Inverno do Mundo

Ken Follett · Capítulo 47 de 153

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Inverno do Mundo

Capítulo II

Às oito da noite, j á havia um a cabeça de ponte alem ã do outro lado do rio e, às dez, a posição estava consolidada.

O com bate cessou ao cair da noite. Erik e Herm ann continuaram vasculhando o cam po de batalha em busca de feridos. Trouxeram o últim o à m eia-noite. Então se deitaram debaixo de um a árvore e adorm eceram , exaustos.

No dia seguinte, Erik, Herm ann e a 2a Divisão de Blindados m udaram o curso para oeste e passaram pelo que restava das defesas francesas.

Dois dias depois, estavam oitenta quilôm etros m ais à frente, no rio Oise, avançando depressa por um território sem defesas.

Em 20 de m aio, um a sem ana após em ergirem de surpresa da floresta das Ardenas, haviam chegado ao litoral do canal da Mancha.

O m aj or Weiss explicou a conquista a Erik e Herm ann:

– Nosso ataque à Bélgica foi um a distração, entendem ? O obj etivo era atrair os franceses e os britânicos para um a arm adilha. E eles foram pegos. A m aior parte do Exército francês e praticam ente toda a Força Expedicionária Britânica estão na Bélgica, cercadas pelo Exército alem ão. Estão isoladas dos suprim entos, longe de reforços, indefesas... e derrotadas.

– Esse era o plano do Führer desde o início! – exclam ou Erik, triunfante.

– Sim – respondeu Weiss, e com o sem pre Erik não soube dizer se ele estava sendo sincero. – Ninguém pensa com o o Führer!

 

II

Lloy d William s encontrava-se num estádio de futebol em algum lugar entre Calais e Paris. Junto com ele estavam m il prisioneiros de guerra britânicos ou m ais. Não havia com o se proteger do sol forte do m ês de j unho, m as, com o não tinham cobertores, sentiam -se gratos pelas noites quentes. Não havia banheiros nem água para se lavar.

Lloy d estava cavando um buraco com as m ãos. Tinha reunido alguns dos m ineiros galeses para construir latrinas num a das extrem idades do cam po, e trabalhava com eles para dem onstrar boa vontade. Outros hom ens sem m ais nada para fazer se j untaram ao esforço, e logo havia quase cem deles trabalhando. Quando um guarda passou por eles para ver o que estava acontecendo, Lloy d explicou.

– Você fala bem alem ão – disse o guarda, sim pático. – Qual é o seu nom e?

– Lloy d.

– O m eu é Dieter.

Lloy d decidiu explorar aquela pequena dem onstração de sim patia.

– Poderíam os cavar m ais depressa se tivéssem os ferram entas.

– Qual é a pressa?

– Melhorar a higiene seria tão bom para vocês quanto para nós.

Dieter deu de om bros e se afastou.

Lloy d se sentia pouco heroico. Não havia participado de nenhum com bate. Os Fuzileiros Galeses tinham ido à França com o força da reserva, para substituir outras unidades num a batalha que, esperava-se, fosse durar bastante. Mas os alem ães tinham levado apenas dez dias para derrotar a m aior parte do Exército Aliado. Muitos dos britânicos derrotados tinham sido evacuados de Calais e Dunquerque, m as m ilhares não conseguiram em barcar, Lloy d entre eles.

Era provável que os alem ães estivessem avançando rum o ao sul. Até onde ele sabia, os franceses continuavam a lutar. Suas m elhores tropas, porém , tinham sido aniquiladas na Bélgica, e os guardas alem ães que vigiavam os presos exibiam um a expressão de triunfo, com o se soubessem que a vitória estava garantida.

Lloy d agora era prisioneiro de guerra, m as por quanto tem po? A essa altura, o governo britânico j á devia estar sofrendo um a forte pressão para assinar a paz. Churchill j am ais faria isso, porém , ao contrário de todos os outros políticos, não era filiado a nenhum partido e podia ser deposto. Hom ens com o lorde Halifax não achariam m uito difícil assinar um tratado de paz com os nazistas. O m esm o valia para o conde Fitzherbert, m inistro-adj unto das Relações Exteriores, pensou Lloy d com am argura, pois agora tinha a vergonha de saber que ele era seu pai.

