Inverno do Mundo
Capítulo III
O que leu o deixou horrorizado.
A propaganda de ódio aos alem ães ia m uito além de tudo o que ele j á tinha lido. “Se você não m atou pelo m enos um alem ão por dia, pode considerar esse dia desperdiçado.” “Se estiver esperando para lutar, m ate um alem ão antes do com bate. Se m atar um alem ão, m ate outro – não há nada m ais divertido do que um a pilha de cadáveres de alem ães. Mate o alem ão – é o que suplica sua m ãe. Mate o alem ão – é isso que seus filhos im ploram que faça. Mate o alem ão – é esse o grito de sua terra russa. Não hesite. Não desista. Mate.”
Volody a ficou m eio enj oado com aquilo. No entanto, a m ensagem im plícita era ainda pior. O autor do artigo dizia que não havia problem a em pilhar: “As m ulheres alem ãs estarão perdendo casacos de pele e colheres de prata que j á foram roubados.” E havia um a piada indireta sobre estupro: “Os soldados soviéticos não recusam os favores das alem ãs.”
Soldados j á não eram os hom ens m ais civilizados do m undo. O com portam ento dos alem ães durante a invasão de 1941 deixara todos os russos enfurecidos. O governo alim entava sua ira com aquele incentivo à vingança. E agora o j ornal do Exército deixava claro que eles podiam fazer o que quisessem com os alem ães derrotados.
Aquilo era um a verdadeira receita para o Apocalipse.
III
Erik von Ulrich estava ansioso para que a guerra acabasse.
Junto com o am igo Herm ann Braun e seu chefe, o Dr. Weiss, m ontou um hospital de cam panha num a pequena igrej a protestante. Depois ficaram sentados na nave, sem nada para fazer exceto esperar as am bulâncias puxadas a cavalo chegarem carregadas de soldados terrivelm ente m utilados e queim ados.
O Exército alem ão havia reforçado as colinas de Seelow, com vista para o rio Oder no ponto em que este passava m ais perto de Berlim . O hospital de cam panha de Erik ficava a cerca de um quilôm etro e m eio da linha de com bate.
Segundo o Dr. Weiss, que tinha um am igo na inteligência do Exército, 110 m il alem ães defendiam Berlim contra um m ilhão de soviéticos. Com seu sarcasm o habitual, o m édico disse:
– Mas nosso m oral está elevado, e Adolf Hitler é o m aior gênio da história m ilitar, então com certeza vam os vencer.
Não havia nenhum a esperança, m as os soldados alem ães continuavam lutando bravam ente. Erik achava que isso se devia às histórias que ouviam sobre o com portam ento do Exército Verm elho. Prisioneiros eram m ortos, casas saqueadas e destruídas, m ulheres estupradas e crucificadas em portas de celeiros. Os alem ães acreditavam estar defendendo suas fam ílias da brutalidade com unista. A propaganda de ódio do Krem lin estava produzindo o efeito contrário.
Erik ansiava pela derrota. Queria que aquela m atança term inasse. Tudo o que desej ava era voltar para casa.
Logo teria seu desej o realizado – ou então seria m orto.
Estava dorm indo num dos bancos de m adeira da igrej a quando foi acordado pela artilharia russa, às três da m anhã de segunda-feira, 16 de abril. Já ouvira outros bom bardeios, m as aquele barulho era dez vezes m ais alto que qualquer outro de que se lem brasse. Para os soldados no front, devia ser literalm ente ensurdecedor.
Os feridos com eçaram a chegar ao am anhecer, e a equipe iniciou o trabalho, desanim ada, am putando m em bros, recolocando ossos quebrados no lugar, extraindo balas, lim pando e fazendo curativos em ferim entos. Faltava de tudo, de rem édios a água lim pa, e eles só aplicavam m orfina em vítim as que estivessem berrando de dor.
Os soldados ainda capazes de andar e segurar um a arm a eram m andados de volta para o front.
Os defensores alem ães resistiram por m ais tem po do que o Dr. Weiss im aginou. Ao final do prim eiro dia, continuavam m antendo a posição e, quando escureceu, o fluxo de feridos dim inuiu. Nessa noite, a unidade m édica pôde dorm ir um pouco.
Bem cedo no dia seguinte, Werner Franck foi levado à igrej a, com o pulso direito horrivelm ente esm agado.
Ele agora era capitão e estava encarregado de um setor da frente de com bate equipado com trinta peças de artilharia antiaérea de 88m m .
– Só tínham os oito proj éteis para cada peça – contou ele, enquanto os dedos ágeis do Dr. Weiss trabalhavam lenta e m eticulosam ente para pôr no lugar seus ossos esm agados. – Nossa ordem era disparar sete deles contra os tanques russos e usar o últim o para destruir nossa própria peça de artilharia, a fim de im pedir que ela fosse usada pelos verm elhos. – Ele estava de pé ao lado de um a das peças quando esta foi atingida diretam ente pela artilharia soviética e virou na sua direção. – Tive sorte de ter sido só a m ão. Poderia ter sido m inha cabeça.
Quando o curativo foi term inado, perguntou a Erik:
– Tem tido notícias de Carla?
Erik sabia que sua irm ã e Werner eram um casal.
– Há m uitas sem anas não recebo nenhum a carta.
– Nem eu. Ouvi dizer que a situação em Berlim está m uito ruim . Espero que ela estej a bem .
– Tam bém fico preocupado – disse Erik.
Surpreendentem ente, os alem ães ainda dem oraram m ais um dia e um a noite antes de entregar as colinas de Seelow.
O hospital de cam panha não recebeu nenhum aviso de que a linha de com bate tinha sido rom pida. Estavam fazendo a triagem de um novo lote de feridos quando sete ou oito soldados soviéticos entraram na igrej a. Um deles disparou um a raj ada de m etralhadora no teto abobadado. Erik e todos os outros que ainda eram capazes de se m exer se atiraram no chão.
Ao ver que ninguém ali estava arm ado, os russos relaxaram . Percorreram o recinto recolhendo relógios e anéis, e depois foram em bora.
Erik se perguntou o que aconteceria agora. Era a prim eira vez que ficava preso atrás das linhas inim igas. Será que deveria abandonar o hospital de cam panha e tentar alcançar seu próprio Exército que batia em retirada? Ou os pacientes estariam m ais seguros ali?
O Dr. Weiss foi enfático:
– Continuem trabalhando norm alm ente.
Alguns m inutos depois, um soldado soviético chegou trazendo um com panheiro no om bro. Apontando a arm a para Weiss, disse algum as palavras rápidas em russo. Ele parecia em pânico, e seu com panheiro estava todo ensanguentado.