Inverno do Mundo
Capítulo III
No final de novem bro, Volody a pediu transferência para um a unidade de com bate. Não achava m ais que seu trabalho de inteligência fosse im portante: o Exército Verm elho não precisava de espiões em Berlim para descobrir as intenções de um Exército alem ão que j á estava nos arredores de Moscou. Ele queria lutar por sua cidade.
Suas reservas em relação ao governo pareciam irrelevantes. A estupidez de Stalin, a brutalidade da polícia secreta, a form a com o nada na União Soviética parecia funcionar com o deveria – tudo isso desapareceu. A única coisa que ele sentia era a ardente necessidade de repelir o invasor que am eaçava trazer violência, estupro, fom e e m orte para sua m ãe, sua irm ã, seus sobrinhos gêm eos – Dim ka e Tania – e Zoy a.
Tinha plena consciência de que, se todos pensassem com o ele, não haveria espiões. Para seus inform antes alem ães, o patriotism o e a lealdade tinham m enos im portância do que a m aldade insustentável dos nazistas. Era grato a eles por sua coragem e pela m oralidade irredutível que os m ovia. Mas não sentia o m esm o.
Muitos dos soldados m ais j ovens da Inteligência do Exército Verm elho pensavam com o Volody a, e um pequeno grupo se alistou num batalhão de fuzileiros no início de dezem bro. Ele se despediu dos pais com um beij o, escreveu um bilhete para Zoy a dizendo que esperava sobreviver para revê-la e se m udou para o quartel.
Stalin enfim trouxe reforços do leste para Moscou. Treze divisões siberianas foram m obilizadas contra os alem ães, que não paravam de se aproxim ar. A cam inho do front, alguns deles fizeram um a breve parada em Moscou, e os m oscovitas não conseguiram desgrudar os olhos daqueles hom ens: sobretudos brancos acolchoados, botas quentes de pele de ovelha, esquis e óculos de neve, robustos pôneis das estepes. Eles chegaram a tem po do contra-ataque russo.
Aquela era a últim a chance do Exército Verm elho. Nos cinco m eses anteriores, a União Soviética enviara repetidam ente centenas de m ilhares de hom ens de encontro aos invasores. A cada vez, os alem ães tinham parado, enfrentado o ataque e prosseguido seu avanço im placável. Se essa nova tentativa fracassasse, porém , não haveria m ais nenhum a. Os alem ães tom ariam Moscou e, quando isso acontecesse, teriam a União Soviética. Então sua m ãe teria que ir ao m ercado negro trocar vodca por leite para os netos gêm eos.
No dia 4 de dezem bro, os soviéticos saíram da cidade pelo norte, pelo oeste e pelo sul, e assum iram suas posições para a últim a investida. Para não alertar o inim igo, avançaram sem luz. Não podiam acender fogueiras nem fum ar.
Nessa noite, a frente de com bate recebeu a visita de agentes da NKVD. Volody a não viu Ily a Dvorkin, seu cunhado cara de rato, que deveria estar entre eles. Um par de agentes que ele não reconheceu foi até o bivaque onde Volody a e m ais uns dez hom ens lim pavam seus fuzis.
– Vocês ouviram alguém criticar o governo? – perguntaram . – O que os hom ens estão dizendo sobre o cam arada Stalin? Algum de seus com panheiros está questionando a sensatez da estratégia e das táticas do Exército?
Volody a não conseguia acreditar. Que im portância tinha aquilo a essa altura? Nos próxim os dias, Moscou seria salva ou perdida. E daí se os soldados estivessem falando m al dos oficiais? Abreviou o interrogatório respondendo que ele e seus hom ens haviam feito voto de silêncio e que tinha ordens para fuzilar qualquer um que o violasse. No entanto – acrescentou, tem erário –, perdoaria os agentes da polícia secreta se eles fossem em bora im ediatam ente.
Deu certo, m as Volody a não teve dúvidas de que a NKVD iria enfraquecer o m oral dos soldados por todo o front.
No fim da tarde de sexta-feira, 5 de dezem bro, a artilharia russa entrou em ação com grande alarde. Ao am anhecer do dia seguinte, Volody a e seu batalhão partiram em m eio a um a forte nevasca. Sua m issão era tom ar um a cidadezinha do outro lado de um canal.
Volody a ignorou as ordens para atacar de frente as defesas alem ãs – essa era a antiquada tática russa, e aquele não era o m om ento de se prender obstinadam ente a ideias equivocadas. Com sua com panhia de cem hom ens, ele subiu o canal congelado e o atravessou até o norte da cidade, depois avançou de encontro ao flanco dos alem ães. Podia ouvir os estrondos e rugidos do com bate à sua esquerda, então entendeu que estava atrás do front inim igo.
A nevasca o deixava quase cego. De vez em quando, o clarão dos tiros ilum inava as nuvens, m as no chão a visibilidade era de apenas poucos m etros. No entanto, ele achou, otim ista, que isso aj udaria os russos a chegar de m ansinho e pegar os alem ães de surpresa.
O frio intenso chegava a -35ºC em alguns lugares. Em bora essas condições fossem ruins para am bos os lados, eram piores para os alem ães, que não tinham m aterial adequado para tem peraturas tão baixas.
Volody a constatou, um pouco surpreso, que os alem ães, em geral tão eficientes, não haviam consolidado sua linha de com bate. Não havia trincheiras, valas antitanque nem abrigos subterrâneos. O seu front não passava de um a sucessão de pontos fortificados. Era fácil passar por entre as brechas, entrar na cidade e procurar alvos vulneráveis: casernas, cantinas, depósitos de m unição.
Seus hom ens abateram três sentinelas para tom ar um cam po de futebol onde havia cinquenta blindados estacionados. Seria tão fácil assim ?, pensou Volody a. Será que a força que conquistara m etade da Rússia estava agora depauperada e exaurida?
Os cadáveres dos soldados soviéticos m ortos em escaram uças anteriores e largados ao relento para congelar no m esm o lugar em que haviam m orrido estavam sem botas e sobretudos, provavelm ente roubados por alem ães com frio.
As ruas da cidade estavam cheias de veículos abandonados – cam inhões vazios com as portas escancaradas, tanques cobertos de neve com o m otor j á frio e j ipes de capô aberto, com o se algum m ecânico houvesse tentado consertá-los, m as tivesse desistido.
Ao atravessar a rua principal, Volody a ouviu um m otor de carro. Através da neve, distinguiu um par de faróis se aproxim ando pela esquerda. De início pensou que fosse um veículo soviético que havia conseguido passar pelas linhas alem ãs. Então seu grupo foi alvej ado, e ele gritou para todos se protegerem . O carro que surgiu era um Kubelwagen, um j ipe da Volkswagen com o estepe preso na frente, acim a do capô. Tinha um m otor com resfriam ento a ar, que por isso não havia congelado. O j ipe passou sacolej ando por eles a toda a velocidade, com os alem ães disparando suas arm as dos assentos.
Volody a ficou tão espantado que se esqueceu de revidar os tiros. Por que um veículo cheio de alem ães arm ados estava se afastando do local do com bate?
Conduziu sua com panhia até o outro lado da rua. Im aginava que, a essa altura, eles j á fossem estar lutando para entrar de casa em casa, m as encontraram apenas um a oposição m ínim a. As construções da cidade ocupada estavam trancadas, lacradas com tábuas, às escuras. Qualquer russo m inim am ente aj uizado que estivesse lá dentro j á devia ter se escondido debaixo da cam a.
