Inverno do Mundo
Capítulo VI
Ao olhar com m ais atenção, Erik pôde ver que havia m esm o algo errado. O rosto do bebê estava torto. Um dos lados era norm al, m as no outro a cabeça parecia afundada e havia algum a coisa estranha com o olho.
Rothm ann entregou o bebê a Carla.
Ada gem eu outra vez e pareceu fazer força.
Quando ela relaxou, o Dr. Rothm ann levou a m ão em baixo de sua saia e pegou um naco de algo que se parecia repulsivam ente com carne crua.
– Erik – disse ele –, vá buscar um j ornal para m im .
– Qual deles? – perguntou o m enino. Seus pais com pravam todos os j ornais im portantes diariam ente.
– Qualquer um , rapaz – respondeu o Dr. Rothm ann com a voz branda. – Não é para ler.
Erik correu até o andar de cim a e encontrou o Vossiche Zeitung do dia anterior. Quando voltou, o m édico em brulhou o naco de carne no j ornal e o pôs no chão.
– Isso é a placenta – explicou ele para Carla. – Melhor queim á-la depois.
Ele então tornou a se sentar na beirada da cam a.
– Ada, querida, você vai ter que ser m uito coraj osa – disse ele. – Seu bebê está vivo, m as pode ser que haj a algum a coisa errada com ele. Vam os dar um banho nele, vesti-lo com roupas quentes e depois terem os que levá-lo ao hospital.
– Qual é o problem a? – perguntou a m ãe, assustada.
– Não sei. Ele precisa ser exam inado.
– Ele vai ficar bem ?
– Os m édicos farão tudo o que puderem . O restante devem os deixar nas m ãos de Deus.
Erik lem brou que os j udeus adoravam o m esm o Deus dos cristãos. Era fácil esquecer isso.
– Acha que consegue se levantar e ir ao hospital com igo, Ada? – perguntou o Dr. Rothm ann. – O bebê precisa de você para m am ar.
– Estou m uito cansada – repetiu ela.
– Então descanse por um ou dois m inutos. Mas não m uito m ais que isso, porque o bebê precisa ser exam inado logo. Carla vai aj udar você a se vestir. Vou esperar lá em cim a. – Então ele se dirigiu a Erik com um a ironia suave: – Venha com igo, seu pequeno nazista.
O com entário deixou Erik envergonhado. A com placência do Dr. Rothm ann era ainda pior que o desprezo de Frau Rothm ann.
Quando eles estavam saindo, Ada cham ou:
– Doutor?
– Sim , querida?
– O nom e dele é Kurt.
– Ótim o nom e – disse o Dr. Rothm ann. Então saiu do quarto e Erik o seguiu.
VI
O prim eiro dia de trabalho de Lloy d Willliam s com o assessor de Walter von Ulrich foi tam bém o prim eiro dia do novo Parlam ento.
Walter e Maud lutavam desesperadam ente para salvar a frágil dem ocracia alem ã. Lloy d com partilhava o desespero do casal, em parte por serem pessoas boas que, m esm o sem ter um a convivência próxim a, ele conhecia desde que havia nascido, e em parte porque tem ia que a Grã-Bretanha viesse a seguir a Alem anha na estrada rum o ao inferno.
As eleições de nada haviam adiantado. Os nazistas obtiveram 44% do Parlam ento, um aum ento em sua representação, m as ainda sem chegar à m aioria absoluta de que precisavam .
Walter tinha esperança. Enquanto dirigia o carro para a sessão inaugural do Parlam ento, falou:
– Mesm o com as intensas intim idações, eles não conseguiram conquistar os votos da m aioria dos alem ães. – Ele deu um soco no volante. – Apesar de tudo o que dizem , eles não são populares! E quanto m ais tem po ficarem no governo, m ais as pessoas conhecerão sua crueldade.
Lloy d não tinha tanta certeza.
– Eles fecharam os j ornais de oposição, prenderam deputados do Reichstag e corrom peram a polícia – disse. – E m esm o assim têm a aprovação de 44% dos alem ães? Não acho isso reconfortante.
