Inverno do Mundo

Ken Follett · Capítulo 43 de 153

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Inverno do Mundo

Capítulo VI

– Com o eles podem querer m antê-lo depois de tudo o que aconteceu?

– Não tire conclusões precipitadas – disse Bernie, enquanto o prim eiro-m inistro se retirava e o barulho com eçava a dim inuir. Ele estava fazendo contas com um lápis na m argem do Evening News. – O governo em geral tem m ais ou m enos 240 votos de vantagem . Essa m argem caiu para oitenta. – Ele seguiu anotando núm eros, fazendo som as e subtrações. – Estim ando por alto a quantidade de parlam entares ausentes, calculo que uns quarenta partidários do governo tenham votado contra Cham berlain, e outros sessenta tenham se abstido. É um golpe terrível para um prim eiro-m inistro: cem de seus colegas não confiam nele.

– Mas isso basta para forçá-lo a renunciar? – indagou Lloy d, im paciente.

Bernie abriu os braços num gesto de quem se rende.

– Não sei – respondeu.

 

VI

No dia seguinte, Lloy d, Ethel, Bernie e Billy pegaram o trem para Bournem outh.

O vagão estava cheio de representantes do partido, vindos de todos os pontos da Grã-Bretanha. Todos passaram a viagem conversando sobre o debate da noite anterior no Parlam ento e sobre o futuro do prim eiro-m inistro, falando com sotaques que iam da dicção ríspida e sincopada de Glasgow aos floreios e cadências do cockney londrino. Mais um a vez, Lloy d não teve chance de abordar com a m ãe o assunto que o consum ia.

Com o a m aior parte dos representantes do partido, eles não tinham dinheiro para pagar os elegantes hotéis no alto das colinas, por isso se hospedaram num a pensão nos arredores da cidade. Nessa noite, os quatro foram a um pub e se sentaram ao redor de um a m esa de canto tranquila. Lloy d viu sua oportunidade.

Bernie trouxe um a prim eira rodada de bebidas. Ethel se perguntou em voz alta o que estaria acontecendo com sua am iga Maud, em Berlim : com o a guerra interrom pera o serviço postal entre Alem anha e Grã-Bretanha, fazia tem po que não tinha notícias dela.

Lloy d tom ou um golinho de sua cervej a e em seguida falou, com voz firm e:

– Eu gostaria de saber m ais sobre m eu verdadeiro pai.

– Bernie é o seu pai – disse Ethel, incisiva.

Mais evasivas! Lloy d reprim iu a raiva que brotou im ediatam ente dentro dele.

– Não precisa m e dizer isso – falou. – E eu não preciso dizer a Bernie que o am o com o um pai, porque ele j á sabe.

Bernie lhe deu tapinhas no om bro, um gesto de afeto canhestro porém sincero.

– Mas estou curioso em relação a Teddy William s – insistiu Lloy d.

– Nós precisam os falar sobre o futuro, não sobre o passado – disse Billy. – Estam os em guerra!

– Justam ente – retrucou Lloy d. – Por isso m esm o quero respostas para as m inhas perguntas agora. Não estou disposto a esperar, porque em breve vou partir para a frente de batalha e não quero m orrer sem saber. – Não via com o eles poderiam contestar esse argum ento.

– Você j á sabe tudo o que há para saber – disse Ethel, m as sem encará-lo.

– Não sei, não – retrucou ele, esforçando-se para ser paciente. – Onde estão m eus outros avós? Eu tenho tios, tias ou prim os?

– Teddy William s era órfão – disse Ethel.

– E foi criado em que orfanato?

– Por que você está sendo tão cabeça-dura? – perguntou ela, irritada.

Lloy d elevou o tom de voz, tão exasperado quanto a m ãe:

– Porque sou igual a você!

Bernie não conseguiu reprim ir um sorriso.

– Bem , isso é verdade.

Mas Lloy d não achou graça.

– Em que orfanato?

– Ele talvez tenha m e dito, m as não m e lem bro. Acho que em Cardiff.

– Lloy d, m eu garoto – introm eteu-se Billy –, você está m exendo num a ferida. Beba sua cervej a e esqueça este assunto.

– Não por isso, tio Billy : eu tam bém tenho um a droga de um a ferida – disse Lloy d, zangado. – E estou farto de m entiras.

– Ora, vam os – disse Bernie. – Não há por que falar em m entiras.

– Sinto m uito, pai, m as há, sim . – Lloy d ergueu um a das m ãos para im pedir que o interrom pessem . – Da últim a vez que perguntei, Mam m e disse que a fam ília de Teddy William s era de Swansea, m as que eles se m udavam m uito por causa do em prego do pai. Agora está dizendo que ele foi criado num orfanato em Cardiff. Um a dessas histórias é falsa... ou talvez as duas.

Por fim , Ethel olhou-o nos olhos.

– Eu e Bernie o alim entam os, o vestim os e o m andam os para a escola e para a universidade – falou ela, indignada. – Você não tem do que reclam ar.

– E serei para sem pre grato por isso, e sem pre am arei vocês – respondeu Lloy d.

– Mas por que este assunto foi surgir logo agora, afinal? – indagou Billy .

– Por causa de algo que um a pessoa m e disse lá em Aberowen.

Sua m ãe não reagiu, m as um lam pej o de m edo cruzou seu olhar. Alguém no País de Gales sabe a verdade, pensou Lloy d.

Ele prosseguiu sem piedade:

– Me disseram que Maud Fitzherbert pode ter engravidado em 1914, e que talvez você tenha aceitado dizer que o bebê era seu, e por isso foi recom pensada com a casa da Nutley Street.

Ethel deu um m uxoxo de desprezo.

Lloy d levantou a m ão.

– Isso explicaria duas coisas – falou. – Prim eiro, a am izade im provável entre você e Lady Maud. – Ele pôs a m ão no bolso do paletó. – Segundo, esta foto m inha de costeletas. – Ele lhes m ostrou a fotografia.

Ethel encarou a im agem sem dizer nada.

– Poderia ser eu, não é? – indagou Lloy d.

– Sim , Lloy d, poderia – disse Billy, ríspido. – Mas está óbvio que não é, então deixe de rodeios e diga logo quem é esse hom em .

– É o pai do conde Fitzherbert. E agora deixem de rodeios vocês! Tio Billy, Mam , eu sou filho de Maud, não sou?