Inverno do Mundo

Ken Follett · Capítulo 58 de 153

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Inverno do Mundo

Capítulo VII

Pela prim eira vez, Werner não soube o que responder.

Volody a deu as costas para a água e correu os olhos pelo cem itério. Um rapaz de terno estava aj oelhado j unto a um a pequena lápide. Será que o estava seguindo? Volody a observou com atenção. O corpo do rapaz se convulsionava com soluços. Parecia sincero: agentes de contrainteligência não eram bons atores.

– Olhe só para ele – disse Volody a a Werner.

– Por quê?

– Ele está chorando a m orte de alguém . Igual a você.

– E daí?

– Observe.

Um m inuto depois, o rapaz se levantou, enxugou o rosto com um lenço e se afastou.

– Agora ele está feliz – disse Volody a. – Prantear alguém é isso. Não adianta nada. Só faz você se sentir m elhor.

– Você acha que só estou fazendo perguntas para m e sentir m elhor?

Volody a se virou para encará-lo.

– Não estou criticando você – falou. – Quer descobrir a verdade, gritá-la aos quatro ventos. Mas pense de m aneira lógica. A única m aneira de pôr fim a isso é derrubando o regim e. E a única m aneira de isso acontecer é se os nazistas forem derrotados pelo Exército Verm elho.

– Pode ser.

Com um a ponta de esperança, Volody a percebeu que Werner estava fraquej ando.

– Pode ser? – repetiu. – E quem m ais poderia derrotar os alem ães? Os britânicos estão acabados, tentando desesperadam ente resistir à Luftwaffe. Os am ericanos não estão interessados em picuinhas europeias. Todas as outras nações apoiam os fascistas. – Ele pôs as m ãos nos om bros de Werner. – O Exército Verm elho é sua única esperança, am igo. Se nós perderm os, os nazistas vão passar m ais m il anos sangrentos assassinando crianças deficientes... sem falar nos j udeus, com unistas e hom ossexuais.

– Que inferno! – exclam ou Werner. – Você tem razão.

 

VII

No dom ingo, Carla e a m ãe foram ao culto. Maud estava preocupada com a prisão de Walter, desesperada para saber para onde o m arido fora levado. A Gestapo, naturalm ente, recusava-se a fornecer qualquer inform ação. Mas a igrej a do pastor Ochs era um tem plo popular, e m oradores dos subúrbios m ais ricos iam assistir à m issa ali: a congregação incluía alguns poderosos, e talvez um deles descobrisse algum a coisa.

Carla baixou a cabeça e rezou para que o pai não fosse espancado nem torturado. Na verdade, não acreditava em preces, m as seu desespero era tão grande que estava disposta a tentar qualquer coisa.

Sentiu-se satisfeita ao ver a fam ília Franck sentada algum as filas m ais à frente. Ficou olhando a nuca de Werner. Ao contrário da m aioria dos hom ens, que tinha os cabelos bem curtos, os dele se anelavam um pouco na parte de trás do pescoço. Ela havia tocado aquela nuca e beij ado seu pescoço. Ele era um doce. Era de longe o rapaz m ais sim pático que j á a beij ara. Todas as noites, antes de dorm ir, ela se lem brava da ocasião em que tinham ido a Grunewald.

Mas não estava apaixonada por ele, disse a si m esm a.

Ainda não.

Quando o pastor Ochs entrou na igrej a, ela logo viu que ele havia sido derrotado. A m udança era estarrecedora. Ele cam inhou lentam ente até o atril, de cabeça baixa, om bros caídos, fazendo alguns m em bros da congregação trocarem sussurros aflitos. Recitou as preces sem expressão, depois leu o serm ão de um livro. Carla, que j á era enferm eira havia dois anos, reconheceu nele sintom as de depressão. Calculou que o pastor tam bém tivesse recebido um a visita da Gestapo.

Reparou que Frau Ochs e os cinco filhos do casal não estavam em seus lugares habituais na prim eira fila.

