Inverno do Mundo

Ken Follett · Capítulo 38 de 153

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Inverno do Mundo

Capítulo seis

 

1940 (I)

 

Aberowen estava m udada. Carros, cam inhões e ônibus trafegavam pelas ruas. Na década de 1920, quando Lloy d era criança e ia à cidade visitar os avós, um carro estacionado era um a raridade capaz de j untar um a m ultidão.

Mas a cidade ainda era dom inada pelas torres gêm eas da entrada da m ina, com suas rodas girando, m aj estosas. Não havia m ais nada: nenhum a fábrica, nenhum prédio com ercial, nenhum a indústria que não fosse a extração de carvão. Quase todos os hom ens da cidade trabalhavam na m ina. Havia pouquíssim as exceções: um punhado de loj istas, sacerdotes de diversas religiões, um escrevente m unicipal, um m édico. Sem pre que a dem anda por carvão dim inuía e havia dem issões, com o acontecera nos anos 1930, os hom ens não tinham o que fazer. Era por isso que a luta m ais ferrenha do Partido Trabalhista era pelos desem pregados, para que aqueles hom ens nunca m ais tivessem que enfrentar a agonia e a hum ilhação de não poder alim entar suas fam ílias.

O tenente Lloy d William s havia chegado no trem de Cardiff num dom ingo de abril de 1940. Com um a pequena m ala na m ão, subira a colina até Tŷ Gwy n. Passara oito m eses treinando novos recrutas – m esm o trabalho que fazia na Espanha – e a equipe de boxe dos Fuzileiros Galeses. Mas então o Exército finalm ente se deu conta de que ele falava alem ão fluentem ente e o transferiu para o serviço de inteligência, no qual com eçara um treinam ento.

Treinar era tudo o que o Exército tinha feito até então. Nenhum soldado britânico participara de qualquer confronto significativo com o inim igo. A Alem anha e a URSS haviam derrotado a Polônia e a dividido entre si, e a garantia de independência que os Aliados tinham dado a esse país se revelara inútil.

O povo britânico cham ava aquele conflito de Guerra de Mentira, e estava im paciente para ver as coisas acontecerem de verdade. Apesar de não nutrir qualquer ilusão rom ântica em relação à guerra – j á ouvira as vozes de hom ens à beira da m orte, dignos de pena, im plorando por água nos cam pos de batalha da Espanha –, Lloy d estava ansioso para iniciar a luta final contra o fascism o.

O Exército esperava m andar m ais tropas para a França, prevendo um a invasão alem ã. Isso ainda não havia acontecido e elas se m antinham a postos, m as, nesse m eio-tem po, o que m ais faziam era treinar.

A iniciação de Lloy d nos m istérios da inteligência m ilitar iria acontecer na m esm a m ansão que, por tanto tem po, fizera parte do destino de sua fam ília. Os ricos e nobres proprietários de m uitos palacetes daquele tipo os haviam em prestado às Forças Arm adas, talvez por m edo de que, se não o fizessem , as propriedades fossem confiscadas de form a definitiva.

O Exército com certeza havia m udado Tŷ Gwy n. Um a dúzia de veículos verde-oliva estava estacionada no gram ado, e seus pneus tinham m arcado a luxuriante gram a do conde. O gracioso pátio de entrada, com seus degraus curvos de granito, virara um ponto de descarte de m aterial, e im ensas latas de feij ão cozido e banha para preparar com ida form avam pilhas altas no m esm o lugar em que, antigam ente, m ulheres cobertas de j oias e hom ens de casaca desciam de suas carruagens. Lloy d sorriu: gostava daquele efeito nivelador da guerra.

Entrou na casa. Foi recebido por um oficial baixinho e gorducho usando um uniform e am arrotado e cheio de m anchas.

– Veio para o curso de inteligência, tenente?

– Sim , senhor. Meu nom e é Lloy d William s.

– Maj or Lowther.

Lloy d j á ouvira falar nele. Era o m arquês de Lowther, conhecido pelos am igos com o Lowthie.

Lloy d olhou em volta. Os quadros das paredes tinham sido cobertos com im ensos lençóis, para protegê-los da poeira. As lareiras de m árm ore esculpido haviam sido isoladas com tábuas grosseiras, deixando espaço para apenas um a grelha. Os antigos m óveis escuros, dos quais sua m ãe às vezes falava com carinho, tinham todos desaparecido, substituídos por m esas de aço e cadeiras baratas.

– Meu Deus, com o isto aqui está diferente – com entou ele.

Lowther sorriu.

