Inverno do Mundo

Ken Follett · Capítulo 73 de 153

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Inverno do Mundo

Capítulo onze

 

1941 (IV)

 

Woody Dewar e Joanne Rouzrokh pegaram um hidroplano Boeing B-314 de Oakland, Califórnia, até Honolulu. O voo da Pan Am levou 14 horas. Pouco antes do pouso, os dois tiveram um a séria discussão.

O m otivo talvez fosse eles terem passado tanto tem po confinados num espaço apertado. O hidroplano era um a das m aiores aeronaves do m undo, m as os passageiros eram acom odados em seis pequenas cabines, cada um a delas com duas fileiras de quatro assentos, um a de frente para a outra.

– Prefiro andar de trem – com entou Woody, cruzando desconfortavelm ente as pernas com pridas, e Joanne teve a gentileza de não com entar que não se podia chegar ao Havaí de trem .

A viagem fora ideia dos pais de Woody. O casal decidira tirar férias no Havaí para visitar Chuck, o filho m ais novo, que estava servindo lá. Então convidaram Woody e Joanne a se j untarem a eles na segunda sem ana da viagem .

Woody e Joanne estavam noivos. Ele a pedira em casam ento no final do verão, após quatro sem anas de tem po quente e paixão arrebatada em Washington. Joanne tinha dito que ainda era m uito cedo, m as Woody argum entara que j á era apaixonado por ela havia seis anos e perguntara qual seria o tem po regulam entar. Ela acabara cedendo. O casam ento estava m arcado para j unho do ano seguinte, assim que ele se form asse em Harvard. Enquanto isso, a condição de noivos lhes perm itia viaj ar j untos com a fam ília.

Ela o cham ava de Woods, e ele a cham ava de Jo.

O hidroplano com eçou a perder altitude ao se aproxim ar de Oahu, principal ilha do arquipélago havaiano. Lá em baixo viam -se m ontanhas cobertas de m ata, alguns raros vilarej os espalhados pelas terras m ais baixas e um a faixa de areia e m ar.

– Com prei um m aiô novo – com entou Joanne.

Os dois estavam sentados lado a lado, e o ronco das quatro turbinas Twin Cy clone de 14 cilindros fabricadas pela em presa Wright era alto o suficiente para nenhum dos outros passageiros ouvir sua conversa.

Woody estava lendo As vinhas da ira, m as largou o livro de bom grado.

– Mal posso esperar para vê-la com ele.

Estava sendo sincero. Joanne tinha o corpo dos sonhos de qualquer fabricante de roupas de banho, e todos os m odelos ficavam incríveis nela.

A m oça relanceou os olhos para o noivo, as pálpebras sem icerradas.

– Será que seus pais reservaram quartos contíguos para nós no hotel? – Seus olhos castanho-escuros pareciam duas brasas.

Sua condição de noivos não lhes perm itia dorm ir j untos, pelo m enos não oficialm ente. Apesar disso, a m ãe de Woody não deixava escapar m uita coisa, e talvez j á tivesse adivinhado que os dois iam para a cam a.

– Não im porta onde você estej a, vou encontrá-la – disse ele.

– Espero m esm o que m e encontre.

– Não fale assim . Já estou bem desconfortável neste assento.

Ela sorriu, satisfeita.

A base naval am ericana apareceu. Um a lagoa com a form a de um a folha de palm eira fornecia um grande porto natural. Metade da Frota do Pacífico am ericana estava ancorada ali, cerca de cem em barcações. Os tanques de com bustível dispostos em fila pareciam peças de um tabuleiro de dam as.

No m eio da lagoa havia um a ilha com um a pista de pouso. Na extrem idade ocidental, Woody viu cerca de um a dezena de hidroaviões ancorados.

Bem j unto à lagoa ficava a base aérea de Hickam . Várias centenas de aeronaves estavam estacionadas na pista, com precisão m ilitar, as pontas das asas quase se tocando.

O hidroplano se inclinou durante a aproxim ação e sobrevoou um a praia cheia de palm eiras e guarda-sóis de listras coloridas – Woody supôs que fosse Waikiki – e, em seguida, um a pequena cidade que devia ser a capital havaiana, Honolulu.

Joanne tinha direito a alguns dias de folga no Departam ento de Estado, m as Woody teria que faltar a um a sem ana de aulas para tirar aquelas férias.