Se a paz fosse assinada em breve, talvez seu tem po com o prisioneiro de guerra fosse curto. Ele poderia passá-lo todo ali, naquele estádio francês. Chegaria em casa m agro e queim ado de sol, m as, ainda assim , inteiro.

Se os britânicos continuassem lutando, porém , seria outra história. A últim a guerra tinha durado m ais de quatro anos. Lloy d não suportava a ideia de desperdiçar esse tem po de sua vida num cam po de prisioneiros de guerra. Resolveu que, para evitar isso, tentaria fugir.

Dieter voltou trazendo m eia dúzia de pás.

Lloy d as distribuiu aos hom ens m ais fortes, e o trabalho prosseguiu m ais depressa.

Em determ inado m om ento, os presos teriam que ser transferidos para um cam po perm anente. Essa seria a hora de tentar fugir. Com base em suas experiências na Espanha, Lloy d calculou que o Exército não fosse priorizar a vigilância dos prisioneiros. Se um deles tentasse escapar, poderia conseguir ou então levar um tiro e m orrer. De qualquer form a, seria um a boca a m enos para alim entar.

Eles passaram o resto do dia term inando as latrinas. Além da m elhora na higiene, o proj eto havia elevado o m oral dos soldados. Lloy d ficou acordado a noite toda, olhando as estrelas, tentando pensar em outras atividades com unitárias que pudesse organizar. Decidiu que faria um a grande com petição de atletism o, um a espécie de Olim píada do cam po de prisioneiros.

No entanto, não teve oportunidade para pôr seu plano em prática, pois na m anhã seguinte eles foram obrigados a m archar para fora do estádio.

No início, não teve certeza da direção em que estavam seguindo, m as não dem orou m uito para chegarem a um a estrada de duas pistas que fazia parte da Rota de Napoleão e com eçarem a seguir para o leste em ritm o constante. Provavelm ente a intenção era fazê-los ir a pé até a Alem anha, pensou Lloy d.

Ele sabia que, um a vez lá, seria m uito m ais difícil fugir. Tinha que aproveitar a oportunidade. E quanto antes, m elhor. Apesar do m edo – aqueles guardas tinham arm as –, estava decidido.

Com exceção de um ou outro carro de oficiais, não havia m uito tráfego de veículos, m as a estrada estava lotada de pessoas a pé seguindo na direção oposta. Em purrando seus pertences em pequenas carroças e carrinhos de m ão, algum as tocavam anim ais de fazenda à sua frente: eram obviam ente refugiados cuj as casas tinham sido destruídas durante a batalha. Aquilo era um sinal anim ador, disse Lloy d a si m esm o. Um prisioneiro foragido poderia se esconder entre aquelas pessoas.

Os prisioneiros não estavam sendo vigiados m uito bem . Apenas dez alem ães acom panhavam aquela fila de m il hom ens. Os guardas dispunham de um carro e um a m otocicleta; o restante andava a pé ou em bicicletas civis que deviam ter confiscado aos m oradores das redondezas.

Apesar disso, no início a fuga lhe pareceu im possível. Não havia nenhum a cerca viva ao estilo inglês para proporcionar cobertura, e as valas eram rasas dem ais para servir de esconderij o. Um hom em correndo seria alvo fácil para um atirador com petente.

Então eles entraram num vilarej o. Ali era m ais difícil para os guardas ficar de olho em todo m undo. Em pé dos lados da fila, m oradores encaravam os prisioneiros. Um pequeno rebanho de ovelhas se m isturou a eles. Chalés e loj as m argeavam a rua. Esperançoso, Lloy d ficou atento a qualquer oportunidade. Precisava de um lugar onde pudesse se esconder depressa: um a porta aberta, um corredor entre duas casas, um arbusto. E tinha que encontrá-lo num m om ento em que nenhum dos guardas estivesse por perto.

Poucos m inutos depois, estava deixando o vilarej o para trás sem ver nenhum a oportunidade.