– Você j á esteve aqui antes? Conhece a fam ília?

– Estudei em Cam bridge com Boy Fitzherbert. Tam bém conheci a viscondessa, em bora na época eles não fossem casados. Mas im agino que tenham deixado a casa enquanto durar a guerra.

– Não totalm ente. Alguns côm odos foram reservados para uso da fam ília. Mas eles não nos incom odam em nada. Quer dizer que o senhor esteve aqui com o convidado?

– Por Deus, não. Eu não os conheço tão bem assim . Visitei a m ansão quando era m enino, num dia em que a fam ília não estava. Minha m ãe trabalhava aqui antigam ente.

– É m esm o? Ela cuidava da biblioteca do conde, ou algo assim ?

– Não, era criada. – Assim que as palavras saíram da boca de Lloy d, ele soube que tinha com etido um erro.

A expressão de Lowther se m odificou, dem onstrando repulsa.

– Entendo – com entou ele. – Muito interessante.

Lloy d soube que havia sido im ediatam ente classificado com o um proletário parvenu. Agora seria tratado com o cidadão de segunda classe durante toda a sua estadia na m ansão. Deveria ter ficado calado em relação ao passado da m ãe: sabia quão esnobe era o Exército.

– Sargento, leve o tenente até seu quarto – disse Lowthie. – No sótão.

Lloy d tinha recebido um quarto na antiga ala dos criados. Na verdade, não se im portava. Foi o suficiente para m inha m ãe, pensou.

Quando estavam subindo a escada dos fundos, o sargento disse a Lloy d que ele não tinha nenhum com prom isso até o j antar no refeitório. Ele perguntou se alguém da fam ília Fitzherbert estava na casa naquele m om ento, m as o sargento não soube dizer.

Levou dois m inutos para desfazer a m ala. Penteou os cabelos, vestiu um a cam isa de uniform e lim pa e foi visitar os avós.

A casa na Wellington Row lhe pareceu m enor e m ais sem graça do que nunca, apesar de agora ter água quente na copa e um a privada com descarga no banheiro externo. A decoração era a m esm a de que Lloy d ainda se lem brava: o tapete surrado no chão, as cortinas de estam pa desbotada, as duas cadeiras de carvalho no único aposento do térreo, que servia de sala e cozinha.

Seus avós, porém , haviam m udado. Estavam am bos com cerca de 70 anos agora e pareciam frágeis. Granda sofria com dores nas pernas e se aposentara com relutância do em prego no sindicato dos m ineiros. Grandm am tinha problem as de coração: o Dr. Mortim er lhe recom endara ficar com os pés para cim a por 15 m inutos após cada refeição.

Am bos ficaram contentes ao vê-lo de uniform e.

– Tenente, é? – com entou Grandm am . Em bora tivesse lutado a vida inteira contra as diferenças de classe, ela não conseguiu esconder o orgulho do neto oficial.

As notícias corriam depressa em Aberowen, e o fato de o neto de Dai do Sindicato estar fazendo um a visita provavelm ente rodou m etade da cidade antes m esm o de Lloy d term inar sua prim eira xícara do forte chá da avó. Portanto, ele não ficou m uito surpreso quando Tom m y Griffiths apareceu.

– Im agino que m eu Lenny seria tenente com o você, se voltasse da Espanha – disse Tom m y .

– Acho que sim – respondeu Lloy d. Ele nunca conhecera um oficial que tivesse sido m ineiro antes de entrar para o Exército, m as, quando a guerra com eçasse para valer, tudo seria possível. – Um a coisa eu posso lhe garantir: ele foi o m elhor sargento na Espanha.

– Vocês passaram por m uita coisa j untos.

– Nós vivem os um inferno – disse Lloy d. – E perdem os. Mas os fascistas não vão ganhar desta vez.

– Um brinde a isso – disse Tom m y , esvaziando sua xícara de chá.

Lloy d foi com os avós ao serviço da noite na capela Bethesda. A religião não era um a parte im portante de sua vida, e ele certam ente não concordava com o dogm atism o de Granda. Pensava que o Universo era um m istério e que era m elhor as pessoas aceitarem esse fato. Mas seus avós ficaram felizes quando o neto se sentou ao lado deles na capela.

As preces espontâneas foram eloquentes, entrem eando expressões bíblicas e coloquiais de form a natural. O serm ão foi um pouco m açante. Os cânticos, porém , deixaram Lloy d entusiasm ado. Os fiéis sem pre cantavam um hino de quatro partes e, quando estavam inspirados, eram capazes de fazer a capela vir abaixo.

