Inverno do Mundo
Capítulo IV
– Seu m aldito! – gritou Bernie, brandindo o punho para o rádio Marconi. – Seu m aldito, m aldito!
Quando eles se acalm aram , Ethel perguntou:
– Será que vai ser essa a cam panha deles? Um m onte de m entiras a nosso respeito?
– Droga! É isso m esm o! – disse Bernie.
– Mas será que as pessoas vão acreditar? – perguntou Lloy d.
IV
No sul do Novo México, não m uito longe de El Paso, há um deserto cham ado Jornada del Muerto, a Viagem do Morto. Durante todo o dia, um sol inclem ente castiga a paisagem feita de arbustos de algarobo e iúcas com suas folhas em form a de lança, habitada por escorpiões e cascavéis, form igas lava-pé e tarântulas. Ali, os integrantes do Proj eto Manhattan testaram a arm a m ais m ortífera que a raça hum ana j á criara.
Greg Peshkov acom panhou os cientistas que iam assistir à explosão a dez quilôm etros de distância. Tinha duas esperanças: prim eiro, que a bom ba funcionasse; segundo, que os dez quilôm etros de distância fossem suficientes.
A contagem regressiva com eçou na segunda-feira, 16 de j ulho, nove m inutos depois das cinco da m anhã, no horário da região das m ontanhas dos Estados Unidos em vigor durante a guerra. O dia estava com eçando a despontar, e riscos dourados pintavam o céu a leste.
O codinom e do teste era Trinity , trindade. Quando Greg perguntara o m otivo daquele nom e, o chefe dos cientistas, um nova-iorquino j udeu de orelhas pontudas cham ado J. Robert Oppenheim er, respondera citando um poem a de John Donne: “Castigue m eu coração, ó Deus de três pessoas!”
“Oppie” era o hom em m ais inteligente que Greg j á conhecera. Além de ser o m ais brilhante físico de sua geração, tam bém falava seis idiom as. Tinha lido O capital, de Karl Marx, no original em alem ão. Nas horas vagas, aprendia sânscrito. Greg tinha apreço e adm iração por ele. A m aioria dos físicos era estranha, m as Oppie, assim com o o próprio Greg, era um a exceção: alto, vistoso, charm oso, e um verdadeiro sedutor.
No m eio do deserto, Oppie tinha instruído o Corpo de Engenheiros do Exército a construir um a torre de trinta m etros de altura feita de vigas de aço fincadas em alicerces de concreto. Em cim a da torre havia um a plataform a de m adeira. A bom ba fora içada até a plataform a no sábado.
Os cientistas nunca usavam a palavra “bom ba”: diziam “o artefato”. O centro era com posto por um a esfera de plutônio, m etal inexistente na natureza, subproduto das pilhas nucleares. A esfera pesava 4,5 quilos e continha todo o plutônio existente na face da Terra. Alguém havia calculado que valia um bilhão de dólares.
Trinta e dois detonadores na superfície da esfera seriam disparados ao m esm o tem po, criando um a pressão interna tão forte que a densidade do plutônio aum entaria até ficar crítica.
Depois disso, ninguém sabia m uito bem o que poderia acontecer.
Os cientistas tinham feito um bolão: por 1 dólar, era possível tentar adivinhar qual seria a força da explosão, m edida em toneladas equivalentes de TNT. Edward Teller apostou que seria de 45 m il toneladas. Oppie apostou em 300. A previsão oficial era de 20 m il. Na noite anterior, Enrico Ferm i sugerira aceitar apostas paralelas para saber se a detonação iria ou não aniquilar o estado do Novo México inteiro. O general Groves não achara nenhum a graça.
Os cientistas haviam tido um a conversa m uito séria sobre se a explosão iria incendiar a atm osfera da Terra e destruir o planeta, m as chegaram à conclusão de que não. Se estivessem enganados, Greg só torcia para que tudo fosse rápido.
Inicialm ente, o teste fora m arcado para o dia 4 de j ulho. No entanto, sem pre que os cientistas testavam um com ponente, este falhava, por isso a data fora adiada várias vezes. Em Los Alam os, no sábado, um a réplica batizada de Cópia Chinesa não explodira com o deveria. No bolão, Norm an Ram sey apostara em zero tonelada, prevendo que a bom ba seria um fracasso.
Nesse dia, a detonação estava m arcada para as duas da m anhã, m as bem nessa hora caíra um tem poral – em pleno deserto! A chuva faria os destroços radioativos caírem na cabeça dos cientistas que observavam a explosão, que foi novam ente adiada.
O tem poral term inou de m adrugada.
Greg estava dentro de um bunker cham ado S-10000, que era a sala de controle. Com o a m aioria dos cientistas, encontrava-se de pé do lado de fora para ver m elhor. A esperança e o m edo travavam um a batalha em seu coração. Se a bom ba desse errado, o esforço de centenas de pessoas – sem contar cerca de dois bilhões de dólares – de nada teria servido. E, se desse certo, talvez estivessem todos m ortos em poucos m inutos.
Ao seu lado estava Wilhelm Frunze, j ovem cientista alem ão que ele conhecera em Chicago.