Quando os fiéis estavam cantando o últim o hino, Carla j urou não desistir, por m ais assustada que estivesse. Ainda tinha alguns aliados: Frieda, Werner, Heinrich. Mas o que eles poderiam fazer?

Desej ou ter algum a prova concreta das ações dos nazistas. Ela não tinha dúvida de que estivessem exterm inando os deficientes – a reação extrem ada da Gestapo deixava isso claro. Mas não podia convencer os outros sem provas.

Com o consegui-las?

Depois da m issa, saiu da igrej a ao lado de Frieda e Werner. Afastou os irm ãos dos pais e disse:

– Acho que precisam os conseguir provas do que está acontecendo.

Frieda entendeu na m esm a hora a que ela estava se referindo.

– Deveríam os ir a Akelberg – disse ela. – Visitar o hospital.

Werner havia proposto isso logo no com eço, m as eles tinham decidido iniciar as investigações ali m esm o, em Berlim . Agora, Carla voltava a cogitar essa prim eira possibilidade.

– Precisam os de autorizações para viaj ar.

– Com o vam os conseguir um a coisa dessas?

Carla estalou os dedos.

– Nós duas fazem os parte do Clube de Ciclism o Mercúrio. Eles podem conseguir autorizações para passeios de bicicleta. – Esse era j ustam ente o tipo de coisa que os nazistas apreciavam : exercícios saudáveis ao ar livre para os j ovens.

– Será que conseguiríam os entrar no hospital?

– Poderíam os tentar.

– Acho que vocês deveriam esquecer essa história toda – disse Werner.

– Com o assim ? – rebateu Carla, espantada.

– É óbvio que o pastor Ochs levou um susto tão grande que quase m orreu de m edo. Essa história é m uito perigosa. Vocês poderiam ser presas, torturadas. E nada disso vai trazer de volta Axel ou Kurt.

Ela o encarou, incrédula.

– Você quer que cruzem os os braços?

– Vocês têm que cruzar. Estão falando com o se a Alem anha fosse um país livre! Vão acabar sendo m ortas, as duas.

– Tem os que correr riscos! – disse Carla, zangada.

– Então m e deixem fora disso – falou ele. – Tam bém recebi um a visita da Gestapo.

Carla ficou preocupada.

– Ah, Werner... o que aconteceu?

– Até agora, só am eaças. Se eu fizer m ais algum a pergunta, serei m andado para o front.

– Bem , graças a Deus não é nada pior.

– Já é ruim o suficiente.

As m oças passaram algum tem po caladas, então Frieda disse o que Carla estava pensando:

– Você precisa entender que isso é m ais im portante do que o seu em prego.

– Não venha m e dizer o que eu preciso entender – retrucou Werner.

Na superfície, estava zangado, m as por baixo da raiva Carla pôde ver que ele na verdade sentia vergonha.

– Não é a sua carreira que está em j ogo – prosseguiu ele. – E vocês ainda não se encontraram com a Gestapo.

Carla ficou pasm a. Pensava conhecer Werner. Poderia ter j urado que ele pensaria com o ela em relação àquela questão.

– Na verdade, encontrei, sim – disse ela. – Eles levaram m eu pai.

– Ah, não, Carla! – exclam ou Frieda, consternada, passando o braço sobre os om bros da am iga.

– Não conseguim os descobrir onde ele está – acrescentou Carla.

Werner não deu nenhum a m ostra de em patia.

– Nesse caso, você deveria ter j uízo para não desafiá-los! – disse ele. – Eles tam bém teriam prendido você, m as o inspetor Macke acha que garotas não representam perigo.

Carla teve vontade de chorar. Estivera prestes a se apaixonar por Werner e agora ele se revelava um covarde.

– Está dizendo que não vai nos aj udar? – indagou Frieda.

– Estou.

– Porque você quer m anter seu em prego?

– É inútil... não podem os vencê-los!

A covardia e o derrotism o dele estavam deixando Carla furiosa.

– Não podem os sim plesm ente deixar isso acontecer!

– Confronto aberto é um a loucura. Há outras form as de se opor.