O prédio do Reichstag tinha sido bastante danificado pelo incêndio e estava interditado, por isso o Parlam ento se reunia na Ópera Kroll, do outro lado da Köningsplatz. A Ópera era um grande com plexo, com três salas de espetáculo e 14 auditórios m enores, além de restaurantes e bares.
Ao chegarem , os dois tiveram um choque. A Ópera estava cercada por cam isas-pardas. Deputados e assessores se aglom eravam j unto às entradas, tentando passar. Furioso, Walter perguntou:
– É assim que Hitler pretende conseguir o que quer? Im pedindo-nos de entrar no parlam ento?
Lloy d viu que cam isas-pardas bloqueavam as portas. Deixavam entrar sem dizer nada os que estivessem de uniform e nazista, m as todos os outros tinham que m ostrar as credenciais. Um rapaz m ais novo que Lloy d o olhou de cim a a baixo com um a expressão desdenhosa antes de deixá-lo entrar a contragosto. Aquilo era intim idação pura e sim ples.
Lloy d sentiu seu tem peram ento com eçar a esquentar. Detestava ser intim idado. Sabia que podia derrubar o cam isa-parda com um bom gancho de esquerda. Forçou-se a perm anecer calm o, dar-lhe as costas e entrar.
Depois da briga no Teatro do Povo, sua m ãe tinha exam inado o galo em sua cabeça e o m andara voltar para a Inglaterra. Ele conseguira convencê-la a deixá-lo ficar, m as por pouco.
Ethel dizia que Lloy d não tinha noção do perigo, m as isso não era exatam ente verdade. Às vezes ele sentia m edo, entretanto isso sem pre o deixava com bativo. Seu instinto era atacar, não recuar. Isso assustava sua m ãe.
Por ironia, Ethel era igualzinha. Não voltaria para casa. Em bora estivesse assustada, tam bém se sentia em polgada por estar em Berlim naquele m om ento crucial da história da Alem anha. Ficava indignada com a violência e a repressão que via. Além do m ais, estava certa de que poderia escrever um livro que alertasse os dem ocratas de outros países sobre as táticas fascistas.
– Você é pior do que eu – dissera-lhe Lloy d, e ela não soubera o que responder.
Do lado de dentro, a Ópera estava coalhada de cam isas-pardas e hom ens da SS, m uitos deles arm ados. Postados diante de cada porta, eles dem onstravam com expressões e gestos todo o ódio e desprezo que sentiam por qualquer um que não apoiasse os nazistas.
Walter estava atrasado para um a reunião do Partido Social-Dem ocrata. Lloy d correu pelo prédio à procura da sala certa. Deu um a espiada na sala do plenário e viu um a gigantesca suástica pendurada no teto, pairando sobre o recinto.
A prim eira questão a ser discutida ao se iniciarem os procedim entos daquela tarde era a Lei Plenipotenciária, que perm itiria ao gabinete de Hitler sancionar leis sem a aprovação do Reichstag.
A perspectiva apresentada pela lei era dura. Ela tornaria Hitler um ditador. A repressão, a intim idação, a violência, a tortura e os assassinatos que a Alem anha havia testem unhado nas últim as sem anas se tornariam perm anentes. Era inconcebível.
Mas Lloy d não conseguia acreditar que algum Parlam ento do m undo fosse aprovar um a lei assim . Eles estariam votando a perda do próprio poder. Era um suicídio político.
Encontrou os social-dem ocratas num pequeno auditório. A reunião j á havia com eçado. Lloy d levou Walter às pressas até a sala e em seguida m andaram que ele fosse buscar café.
Enquanto esperava na fila, ele se viu atrás de um rapaz pálido, de expressão intensa, vestido com roupas pretas e fúnebres. O alem ão de Lloy d estava m ais fluente e coloquial, e ele j á se sentia seguro para puxar conversa com um desconhecido. Descobriu que o hom em de preto se cham ava Heinrich von Kessel. Estava fazendo o m esm o tipo de trabalho que Lloy d: era assessor não rem unerado do pai, Gottfried von Kessel, deputado do Partido do Centro, de orientação católica.
– Meu pai conhece Walter von Ulrich m uito bem – disse Heinrich. – Os dois foram adidos na em baixada alem ã em Londres em 1914.
