Inverno do Mundo
Capítulo VIII
– Ah, Woody, é claro que não m e im porto em ir de ônibus, m as você é j ovem dem ais para m im . De toda form a, o verão está quase no fim . Você logo vai voltar para a escola, e eu vou estudar no Vassar.
– Onde vai ter encontros, im agino.
– Assim espero!
Woody se levantou.
– Muito bem , então vou fazer voto de castidade e entrar para um m osteiro. Por favor, não vá m e visitar, você poderia perturbar os outros irm ãos.
Ela riu.
– Obrigada por m e distrair dos problem as da m inha fam ília.
Era a prim eira vez que ela m encionava o que havia acontecido com seu pai. Woody não planej ava abordar o assunto, m as, agora que ela dera a deixa, falou:
– Você sabe que estam os todos do seu lado. Ninguém acredita na história daquela atriz. Todos na cidade sabem que foi um golpe de Lev Peshkov, aquele safado, e estam os furiosos.
– Eu sei – disse ela. – Mas a sim ples acusação j á é vergonhosa dem ais para m eu pai suportar. Acho que m eus pais vão se m udar para a Flórida.
– Eu sinto m uito.
– Obrigada. Agora vá para o baile.
– Talvez eu vá.
Ela o acom panhou até a porta.
– Posso lhe dar um beij o de despedida? – pediu ele.
Ela se inclinou para a frente e o beij ou rapidam ente na boca. Não foi com o seu últim o beij o e ele soube que não deveria agarrá-la nem pressionar os lábios contra os dela. Foi um beij o delicado – a boca de Joanne encostou na sua por um doce instante que durou apenas um suspiro. Então ela se afastou e abriu a porta.
– Boa noite – disse Woody ao sair.
– Adeus – disse Joanne.
VIII
Greg Peshkov estava apaixonado.
Sabia que Jacky Jakes fora com prada por seu pai com o recom pensa por ele aj udar na arm adilha m ontada para Dave Rouzrokh, m as m esm o assim era am or de verdade.
Havia perdido a virgindade poucos m inutos depois de voltarem da delegacia, e os dois tinham passado a m aior parte da sem ana sem sair da cam a do Ritz-Carlton. Jacky dissera que Greg não precisava usar nenhum m étodo anticoncepcional, pois ela j á estava “protegida”. Ele tinha apenas um a vaga ideia do que isso significava, m as acreditou em sua palavra.
Nunca se sentira tão feliz na vida e adorava Jacky, sobretudo quando ela abandonava o papel de garotinha para revelar um a inteligência arguta e um senso de hum or m ordaz. Ela adm itiu ter seduzido Greg a m ando de Lev, m as confessou que, m esm o a contragosto, havia se apaixonado. Seu nom e verdadeiro era Mabel Jakes e, em bora fingisse ter 19 anos, na verdade tinha apenas 16 e era só alguns m eses m ais velha que Greg.
Lev lhe prom etera um a vaga num film e, m as dissera que ainda estava procurando o papel certo.
– Mas, porra, não acho que ele estej a procurando com tanto afinco assim – disse ela, num a im itação perfeita do vestígio de sotaque russo de Lev.
– Im agino que não haj a m uitos papéis para atores negros – com entou Greg.
– Eu sei. Vou acabar tendo que fazer a criada e revirar os olhos dizendo “sinhá”. Algum as peças e film es têm personagens africanos, com o Cleópatra, Aníbal, Otelo. Mas esses papéis em geral são interpretados por atores brancos. – O pai dela, j á falecido, tinha sido professor em um a universidade para negros, e ela entendia m ais de literatura do que Greg. – Mas por que os negros só deveriam fazer papel de negros? Se Cleópatra pode ser representada por um a branca, por que Julieta não pode ser negra?
– As pessoas achariam estranho.
– As pessoas se acostum ariam . Elas se acostum am com qualquer coisa. Por acaso Jesus tem que ser interpretado por um j udeu? Ninguém liga para isso.
Ela estava certa, pensou Greg, m as m esm o assim aquilo nunca iria acontecer.
Quando Lev anunciara sua volta a Buffalo – deixando tudo para a últim a hora, com o sem pre –, Greg ficara arrasado. Perguntara ao pai se Jacky podia ir com eles, m as Lev apenas rira e dissera:
– Filho, não se deve cagar no m esm o lugar em que se com e. Você pode vê-la da próxim a vez que vier a Washington.
Apesar disso, Jacky fora para Buffalo um dia depois dele e se instalara em um pequeno apartam ento barato perto da Canal Street.
Lev e Greg passaram as duas sem anas seguintes ocupados com a com pra da Roseroque Cinem as. No final das contas, Dave vendera a cadeia por dois m ilhões de dólares, um quarto da oferta original, e a adm iração de Greg pelo pai crescera um pouco m ais. Jacky havia retirado a queixa na polícia e dado a entender aos j ornais que aceitara um a com pensação financeira. O im placável atrevim ento do pai deixara Greg pasm o.
E ele tinha Jacky. Todas as noites dizia à m ãe que ia sair com am igos, m as na verdade passava todo o seu tem po livre com a garota. Mostrava-lhe a cidade, levava-a para fazer piqueniques na praia e até deu um j eito de levá-la para passear num a lancha alugada. Ninguém ligou sua im agem à da fotografia m eio borrada de um a m oça saindo do Ritz-Carlton só de roupão. Mas a m aior parte de suas noites quentes de verão era passada num delírio de felicidade e sexo, suados em m eio aos lençóis em bolados da estreita cam a do apartam ento. Decidiram se casar assim que alcançassem a m aioridade.
Nessa noite, ele iria levá-la ao baile do Iate Clube.
Fora dificílim o arrum ar entradas, m as Greg havia subornado um colega de escola.
Com prara um vestido novo para Jacky, de cetim cor-de-rosa. Marga lhe dava um a m esada generosa, e Lev costum ava dar ao filho 50 pratas de presente de vez em quando, assim Greg sem pre tinha m ais dinheiro do que precisava.
No fundo de sua m ente, porém , um alarm e havia com eçado a soar. Jacky seria a única pessoa negra no baile que não estaria servindo bebidas. Ela havia relutado m uito em ir, m as Greg conseguira convencê-la. Os rapazes m ais j ovens ficariam com invej a; os m ais velhos, porém , talvez se m ostrassem hostis. Haveria cochichos. Mas ele sentia que a beleza e o charm e de Jacky superariam boa parte do preconceito: com o alguém poderia resistir a ela? Se algum im becil ficasse bêbado e a ofendesse, Greg lhe ensinaria um a lição com os dois punhos.