Ficou irritado e disse a si m esm o que tivesse paciência. Haveria outras chances. O cam inho até a Alem anha era longo. Por outro lado, a cada dia que passasse, os alem ães aum entariam seu dom ínio sobre o território conquistado, m elhorariam sua organização, im poriam toques de recolher, m ontariam postos de controle e interrom periam a m ovim entação de refugiados. Fugir seria m ais fácil no início e se tornaria cada vez m ais difícil com o passar do tem po.

Fazia calor, e ele tirou o paletó e a gravata do uniform e. Daria um j eito de se livrar deles assim que possível. De perto, provavelm ente ainda parecia um soldado britânico, com a calça e a cam isa cáqui, m as esperava não cham ar tanta atenção de longe.

Passaram por m ais dois vilarej os e então chegaram a um a pequena cidade. Ali deveriam surgir algum as possibilidades de fuga, pensou Lloy d, nervoso. Percebeu que parte dele torcia para que não encontrasse um a boa oportunidade, para que não precisasse correr o risco de ser alvo daqueles fuzis. Será que j á estava se acostum ando ao cativeiro? Era m uito fácil sim plesm ente seguir m archando, com os pés doloridos, m as em segurança. Ele tinha que sair daquele estado.

Infelizm ente, a rua que atravessava a cidade era larga. A fila se m antinha no m eio da pista, deixando um largo corredor de am bos os lados, que teria de ser atravessado antes que um fugitivo pudesse se esconder. Algum as das loj as estavam fechadas, e um as poucas construções tinham tábuas pregadas nas portas e j anelas, m as Lloy d viu becos prom issores, cafés com as portas abertas e um a igrej a – no entanto, não conseguiria chegar a nenhum deles sem ser visto.

Estudou o rosto dos m oradores da cidade que encaravam a procissão de prisioneiros. Será que eram solidários à sua situação? Será que se lem bravam que aqueles hom ens haviam lutado pela França? Ou estariam com preensivelm ente apavorados com os alem ães e se recusariam a correr qualquer risco? Talvez um pouco de cada. Alguns arriscariam a vida para aj udar, outros o entregariam aos alem ães sem pestanej ar. E ele não conseguiria ver a diferença antes que fosse tarde dem ais.

Chegaram ao centro da cidade. Já perdi m etade das m inhas oportunidades, disse Lloy d a si m esm o. Preciso agir.

Mais adiante, viu um cruzam ento. Um a fila de veículos aguardava para dobrar à esquerda, pois os prisioneiros os im pediam de passar. Entre os carros, Lloy d viu um cam inhão civil. Suj o e surrado, parecia pertencer a um construtor ou operário de m anutenção de estradas. A carroceria era aberta, m as Lloy d não conseguiu ver lá dentro, pois as laterais eram altas.

Achou que talvez fosse capaz de se içar por um a das laterais e pular para dentro do veículo.

Um a vez lá dentro, não poderia ser visto por ninguém que estivesse em pé ou andando pela rua, nem pelos guardas de bicicleta. Mas estaria totalm ente exposto para as pessoas que observavam das j anelas superiores dos prédios que m argeavam as ruas. Será que elas iriam entregá-lo?

Ele se aproxim ou do cam inhão.

Olhou por cim a do om bro. O guarda m ais próxim o estava uns 200 m etros m ais atrás.

Olhou para a frente. Um guarda de bicicleta estava vinte m etros adiante.

– Por favor, pode segurar isto aqui para m im ? – pediu ao hom em que estava a seu lado, entregando-lhe o paletó do uniform e.

Chegou à boleia do cam inhão. Um hom em de ar entediado estava ao volante, de m acacão e boina, com um cigarro pendurado na boca. Lloy d passou por ele e alcançou a lateral do veículo. Não havia tem po de verificar outra vez a posição dos guardas.

Sem parar de andar, Lloy d segurou a lateral do cam inhão com as duas m ãos, suspendeu o corpo, j ogou um a perna por cim a da caçam ba, depois a outra, e caiu lá dentro com um baque que ecoou m uito alto apesar do barulho de m il pares de pés. Im ediatam ente se colou ao chão do veículo. Ficou deitado, sem se m exer, à escuta de algum grito em alem ão, do rugido de um a m oto se aproxim ando, do estam pido de um tiro de fuzil.