O m undo da política e da diplom acia internacional era m esm o bem pequeno, pensou Lloy d.
Heinrich disse a Lloy d que o retorno à fé cristã era a solução para os problem as da Alem anha.
– Eu não sou um cristão m uito bom – disse Lloy d com sinceridade. – Espero que não se incom ode por eu dizer isso. Meus avós eram galeses e viviam agarrados na Bíblia, m as m inha m ãe é indiferente à religião e m eu padrasto é j udeu. De vez em quando vam os à igrej a do Evangelho do Calvário em Aldgate, sobretudo porque o pastor é do Partido Trabalhista.
Heinrich sorriu e disse:
– Vou rezar por vocês.
Os católicos não eram proselitistas, lem brou Lloy d. Que contraste com seus dogm áticos avós de Aberowen, para quem todos os que não acreditassem na m esm a coisa que eles estavam voluntariam ente fechando os olhos para o Evangelho e seriam condenados à danação eterna.
Quando Lloy d voltou à sala da reunião do Partido Social-Dem ocrata, Walter estava discursando.
– Não tem com o isso acontecer! – disse ele. – A Lei Plenipotenciária é um a em enda constitucional. Para votá-la é preciso que dois terços dos representantes estej am presentes, o que significa 432 de 647. E dois terços dos presentes precisam votar a favor para que sej a aprovada.
Lloy d fez as contas de cabeça enquanto pousava a bandej a sobre a m esa. Os nazistas tinham 288 assentos, e os nacionalistas, seus aliados m ais próxim os, tinham 52, ou sej a, um total de 340 – quase cem a m enos que o necessário se todos com parecessem . Walter tinha razão. Não havia com o aquela lei ser aprovada. Lloy d sentiu-se reconfortado e sentou-se para ouvir as discussões e treinar seu alem ão.
Mas seu alívio foi breve.
– Não tenham tanta certeza – disse um hom em com um j eito de falar da classe trabalhadora de Berlim . – Os nazistas estão negociando com o Partido do Centro. – Era o pessoal de Heinrich, lem brou Lloy d. – Isso pode lhes dar m ais 74 votos – concluiu o hom em .
Lloy d franziu o cenho. Por que o Partido do Centro iria apoiar um a m edida que tiraria todo o seu poder?
Walter expressou o m esm o pensam ento de m aneira m ais brutal:
– Com o os católicos poderiam ser tão burros?
Lloy d desej ou ter sabido disso antes de sair para buscar o café – poderia ter conversado com Heinrich a respeito. Talvez tivesse descoberto algo útil. Droga.
O hom em com sotaque popular de Berlim tornou a falar:
– Na Itália, os católicos fizeram um pacto com Mussolini, um acordo para proteger a Igrej a. Por que não fariam aqui?
Lloy d calculou que o apoio do Partido do Centro faria os votos dos nazistas subirem para 414.
– Mesm o assim não são dois terços do total – disse ele a Walter, aliviado.
Outro j ovem assessor o escutou e rebateu:
– Mas isso não leva em conta o últim o anúncio do presidente do Reichstag. – O presidente era Herm ann Göring, o aliado m ais próxim o de Hitler. Lloy d não ouvira falar de nenhum anúncio. Ninguém m ais parecia ter conhecim ento daquilo. Os deputados se calaram . O assessor prosseguiu: – Ele disse que os deputados com unistas que não com parecerem porque estão na prisão não contam .
Protestos indignados irrom peram por toda a sala. Lloy d viu o rosto de Walter ficar verm elho.
– Ele não pode fazer isso! – exclam ou Walter.
– É totalm ente ilegal – disse o assessor. – Mas ele j á fez.
Lloy d ficou arrasado. A lei não podia ser aprovada com um a artim anha, podia? Fez m ais algum as contas. Os com unistas tinham 81 assentos. Se fossem descontados, os nazistas só precisariam de dois terços de 566, ou sej a, 378. Só com os nacionalistas, não teriam votos suficientes – no entanto, se conseguissem o apoio dos católicos, seria possível.
– Isso tudo é absolutam ente ilegal – disse alguém . – Nós deveríam os nos retirar em protesto.