– Estou um pouco surpresa com seu pai – com entou Joanne. – Ele costum a ser contra qualquer coisa que afaste você dos estudos.

– É – disse Woody. – Mas sabe qual é o verdadeiro m otivo destas férias, Jo? Ele acha que talvez sej a a últim a vez que verem os Chuck vivo.

– Ai, m eu Deus, sério?

– Ele acredita que haverá um a guerra. E Chuck está na Marinha...

– Acho que seu pai tem razão. Vai m esm o haver um a guerra.

– Por que tanta certeza?

– O m undo inteiro está contra a liberdade. – Ela apontou para o livro em seu colo, um sucesso de vendas cham ado Diário de Berlim, do radialista William Shirer. – Os nazistas dom inam a Europa. Os bolcheviques, a Rússia. E agora os j aponeses estão assum indo o controle do Extrem o Oriente. Não vej o com o os Estados Unidos podem sobreviver num m undo assim . Tem os que fazer com ércio com alguém !

– É m ais ou m enos o que m eu pai pensa. Ele acredita que vam os entrar em guerra contra o Japão no ano que vem . – Woody franziu o cenho, pensativo. – O que está acontecendo na Rússia?

– Os alem ães não parecem estar conseguindo tom ar Moscou. Logo antes de eu viaj ar, havia boatos de um contra-ataque russo m aciço.

– Que boa notícia!

Woody olhou pela j anela. Pôde ver o aeroporto de Honolulu. Supôs que o hidroplano fosse pousar num a enseada protegida, próxim a à pista.

– Espero que nada de m uito im portante aconteça enquanto eu estiver fora – disse Joanne.

– Por quê?

– Quero ser prom ovida, Woods... Então não quero ninguém inteligente e prom issor brilhando durante a m inha ausência.

– Prom ovida? Você não com entou nada.

– Ainda não está certo, m as m eu obj etivo é ser pesquisadora do governo.

Ele sorriu.

– Até onde você quer subir?

– Gostaria de virar em baixadora em algum lugar fascinante e com plexo, com o Nanquim ou Adis Abeba.

– É m esm o?

– Não faça essa cara de cético. Frances Perkins é nossa prim eira secretária do Trabalho... e ela é m uito boa.

Woody concordou com um gesto de cabeça. Frances Perkins chefiava a Secretaria do Trabalho desde o início do governo Roosevelt, j á fazia oito anos, e conseguira o apoio dos sindicatos para o New Deal. Hoj e em dia, um a m ulher excepcional podia aspirar a praticam ente qualquer coisa. E Joanne era realm ente excepcional. Por algum m otivo, porém , ele ficou chocado ao saber que ela era tão am biciosa.

– Mas um em baixador tem que m orar no exterior – disse ele.

– Não seria incrível? Um a cultura estrangeira, um clim a diferente, costum es exóticos.

– Mas... com o conciliar isso com o casam ento?

– Com o assim ? – indagou ela, áspera.

Ele deu de om bros.

– Não acha que é um a pergunta natural?

A expressão de Joanne não se alterou, m as suas narinas se dilataram – Woody sabia que isso era um sinal de que ela estava ficando zangada.

– Eu por acaso fiz essa pergunta a você?

– Não, m as...

– Mas o quê?

– Estou só pensando, Jo... Você espera que eu vá m orar onde a sua carreira a levar?

– Vou tentar m e adaptar às suas necessidades, e acho que você tam bém deveria tentar se adaptar às m inhas.

– Mas não é a m esm a coisa.

– Ah, não? – Ela agora estava obviam ente irritada. – Eu não sabia disso.

Ele se perguntou com o a conversa tinha azedado daquele j eito em tão pouco tem po. Esforçando-se para m anter o tom de voz controlado e agradável, falou:

– Nós falam os em ter filhos, não foi?

– Serão tão seus quanto m eus.

– Mas não exatam ente da m esm a form a.

– Se os filhos forem m e tornar um a cidadã de segunda classe nesse casam ento, então não os terem os.

– Não foi isso que eu quis dizer!

– Então que diabo você quis dizer?

– Se você for nom eada em baixadora em algum lugar, espera que eu largue tudo para acom panhá-la?

– Eu espero que você diga: “Querida, que oportunidade m aravilhosa para você, eu com certeza não vou ficar no seu cam inho.” Por acaso é pedir m uito?