Inverno do Mundo

Ken Follett · Capítulo 66 de 153

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Inverno do Mundo

Capítulo II

– Ela poderia estar fora da lista. O m ais provável, porém , é que não tenha dinheiro para um telefone.

– O senhor a viu desde 1935?

– Duas vezes. A prim eira foi há dois anos, não m uito longe daqui, na Rua E. A segunda foi há duas sem anas, a dois quarteirões deste café.

– Bom , ela com certeza não m ora neste bairro chique, então deve trabalhar aqui por perto. O senhor tem um a foto?

– Não.

– Lem bro-m e vagam ente dela. Bonita, pele escura, sorriso largo.

Greg assentiu, lem brando-se daquele sorriso radiante.

– Só quero o endereço dela para lhe m andar um a carta.

– Não preciso saber para que o senhor quer a inform ação.

– Melhor ainda. – Seria m esm o tão fácil?, pensou Greg.

– Cobro dez dólares a diária, m ínim o de dois dias, m ais as despesas.

Era m enos do que Greg im aginara. Ele pegou a carteira e entregou 20 dólares a Cranm er.

– Obrigado – disse o detetive.

– Boa sorte – falou Greg.

 

II

No sábado fez calor, então Woody e seu irm ão, Chuck, foram à praia.

Toda a fam ília Dewar estava em Washington. Tinham um apartam ento de nove côm odos perto do Hotel Ritz-Carlton. Chuck estava de licença da Marinha, seu pai trabalhava doze horas por dia no planej am ento da reunião de cúpula à qual se referia com o Conferência do Atlântico, e sua m ãe estava escrevendo um livro sobre prim eiras-dam as.

Woody e Chuck vestiram shorts e cam isas polo, pegaram toalhas, óculos escuros e j ornais e em barcaram num trem com destino à praia de Rehoboth, no litoral de Delaware. A viagem levou cerca de duas horas, m as aquele era o único lugar aonde ir num sábado de verão. A faixa de areia era larga, e um a brisa refrescante soprava do Atlântico. Além disso, havia m il garotas de roupa de banho.

Os dois irm ãos eram bem diferentes. Chuck era m ais baixo, tinha o corpo com pacto e atlético. Herdara a beleza e o sorriso arrebatador da m ãe. Fora m au aluno na escola, m as tam bém revelara ter a m esm a inteligência arguta da m ãe, sem pre encarando a vida de um ângulo inusitado. Era m elhor do que Woody em todos os esportes, m enos na corrida, na qual as pernas com pridas de Woody lhe davam velocidade, e no boxe, no qual os braços com pridos do irm ão tornavam quase im possível acertá-lo.

Em casa, Chuck não falava m uito sobre a Marinha, sem dúvida porque os pais ainda estavam bravos com ele por não ter ido para Harvard. No entanto, quando estava sozinho com Woody , ele se abria um pouco.

– O Havaí é incrível, m as estou m uito decepcionado por ter um a função em terra – disse ele. – Entrei na Marinha para ir para o m ar.

– O que exatam ente você está fazendo?

– Sou da unidade de inteligência telegráfica. Ficam os escutando m ensagens de rádio, sobretudo da Marinha Im perial j aponesa.

– Mas essas m ensagens não são em código?

– São, m as dá para saber m uita coisa m esm o sem decifrar os códigos. É o que cham am os de análise de tráfego. Um súbito aum ento do núm ero de m ensagens indica algum a ação im inente. E você aprende a identificar padrões no tráfego. Um desem barque anfíbio, por exem plo, tem um a configuração de sinais específica.

– Que interessante. Aposto que você é bom nisso.

Chuck deu de om bros.

– Sou só um funcionário burocrático, que anota e arquiva as transcrições. Mas não dá para evitar aprender o básico.

– E a vida social no Havaí?

– Muito divertida. Os bares da Marinha podem ser bem anim ados. O Café Gato Preto é o m elhor de todos. Tenho um bom am igo, Eddie Parry, e sem pre que podem os surfam os na praia de Waikiki. Tenho m e divertido bastante. Mas gostaria de estar em barcado.

Os dois nadaram no m ar frio do Atlântico, alm oçaram cachorros-quentes, tiraram fotos um do outro com a câm era de Woody e ficaram observando as m oças em roupas de banho até o sol com eçar a baixar. Quando estavam indo em bora, abrindo cam inho entre os banhistas, Woody viu Joanne Rouzrokh.