Ouviu o ronco irregular do m otor do cam inhão, o bater e arrastar dos pés dos prisioneiros, os ruídos de fundo do tráfego e dos m oradores de um a cidade pequena. Será que havia conseguido?

Olhou em volta, m antendo a cabeça baixa. Na carroceria havia baldes, tábuas de m adeira, um a escada e um carrinho de m ão. Estava torcendo para que houvesse alguns sacos que pudesse usar para se cobrir, m as não.

Ouviu um a m oto. Teve a im pressão de que ela havia parado ali perto. Então, a poucos centím etros de sua cabeça, alguém falou em francês com um forte sotaque alem ão:

– Para onde está indo?

Com o coração disparado, Lloy d concluiu que um guarda se dirigia ao m otorista do cam inhão. Será que ele iria exam inar a caçam ba?

O m otorista respondeu em francês, com um a profusão de palavras indignadas que Lloy d não conseguiu decifrar. O soldado alem ão provavelm ente tam bém não entendeu e repetiu a pergunta.

Ao erguer os olhos, Lloy d viu duas m ulheres observando a rua de um a j anela alta. Am bas o encaravam , boquiabertas. Um a delas apontava, com o braço estendido pela j anela aberta.

Lloy d tentou captar o olhar dela. Ainda deitado, sem se m exer, m oveu um a das m ãos de um lado para o outro, num gesto que significava “não”.

Ela entendeu o recado. Recolheu o braço de repente e cobriu a boca com a m ão, com o se tivesse percebido, horrorizada, que seu dedo apontado poderia significar um a sentença de m orte.

Lloy d quis que as duas m ulheres saíssem da j anela, m as era esperar dem ais, e am bas continuaram a encará-lo.

Então o guarda de m otocicleta pareceu desistir das perguntas, pois, instantes depois, a m oto se afastou rugindo.

O som dos passos foi se distanciando. A fila de prisioneiros havia passado. Será que Lloy d estava livre?

A m archa foi engatada com um estrondo e o cam inhão com eçou a andar. Lloy d sentiu quando o veículo fez um a curva e ganhou velocidade. Perm aneceu deitado, assustado dem ais para se m exer.

Ficou olhando para o alto das construções pelas quais passavam , alerta para o caso de alguém o ver, em bora não soubesse o que faria se isso acontecesse. A cada segundo distanciava-se m ais dos guardas alem ães, pensou, para encoraj ar a si m esm o.

Para sua decepção, o cam inhão logo parou. O m otor foi desligado, a porta do m otorista se abriu e logo tornou a se fechar com força. Então m ais nada. Lloy d passou algum tem po deitado sem se m exer, m as o m otorista não voltou.

Olhou para o céu. O sol estava alto: devia passar do m eio-dia. O m otorista decerto estava alm oçando.

O problem a era que, das j anelas altas de am bos os lados da rua, Lloy d ainda podia ser visto. Se ficasse ali, m ais cedo ou m ais tarde iriam reparar nele. E, nesse caso, não havia com o prever o que poderia acontecer.

Viu um a cortina se m over num sótão e isso o fez tom ar um a decisão.

Ficou de pé e espiou por cim a da lateral do cam inhão. Um hom em de terno andando pela calçada olhou para ele com ar de curiosidade, m as não parou.

Lloy d deslizou até o chão pela lateral do cam inhão. Viu que estava em frente a um bar e restaurante. O m otorista devia ter entrado ali. Para seu horror, viu dois hom ens com o uniform e m ilitar alem ão sentados a um a m esa na j anela, com copos de cervej a na m ão. Por m ilagre, eles não olharam para Lloy d.

Ele se afastou a passos rápidos.

Enquanto prosseguia, ia olhando ao redor, atento. Todos por quem passava o encaravam : sabiam exatam ente o que ele era. Um a m ulher gritou e saiu correndo. Lloy d percebeu que precisava trocar a cam isa e a calça cáqui por um a roupa m ais francesa, e depressa.

Um rapaz o segurou pelo braço.

– Venha com igo – disse ele, em inglês, com um sotaque carregado. – Vou aj udá-lo a se esconder.

