Inverno do Mundo
Capítulo VII
– Ouvi um grito vindo do quarto dela e encontrei este senhor lá em cim a – disse Cranm er. – Ela está dizendo que ele tentou estuprá-la. O rapaz é testem unha.
Dave tinha um ar atônito, com o se achasse que aquilo talvez fosse um pesadelo. Para sua própria surpresa, Greg sentiu pena de Dave. O hom em fora cruelm ente encurralado. Por um lado, adm irava o pai; por outro, se perguntava se aquela crueldade era m esm o necessária.
O policial algem ou Dave e disse:
– Muito bem , vam os indo.
– Para onde? – indagou Dave.
– Para o centro da cidade – respondeu o policial.
– Todos tem os que ir? – perguntou Greg.
– Sim .
Cranm er se dirigiu a Greg em voz baixa:
– Não se preocupe, filho. Você fez um ótim o trabalho. Vam os até a delegacia prestar nossos depoim entos, e depois você vai poder foder com ela de hoj e até o Natal.
O policial conduziu Dave até a porta, e os outros foram atrás.
Quando saíram à rua, um fotógrafo disparou um flash.
VII
Woody Dewar conseguiu que um livreiro de Nova York lhe m andasse um exem plar de Estudos sobre a histeria, de Freud. Na noite do baile do Iate Clube – o m ais im portante evento social da tem porada de verão em Buffalo –, em brulhou-o cuidadosam ente em papel pardo e am arrou com um a fita verm elha.
– Chocolates para um a garota de sorte? – perguntou a m ãe ao passar por ele no corredor. Apesar de ter um olho só, Rosa via tudo.
– É um livro – respondeu ele. – Para Joanne Rouzrokh.
– Ela não irá ao baile.
– Eu sei.
A m ãe parou e lançou ao filho um olhar inquisitivo. Após alguns instantes, falou:
– Você está levando isso a sério m esm o.
– Acho que sim . Mas ela m e acha m uito novo.
– Deve ser por orgulho. As am igas perguntariam por que ela não arrum a um rapaz da sua idade para sair. Garotas podem ser cruéis.
– Pretendo insistir até ela am adurecer m ais um pouco.
Sua m ãe sorriu.
– Aposto que você a faz rir.
– Faço, sim . É o m eu m aior trunfo.
– Bem , eu esperei tem po suficiente pelo seu pai.
– Esperou m esm o?
– Apaixonei-m e por ele à prim eira vista. Passei anos nutrindo esse am or platônico. Tive que vê-lo se apaixonar por aquela vaca fútil da Olga Vy alov, que não o m erecia, m as tinha os dois olhos. Graças a Deus ela em buchou do m otorista. – O linguaj ar de sua m ãe podia ser um tanto cru, sobretudo quando sua avó não estava por perto. Ela havia adquirido m aus hábitos durante os anos em que trabalhara em j ornais. – Aí ele foi para a guerra. Tive que segui-lo até a França antes de conseguir fazê-lo se com prom eter com igo.
Woody percebeu que as lem branças dela m esclavam nostalgia e sofrim ento.
– Mas ele percebeu que você era a m oça certa para ele.
– No final, sim .
– Talvez isso aconteça com igo.
Sua m ãe o beij ou.
– Boa sorte, filho.
A casa dos Rouzrokh ficava a cerca de um quilôm etro da sua, e Woody foi a pé. Nenhum m em bro da fam ília estaria no Iate Clube nessa noite. Depois de um m isterioso incidente no hotel Ritz-Carlton de Washington, Dave aparecera em todos os j ornais. Um a das m anchetes fora “Magnata do cinem a acusado por atriz”. Woody havia aprendido recentem ente a desconfiar dos j ornais. As pessoas m ais influenciáveis, porém , diziam que aquilo devia ter um fundo de verdade, do contrário por que a polícia teria prendido Dave?
Desde então, nenhum m em bro da fam ília fora visto em eventos sociais.
Em frente à casa, um segurança arm ado deteve Woody .
– A fam ília não está recebendo visitas – falou com rispidez.
Woody supôs que o hom em tivesse passado m uito tem po repelindo j ornalistas e perdoou seu tom descortês. Lem brou-se do nom e da criada dos Rouzrokh.
– Por favor, peça à Srta. Estella que avise a Joanne que Woody Dewar trouxe um livro para ela.
– Pode deixar com igo – disse o segurança, estendendo a m ão.
Woody segurou o livro com firm eza.
– Não, obrigado.
O segurança pareceu irritado, m as acom panhou Woody pelo acesso que conduzia à casa e tocou a cam painha. Estella veio abrir, e disse na m esm a hora:
– Olá, Sr. Woody, pode entrar... Joanne vai ficar feliz em vê-lo! – Enquanto cruzava o portal, Woody se perm itiu lançar um olhar de triunfo para o segurança.
Estella o conduziu até um a sala de visitas vazia. Ofereceu-lhe leite com biscoitos com o se ele ainda fosse criança, m as Woody recusou com educação. Um m inuto depois, Joanne chegou. Estava abatida e sua pele m orena parecia m ais pálida, m as ela lhe abriu um sorriso sim pático e sentou-se para conversar.
Ficou satisfeita com o livro.
– Agora vou ter que ler o Dr. Freud, em vez de ficar só falando nele – foi seu com entário. – Você é um a boa influência para m im , Woody .
– Queria ser um a m á influência.
Ela não disse nada sobre o com entário dele.
– Você não vai ao baile?
– Tenho ingresso, m as sem você aquilo lá não m e interessa. Quer ir ao cinem a em vez disso?
– Não, m as obrigada. De verdade.
– Ou poderíam os apenas j antar. Em algum lugar bem discreto. Se você não se im portar em ir de ônibus.