– Não! – retrucou Walter, enfático. – Eles aprovariam a lei na nossa ausência. Precisam os convencer os católicos a não fazerem isso. Wels tem que falar com Kaas agora m esm o.
Otto Wels era o líder do Partido Social-Dem ocrata, e o padre Ludwig Kaas era o chefe do Partido do Centro.
Um m urm úrio de aprovação percorreu a sala.
Lloy d respirou fundo e tom ou a palavra:
– Herr Von Ulrich, por que o senhor não convida Gottfried von Kessel para alm oçar? Vocês trabalharam j untos em Londres antes da guerra.
Walter deu um a risada sem alegria.
– Aquele patife! – exclam ou.
Talvez o alm oço não fosse um a ideia tão boa assim .
– Eu não sabia que você antipatizava com ele – disse Lloy d.
Walter pareceu pensativo.
– Eu o odeio... m as, por Deus, estou disposto a tentar qualquer coisa.
– Quer que eu o encontre e faça o convite? – perguntou Lloy d.
– Muito bem , pode tentar. Se ele aceitar, diga-lhe para m e encontrar no Herrenklub à um a da tarde.
– Ótim o.
Lloy d foi depressa à sala na qual Heinrich havia entrado. Ali acontecia um a reunião parecida com a que ele acabara de deixar. Correu os olhos pela sala, viu Heinrich todo vestido de preto, cruzou olhares com ele e cham ou-o com um gesto urgente.
Am bos saíram da sala e então Lloy d disse:
– Estão dizendo que o seu partido vai apoiar a Lei Plenipotenciária!
– Ainda não está certo – respondeu Heinrich. – Eles estão divididos.
– Quem está contra os nazistas?
– Brüning e alguns outros.
Brüning era ex-chanceler e um a figura conhecida. Lloy d ficou m ais esperançoso.
– Quem são os outros?
– Você m e tirou da sala para obter inform ações?
– Não, desculpe, não foi por isso. Walter von Ulrich quer alm oçar com seu pai.
Heinrich pareceu duvidar.
– Eles não se dão bem ... Você sabe disso, não sabe?
– Foi o que entendi. Mas hoj e vão deixar as diferenças de lado!
Heinrich não pareceu tão certo.
– Vou perguntar a ele. Espere aqui. – Então tornou a entrar na sala.
Lloy d se perguntou se haveria algum a chance de aquilo funcionar. Era um a pena Walter e Gottfried não serem grandes am igos. Mas ele não podia acreditar que os católicos fossem votar a favor dos nazistas.
O que m ais o incom odava era pensar que, se aquilo podia acontecer na Alem anha, tam bém poderia acontecer na Grã-Bretanha. Essa sinistra perspectiva provocou-lhe um calafrio. Ele tinha a vida inteira pela frente e não queria viver em um a ditadura repressiva. Desej ava trabalhar na política, com o os pais, e fazer do seu país um lugar m elhor para pessoas com o os m ineiros de Aberowen. Para isso, eram necessárias reuniões políticas em que as pessoas pudessem dizer o que pensavam , j ornais capazes de atacar o governo e bares onde os hom ens pudessem conversar sem ficar olhando por cim a do om bro para ver quem estava escutando.
O fascism o am eaçava tudo isso. Mas talvez o fascism o fracassasse. Walter talvez conseguisse convencer Gottfried e im pedir que o Partido do Centro apoiasse os nazistas.
Heinrich saiu da sala.
– Ele aceitou.
– Ótim o! Herr Von Ulrich sugeriu o Herrenklub à um a da tarde.
– Sério? Ele é sócio?
– Im agino que sim ... por quê?
– É um a instituição conservadora. Mas im agino que, com o o nom e dele é Walter von Ulrich, sej a de um a fam ília nobre, m esm o sendo socialista.
– Eu provavelm ente deveria reservar um a m esa. Você sabe onde fica?
– Logo depois da esquina. – Heinrich explicou o cam inho a Lloy d.
– Faço a reserva para quatro?
Heinrich sorriu.
– Por que não? Se eles não nos quiserem , sim plesm ente nos pedirão para ir em bora. – Ele voltou para a sala.
Lloy d saiu do prédio e atravessou a praça depressa, passando pelo prédio do Reichstag todo queim ado e seguindo em direção ao Herrenklub.