Não precisou olhar duas vezes. Ela era diferente de qualquer outra garota ali na praia; na verdade, era diferente de qualquer garota em todo o estado de Delaware. Não havia com o confundir aquelas m açãs do rosto pronunciadas, aquele nariz adunco, os fartos cabelos escuros, a pele da m esm a cor e com a textura sedosa de café com leite.

Sem hesitar, ele foi direto até ela.

Joanne estava absolutam ente deslum brante. O m aiô preto tinha alças finas que deixavam à m ostra o contorno elegante de seus om bros. As cavas retas na parte superior das coxas deixavam suas pernas com pridas e m orenas quase com pletam ente expostas.

Ele m al podia acreditar que um dia havia segurado aquela m ulher incrível nos braços e a beij ado com o se não houvesse am anhã.

Ela ergueu os olhos para ele, protegendo-os do sol.

– Woody Dewar! Não sabia que você estava em Washington.

Esse convite bastou. Ele se aj oelhou na areia ao seu lado. O sim ples fato de estar assim tão próxim o fez sua respiração se acelerar.

– Oi, Joanne. – Ele olhou de relance para a m oça roliça de olhos castanhos sentada ao lado dela. – Onde está seu m arido?

Ela soltou um a gargalhada.

– O que fez você achar que sou casada?

Ele ficou sem j eito.

– Fui a um a festa no seu apartam ento alguns anos atrás.

– Foi m esm o?

– Eu m e lem bro – disse a am iga. – Perguntei seu nom e, m as você não respondeu.

Woody não se lem brava daquela outra m oça.

– Desculpe ter sido tão m al-educado – disse ele. – Meu nom e é Woody Dewar, e este é Chuck, m eu irm ão.

A m oça de olhos castanhos apertou a m ão de am bos e disse:

– Diana Taverner.

Chuck sentou-se ao seu lado na areia, o que pareceu agradá-la: ele era um rapaz atraente, bem m ais bonito que Woody .

– Enfim , entrei na cozinha para procurar você, e um tal de Bexforth Ross se apresentou com o seu noivo – continuou Woody. – Deduzi que a esta altura você j á estivesse casada. Ou será um daqueles noivados que nunca term inam ?

– Deixe de ser bobo – disse ela, com um a leve irritação, e ele se lem brou de que ela não reagia m uito bem a provocações. – Com o estava praticam ente m orando no nosso apartam ento, Bexforth ficava dizendo a todo m undo que éram os noivos.

Woody ficou espantado. Será que isso queria dizer que Bexforth dorm ia lá? Com Joanne? Não era um a coisa rara, é claro, m as poucas m oças adm itiam isso.

– Foi ele quem falou em casam ento – prosseguiu ela. – Eu nunca aceitei.

Então ela era solteira. Woody não teria ficado m ais feliz se tivesse ganhado na loteria.

Talvez ela tivesse nam orado, alertou a si m esm o. Teria que descobrir. De toda form a, porém , um nam orado não era a m esm a coisa que um m arido.

– Estive em um a reunião com Bexforth alguns dias atrás – disse Woody. – Ele é um a figura im portante no Departam ento de Estado.

– Ele tem futuro, e vai encontrar um a m ulher m ais adequada que eu para ser esposa de um a figura im portante no Departam ento de Estado.

Seu tom indicava que ela não nutria nenhum afeto pelo ex-nam orado. Woody ficou satisfeito com isso, em bora não fosse capaz de explicar por quê.

Reclinou-se, apoiado no cotovelo. A areia estava quente. Teve certeza de que, se ela tivesse um nam orado sério, não dem oraria m uito para encontrar um j eito de m encioná-lo.

– Por falar em Departam ento de Estado, você ainda trabalha lá? – perguntou.

– Sim . Sou assistente do subsecretário para assuntos europeus.

– Que interessante.

– Neste m om ento, é m esm o.

Woody estava olhando para a linha em que o m aiô cortava as coxas dela e pensando que, por m enor que fosse a roupa que um a m oça estivesse usando, um hom em sem pre ficava im aginando as partes escondidas. Com eçou a ter um a ereção, então rolou e ficou de bruços para escondê-la.

Joanne percebeu a direção de seu olhar e disse:

– Gostou do m eu m aiô? – Ela sem pre fora m uito franca. Era um a de suas m uitas qualidades que ele j ulgava atraente.

Decidiu ser igualm ente sincero:

– Eu gosto de você, Joanne. Sem pre gostei.

