Inverno do Mundo
Capítulo II
Ela pegou na cesta um a am pola de líquido transparente e a seringa nova. Com gestos rápidos, tirou a seringa da caixa e a encheu com o líquido. Então aplicou a m orfina em Rudi.
O efeito foi quase instantâneo. Os gem idos cessaram . Ele abriu os olhos e olhou para Carla.
– Você é um anj o – falou. Então fechou os olhos e pareceu adorm ecer.
– Tem os que tentar pôr os dedos dele no lugar – disse Carla. – Para os ossos se calcificarem na posição certa.
Ela tocou a m ão esquerda de Rudi. Não houve reação. Segurou a m ão e a levantou. O rapaz continuou sem se m exer.
– Nunca consertei ossos na vida – disse Hannelore. – Mas j á vi isso ser feito várias vezes.
– Eu tam bém – disse Carla. – Mas é m elhor tentarm os. Eu faço a m ão esquerda, e a senhora cuida da direita. Tem os que term inar antes que o efeito do rem édio passe. Deus bem sabe que ele j á vai sentir dor suficiente.
– Está bem – concordou Hannelore.
Carla ainda aguardou m ais alguns instantes. Sua m ãe tinha razão. Elas precisavam fazer tudo o que pudessem para pôr fim àquele regim e, m esm o que isso significasse trair seu país. Não tinha m ais dúvida algum a em relação a isso.
– Vam os lá – falou.
Com m uita delicadeza e cuidado, as duas com eçaram a endireitar as m ãos quebradas de Rudi.
II
Toda sexta-feira à tarde, Thom as Macke ia ao bar Tannenberg.
O lugar não era lá grande coisa. Num a das paredes havia a fotografia em oldurada do proprietário, Fritz, 25 anos m ais j ovem e sem a barriga de cervej a, usando um uniform e da Prim eira Guerra Mundial. Ele alegava ter m atado nove russos na batalha de Tannenberg. O bar tinha poucas m esas e cadeiras, m as todos os clientes regulares se sentavam ao balcão. O cardápio com capa de couro era quase todo fictício: os únicos pratos servidos eram linguiça com batata ou linguiça sem batata.
No entanto, o bar ficava em frente à delegacia de Kreuzberg, e por isso era m uito frequentado por policiais. Isso significava que o estabelecim ento podia infringir todas as regras. A j ogatina corria solta, prostitutas faziam sexo oral nos banheiros e os inspetores de saúde da prefeitura de Berlim j am ais entravam na cozinha. O bar abria quando Fritz acordava e fechava quando o últim o cliente ia para casa.
Anos atrás, antes de os nazistas assum irem o poder e darem um a chance a hom ens com o ele, Macke era um m odesto funcionário da delegacia de Kreuzberg. Alguns de seus ex-colegas ainda bebiam no Tannenberg, e ele podia ter certeza de cruzar com um ou dois rostos conhecidos. Ainda gostava de conversar com velhos am igos, em bora agora estivesse bem acim a deles na carreira, um a vez que se tornara inspetor e m em bro da SS.
– Você se saiu bem , Thom as, ninguém pode negar – com entou Bernhardt Engel, que, em 1932, era o sargento superior a Macke na delegacia e até hoj e m antinha a m esm a patente. – Boa sorte, filho – disse, levando aos lábios a caneca de cervej a que Macke lhe trouxera.
– Não vou discordar – retrucou Macke. – Mas posso dizer que o superintendente Kringelein é bem pior com o chefe do que você.
– Eu era m uito m olenga com os rapazes – reconheceu Bernhardt.
Outro ex-colega, Franz Edel, riu com sarcasm o.
– Eu não diria exatam ente m olenga!
Olhando pela j anela, Macke viu um a m oto encostar em frente ao bar, conduzida por um rapaz que usava o casaco azul-claro curto com cinto de um oficial da Aeronáutica. O j ovem lhe pareceu conhecido: Macke j á o vira em algum lugar. Tinha cabelos ruivos, m eio com pridos dem ais, que caíam sobre um a testa aristocrática. Ele atravessou a calçada e entrou no Tannenberg.
Macke então se lem brou do nom e do rapaz. Aquele era Werner Franck, filho m im ado de Ludi Franck, o fabricante de rádios.
Werner foi até o bar e pediu um m aço de cigarros Kam el. Que previsível, pensou Macke: o play boy fum ava cigarros de estilo am ericano, m esm o que fossem um a im itação alem ã.
Werner pagou, abriu o m aço, sacou um cigarro e pediu fogo a Fritz. Quando se virou para ir em bora, com o cigarro pendurado na boca num ângulo provocante, seu olhar encontrou o de Macke e, após refletir por alguns instantes, falou:
– Inspetor Macke.
Todos os clientes do bar olharam para Macke para ver o que ele iria dizer.
Ele m eneou a cabeça num gesto casual.
– Com o vai, j ovem Werner?
– Muito bem , inspetor, obrigado.
O tom respeitoso agradou Macke, m as tam bém o deixou surpreso. Ele se lem brava de Werner com o um rapaz im pertinente e arrogante, sem o devido respeito pelas autoridades.
– Acabo de voltar de um a visita ao front oriental com o general Dorn – continuou Werner.
Macke sentiu que os policiais no bar com eçaram a prestar atenção na conversa. Um hom em que visitara o front oriental m erecia respeito. Macke não pôde evitar um a certa satisfação por ter deixado todos eles im pressionados com os altos círculos que frequentava.
Werner estendeu o m aço de cigarros para Macke, que aceitou um .
– Um a cervej a – disse Werner para Fritz. Então virou-se novam ente para Macke. – Posso lhe oferecer um a bebida, inspetor?
– A m esm a coisa para m im , obrigado.
Fritz encheu duas canecas de cervej a. Werner ergueu a sua até j unto da de Macke e disse:
– Quero lhe agradecer.
Outra surpresa.
– Por quê? – indagou Macke.
Todos os seus am igos escutavam com atenção.
– Um ano atrás, o senhor m e passou um trem endo serm ão – disse Werner.
– Você não pareceu m uito grato na época.
– E peço desculpas por isso. Mas pensei m uito sobre o que o senhor m e disse e acabei m e dando conta de que o senhor tinha razão. Eu havia deixado m eus sentim entos pessoais prej udicarem m eu j ulgam ento. O senhor m e fez ver a luz. Nunca m e esquecerei disso.
Macke ficou tocado. Tinha antipatizado com Werner e sido ríspido com ele. O rapaz, no entanto, prestara atenção no que ele dissera e tom ara j uízo. Macke sentiu um a onda de contentam ento por ter feito tanta diferença na vida de um j ovem .