Em Londres tam bém havia clubes de cavalheiros, m as Lloy d nunca entrara em nenhum . Achou que o estabelecim ento parecia um a m istura de restaurante e funerária. Garçons de uniform e de gala andavam de um lado para outro a passos leves, dispondo talheres sem fazer barulho sobre m esas cobertas com toalhas brancas. O m aître anotou sua reserva e escreveu o nom e “Von Ulrich” de form a tão solene quanto se estivesse incluindo um registro no Livro dos Mortos.
Lloy d voltou para a Ópera. O lugar estava ficando m ais m ovim entado e barulhento, e a tensão parecia m aior. Lloy d ouviu alguém dizer anim adam ente que o próprio Hitler abriria os trabalhos daquela tarde com a nova proposta de lei.
Alguns m inutos antes da um a da tarde, Lloy d e Walter atravessaram a praça.
– Heinrich von Kessel ficou surpreso ao saber que você é sócio do Herrenklub – com entou o rapaz.
Walter assentiu.
– Fui um dos fundadores do clube, há uns dez anos ou m ais. Na época, cham ava-se Juniklub. Nós nos reuníam os para fazer cam panha contra o Tratado de Versalhes. Depois o clube virou um bastião da direita, e provavelm ente sou o único m em bro social-dem ocrata, m as continuo lá porque é um lugar útil para encontrar o inim igo.
Dentro do clube, Walter apontou para um hom em de aspecto bem -cuidado sentado no bar.
– Aquele ali é Ludwig Franck, pai do j ovem Werner, que lutou conosco no Teatro do Povo – falou. – Tenho certeza de que não é sócio do clube... nem nasceu na Alem anha. Mas parece que está alm oçando com o sogro, o conde Von der Helbard, aquele senhor ao lado dele. Venha com igo.
Os dois foram até o bar e Walter fez as apresentações. Franck disse a Lloy d:
– Você e m eu filho se m eteram num a briga e tanto algum as sem anas atrás.
Por reflexo, Lloy d levou a m ão à parte de trás da cabeça: em bora não estivesse m ais inchado, o local continuava dolorido.
– Havia m ulheres a proteger, senhor – disse ele.
– Não há nada de errado com um a pequena troca de socos – com entou Franck. – É bom para vocês, rapazes.
Im paciente, Walter se introm eteu:
– Pelo am or de Deus, Ludi. Invadir com ícios pré-eleitorais j á é ruim o suficiente, m as agora o seu líder quer destruir por com pleto a nossa dem ocracia!
– Talvez a dem ocracia não sej a a form a adequada de governo para nós – respondeu Franck. – Afinal de contas, não som os iguais aos franceses e aos am ericanos... graças a Deus.
– Você não se im porta de perder a liberdade? Isso é sério!
Franck perdeu subitam ente o ar bem -hum orado.
– Tudo bem , Walter – disse com frieza. – Se você insiste, vou falar sério. Minha m ãe e eu chegam os aqui vindos da Rússia há m ais de dez anos. Meu pai não pôde vir conosco. Tinham encontrado com ele exem plares de literatura subversiva. Para ser m ais exato, um livro cham ado Robinson Crusoé, aparentem ente um rom ance que prom ove a individualidade burguesa, sej a lá o que isso signifique. Ele foi m andado para um cam po de prisioneiros em algum lugar do Ártico. Talvez... – A voz de Franck falhou por um instante. Ele fez um a pausa, engoliu em seco e concluiu baixinho: – Talvez ainda estej a lá.
Fez-se um instante de silêncio. Lloy d ficou chocado com aquela história. Sabia que o governo com unista russo podia ser cruel, m as era diferente ouvir um relato pessoal, narrado com sim plicidade por um hom em visivelm ente ainda enlutado.
– Ludi, todos nós odiam os os bolcheviques – disse Walter. – Mas talvez os nazistas sej am ainda piores!
– Estou disposto a correr esse risco – respondeu Franck.
– É m elhor irm os alm oçar – interrom peu o conde Von der Helbard. – Tenho um com prom isso à tarde. Com licença. – Os dois se retiraram .