Ela riu.

– Nada de rodeios, Woody ... Vá direto ao assunto!

À sua volta, as pessoas com eçavam a arrum ar suas coisas.

– É m elhor irm os em bora – disse Diana.

– Tam bém j á estávam os de saída – falou Woody . – Vam os pegar o trem j untos?

Aquela era a hora de ela dar um a desculpa educada para afastá-lo. Poderia facilm ente dizer: Ah, não, obrigada, podem ir na frente. Em vez disso, falou:

– Claro, por que não?

As m oças vestiram saídas de praia, j ogaram suas coisas dentro das bolsas, e, j untos, os quatro subiram a praia.

O trem estava lotado de banhistas com o eles, queim ados de sol, fam intos e sedentos. Woody com prou quatro Cocas na estação e as distribuiu quando o trem estava partindo.

– Você j á com prou um a Coca para m im num dia quente lá em Buffalo, lem bra? – disse Joanne.

– Naquela passeata. É claro que lem bro.

– Nós éram os duas crianças.

– Com prar Coca-Cola é um a técnica que costum o usar com m ulheres bonitas.

– E funciona? – perguntou ela, rindo.

– Nunca m e rendeu um beij o sequer.

– Bem , continue tentando – disse ela, erguendo a garrafa para um brinde.

Ele interpretou isso com o um incentivo, então falou:

– Quando chegarm os a Washington, vocês querem sair para com er um ham búrguer ou, sei lá, talvez ir ao cinem a?

Era a hora de ela dizer: Não, obrigada, vou sair com meu namorado.

– Eu gostaria – disse Diana depressa. – E você, Joanne?

– Claro.

Nada de nam orado – e um encontro m arcado! Woody tentou esconder a em polgação.

– Poderíam os assistir a Uma noiva caída do céu – sugeriu ele. – Ouvi dizer que é bem engraçado.

– Quem são os atores? – quis saber Joanne.

– Jam es Cagney e Bette Davis.

– Eu topo.

– Eu tam bém – disse Diana.

– Então com binado – disse Woody .

– E você, Chuck? – falou o irm ão m ais novo, zom bando. – Você tam bém topa? Ah, claro, topo sim . Foi m uita gentileza sua m e convidar, irm ão.

Não foi nada engraçado, m as Diana deu um a risadinha encoraj adora.

Pouco depois, Joanne pegou no sono com a cabeça no om bro de Woody .

Seus cabelos escuros lhe faziam cócegas no pescoço e ele podia sentir sua respiração m orna na pele, logo abaixo da m anga curta da cam isa. Não cabia em si de tanta alegria.

Separaram -se na Union Station, foram para casa se trocar e tornaram a se encontrar num restaurante chinês no centro da cidade.

Enquanto com iam um chow mein e bebiam cervej a, conversaram sobre o Japão. Todo m undo estava falando do Japão.

– Alguém precisa deter essa gente – disse Chuck. – Eles são fascistas.

– Pode ser – disse Woody .

– São m ilitaristas e agressivos, e o m odo com o tratam os chineses é racista. O que m ais precisam fazer para serem fascistas?

– Isso eu posso responder – disse Joanne. – A diferença está na visão que têm do futuro. Os verdadeiros fascistas querem m atar todos os seus inim igos e criar um tipo de sociedade radicalm ente diferente. Os j aponeses estão fazendo as m esm as coisas que eles, só que em defesa de grupos de poder tradicionais: a casta m ilitar e o im perador. Pelo m esm o m otivo, a Espanha não é fascista: Franco está assassinando pessoas em nom e da Igrej a Católica e da antiga aristocracia, não para criar um m undo novo.

– Sej a com o for, alguém precisa deter os j apas – disse Diana.

– Não penso assim – disse Woody .

– Está bem , Woody , então com o você pensa? – indagou Joanne.

Ele sabia que ela dava m uita im portância à política e que iria gostar de um a resposta elaborada.

– O Japão é um país m ercante, sem qualquer recurso natural: não tem petróleo nem ferro, só um as poucas florestas. A única form a de sobreviver é fazendo com ércio. Por exem plo, eles im portam algodão cru, tecem e vendem o tecido para a Índia e as Filipinas. Só que, durante a Depressão, os dois grandes im périos econôm icos, a Grã-Bretanha e os Estados Unidos, criaram tarifas para proteger suas indústrias. Foi o fim do com ércio j aponês com o Im pério Britânico, inclusive com a Índia, e com a zona am ericana, que inclui as Filipinas. Foi um golpe duro.

