipo sem pre fazem – disse Katerina. – Me engravidou e depois m e abandonou.

– Então Lev é m eu pai. – Volody a olhou para Grigori. – E o senhor é só m eu tio! – Teve a sensação de que poderia cair. O chão sob seus pés havia estrem ecido. Parecia um terrem oto.

Zoy a postou-se ao lado da cadeira de Volody a e pôs a m ão em seu om bro, com o se quisesse acalm á-lo, ou talvez contê-lo.

– E Grigori fez o que hom ens com o Grigori sem pre fazem – continuou Katerina. – Cuidou de m im . Casou-se com igo, m e deu am or e sustentou m eus filhos e a m im . – Sentada no sofá ao lado de Grigori, ela segurou sua m ão. – Eu não o queria e certam ente não o m erecia, m as m esm o assim Deus o deu a m im .

– Tive m edo de que esse dia chegasse – disse Grigori. – Desde que você nasceu, tive m edo.

– Então por que o segredo? – perguntou Volody a. – Por que vocês sim plesm ente não m e disseram a verdade?

Grigori engasgara e foi com dificuldade que respondeu:

– Eu não podia suportar a ideia de lhe contar que não era seu pai. Am o você dem ais.

– Deixe eu lhe dizer um a coisa, m eu filho am ado – interveio Katerina. – Ouça o que vou falar agora, e pouco m e im porta se nunca m ais escutar nada do que sua m ãe disser. Esqueça esse desconhecido nos Estados Unidos que há m uito tem po seduziu um a m enina boba. Olhe para o hom em sentado na sua frente com os olhos cheios de lágrim as.

Volody a olhou para Grigori e viu em seu rosto um a expressão de súplica que tocou seu coração.