Inverno do Mundo
Capítulo IV
Carla ficou desapontada com o fim precoce do m om ento de intim idade entre eles, em bora não soubesse o que estava esperando. Seguiu Werner porta afora. Pegou a bolsa no quarto de Frieda e desceu até o térreo.
Enquanto segurava a porta da frente, Werner falou:
– Estou feliz por serm os am igos outra vez.
– Eu tam bém .
– Você acha que vam os conseguir esquecer esse período de afastam ento?
Ela não entendeu o que ele queria dizer. Será que pretendia voltar a ser seu nam orado? Ou, ao contrário, estaria lhe dizendo que isso estava fora de cogitação?
– Acho que podem os deixar isso para trás – respondeu, neutra.
– Ótim o. – Ele se curvou e deu um beij o rápido nos lábios dela. Então abriu a porta.
Os dois saíram da casa j untos, e ele subiu na m oto.
Carla desceu o acesso da casa até a rua e tom ou o cam inho da estação. Instantes depois, Werner passou por ela, buzinou e acenou.
Agora que estava sozinha, ela podia com eçar a pensar na revelação que Werner lhe fizera. Com o se sentia? Passara dois anos o odiando. No entanto, em todo esse tem po, não tivera nenhum nam orado sério. Continuaria apaixonada por ele? Apesar de tudo, tinha conservado ao m enos algum sentim ento de carinho por ele. E hoj e, ao vê-lo tão abalado, toda a sua hostilidade havia desaparecido. Podia sentir o afeto aquecê-la por dentro.
Será que ainda o am ava?
Não sabia dizer.
IV
Macke estava sentado no banco de trás do Mercedes preto, com Werner a seu lado. Trazia no om bro um a bolsa parecida com um a m ochila de colegial, só que a usava na frente do corpo, não atrás. Era pequena o bastante para ser ocultada por um sobretudo abotoado. Um fio fino a ligava a um pequeno fone de ouvido.
– É de últim a geração – explicou Macke. – Conform e você vai chegando m ais perto do transm issor, o som fica m ais alto.
– E é m ais discreto do que um a cam inhonete com um a antena enorm e no teto – disse Werner.
– Tem os que usar as duas coisas... a cam inhonete para identificar a área, e isto aqui para determ inar a localização exata.
Macke estava encrencado. A Operação Cidadela tinha sido um desastre. Mesm o antes do início da ofensiva, o Exército Verm elho atacara os cam pos de pouso onde a Luftwaffe se concentrava. A operação fora interrom pida após um a sem ana, m as, ainda assim , j á era tarde para evitar danos irreparáveis ao Exército alem ão.
Sem pre que algo saía errado, os líderes alem ães se apressavam em pôr a culpa em conspiradores j udeus-bolcheviques. Nesse caso, porém , tinham razão. O Exército Verm elho parecia conhecer de antem ão todo o plano de batalha. E isso, segundo o superintendente Kringelein, era culpa de Thom as Macke. Ele era o chefe da contraespionagem em Berlim . Sua carreira estava por um fio. Ele corria o risco de ser dem itido, ou coisa pior.
Sua única esperança era um golpe genial, um a operação de grandes proporções para prender os espiões que estavam sabotando o esforço de guerra alem ão. Nessa noite, portanto, havia m ontado um a arm adilha para Werner Franck.
Se o rapaz se revelasse inocente, não sabia o que iria fazer.
No banco da frente do carro, um walkie-talkie chiou. O pulso de Macke se acelerou. O m otorista pegou o aparelho.
– Wagner falando. – Ele deu a partida no m otor. – Estam os a cam inho. Câm bio e desligo.
Pronto; havia com eçado.
– Para onde estam os indo? – perguntou Macke a Wagner.
– Kreuzberg. – Era um bairro de aluguéis baratos densam ente povoado ao sul do centro de Berlim .
Quando estavam se afastando do m eio-fio, um alerta de ataque aéreo soou.