– E isso por acaso dá a eles o direito de conquistar o m undo? – perguntou Diana.

– Não, m as os faz pensar que a única garantia de segurança econôm ica é ter um im pério próprio, com o os britânicos, ou pelo m enos dom inar o hem isfério em que estão situados, com o os Estados Unidos. Nesse caso, ninguém m ais poderia pôr fim aos negócios deles. Então o que querem é transform ar o Extrem o Oriente no seu quintal.

Joanne concordou:

– E o ponto fraco da nossa política é que, sem pre que im pom os sanções econôm icas em retaliação à agressividade dos j aponeses, apenas reforçam os sua sensação de que precisam ser autossuficientes.

– Pode ser – disse Chuck. – Ainda assim , eles precisam ser detidos.

Woody deu de om bros. Não tinha resposta para isso.

Depois do j antar, foram ao cinem a. O film e foi ótim o. Em seguida, Woody e Chuck acom panharam as m oças de volta a seu apartam ento. No cam inho, Woody segurou a m ão de Joanne. Ela sorriu e apertou a m ão dele, que interpretou isso com o um incentivo.

Em frente ao prédio onde elas m oravam , ele a abraçou. Pelo canto do olho, viu Chuck fazer o m esm o com Diana.

Joanne deu um beij o rápido, quase casto, na boca de Woody , e disse:

– O tradicional beij o de boa-noite.

– Não houve nada de tradicional no últim o beij o que você m e deu – disse ele, curvando-se para beij á-la outra vez.

Ela encostou o indicador em seu queixo e o afastou.

Seria possível que ele só fosse conseguir aquele selinho?

– Eu estava bêbada naquela noite – disse ela.

– Eu sei. – Entendeu qual era o problem a: ela tinha m edo que ele a achasse um a m oça fácil. – Você é ainda m ais atraente quando está sóbria.

Ela pareceu refletir por alguns segundos.

– Essa era a coisa certa a dizer – declarou ela por fim . – Você ganhou o prêm io. – Ela então tornou a beij á-lo, um beij o dem orado, não com a urgência da paixão, m as com um a concentração que sugeria afeto.

Cedo dem ais, Woody ouviu Chuck dizer:

– Boa noite, Diana!

Joanne interrom peu o beij o.

– Meu irm ão foi um pouco rápido! – disse Woody , arrasado.

Ela riu baixinho.

– Boa noite, Woody – falou, e então se virou e foi andando para o prédio.

Diana j á estava na porta, claram ente desapontada.

– Podem os sair outra vez? – perguntou Woody, sem pensar. Sua voz soou carente até m esm o a seus próprios ouvidos, e ele am aldiçoou sua afobação.

Mas Joanne não pareceu se im portar.

– Me ligue – disse ela, e entrou.

Woody ficou olhando as duas m oças até desaparecerem , então tornou a se virar para o irm ão.

– Por que não beij ou Diana por m ais tem po? – perguntou, zangado. – Ela parecia bem sim pática.

– Não faz o m eu tipo – retrucou Chuck.

– Ah, é? – Mais do que irritado, Woody estava intrigado. – Peitos redondinhos, rosto bonito... O que ela tem de errado? Eu a teria beij ado se não estivesse com Joanne.

– Gosto não se discute.

Os dois com eçaram a cam inhar de volta para o apartam ento dos pais.

– Bem , qual é o seu tipo, então? – perguntou Woody .

– Acho que eu deveria lhe explicar um a coisa antes de você planej ar m ais um encontro para m im .

– Tudo bem . O que é?

Chuck parou de andar e obrigou Woody a fazer o m esm o.

– Você tem que j urar que não vai contar para o papai e a m am ãe.

– Eu j uro. – À luz am arela dos postes de rua, Woody observou o irm ão. – Que m istério é esse?

– Eu não gosto de garotas.

– Elas são um as chatas, concordo, m as o que se há de fazer?

– Para ser m ais exato, não gosto de abraçá-las nem de beij á-las.

– Com o assim ? Deixe de ser bobo.

– Cada um é de um j eito, Woody .

– É, m as nesse caso você teria que ser algum a espécie de m aricas.

– Justam ente.

– Justam ente o quê?

– É isso m esm o que eu sou: um m aricas.

– Você é m esm o um fanfarrão.