Ao cantar, Lloy d sentiu que ali, dentro daquela capela caiada, pulsava o coração da Grã-Bretanha. As pessoas à sua volta estavam m alvestidas, tinham pouca instrução e levavam um a vida de trabalho árduo e interm inável: os hom ens extraindo o carvão da terra, as m ulheres criando a próxim a geração de m ineiros. No entanto, tinham as costas fortes e a m ente arguta, e sozinhas haviam criado um a cultura que fazia a vida valer a pena. Tiravam esperança de um cristianism o não conform ista e do esquerdism o político, encontravam alegria na prática do rúgbi e nos corais m asculinos, e uniam -se graças à generosidade nos tem pos bons e à solidariedade nos ruins. Era por aquilo que ele iria lutar, por aquelas pessoas, por aquela cidade. E, se tivesse que dar a vida por elas, valeria a pena.

Granda fez a prece final, em pé e de olhos fechados, apoiado num a bengala:

– Vede entre nós, ó Senhor, vosso j ovem servo Lloy d William s, aqui sentado com seu uniform e. Nós vos pedim os, em vossa infinita sabedoria e graça, que poupeis a vida dele no conflito que está por vir. Por caridade, Senhor, fazei com que ele volte para nós são e salvo. Se for essa a vossa vontade, ó Senhor.

A congregação respondeu com um “am ém ” sincero, e Lloy d enxugou um a lágrim a.

Acom panhou os m ais velhos até em casa enquanto o sol se escondia atrás da m ontanha e a penum bra do fim do dia cobria as fileiras de casas cinzentas. Recusou o convite para um a ceia na casa dos avós e voltou depressa para Tŷ Gwy n, a tem po de j antar no refeitório.

Com eram carne assada com batatas cozidas e repolho. A com ida não estava m elhor nem pior do que a m aioria dos ranchos do Exército, e Lloy d com eu com vontade, consciente de que aquela refeição tinha sido paga por pessoas com o seus avós, que nessa m esm a hora estavam j antando pão com banha. Havia um a garrafa de uísque sobre a m esa e, para ser sim pático, bebeu um pouco. Ficou estudando os colegas de curso e tentando lem brar o nom e de cada um deles.

A cam inho do quarto, passou pela Sala das Esculturas, agora sem nenhum a obra de arte e m obiliada com um quadro-negro e 12 m esas baratas. Lá dentro, viu o m aj or Lowther conversando com um a m ulher. Quando olhou com m ais atenção, viu que a m ulher era Daisy Fitzherbert.

Ficou tão surpreso que parou. Lowther olhou em volta com um a expressão irritada. Ao ver Lloy d, falou:

– Lady Aberowen, acho que a senhora j á conhece o tenente William s.

Se ela negar, pensou Lloy d, vou lem brar-lhe daquela ocasião em que m e deu um beij o sôfrego e dem orado num a rua escura de May fair.

– Que prazer vê-lo novam ente, Sr. William s – disse ela, estendendo a m ão para ele.

Sua pele era m acia e estava m orna. Seu coração com eçou a bater m ais depressa.

– William s m e contou que a m ãe dele trabalhou aqui com o criada – disse Lowther.

– Eu sei – falou Daisy. – Ele m e contou isso no baile do Trinity. Estava m e repreendendo por ser esnobe. Lam ento dizer que ele estava coberto de razão.

– É generosidade sua, Lady Aberowen – disse Lloy d, encabulado. – Não sei por que fui dizer um a coisa dessas à senhora. – Ela parecia m enos dura do que ele se lem brava: talvez tivesse am adurecido.

– A m ãe do Sr. William s hoj e é deputada – disse Daisy a Lowther, que ficou espantado.

– E com o vai sua am iga j udia, Eva? – perguntou Lloy d a Daisy. – Sei que ela se casou com Jim m y Murray .

– Eles têm dois filhos.

– Ela conseguiu tirar os pais da Alem anha?

– Quanta gentileza sua se lem brar disso... Mas não, infelizm ente os Rothm ann não conseguiram vistos.

– Que lástim a. Deve estar sendo horrível para ela.

– Está, sim .

Aquela conversa sobre criadas e j udeus obviam ente estava deixando Lowther im paciente.

– Mas, voltando ao que eu estava dizendo, Lady Aberowen...

– Desej o-lhes um a boa-noite – disse Lloy d. Saiu da Sala das Esculturas e subiu correndo até seu quarto.

Quando estava se preparando para dorm ir, pegou-se cantando o últim o hino entoado na capela: