Inverno do Mundo

Ken Follett · Capítulo 31 de 153

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Inverno do Mundo

Capítulo V

– Não há perdão para os covardes – disse Bobrov, e se afastou.

Lloy d olhou para Dave, caído no chão: m agro, im undo, coraj oso feito um leão, m orto aos 16 anos. Assassinado não pelos fascistas, m as por um oficial soviético estúpido e violento. Que desperdício, pensou Lloy d, e sentiu os olhos se encherem de lágrim as.

Um sargento saiu do celeiro às pressas.

– Eles desistiram ! – gritou, eufórico. – A prefeitura se rendeu... eles ergueram a bandeira branca. Nós tom am os Belchite!

A tontura finalm ente tom ou conta de Lloy d e ele perdeu os sentidos.

 

V

Londres estava fria e chuvosa. Lloy d percorria a Nutley Street debaixo de chuva, a cam inho da casa da m ãe. Ainda usava a j aqueta com zíper e a calça de veludo do Exército espanhol, e calçava botas sem m eias. Trazia nas costas um a pequena m ochila contendo um a m uda de roupa de baixo, um a cam isa e um a caneca de m etal. Em volta do pescoço, usava o lenço verm elho com o qual Dave havia im provisado um a tipoia para seu braço ferido. O braço ainda doía, m as ele não precisava m ais da tipoia.

Era outubro e a tarde estava quase no fim .

Conform e previra, ele tinha sido posto num trem de m aterial com destino a Barcelona, lotado de prisioneiros rebeldes. O traj eto tinha pouco m ais de 150 quilôm etros, m as a viagem levara três dias. Em Barcelona, fora separado de Lenny, e os dois perderam contato. Conseguira um a carona num cam inhão com destino ao norte. Depois que o cam inhoneiro o deixara, tinha andado, pedido m ais caronas e viaj ado em vagões de trem carregados de carvão, cascalho ou – num a ocasião feliz – caixotes de vinho. Cruzara a fronteira com a França durante a noite. Havia dorm ido ao relento, im plorado por com ida, feito biscates em troca de um as poucas m oedas e, durante duas gloriosas sem anas, conseguira j untar o dinheiro necessário para a passagem de barco até a Inglaterra colhendo uvas num vinhedo de Bordeaux. Agora estava em casa.

Respirou o ar úm ido e recendendo a fuligem de Aldgate com o se fosse um perfum e. Parou diante do portão do j ardim e ergueu os olhos para a casa com varanda em que havia nascido, m ais de 22 anos antes. Viu luzes acesas atrás das j anelas riscadas de chuva: havia gente lá dentro. Foi até a porta da frente. Ainda tinha a chave: guardara-a j unto com seu passaporte. Entrou.

Largou a m ochila no chão do hall, j unto ao cabide de chapéus.

Da cozinha, ouviu alguém dizer:

– Quem está aí? – Era a voz de Bernie, seu padrasto.

Lloy d percebeu que não conseguia falar.

Bernie saiu para o hall.

– Quem está...? – Então reconheceu Lloy d. – Caram ba! – exclam ou. – É você!

– Oi, pai – disse Lloy d.

– Meu garoto – disse Bernie, abraçando Lloy d. – Vivo! – exclam ou.

Lloy d pôde sentir os soluços sacudirem o corpo do padrasto.

Depois de alguns instantes, Bernie enxugou os olhos com a m anga do cardigã e foi até o pé da escada.

– Eth! – cham ou.

– O que foi?

– Visita para você.

– Só um instante.

Ela desceu a escada segundos depois, bonita com o sem pre, usando um vestido azul. A m eio cam inho do térreo, viu o rosto do filho e em palideceu.

– Ai, Duw – falou. – Lloy d! – Desceu o resto dos degraus correndo e j ogou-se em cim a dele para abraçá-lo. – Você está vivo!

– Escrevi para vocês de Barcelona...

– Não recebem os a carta.

– Então vocês não sabem ...

– Não sabem os o quê?

– Dave William s está m orto.

– Ah, não!

– Morreu na batalha de Belchite. – Lloy d decidira não contar a verdade sobre a m orte de Dave.

– E Lenny Griffiths?

– Não sei. Perdi contato com ele. Estava torcendo para que ele tivesse voltado para casa antes de m im .

– Não, nenhum a notícia dele.

– Com o foi lá? – indagou Bernie.

– Os fascistas estão ganhando. E a culpa é dos com unistas, que estão m ais interessados em atacar os outros partidos de esquerda.

– Não pode ser – disse Bernie, chocado.

– Mas é verdade. Se aprendi algum a coisa na Espanha, foi que precisam os com bater os com unistas com tanto afinco quanto os fascistas. Am bos são m aus.

Sua m ãe deu um sorriso irônico.

– Ora, vej am só – disse ela. Lloy d percebeu que a m ãe j á tinha percebido isso havia m uito tem po.

– Chega de política – disse ele. – Com o você está, Mam ?

– Ah, estou igualzinha, m as você... com o está m agro!

– Na Espanha não há m uito o que com er.

– Então é m elhor eu preparar algum a coisa para você.

– Não há pressa. Já faz 12 m eses que estou com fom e... posso aguentar m ais alguns m inutos. Mas um a coisa seria bem -vinda...

– O quê? Pode pedir o que quiser!

– Eu adoraria um a boa xícara de chá.