Aquilo era um a com plicação indesej ada. Macke olhou pela j anela. Os holofotes se acenderam , acenando com o as m ãos de um gigante. Im aginava que eles às vezes localizassem aviões, m as nunca vira isso acontecer. Quando as sirenes pararam de tocar, pôde ouvir o barulho de bom bardeiros se aproxim ando. Nos prim eiros anos da guerra, as m issões de bom bardeio britânicas eram form adas por algum as dezenas de aeronaves – o que j á era bem ruim –, m as agora elas chegavam às centenas. Mesm o antes de as bom bas com eçarem a cair, o barulho era aterrorizante.
– Acho m elhor cancelarm os nossa m issão de hoj e – disse Werner.
– De j eito nenhum – retrucou Macke.
O rugido das aeronaves ficou m ais alto.
À m edida que o carro se aproxim ava de Kreuzberg, sinalizadores e pequenas bom bas incendiárias com eçavam a cair. A atual estratégia da RAF era m atar o m aior núm ero possível de civis operários de fábrica, e aquele bairro popular era um alvo típico. Com um a hipocrisia espantosa, Churchill e Attlee afirm avam atacar apenas alvos m ilitares, e diziam que as baixas civis eram um lam entável efeito colateral. Mas os berlinenses sabiam a verdade.
Wagner seguiu dirigindo o m ais rápido que pôde por ruas ilum inadas pelos clarões das cham as. Com exceção dos encarregados da defesa antiaérea, não havia ninguém à vista: por lei, todos eram obrigados a buscar abrigo. Os únicos outros veículos em circulação eram am bulâncias, carros de bom beiros e viaturas da polícia.
Macke observava Werner com discrição. O rapaz estava nervoso e não parava quieto, olhando ansiosam ente pela j anela e batendo com o pé no chão do carro, num gesto inconsciente de tensão.
O inspetor só com partilhara suas suspeitas com a equipe m ais próxim a. Seria difícil adm itir que havia revelado o funcionam ento das operações da Gestapo para alguém que agora acreditava ser um espião. Poderia acabar interrogado na sua própria câm ara de torturas subterrânea. Só agiria se tivesse certeza. A única form a de conseguir se safar seria apresentando a seus superiores um espião capturado.
No entanto, caso suas suspeitas tivessem fundam ento, prenderia não apenas Werner, m as tam bém seus parentes e am igos, e poderia anunciar o desm antelam ento de um a rede inteira de espiões. Isso reverteria a situação. Ele poderia até ser prom ovido.
O ataque prosseguiu, e o tipo de bom ba lançada m udou. Macke com eçou a ouvir o baque surdo de explosivos de alta potência. Depois que o alvo era ilum inado, a RAF gostava de lançar um a m istura de grandes bom bas de gasolina para deflagrar incêndios e explosivos de alta potência para ventilar as cham as e retardar a ação dos serviços de em ergência. Era um a estratégia cruel, m as Macke sabia que os procedim entos de bom bardeio da Luftwaffe eram parecidos.
O ruído em seu fone de ouvido com eçou quando eles entraram cautelosam ente por um a rua de casas de côm odos de cinco andares. A área estava sendo fortem ente alvej ada e vários prédios haviam acabado de ruir.
– Pelo am or de Deus, estam os bem no m eio da área bom bardeada – disse Werner com a voz trêm ula.
Macke não se im portava com isso. Para ele, a m issão dessa noite j á era m esm o um a questão de vida ou m orte.
– Melhor assim – retrucou. – O pianista não vai se preocupar com a Gestapo no m eio de um ataque aéreo.
Wagner parou o carro j unto de um a igrej a em cham as e apontou para um a rua lateral.
– Ali – falou.
Macke e Werner saltaram .
O inspetor seguiu depressa pela rua, com Werner ao seu lado e Wagner logo atrás.
– Tem certeza de que é um espião? – perguntou o rapaz. – Não poderia ser algum a outra coisa?
– Algum a outra coisa em itindo um sinal de rádio? – retrucou Macke. – O que m ais poderia ser?
Ainda podia escutar o ruído no fone, em bora precisasse se esforçar, por causa da cacofonia do bom bardeio: os aviões, as bom bas, a artilharia antiaérea, o estardalhaço de prédios caindo e o rugido das cham as de incêndios de grandes proporções.