– É o que eles sem pre dizem ! – exclam ou Walter, furioso. – Os bolcheviques! Com o se eles fossem a única alternativa aos nazistas! Tenho vontade de chorar.
Heinrich entrou acom panhado por um hom em m ais velho, que obviam ente era seu pai: am bos tinham os m esm os cabelos grossos e escuros repartidos ao m eio, com a única diferença que os de Gottfried eram m ais curtos e grisalhos. Em bora tivessem os m esm os traços, Gottfried parecia um burocrata presunçoso usando um colarinho à m oda antiga, enquanto Heinrich lem brava m ais um poeta rom ântico do que um assessor político.
Os quatro entraram no salão de j antar. Walter não perdeu tem po. Assim que fizeram o pedido, falou:
– Não consigo entender o que o seu partido espera ganhar apoiando a Lei Plenipotenciária, Gottfried.
Von Kessel foi igualm ente direto:
– Som os um partido católico e nosso dever prim ordial é proteger a posição da Igrej a na Alem anha. É isso que as pessoas esperam ao votar em nós.
Lloy d franziu o cenho em reprovação. Sua m ãe tinha sido parlam entar e sem pre dizia que seu dever era servir tanto às pessoas que não tinham votado nela quanto às que tinham .
Walter usou outro argum ento:
– Um Parlam ento dem ocrático é a m elhor proteção para todas as nossas igrej as... e m esm o assim você está prestes a j ogar isso fora!
– Acorde, Walter – disse Gottfried, ríspido. – Hitler ganhou as eleições. Ele está no poder. Não im porta o que façam os, é ele quem vai governar a Alem anha no futuro próxim o. Tem os que nos proteger.
– As prom essas dele não valem nada!
– Exigim os garantias específicas por escrito: a Igrej a Católica vai ser independente do Estado, as escolas católicas poderão funcionar sem entraves, não haverá discrim inação contra católicos no funcionalism o público. – Ele olhou para o filho com ar de quem faz um a pergunta.
– Eles prom eteram que receberíam os o acordo no com eço da tarde – disse Heinrich.
– Pese as alternativas! – exclam ou Walter. – De um lado, um pedaço de papel assinado por um tirano, do outro, um Parlam ento dem ocrático... qual dos dois é m elhor?
– O m aior poder de todos é o de Deus.
Walter revirou os olhos.
– Nesse caso, que Deus protej a a Alem anha – falou.
Os alem ães não haviam tido tem po de desenvolver a fé na dem ocracia, pensou Lloy d enquanto Walter e Gottfried continuavam a discutir. O Reichstag só era soberano havia 14 anos. O país tinha perdido um a guerra, o valor de sua m oeda se reduzira a quase nada e o desem prego era altíssim o: para eles, o direito ao voto não parecia grande coisa com o proteção.
Gottfried se m ostrou irredutível. Ao térm ino do alm oço, sua posição estava m ais firm e do que nunca. Sua responsabilidade era proteger a Igrej a Católica. Isso fez Lloy d ter vontade de gritar.
Os quatro voltaram para a Ópera e os deputados ocuparam seus lugares no auditório. Lloy d e Heinrich sentaram -se num a galeria com vista para o plenário.
Lloy d pôde ver os m em bros do Partido Social-Dem ocrata reunidos em um grupo à extrem a esquerda. Quando foi chegando a hora da sessão, reparou que cam isas-pardas e m em bros da SS se posicionavam em frente às saídas e ao longo das paredes, form ando um arco am eaçador atrás dos social-dem ocratas. Era quase com o se pretendessem im pedir os deputados de sair do prédio antes de terem aprovado a lei. Lloy d achou aquilo extrem am ente sinistro. Perguntou-se, com um calafrio, se ele tam bém poderia ficar preso ali dentro.
Então ouviu-se o estrondo de vivas e aplausos, e Hitler adentrou o plenário traj ando o uniform e dos cam isas-pardas. Os deputados nazistas, a m aioria vestida com o ele, se levantaram em êxtase quando seu líder subiu à tribuna. Apenas os social-dem ocratas perm aneceram sentados, m as Lloy d percebeu alguns deles olhando por cim a do om bro para os guardas arm ados, pouco à vontade. Com o poderiam falar e votar livrem ente se estavam nervosos com o sim ples fato de não participar da ovação a seu oponente?