O rapaz entrou por um a rua lateral. Lloy d não tinha por que confiar nele, m as precisava tom ar um a decisão rápida, então o seguiu.

– Por aqui – disse o rapaz, conduzindo Lloy d até um a pequena casa.

Lá dentro, na cozinha com poucos m óveis, estava um a m ulher com um bebê. O rapaz se cham ava Maurice, apresentou a m ulher com o sua esposa, Marcelle, e disse que a neném era Sim one.

Lloy d perm itiu-se um instante de alívio cheio de gratidão. Tinha conseguido fugir dos alem ães! Ainda corria perigo, m as estava fora da rua, num a casa am iga.

O francês rígido e correto que Lloy d havia aprendido na escola e em Cam bridge tornara-se m ais coloquial durante sua fuga da Espanha e principalm ente durante as duas sem anas que ele passara colhendo uvas em Bordeaux.

– Vocês são m uito gentis – falou. – Obrigado.

Claram ente aliviado por não ter que falar inglês, Maurice respondeu em sua língua:

– Im agino que queira com er algum a coisa.

– Eu gostaria m uito.

Marcelle cortou rapidam ente várias fatias de um pão de fôrm a e as pôs em cim a da m esa j unto com um queij o redondo e um a garrafa de vinho sem rótulo. Lloy d sentou-se e com eçou a com er feito um esfom eado.

– Vou lhe arranj ar um as roupas velhas – disse Maurice. – Mas você tam bém precisa tentar andar de outra form a. Estava dando passos largos e olhando em volta, tão alerta e interessado que poderia m uito bem estar com um a placa pendurada no pescoço dizendo “Visitante da Inglaterra”. É m elhor arrastar os pés e olhar sem pre para o chão.

Com a boca cheia, Lloy d respondeu:

– Vou m e lem brar disso.

Na cozinha, havia um a pequena prateleira de livros que incluíam traduções em francês de Marx e Lenin. Ao reparar que Lloy d olhava para os livros, Maurice explicou:

– Eu era com unista... antes do pacto entre Hitler e Stalin. Agora está tudo acabado. – Ele fez o gesto de cortar o ar com a m ão. – Mesm o assim , precisam os derrotar o fascism o.

– Eu lutei na Espanha – disse Lloy d. – Antes disso, acreditava num a frente unida de todos os partidos de esquerda. Mas agora não acredito m ais.

Sim one com eçou a chorar. Marcelle põs um seio enorm e para fora do vestido solto e com eçou a am am entar a neném . As francesas eram m ais descontraídas em relação a isso do que as pudicas inglesas, recordou Lloy d.

Quando Lloy d term inou de com er, Maurice o levou até o andar de cim a. De um arm ário que continha poucas roupas, tirou um m acacão azul-escuro, um a cam isa azul-clara, um a cueca e um par de m eias, todos usados porém lim pos. A gentileza daquele hom em visivelm ente pobre deixou Lloy d em ocionado, e ele não soube com o agradecer.

– Pode deixar suas roupas do Exército no chão – disse Maurice. – Depois eu as queim arei.

Lloy d teria apreciado um banho, m as não havia banheiro na casa. Im aginou que ficasse no quintal dos fundos.

Vestiu as roupas lim pas e exam inou seu reflexo num espelho pendurado na parede. O azul francês lhe caía m elhor do que o cáqui m ilitar, m as ele ainda parecia britânico.

Tornou a descer para a cozinha.

Marcelle estava pondo a neném para arrotar.

– Chapéu – disse ela.

Maurice lhe entregou um a boina azul-escura tipicam ente francesa, e Lloy d a pôs na cabeça.

O francês então lançou um olhar nervoso para suas botas m ilitares de couro preto: apesar de em poeiradas, sua boa qualidade era indisfarçável.

– Essas botas vão entregá-lo – falou.

Lloy d não queria se desfazer delas. Tinha um longo cam inho a percorrer a pé.

– Será que conseguim os fazê-las parecer m ais velhas? – indagou.

Maurice pareceu descrente.

– Com o?

– Tem um a faca afiada?

O francês sacou do bolso um canivete.