– Will, o que teria acontecido se um raio tivesse atingido a bom ba?
Frunze deu de om bros.
– Ninguém sabe.
Um foguete de sinalização verde cruzou o céu, assustando Greg.
– É o aviso de cinco m inutos – explicou Frunze.
A segurança tinha sido irregular. Santa Fé, a cidade m ais próxim a de Los Alam os, estava repleta de agentes do FBI bem -vestidos. Recostados casualm ente nos m uros com seus paletós de tweed e suas gravatas, a presença deles era evidente para os m oradores da cidade, que só usavam j eans e botas de caubói.
O FBI tam bém estava gram peando ilegalm ente os telefones de centenas de pessoas envolvidas no Proj eto Manhattan. Isso deixara Greg perplexo. Com o a m ais im portante agência de segurança pública do país podia com eter atos ilegais de form a sistem ática?
Apesar de tudo, a inteligência do Exército e o FBI tinham conseguido identificar alguns espiões e afastá-los discretam ente do proj eto, entre eles Barney McHugh. Mas será que tinham conseguido encontrar todos? Greg não sabia. Groves fora obrigado a correr riscos. Se tivesse dem itido todo m undo que o FBI pedira, não teriam sobrado cientistas suficientes para produzir a bom ba.
Infelizm ente, a m aioria dos cientistas era radical, socialista e liberal. Quase nenhum era conservador. Todos acreditavam que as verdades reveladas pela ciência deveriam ser com partilhadas entre toda a hum anidade e nunca m antidas secretas em nom e de um determ inado regim e ou país. Assim , enquanto o governo am ericano m antinha sigilo absoluto em relação àquele im enso proj eto, os cientistas organizavam grupos de discussão sobre o com partilham ento de tecnologia nuclear com todos os países do m undo. O próprio Oppie era alvo de suspeitas: só não pertencia ao Partido Com unista porque não tinha o costum e de entrar para clubes.
Nesse exato m om ento, Oppie estava deitado no chão ao lado de seu irm ão m ais novo, Frank, outro físico notável e tam bém com unista. Am bos seguravam pedaços de vidro usado na fabricação de m áscaras de soldador através dos quais poderiam observar a explosão. Greg e Frunze seguravam pedaços parecidos. Alguns dos cientistas usavam óculos escuros.
Outro foguete sinalizador foi disparado.
– Um m inuto – disse Frunze.
Greg ouviu Oppie dizer:
– Meu Deus, essas coisas põem m esm o o coração à prova.
Pensou se aquelas seriam as últim as palavras do cientista.
Greg e Frunze se deitaram no chão arenoso ao lado de Oppie e Frank. Todos seguraram seus visores de soldador na frente dos olhos e viraram a cabeça em direção ao local do teste.
Ali, diante da m orte, Greg pensou na m ãe, no pai e na irm ã, Daisy, que m orava em Londres. Perguntou a si m esm o se eles iriam sentir sua falta. Pensou, com um leve arrependim ento, em Margaret Cowdry, que o havia trocado por um suj eito disposto a se casar com ela. Mas, sobretudo, pensou em Jacky Jakes e em Georgy, agora com 9 anos. Queria m uito ver o m enino crescer. Percebeu que era ele o principal m otivo para querer continuar vivo. Sorrateiram ente, Georgy havia entrado na sua alm a e roubado o seu am or. A força desse sentim ento deixou Greg surpreso.
Ouviu-se o som de um gongo, que soou estranho no deserto.
– Dez segundos.
Greg teve o im pulso de se levantar e sair correndo. Por m ais bobo que isso fosse – que distância conseguiria percorrer em dez segundos? –, teve que se esforçar para ficar parado.
A bom ba explodiu às 5 horas, 29 m inutos e 45 segundos.
A prim eira coisa que se viu foi um clarão im pressionante, de um brilho quase inacreditável, a claridade m ais intensa que Greg j á vira, m ais forte até que o sol.
Então um a estranha cúpula de fogo pareceu brotar do chão. Com um a velocidade aterradora, elevou-se até um a altura m onstruosa. Chegou ao m esm o nível das m ontanhas e continuou a subir, fazendo os picos parecerem m inúsculos.
– Meu Deus do céu... – sussurrou Greg.
A cúpula se transform ou num quadrado. A luz era m ais forte que a do sol de m eio-dia, e as m ontanhas ao longe ficaram tão ilum inadas que Greg pôde distinguir cada curva, cada fenda, cada pedra.
Então o form ato m udou outra vez. Um a coluna surgiu na parte inferior e pareceu se elevar m uitos quilôm etros no céu, com o o punho fechado de Deus. A nuvem de fogo acim a da coluna se espalhou feito um guarda-chuva, até a coisa toda ficar parecendo um cogum elo de 11 quilôm etros de altura. As cores da nuvem eram tons infernais de laranj a, verde e roxo.
Greg foi atingido por um a onda de calor, com o se Deus houvesse aberto um forno gigante. Ao m esm o tem po, o estrondo da explosão atingiu seus ouvidos com o o retum bar do Apocalipse. Mas isso foi só o com eço. Um barulho sem elhante a um trovão altíssim o rugiu pelo deserto, abafando todos os outros sons.