Quando voltou a haver silêncio, Hitler com eçou a falar. Mantinha-se m uito ereto, com o braço esquerdo j unto ao corpo e gesticulando apenas com o direito. Tinha a voz áspera, rascante, m as tam bém m uito potente, o que fez Lloy d pensar ao m esm o tem po num a m etralhadora e num cão latindo. Seu tom se alterou ao m encionar os “traidores de novem bro” de 1918, que tinham se rendido quando a Alem anha estava prestes a ganhar a guerra. Não estava fingindo. Lloy d teve a sensação de que ele acreditava sinceram ente em cada palavra estúpida e ignorante que dizia.
Os traidores de novem bro eram um tem a batido para Hitler, m as ele adotou um a nova tática. Falou das igrej as e da im portância do cristianism o para o Estado alem ão. Era um tem a pouco usual para ele, e suas palavras eram claram ente direcionadas ao Partido do Centro, cuj o posicionam ento iria determ inar o resultado da votação. Ele afirm ou que considerava as duas religiões dom inantes, protestantism o e catolicism o, os principais alicerces da nação. O governo nazista não iria interferir em seus direitos.
Heinrich lançou a Lloy d um olhar de triunfo.
– Se eu fosse você, pediria tudo por escrito – resm ungou Lloy d.
Duas horas e m eia depois, Hitler encerrou o discurso com um a inconfundível am eaça de violência:
– O governo do levante nacionalista está determ inado e pronto para lidar com o anúncio de que a lei foi rej eitada e a resistência, declarada. – Fez um a pausa dram ática para deixar que todos entendessem bem o recado: votar contra a lei seria um a declaração de resistência. Então reforçou o que acabara de dizer: – Cabe a vocês, cavalheiros, decidirem por si próprios entre a paz ou a guerra!
Ele se sentou sob os urros de aprovação dos representantes nazistas e a sessão foi interrom pida.
Heinrich estava radiante; Lloy d, deprim ido. Os dois saíram em direções opostas: seus partidos agora teriam reuniões desesperadas de últim a hora.
Os social-dem ocratas estavam pessim istas. Wels, líder do partido, precisava discursar no plenário, m as o que poderia dizer? Vários deputados afirm aram que, se ele criticasse Hitler, talvez não saísse vivo do prédio. Tam bém tem iam por suas vidas. Se os deputados fossem m ortos, pensou Lloy d num instante de m edo, o que iria acontecer com seus assessores?
Wels então revelou que tinha um a cápsula de cianureto no bolso do colete. Se fosse preso, com eteria suicídio para não ser torturado. Lloy d ficou horrorizado. Wels era um representante eleito pelo povo, m as era obrigado a agir com o um a espécie de sabotador.
Lloy d com eçara o dia com falsas esperanças. Pensara que a Lei Plenipotenciária fosse um a ideia m aluca sem qualquer chance de se tornar realidade. Agora, via que a m aioria das pessoas esperava que a lei entrasse em vigor naquele dia m esm o. Tinha avaliado m uito m al a situação.
Estaria igualm ente errado ao pensar que um a coisa dessas não poderia acontecer em seu próprio país? Estaria enganando a si m esm o?
Alguém perguntou se os católicos j á haviam tom ado sua decisão. Lloy d se levantou.
– Vou descobrir – falou.
Saiu apressado da sala e correu até onde o Partido do Centro estava reunido. Com o da outra vez, espichou a cabeça pelo vão da porta e acenou para Heinrich.
– Brüning e Ersing estão hesitantes – inform ou-lhe Heinrich.
Lloy d ficou m ais desanim ado ainda. Ersing era um líder sindicalista católico im portante.
– Com o um sindicalista pode sequer pensar em votar a favor dessa lei? – indagou.
– Kaas disse que a pátria-m ãe está correndo perigo. Todos acham que, se rej eitarm os a lei, o país vai m ergulhar num a anarquia sangrenta.
– Se aprovarem a lei, o país vai m ergulhar num a tirania sangrenta, isso sim .
– E o seu pessoal?
– Eles acham que serão baleados, m as vão votar contra m esm o assim .