Outros carros apareceram na rua, e Volody a concluiu que os oficiais deviam estar fugindo da frente de batalha. Ordenou a um a seção arm ada com um a m etralhadora leve Degty arev DP-28 que se protegesse dentro de um café e os alvej asse. Não queria que aqueles alem ães vivessem para m atar russos no dia seguinte.
Logo depois da rua principal, viu um a construção baixa de tij olos m uito ilum inada por trás de cortinas finas. Esgueirando-se por um sentinela que não conseguia enxergar m uita coisa por causa da nevasca, conseguiu espiar lá dentro e distinguir alguns oficiais. Im aginou que estivesse olhando para o posto de com ando de um batalhão.
Sussurrou instruções para seus sargentos. Estes atiraram nas vidraças, depois lançaram granadas para dentro. Alguns alem ães saíram com as m ãos na cabeça. No m inuto seguinte, Volody a j á havia tom ado o lugar.
Escutou um barulho diferente. Apurou os ouvidos e franziu o cenho, intrigado. Aquilo parecia um a torcida de futebol. Saiu do prédio. O barulho vinha da frente de com bate e estava ficando m ais alto.
Um a saraivada de m etralhadora ecoou a uns cem m etros dali, na rua principal, e em seguida um cam inhão derrapou de lado, saiu da rua, bateu de frente num m uro de tij olos e então explodiu – devia ter sido atingido pela DP-28 posicionada por Volody a. Dois outros veículos passaram logo depois e conseguiram escapar.
Volody a correu até o café. A m etralhadora estava posicionada em cim a de um a das m esas, sobre o suporte de duas pernas. Por causa do pente de balas circular situado acim a do cano, aquele m odelo era conhecido com o “toca-discos”.
– É com o atirar em pom bos no quintal, capitão! – disse um artilheiro. – Moleza!
Um dos hom ens tinha vasculhado a cozinha e encontrara um grande pote de sorvete m ilagrosam ente intacto, que agora passava de m ão em m ão.
Volody a olhou pela j anela quebrada do café. Viu outro veículo se aproxim ar. Parecia um j ipe com hom ens o seguindo, correndo. Quando chegaram m ais perto, ele reconheceu uniform es alem ães. Mais hom ens vinham atrás, dezenas, talvez centenas. Eram eles os responsáveis pelo barulho de torcida.
O artilheiro apontou a m etralhadora para o carro que se aproxim ava, m as Volody a levou a m ão ao seu om bro.
– Espere – ordenou.
Cravou os olhos na nevasca, fazendo-os arder. Tudo o que conseguiu ver foram m ais veículos e m ais hom ens correndo, além de alguns cavalos.
Um soldado ergueu seu fuzil.
– Não atire – ordenou Volody a. Os alem ães chegaram m ais perto. – Não podem os deter tantos hom ens assim ... seríam os derrotados em poucos m inutos – falou. – Deixem que eles passem . Protej am -se.
Seus hom ens se deitaram no chão. O artilheiro tirou a DP-28 de cim a da m esa. Ele próprio se sentou no chão e ficou espiando por cim a do peitoril.
O barulho se transform ou em estrondo. Os prim eiros hom ens passaram pelo café. Todos corriam , cam baleando e m ancando. Alguns portavam fuzis, outros pareciam ter perdido as arm as. Uns usavam sobretudos e chapéus, outros apenas a túnica do uniform e. Havia m uitos feridos. Volody a viu um soldado com a cabeça envolta num a atadura cair, rastej ar por alguns m etros e em seguida desabar no chão. Ninguém lhe deu atenção. Um cavaleiro m ontado pisoteou um soldado e seguiu galopando sem se deter. Jipes e carros de oficiais passavam pela rua conduzidos perigosam ente, derrapando no gelo, buzinando feito loucos e fazendo os hom ens a pé se afastarem para os dois lados.
Era um a debandada, percebeu Volody a. Os soldados passavam aos m ilhares. Era um verdadeiro estouro de boiada. Um a retirada.
Os alem ães finalm ente estavam recuando.