Inverno do Mundo

Ken Follett · Capítulo 98 de 153

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Inverno do Mundo

Capítulo dezesseis

 

1943 (II)

 

Em m arço de 1943, na cidade de Kharkov, o coronel Albert Beck foi atingido no pulm ão por um a bala russa. Teve sorte: um cirurgião de cam panha pôs um dreno em seu peito e salvou sua vida por um triz. Enfraquecido pela hem orragia e pela infecção quase inevitável, Beck foi m andado de volta à Alem anha de trem e acabou indo parar no hospital de Berlim onde Carla trabalhava.

Era um hom em durão, m agro e m usculoso, de 40 e poucos anos, prem aturam ente calvo e com um m axilar saliente que lem brava um barco viking. Na prim eira vez que falou com Carla, drogado e febril, m ostrou-se m uito indiscreto.

– Estam os perdendo a guerra – disse ele.

Carla ficou alerta na m esm a hora. Um oficial descontente era um a fonte de inform ações em potencial.

– Segundo os j ornais, estam os encurtando a linha de batalha no front oriental – respondeu ela em tom casual.

O coronel deu um a risada desdenhosa.

– Isso significa que estam os recuando.

Ela continuou tentando obter m ais inform ações.

– E as coisas não vão nada bem na Itália.

Benito Mussolini, ditador italiano e m aior aliado de Hitler, acabara de cair.

– A senhorita se lem bra de 1939 e 1940? – indagou Beck, nostágico. – Um a sucessão de vitórias rápidas e brilhantes. Bons tem pos aqueles...

O coronel obviam ente não era um hom em de ideologias; talvez nem se interessasse por política. Era apenas um soldado norm al e patriota que havia parado de se iludir.

Carla fez com que ele continuasse falando:

– Não é possível que estej a faltando de tudo no Exército, de balas até roupa de baixo.

Esse tipo de conversa levem ente arriscada não era raro em Berlim nos últim os tem pos.

– É claro que é. – Beck era bastante desinibido e falava de form a bem -articulada. – A Alem anha sim plesm ente não consegue produzir a m esm a quantidade de arm as e tanques que a União Soviética, a Grã-Bretanha e os Estados Unidos j untos... principalm ente sob bom bardeios constantes. Além disso, pouco im porta quantos russos m atam os: o Exército Verm elho parece dispor de um estoque inesgotável de novos recrutas.

– O que o senhor acha que vai acontecer?

– É claro que os nazistas nunca vão adm itir a derrota. Então m ais pessoas vão m orrer. Milhões. E pelo sim ples fato de que eles são orgulhosos dem ais para ceder. É um a insanidade. Um a insanidade.

Então ele pegou no sono.

Era preciso estar doente ou louco para dizer aquelas coisas em voz alta, m as, na opinião de Carla, cada vez m ais pessoas pensavam assim . Apesar da propaganda incessante do governo, vinha ficando claro que Hitler estava perdendo a guerra.

A m orte de Joachim Koch não havia gerado nenhum inquérito policial. Fora noticiada no j ornal com o um acidente de trânsito. Carla tinha superado o choque inicial, m as de vez em quando era atingida pela consciência de ter m atado um hom em e, em sua m ente, revia a m orte do rapaz. Isso a deixava trêm ula e a obrigava a se sentar. Felizm ente, acontecera apenas um a vez durante o plantão, e ela alegara um m al-estar causado pela fom e – algo altam ente plausível na Berlim da guerra. O estado de sua m ãe era ainda pior. Carla achava estranho pensar que Maud houvesse m esm o am ado Joachim , por m ais fraco e tolo que fosse o tenente. O am or, porém , não tinha explicação. A própria Carla havia se enganado redondam ente em relação a Werner Franck, j ulgando-o forte e coraj oso, apenas para descobrir que ele era egoísta e covarde.

Conversou bastante com Beck antes de o coronel ter alta, a fim de tentar descobrir que tipo de hom em ele era. Depois de recuperado, ele nunca m ais tornou a falar sobre a guerra com a m esm a indiscrição. Contou-lhe que era m ilitar de carreira, que havia perdido a esposa e que a filha, j á casada, m orava em Buenos Aires. Seu pai fora m em bro do Conselho Municipal de Berlim : Beck não especificou por qual partido, então obviam ente não devia ser o Partido Nazista nem um de seus aliados. Ele nunca dizia nada de negativo sobre Hitler, m as tam bém não falava nada de positivo. Tam pouco insultava j udeus ou com unistas. Ultim am ente, só isso j á era sinal de insubordinação.

Seu pulm ão ficaria curado, m as o coronel nunca m ais voltaria a ser forte o suficiente para o serviço ativo. Ele contou a Carla que seria transferido para o Estado-Maior. Poderia se tornar um a verdadeira m ina de diam antes de segredos im portantes. Carla estaria arriscando a própria vida se tentasse recrutá-lo – m as tinha que fazer isso.

Sabia que ele não se lem braria da prim eira conversa que tiveram .

– O senhor foi bem sincero – disse-lhe ela em voz baixa. Não havia ninguém por perto. – Falou que estávam os perdendo a guerra.

Um lam pej o de m edo cruzou o olhar do coronel. Ele não era m ais um paciente desorientado, usando a cam isola do hospital e com a barba por fazer. Estava de banho tom ado, barbeado, sentado ereto na cam a, vestido com um pij am a azul-escuro abotoado até o pescoço.

– Im agino que a senhorita vá m e denunciar à Gestapo – falou. – Não acho que um hom em deva pagar pelas coisas que diz quando está doente e delirando.

– O senhor não estava delirando – disse ela. – Falou de form a bem clara. Mas não vou denunciá-lo.

– Ah, não?

– Não, porque o senhor tem razão.

Ele ficou surpreso.

– Agora eu deveria denunciá-la.

– Se fizer isso, direi que o senhor ofendeu Hitler quando estava delirando e que, quando am eacei delatá-lo, inventou um a história sobre m im para se defender.

– Se eu a denunciar, a senhorita m e denunciará – disse o coronel. – Estam os em patados.

– Só que o senhor não vai fazer isso – retrucou ela. – Eu o conheço. Cuidei do senhor. É um hom em bom . Entrou para o Exército por am or ao seu país, m as odeia a guerra e os nazistas. – Carla tinha 99% de certeza disso.

– É m uito perigoso falar assim .