Heinrich tornou a entrar na sala e Lloy d voltou para j unto dos social-dem ocratas.
– Os linhas-duras estão am olecendo – inform ou Lloy d a Walter e seus colegas. – Estão com m edo de que estoure um a guerra civil se a lei for rej eitada.
O pessim ism o aum entou ainda m ais.
Às seis da tarde, todos voltaram para o plenário.
Wels foi o prim eiro a discursar. Mostrou-se calm o, racional e controlado. Ressaltou que a vida num a república dem ocrática tinha sido boa para os alem ães, de m odo geral, proporcionando livre oportunidade e bem -estar social, e restabelecendo o papel da Alem anha com o m em bro regular da com unidade internacional.
Lloy d reparou que Hitler tom ava notas.
Wels concluiu coraj osam ente afirm ando seu com prom isso com os direitos hum anos e a j ustiça, com a liberdade e com o socialism o.
– Nenhum a Lei Plenipotenciária dá a ninguém o poder de aniquilar ideias que são eternas e indestrutíveis – disse ele, ganhando coragem à m edida que os nazistas com eçavam a rir e a vaiar.
Os social-dem ocratas aplaudiram , m as quase não se fizeram ouvir.
– Nós saudam os os perseguidos e oprim idos! – gritou Wels. – Saudam os nossos am igos no Reich. Sua firm eza e sua lealdade m erecem adm iração.
Lloy d m al conseguia ouvir as palavras de Wels, tão altos eram os gritos e vaias dos nazistas.
– A coragem de suas convicções e seu otim ism o inquebrantável são a garantia de um futuro m elhor!
Ele se sentou em m eio a protestos ruidosos.
Será que aquele discurso faria algum a diferença? Lloy d não soube dizer.
Depois de Wels, Hitler voltou a falar. Dessa vez, seu tom foi bem diferente. Lloy d percebeu que, no discurso anterior, o chanceler estava apenas se aquecendo. Sua voz agora era m ais alta, suas expressões, m ais destem peradas, seu tom , cheio de desprezo. Ele usava o braço direito para fazer gestos agressivos – apontava, m artelava, cerrava o punho, levava a m ão ao peito e cortava o ar com um m ovim ento que parecia varrer para longe toda e qualquer oposição. Cada frase apaixonada era recebida por seus seguidores com vivas estrondosos. Todas elas expressavam a m esm a em oção: um a ira selvagem , irrefreável, assassina.
Hitler tam bém estava m uito confiante. Disse que nem precisava propor a Lei Plenipotenciária.
– Recorrem os agora ao Reichstag alem ão para nos conceder algo que teríam os obtido de qualquer m aneira! – vangloriou-se.
Heinrich parecia preocupado e saiu da galeria. No m inuto seguinte, Lloy d o viu no plenário, cochichando algum a coisa no ouvido do pai.
Quando voltou para a galeria, tinha um ar infeliz.
– Conseguiram as garantias por escrito? – perguntou Lloy d.
Heinrich foi incapaz de encará-lo nos olhos.
– O docum ento está sendo datilografado – respondeu ele.
Hitler concluiu desdenhando os social-dem ocratas. Não queria os seus votos.
– A Alem anha será livre – berrou. – Mas não graças a vocês!
Os líderes dos outros partidos fizeram discursos breves. Todos pareciam arrasados. O padre Kaas disse que o Partido do Centro votaria a favor da lei. O restante fez o m esm o. Todos estavam a favor da lei, m enos os social-dem ocratas.
O resultado da votação foi anunciado e os nazistas com em oraram entusiasm ados.
Lloy d estava pasm o. Tinha visto o poder da violência ser exercido com brutalidade, e não era um a visão bonita.
Saiu da galeria sem falar com Heinrich.
Encontrou Walter no saguão do prédio, chorando. Ele usava um grande lenço branco para enxugar o rosto, m as as lágrim as não paravam de rolar. Lloy d só tinha visto hom ens adultos chorarem daquele j eito em funerais.
Não soube o que dizer nem o que fazer.
– Minha vida foi um fracasso – disse Walter. – É o fim de qualquer esperança. A dem ocracia alem ã m orreu.