– Quais, por exem plo? – indagou Carla. – Trabalhando devagar, com o dizem aqueles folhetos? Isso não vai im pedi-los de m atar crianças deficientes!

– Desafiar o governo é suicídio!

– Qualquer outra atitude é covardia!

– Eu m e recuso a ser j ulgado por duas garotas! – Com isso, ele saiu pisando firm e.

Carla engoliu as lágrim as. Não podia chorar na frente de 200 pessoas em pé sob o sol na frente da igrej a.

– Pensei que ele fosse diferente – falou.

Frieda estava chateada, m as tam bém intrigada.

– Ele é diferente – disse ela. – Conheço m eu irm ão desde sem pre. Algum a coisa está acontecendo, algo que ele não nos contou.

A m ãe de Carla se aproxim ou. Não reparou na agitação da filha, o que não era com um .

– Ninguém sabe nada! – disse Maud, desesperada. – Não consigo descobrir onde seu pai possa estar.

– Vam os continuar tentando – disse Carla. – Ele não tinha am igos na em baixada am ericana?

– Conhecidos. Já perguntei, m as eles não conseguiram nenhum a inform ação.

– Vam os perguntar de novo am anhã.

– Ah, m eu Deus... deve haver um m ilhão de esposas alem ãs na m esm a situação que eu.

Carla assentiu.

– Vam os para casa, m ãe.

As duas fizeram o cam inho de volta devagar, sem dizer nada, am bas perdidas em pensam entos. Carla sentia raiva de Werner, e m ais ainda por ter se enganado tanto em relação a seu caráter. Com o podia ter se apaixonado por alguém tão fraco?

Chegaram à sua rua.

– Am anhã de m anhã irei à em baixada am ericana – disse Maud ao se aproxim arem de casa. – Se for preciso, passarei o dia inteiro esperando na recepção. Im plorarei para que façam algum a coisa. Se quiserem m esm o, podem abrir um inquérito sem ioficial sobre o cunhado de um m inistro de governo britânico. Ué! Por que a porta de nossa casa está aberta?

O prim eiro pensam ento que ocorreu a Carla foi de que a Gestapo tivesse lhes feito um a segunda visita. Só que não havia nenhum carro preto parado j unto ao m eio-fio. E um a chave pendia da fechadura.

Maud entrou no hall e berrou.

Carla entrou correndo atrás dela.

Um hom em j azia no chão, coberto de sangue.

Carla conseguiu conter um grito.

– Quem é? – perguntou.

Maud se aj oelhou j unto ao hom em .

– Walter – falou. – Ah, Walter, o que fizeram com você?

Então Carla viu que aquele era seu pai. Estava tão gravem ente ferido que quase não era possível reconhecê-lo. Um dos olhos estava fechado, a boca inchada form ava um im enso hem atom a, e os cabelos estavam cobertos de sangue seco. Um dos braços estava torcido de form a estranha. A frente do paletó estava toda suj a de vôm ito.

– Walter, fale com igo, fale com igo! – pediu Maud.

Ele abriu a boca e deu um gem ido.

Carla reprim iu a histeria e o sofrim ento que brotaram em seu peito e passou a agir de m odo profissional. Foi pegar um a alm ofada e apoiou a cabeça do pai. Pegou um copo d’água na cozinha e despej ou um filete sobre seus lábios. Ele engoliu e abriu a boca, pedindo m ais. Quando ele j á se havia hidratado o suficiente, ela foi até seu escritório, pegou um a garrafa de schnapps e lhe deu algum as gotas para beber. Seu pai as engoliu, depois tossiu.

– Vou cham ar o Dr. Rothm ann – disse Carla. – Lave o rosto dele e lhe dê m ais água. Não tente m udá-lo de posição.

– Está bem , está bem ... ande logo! – disse Maud.

Carla em purrou a bicicleta até a rua e saiu pedalando. O Dr. Rothm ann não tinha m ais autorização para exercer a m edicina – j udeus não podiam ser m édicos –, m as ainda atendia pessoas pobres extraoficialm ente.