Os três passaram por um estábulo onde cavalos aterrorizados relinchavam , e o sinal ficou ainda m ais forte. Werner olhava para um lado e para outro, nervoso. Se fosse espião, agora estaria com m edo de que um de seus com panheiros fosse capturado pela Gestapo – e perguntando-se o que poderia fazer em relação a isso. Será que iria repetir o m esm o truque da últim a vez? Ou pensaria em algum outro j eito de dar o alerta? Por outro lado, se Werner não fosse um espião, toda aquela farsa seria perda de tem po.
Macke tirou o fone do ouvido e o entregou a Werner.
– Escute – falou, sem parar de andar.
Werner assentiu.
– Está ficando m ais forte – falou.
A expressão de seus olhos era quase transtornada. Ele devolveu o fone.
Acho que peguei você, pensou Macke, triunfante.
Um estrondo ensurdecedor se fez ouvir quando um a bom ba atingiu o prédio pelo qual os três haviam acabado de passar. Quando se viraram , as cham as j á lam biam o interior de um a padaria, por trás das j anelas quebradas.
– Meu Deus, essa foi por pouco – com entou Wagner.
Chegaram a um a escola, um prédio baixo de tij olos, cercado por um pátio de asfalto.
– Acho que ele está lá dentro – disse Macke.
Os três subiram um curto lanço de degraus de pedra até a entrada. A porta estava destrancada. Entraram .
Estavam no com eço de um largo corredor. Na outra extrem idade, um a porta grande provavelm ente conduzia ao refeitório.
– Em frente – ordenou Macke.
Ele sacou a pistola, um a Luger 9m m .
Werner estava desarm ado.
Ouviu-se o barulho de algo se quebrando, um baque, e depois o rugido de um a explosão, tudo assustadoram ente próxim o. As j anelas do corredor se estilhaçaram , e cacos de vidro choveram sobre o chão de laj otas. Um a bom ba devia ter caído no pátio.
– Vam os sair daqui! – gritou Werner. – O prédio vai desabar.
Macke podia ver que não havia risco algum de o prédio desabar. Aquilo era apenas um subterfúgio do rapaz para alertar o pianista.
Werner com eçou a correr, m as, em vez de voltar pelo cam inho pelo qual haviam entrado, seguiu pelo corredor em direção ao refeitório.
Para avisar os am igos, pensou Macke.
Wagner sacou a arm a, m as o inspetor disse:
– Não! Não atire!
Werner chegou ao fim do corredor e abriu a porta do refeitório com um safanão.
– Fuj am daqui! – berrou.
Então parou e ficou calado.
Dentro do refeitório, Mann, o engenheiro eletricista que trabalhava com Macke, digitava m ensagens sem sentido num rádio portátil.
A seu lado estavam Schneider e Richter, am bos de arm a em punho.
Macke deu um sorriso triunfante. Werner tinha caído direitinho na sua arm adilha.
Wagner deu um passo à frente e encostou a arm a na cabeça do rapaz.
– Você está preso, seu bolchevique sub-hum ano – disse Macke.
Werner agiu depressa. Com um m ovim ento brusco, afastou a cabeça da arm a de Wagner, segurou o braço do agente e puxou-o para dentro do refeitório. Por alguns instantes, Wagner lhe serviu de escudo, protegendo-o das arm as dos outros dois. Então Werner em purrou o agente para longe, fazendo-o cam balear e cair. Um segundo depois, saiu do refeitório correndo e bateu a porta.
Durante alguns instantes, Macke e Werner ficaram sozinhos no corredor.
O rapaz avançou na direção do inspetor.
Macke em punhou a Luger.
– Pare ou eu atiro!
– Você não vai atirar – disse Werner, chegando m ais perto. – Precisa m e interrogar e descobrir quem são os outros.
Macke apontou a arm a para as pernas de Werner.
– Mas posso interrogá-lo com um a bala no j oelho – falou, e atirou.
Mas não acertou.
Werner se esticou para a frente e afastou a pistola de Macke com um safanão. O inspetor deixou cair a arm a. Quando se abaixou para pegá-la, Werner passou por ele correndo.